Pernas pra que te quero #2 – Início da recuperação, a volta dos que não foram
Voltando a correr após 1 mês de recuperação devido ao medo do joelho ficar ruim de vez
Júlio Gemiaki
O título e a linha de apoio deixam as coisas bem claras: consegui voltar a correr no último sábado. Vou tentar contar mais ou menos como foi a experiência desde que comecei a pensar que correria naquele dia. Bem, já fazia um mês desde a última vez, então minha ansiedade crescia a cada minuto até que eu enfim vestisse os tênis e saísse com o rumo mais ou menos estipulado. Pensava nisso há uma semana mas não executei após manifestar minha vontade a um dos personal trainers da academia que frequento. “Se tu ainda sente dor é melhor esperar mais um pouco. Vai que tu vai correr, te machuca e tem que ficar mais um mês parado”, ele diz, sendo a voz da razão na minha cabeça confusa.
Pois então, tive que aguentar mais sete dias sem fazer nada em relação a isso. Nada também não, segui indo às sessões de musculação e caminhando na avenida quando dava na telha. Sabia que mesmo sem correr, não podia ficar parado se quisesse voltar logo. Ontem foi a gota d’água. Não aguentava mais. À tarde mandei mensagem em um grupo de amigos “vamos uma corridinha este fim de semana, rapaziada?”, ninguém estava disponível ou se estava, não estava disposto. Bom, tudo bem, isso me afetou um pouco mas é uma situação que foge do meu controle. Tudo que isso significava naquele momento para mim é que eu não teria que moldar meu tempo ao tempo de ninguém, já que tinha a certeza de que iria me exercitar sozinho.
O sábado todo foi bastante sabático, bem como o nome sugere. Fiz poucas coisas. Acordei, fui almoçar, vim para casa, fiz um monte de nada, li um pouco, revisei a reportagem de um amigo, assisti à final da Libertadores enquanto cozinhava o jantar, jantei e fiquei fazendo mais um pouquinho de nada. Enfim, vesti meus tênis, shorts, camiseta e mochila e saí para a rua. Ponderei um pouco sobre como ia fazer já que não poderia fingir que tudo estava bem e seguir no ritmo que estava. Além disso, tinha recém comido, estava com o estômago um pouco pesado. Entretanto, havia de ser naquele momento, já não tinha mais desculpas.
Coloquei os pés na avenida e estipulei o que ia fazer: um quilômetro inicial caminhando, três correndo em ritmo leve e mais um caminhando para finalizar. Então comecei. Cinco minutos caminhando e eu não aguentava mais caminhar, aquilo parecia ter sido muito tempo. Há um mês atrás teria sido o suficiente para ter percorrido mil metros, mas eu não estava nem na metade. Frustração! Coisa chata de se fazer! Foi o que pensei instantâneamente, mas respeitei minha ideia inicial esquisita. Passada a primeira fase, comecei a trotar devagar.
Passo após passo, alguns lentos e outros mais rápidos. Não conseguia me manter constante. Como uma pessoa em uma discussão que não consegue controlar direito o tom de voz, eu avançava conflituosamente, tanto no físico quanto no mental. “O que tu tá fazendo cara? Por que está acelerando? É uma corrida de recuperação!”, meu cérebro gritava. Mas os meus pés que ficam há pouco mais de 1,80 metros de distância não obedeciam direito. De vez em quando em ritmo 6:00, às vezes em 5:20, cheguei na metade do percurso de corrida. Entretanto, com muito esforço. Tive que dar uma pausa, a condição atual não me permitia correr três quilômetros sem parar daquela forma desregulada.
Então, fiquei um minuto parado ali próximo ao colégio CIEP e com a cabeça um pouco enevoada. Se a ida havia sido estranha, sabe-se lá o que esperar da volta. Mas criei coragem e fui vindo. Ainda no mesmo ritmo esquisito que acelera e freia. Existiam duas coisas que perpassavam minhas ideias: a alegria de estar correndo e o medo de me forçar demais e sentir dor. Meus pensamentos flutuavam na fronteira sombria entre a adrenalina de estar correndo e a preocupação de agravar alguma lesão. Bem como o caminho ia alternando entre as luzes dos postes e as sombras das árvores.
Em menos tempo do que pareceu, estava no ponto em que deveria voltar a caminhar para encerrar a atividade física do dia. Mais uma vez, a contragosto, obedeci o que tinha me proposto a fazer e caminhei. Uma caminhada marcada pelo silêncio, pela alegria de ter conseguido voltar e pela solidão que fazia parecer com que só eu existisse naquele momento. Não importaria se eu estivesse acompanhado de meus amigos ou não. O processo de recuperação é algo solitário por natureza. Só quem passa por ele sabe como era antes, como está agora e anseia sobre o que será depois.
PS: Pois é, me distanciei bastante do objetivo original da série. Corri no mesmo lugar e nem sequer pensei em entrevistar alguém ou trazer alguma outra pauta para dentro da corrida. Só foi o que foi, mas a medida que me recupero vou procurar explorar outros locais em Pelotas e conversar com corredores que tenham histórias, indignações, felicidades ou vivências para me contar. Até a próxima!

