Mais do que um esportista, um cidadão
A história de Humberto Rodrigues Corrêa e como ele transformou a vida de muitas pessoas em Santa Vitória do Palmar
Por Henri Porto Dias
Quando se pensa no cenário esportivo, mais especificamente o futebol, o natural é lembrar das estrelas, de grandes partidas e de times históricos. Porém, nas periferias da história, vivem os contos muito menos badalados do desporto e os “anônimos” viram protagonistas da narrativa. E é em um desses relatos que Humberto Corrêa, carinhosamente conhecido em Santa Vitória do Palmar como Esquerdinha, contribuiu de maneira muito positiva, até depois de sua morte, para a comunidade santa-vitoriense.
Nascido no dia 4 de Março de 1940, Humberto, filho de Dona Ondina e Seu Lourival, ou o “velho Loureva”, como era conhecido pelos mais íntimos, veio de uma família humilde. Sua mãe era dona de casa e também trabalhava como lavadeira, em prol de sustentar seus oito filhos. Já o velho Loureva, era condutor de uma carrocinha muito lembrada por todos de sua época, levando o pão de cada dia para a população “mergulhona”.
Perdendo o pai aos 8 anos de idade, Humberto logo começou a trabalhar, buscando ajudar sua família a sobreviver. Trabalhou como engraxate, profissão sempre muito bem relembrada por ele, baleiro no antigo Cine Teatro Independência, referência da arte em Santa Vitória do Palmar, e atendente no comércio local. Após prestar o serviço militar no 9º Batalhão de Infantaria Motorizado, em Pelotas, retornou a sua terra natal e começou de vez a caminhada que marcaria a cidade até hoje.
O futebol, uma das grandes paixões de Humberto, marcou tanto sua trajetória como o rebatizou para quem o conhecia. Seu irmão, ao vê-lo jogando pela ala esquerda nos clubes da cidade, o apelidou de ESQUERDINHA.
Esquerdinha passou pela equipe da Vila Jacinto e pelos quatro principais clubes de futebol de campo de Santa Vitória do Palmar: Santa Cruz, Vitoriense, Rio Branco, onde inclusive foi campeão com as cores do Tricolor da Coxilha. Mas, tanto as suas pernas, quanto a sua paixão, o levaram a fazer história no time do maior jogador de Santa Vitória do Palmar, o Cardeal, e no seu próprio time do coração, o Grêmio Esportivo Brasil.
Pelo clube que tem o escudo idêntico ao do seu xará, Brasil de Pelotas, e que tem as cores do São Paulo de Rio Grande, Esquerdinha atuou em diversas áreas. Como jogador, ajudou a instituição a ser campeã do citadino na década de 70, título esse que não era conquistado desde os anos 20, quando Cardeal ainda constava no plantel da equipe. A paixão pela agremiação foi tamanha que Esquerdinha não se contentou apenas em calçar as chuteiras, atuando como treinador do juvenil do Verde e Encarnado, e conseguindo o cargo mais alto da agremiação, o de presidente, conforme lembrou sua viúva, Tereza Rocha Correa.
Além de contribuir para a continuidade e o desenvolvimento do Grêmio Esportivo Brasil, Esquerdinha foi presidente do E.C Pindorama, clube de futsal de Santa Vitória, e foi grande incentivador do clube de futsal varzeano que, junto com o G.E.Brasil, ocupavam o posto de maiores paixões futebolísticas em seu peito, o Esporte Clube Veterano.
Realizando seus jogos em um extenso campo, de propriedade do Exército, na zona do Sarapico, campo que era propício para a prática do esporte bretão, Esquerdinha seguiu alimentando sua paixão pelo futebol, como também a comunidade girava em volta do E.C. Veterano, em entretenimento esportivo, conforme descrito pelos jornais de Santa Vitória tais como o Liberal, e o Jornal da Cidade.
O Veterano foi uma referência no futebol amador de Santa Vitória do Palmar, levando os que gostavam de esporte, ao lugar que se tornou cenário dos principais assuntos e comentários do desporto mergulhão, e que seria parte marcante da vida de Humberto: o Posto Esso. Situado na Barão do Rio Branco, principal rua de Santa Vitória do Palmar, esquina General Portinho, o posto, que como estrutura ainda existe nos dias de hoje, sendo alugada e ocupada pela Rede de Postos Sim, é lembrado até hoje, mesmo após 15 anos de sua dissolução, como o posto do Esquerdinha.
Inicialmente trabalhando como frentista, Humberto cresceu dentro do posto, virando gerente, e depois, junto a José Amadeu Rocha, sócio do Posto Esso, no qual ascendeu como um dos grandes empresários da cidade, trabalhando por 40 anos, até se aposentar.
Humberto e Amadeu não seriam somente sócios no negócio. Tornaram-se mais próximos na família virando genro, e sogro um do outro, respectivamente. Amadeu, junto de Isaura Cardoso Rocha, eram pais de Tereza Nedir Rocha, esposa de Humberto e com quem ele ficou até o final de sua vida, tendo como frutos dessa união, Marilda, Jose Augusto, Gerson e Angélica.
No posto, Esquerdinha nunca deixou de respirar o esporte, muito pelo contrário. Apesar de hoje não ser considerada, por lei, um esporte, a rinha de galo teve muita popularidade no Brasil há muitos anos e em Santa Vitória do Palmar não era diferente. Os entusiastas desse evento marcavam constante presença no Posto Esso com Esquerdinha que, além de ser criador desse tipo de animal, ia todo domingo de manhã no extinto rinhedeiro da cidade (lugar onde se praticava a rinha de galo) para apostar boas quantias de dinheiro em seus galos favoritos. Além desses animais, Esquerdinha também criava cavalos, participando de eventos no Jockey Club Santa-Vitoriense.
“No jockey corria carreiras (corridas de cavalo). Ele tinha os seus cavalos. Às vezes ele ganhava, outras perdia.”, como disse Tereza Rocha Correa, viúva de Humberto.
No fim da vida, já aposentado, Humberto não deixava de acompanhar e ajudar o G.E. Brasil. Contudo, também praticava dois jogos que ele gostava: a bocha e o carteado. No primeiro, ele ainda participava de torneios, no segundo já era mais voltado para a descontração entre amigos, durante longas temporadas na praia da cidade, o Hermenegildo.
Os esportes sempre permearam a vida de Esquerdinha em seus 77 anos de existência. Mais do que apenas um fã ou entusiasta, ele sempre contribuiu para que suas paixões seguissem vivas e crescessem no cenário santa-vitoriense. Porém, o principal esporte que Humberto praticou em sua vida, não foi algo convencional, muito menos algo competitivo: Ajudar o próximo.
Não foram poucas as vezes em que Esquerdinha tirou os mais necessitados do aperto. Alguns exemplos da bondade que ele praticou por todos esses anos foram documentados e contados nos jornais de Santa Vitória. O falecido professor e escritor Homero Vasques contou, em sua coluna no Jornal Liberal, em 2013, um caso em que a bondade de Humberto transcendeu as fronteiras mergulhonas.
“Estando em Buenos Aires, um grupo de turistas conterrâneos, ao tomar um táxi, na capital portenha, quando o motorista sentiu o linguajar português e vendo que eram brasileiros, curioso, perguntou de onde vinham e ao saber que chegavam de Santa Vitória do Palmar, o mesmo referiu-se ao ESQUERDINHA, com carinho e gratidão, pois o taxista, quando teve um imprevisto na estrada do Chuí (cidade vizinha a Santa Vitória do Palmar), ele precisou dos préstimos mecânicos e o moço do Posto Esso mandou um automóvel para socorrer o argentino e sua família, dando-lhe toda a assistência e o recebeu em sua casa, fato que o motorista de táxi nunca mais esqueceu”. (Jornal Liberal, 30 de novembro de 2013)
Outro caso marcante, relembrado pelo jornal da cidade, também de Santa Vitória, foi quando seu amigo Pistola, um pintor residencial em Santa Vitória do Palmar, estava passando por sérias dificuldades financeiras, sem dinheiro para pagar a conta de água e luz. Esquerdinha, ao saber da situação, pediu para que ele pintasse somente a parte de fora da porta de sua casa, recompensando-o com o dinheiro necessário para a quitação das dívidas. Tereza, ao estranhar a situação inusitada, questionou o marido, que lhe respondeu:
“É que o Pistola estava sem dinheiro e eu fiz questão de ajudá-lo. Não podia deixá-lo empenhado, mas como sei que no mês que vem deverá estar mais uma vez pelado, aí eu quebro outro galho dele e ele pinta o lado de dentro da porta, sem problemas”.
A popularidade de Humberto na cidade era tamanha, que ele lançou e elegeu vereador seu irmão Jacyr, o mesmo que o tinha apelidado de Esquerdinha, no pleito, as pessoas votaram em Jacyr somente pelo prestígio de seu irmão Esquerdinha, fazendo questão de dizer que haviam votado nele, mesmo com ele não concorrendo na eleição.
“Esquerdinha foi um homem que sempre ajudou os que precisavam, de forma anônima, pois na escola onde eu trabalhava, quando os alunos concluíam a oitava série, ele doava a gasolina para que os alunos e as professoras deles fizessem passeios em outras cidades: Rio Grande, Zoológico de Sapucaia, Canela, Bento Gonçalves, Caxias, Porto Alegre, Gramado. Foi assim que muitos alunos carentes tiveram uma visão do mundo.” Como relembra Marta Araújo Dias, professora aposentada e moradora de Santa Vitória de Palmar.
A dedicação de Humberto em fazer o bem foi retribuída pelo poder público, quando lhe foi concedido o título de Cidadão Emérito do munícipio, também servindo como reconhecimento de toda a comunidade por seus atos positivos.
Humberto faleceu em outubro de 2017, após uma vida de serviços prestados ao esporte e a comunidade, porém suas contribuições não cessariam nem mesmo depois do fim de sua vida. Após seu falecimento, foi criada a ONG Comunitária Esquerdinha, em sua homenagem, com o único e simples intuito de ajudar as pessoas carentes, com doações de objetos ou de agasalhos.
Esquerdinha foi um homem que está marcado para sempre na história de uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Isso pode passar irrisório se for levada em conta as grandes escalas no qual se está acostumado a pensar quando se vem a ideia básica de um esporte, ou de atos altruístas. Porém, em um mundo tão difícil e nebuloso, os pequenos e tão raros atos de bondade são exceção, e a história de Humberto Rodrigues Corrêa é a demonstração de como um anônimo pode transformar para melhor não só o cenário esportivo, como algo muito maior, a existência de um povo.
Box Complementar:
Nome: Humberto Rodrigues Corrêa (Esquerdinha)
Data de Nascimento: 4 de Março de 1940
Data de Falecimento: 13 de Outubro de 2017
Pai: Lourival Rodrigues Correa
Mãe: Ondina da Costa
Esposa: Tereza Nedir Rocha Correa
Filhos: Marilda, Jose Augusto, Gerson e Angelica
