Eu não queria dizer adeus…
A música pode ter vários significados, cada ouvinte vai receber a mensagem de uma forma que vai identificar alguma relação com as vivências pessoais dele.
Em “Porto Alegre”, da banda Fresno, o compositor Lucas Silveira fala sobre a saudade de casa quando foi embora da capital gaúcha, mas a letra me remete a uma lembrança bem específica da época em que eu fazia parte das categorias de base de vôlei da UCS, em julho de 2016.
Assim como no início da música que diz “Faz frio em Porto Alegre toda noite”,era uma noite fria no ginásio da Sogipa, quando acontecia uma das diversas etapas do Campeonato Estadual de Voleibol Mirim. Eu tinha apenas 13 anos, e lembro até hoje da nossa derrota por 2×1 para os donos da casa. Na manhã seguinte, ocorreriam mais duas partidas, contra Sinodal, de São Leopoldo, e Ginástica, também de Porto Alegre”. Lembro que no antigo ginásio abandonado que virou nosso alojamento para a competição meu técnico me chamou para questionar alguns hematomas no meu braço direito e perna esquerda. Disse que posso ter me batido sem querer durante o jogo ou aquecimento e que estava bem, afinal, “de longe eu não posso ver”.
Chega a manhã seguinte, vamos jogar as duas partidas seguidas, meus pais chegam de Caxias do Sul para acompanhar. No primeiro jogo, derrota muito apertada contra Ginástica, 2×1 para eles com tie break encerrando em 21×19. No jogo seguinte, uma vitória difícil contra Sinodal, mais um 2×1 com parciais de 25×23, 25×27 e 22×20. No tie break, fiz o que considero até hoje meu melhor set no esporte, um ponto de manchete salvando uma bola colada na rede, dois ataques na paralela e um na diagonal, um ace e duas defesas muito difíceis, uma no chão e outra de uma pancada do ponteiro deles, um jovem que aos 13 anos já tinha 1,85 de altura.
Ao final da partida, não vejo comemoração dos meus pais, ambos estão conversando com o técnico e me chamam para os fundos do ginásio. Mais hematomas apareceram, um atrás da coxa, um na parte interna do bíceps e um na parte de trás do pescoço. Todos me questionam se me envolvi em briga, algo que nunca fiz na vida e então eles decidem: eu voltaria para Caxias de carro com eles, separado do time, e direto para o pronto atendimento.
No atendimento, um exame indica a presença de apenas 8 mil plaquetas/mL de sangue, um ser humano saudável apresenta entre 150 mil e 350 mil plaquetas/mL. Isso significa que toda vez que eu esbarrar em algo, teria um hematoma, também significa que se eu não tivesse ido para o hospital aquela noite, talvez não tivesse sobrevivido mais 24 horas, o diagnóstico oficial aponta Púrpura Trombocitopênica Idiopática, uma doença autoimune. Iniciou o tratamento com internação e o aviso: sem atividades de impacto até a solução do caso.
Foram seis meses até descobrir que o motivo era o meu baço ter dobrado de tamanho e, na filtragem do sangue, ele eliminava as plaquetas como se fossem células invasoras. Nesse período, tomei corticoides todos os dias, iniciei com quatro comprimidos por dia, baixei para dois, as plaquetas baixaram junto. Depois de um tempo estabilizamos em dois, mas todas tentativas de baixar pioraram ainda mais o quadro.
Em fevereiro de 2017 realizei a cirurgia de remoção de baço, resolvendo de vez o problema e normalizando minhas plaquetas. Inicia a contagem regressiva, só mais três meses e eu poderia voltar às quadras. No período que estive fora, acompanhei todos treinos e torneios junto da equipe, conquistamos a série prata do campeonato gaúcho e pude erguer o troféu como capitão. Nessa época, escrevi em um diário minhas vivências como torcedor/jogador da equipe, e algo me tocou.
Em maio, a tão sonhada volta, mas, uma nova paixão começou a incendiar dentro do meu coração. Continuei no vôlei até o final do ano, fiz bons jogos, evolui meu bloqueio e meu saque flutuante, mas em dezembro eu me despeço oficialmente da equipe, afinal, o jornalismo me chamava, mesmo que ainda muito baixo, era uma convocação para escrever sobre histórias de mais atletas.
E como diz a música do início deste texto, “É que eu tinha tanto pra contar.”
