{"id":819,"date":"2023-05-20T17:10:00","date_gmt":"2023-05-20T20:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/?p=819"},"modified":"2023-05-20T17:10:00","modified_gmt":"2023-05-20T20:10:00","slug":"preconceito-linguistico-e-suas-manifestacoes-nao-devemos-proibir-formas-de-falar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/2023\/05\/20\/preconceito-linguistico-e-suas-manifestacoes-nao-devemos-proibir-formas-de-falar\/","title":{"rendered":"Preconceito lingu\u00edstico e suas manifesta\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o devemos proibir formas de falar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O preconceito lingu\u00edstico \u00e9 todo ju\u00edzo de valor negativo a formas de falar e escrever, ou seja, a diferentes variedades lingu\u00edsticas, com base em cren\u00e7as sem fundamento cient\u00edfico acerca das l\u00ednguas e de seus usu\u00e1rios. Por\u00e9m, voc\u00ea deve ter se perguntando: mas o que s\u00e3o variedades lingu\u00edsticas? S\u00e3o varia\u00e7\u00f5es da l\u00edngua como os sotaques, os dialetos, os regionalismos, as g\u00edrias, isto \u00e9, as diferen\u00e7as observadas na fala e na escrita das outras pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Dessa forma, o preconceito lingu\u00edstico nada mais \u00e9 do que o julgamento sobre o modo como o outro fala, influenciado por caracter\u00edsticas culturais, regionais, hist\u00f3ricas, de etnia ou de g\u00eanero. Esses julgamentos, normalmente, se dirigem \u00e0s variantes mais informais e ligadas \u00e0s classes sociais menos favorecidas, em que, na maioria das vezes, as pessoas t\u00eam menos acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas manifesta\u00e7\u00f5es do preconceito lingu\u00edstico presentes em nosso dia a dia (e que muitas vezes nem percebemos que fazemos) s\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Interromper as pessoas para corrigir como elas falam;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Chamar algu\u00e9m de \u201cburro\u201d por falar diferente;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Debochar de quem usa g\u00edrias;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Debochar de sotaques regionais;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Dizer que n\u00e3o conversa com quem fala \u201cerrado\u201d;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Dizer que algu\u00e9m faltou \u00e0s aulas de portugu\u00eas e que por isso fala \u201cerrado\u201d;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Dizer que quem falar \u201cerrado\u201d \u00e9 pregui\u00e7oso porque \u201choje em dia tem internet\u201d;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Falar que os ouvidos doem quando ouve algu\u00e9m falando \u201cerrado\u201d;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Rir de quem fala \u201cpranta\u201d, \u201cbicicreta\u201d e \u201cchicrete\u201d;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Dizer que \u201cpra mim fazer\u201d e \u201ceu vou ir\u201d n\u00e3o existem;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Falar que as pessoas precisam aprender o portugu\u00eas antes de aprenderem ingl\u00eas;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Acreditar que \u00e9 necess\u00e1rio escrever \u201ccerto\u201d nas redes sociais e criticar as pessoas que n\u00e3o fazem isso;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Criticar e debochar de quem usa linguagem inclusiva (como, por exemplo, \u201camigxs\u201d e \u201ctodes\u201d);<br \/>\n&#8211; Criticar algu\u00e9m que fala uma l\u00edngua minorit\u00e1ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A primeira coisa que devemos fazer para combater o preconceito lingu\u00edstico \u00e9 ter uma mudan\u00e7a de atitude. Segundo o sociolinguista Marcos Bagno (2020), cada um de n\u00f3s precisa elevar o grau da pr\u00f3pria autoestima lingu\u00edstica e recusar os velhos argumentos que visam menosprezar o saber lingu\u00edstico individual de cada um. Precisamos nos impor como falantes competentes da nossa l\u00edngua materna e parar de acreditar que \u201co brasileiro n\u00e3o sabe portugu\u00eas\u201d ou que \u201co portugu\u00eas \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d. Temos que acionar o nosso senso cr\u00edtico e filtrar as informa\u00e7\u00f5es realmente \u00fateis, deixando de lado as afirma\u00e7\u00f5es preconceituosas e intolerantes.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_822\" aria-describedby=\"caption-attachment-822\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-822\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?resize=400%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?resize=400%2C225&amp;ssl=1 400w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?resize=1024%2C577&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?resize=768%2C433&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?resize=1536%2C865&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?w=1640&amp;ssl=1 1640w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/files\/2023\/05\/Um-pais.jpg?w=1208&amp;ssl=1 1208w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-822\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Fonte: https:\/\/contramao.una.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Um-pais.jpg<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 importante lembrar que, do ponto de vista cient\u00edfico, n\u00e3o existe \u201cerro\u201d de portugu\u00eas, pois todo falante nativo de uma l\u00edngua \u00e9 plenamente competente nela e consegue diferenciar intuitivamente se uma forma lingu\u00edstica obedece ou n\u00e3o \u00e0s regras de funcionamento do idioma. O que existe, na verdade, s\u00e3o diferen\u00e7as de usos em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 proposto pela gram\u00e1tica normativa, aquela ensinada nas escolas. Essas diferen\u00e7as nos permitem dizer \u201ctinha uma pedra no caminho\u201d ou \u201chavia uma pedra no caminho\u201d, \u201cvou ir na casa do Jo\u00e3o\u201d ou \u201cirei na casa do Jo\u00e3o\u201d, sem que uma seja considerada melhor do que a outra. Cada contexto pedir\u00e1 uma linguagem mais ou menos formal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Por \u00faltimo, \u00e9 preciso entender que toda l\u00edngua muda e varia. Segundo o pesquisador Marcos Bagno (2020), o que hoje \u00e9 visto como \u201ccerto\u201d um dia j\u00e1 foi considerado como \u201cerro\u201d e, o que hoje \u00e9 considerado como \u201cerrado\u201d pode vir a ser perfeitamente aceito como \u201ccerto\u201d. A nossa l\u00edngua prossegue em sua transforma\u00e7\u00e3o e, n\u00f3s devemos buscar entender as diferen\u00e7as lingu\u00edsticas, respeitando a identidade de todos os falantes. Como afirma Marcos Bagno (2020), \u201cn\u00f3s somos a l\u00edngua que falamos\u201d e, ela molda como vemos o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a l\u00edngua que falamos.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">BAGNO, Marcos. <\/span><b>N\u00e3o \u00e9 errado falar assim<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">! Em defesa do portugu\u00eas brasileiro. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola, 2009.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">BAGNO, Marcos. <b>Preconceito Lingu\u00edstico<\/b>. 56. ed. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola, 2020.<\/p>\n<p>Autor: <b>Julia Diogo<\/b>, graduada em Letras Portugu\u00eas e Literaturas de L\u00edngua Portuguesa pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Atualmente, \u00e9 mestranda em Letras, na linha de Aquisi\u00e7\u00e3o, Varia\u00e7\u00e3o e Ensino, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).<br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O preconceito lingu\u00edstico \u00e9 todo ju\u00edzo de valor negativo a formas de falar e escrever, ou seja, a diferentes variedades lingu\u00edsticas, com base em cren\u00e7as sem fundamento cient\u00edfico acerca das l\u00ednguas e de seus usu\u00e1rios. Por\u00e9m, voc\u00ea deve ter se perguntando: mas o que s\u00e3o variedades lingu\u00edsticas? S\u00e3o varia\u00e7\u00f5es da l\u00edngua como os sotaques, os &hellip; <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/2023\/05\/20\/preconceito-linguistico-e-suas-manifestacoes-nao-devemos-proibir-formas-de-falar\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Preconceito lingu\u00edstico e suas manifesta\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o devemos proibir formas de falar<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":916,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-819","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-variacao-linguistica"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/916"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=819"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/819\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":823,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/819\/revisions\/823"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}