{"id":1222,"date":"2026-06-30T17:10:45","date_gmt":"2026-06-30T20:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/?p=1222"},"modified":"2026-07-04T17:47:34","modified_gmt":"2026-07-04T20:47:34","slug":"por-que-os-tons-do-mandarim-parecem-impossiveis-de-aprender-no-inicio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/tesouro-linguistico\/2026\/06\/30\/por-que-os-tons-do-mandarim-parecem-impossiveis-de-aprender-no-inicio\/","title":{"rendered":"Por que os tons do mandarim parecem imposs\u00edveis de aprender no in\u00edcio?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Se voc\u00ea j\u00e1 tentou aprender mandarim, provavelmente viveu esta cena: o professor fala <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">m\u0101 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u5988<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, m\u00e3e) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">m\u01ce <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u9a6c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, cavalo) e, aos seus ouvidos, as duas palavras soam&#8230; exatamente iguais. Voc\u00ea se pergunta se est\u00e1 com algum problema auditivo. N\u00e3o est\u00e1. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 algo fascinante sobre como o c\u00e9rebro humano aprende a ouvir.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O mandarim padr\u00e3o possui quatro tons lexicais, al\u00e9m de um &#8220;tom neutro&#8221;, que mudam completamente o significado de uma palavra. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u5988 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">m\u0101 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(tom 1, voz alta e plana) significa &#8220;m\u00e3e&#8221;; <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u9ebb<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">m\u00e1 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(tom 2, ascendente) significa &#8220;c\u00e2nhamo&#8221;; <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u9a6c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">m\u01ce <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(tom 3, descendente-ascendente) significa &#8220;cavalo&#8221;; e <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u9a82<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">m\u00e0 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(tom 4, descendente) significa &#8220;xingar&#8221;. Para falantes de portugu\u00eas, uma l\u00edngua sem tons lexicais, essa distin\u00e7\u00e3o soa estranha porque o c\u00e9rebro nunca precisou processar a altura da voz como informa\u00e7\u00e3o de significado; ele a usava apenas para expressar emo\u00e7\u00e3o ou identificar uma pergunta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em l\u00ednguas tonais, existem varia\u00e7\u00f5es na altura da voz (frequ\u00eancia fundamental) para alterar o significado de uma palavra. A pesquisadora Nina Kraus e seus colegas (2012) mostraram que o processamento auditivo de tons lingu\u00edsticos ativa regi\u00f5es cerebrais diferentes dependendo da experi\u00eancia pr\u00e9via do ouvinte. Falantes nativos de l\u00ednguas tonais processam as varia\u00e7\u00f5es de altura da voz de forma autom\u00e1tica e subcortical, enquanto falantes de l\u00ednguas n\u00e3o tonais precisam reconstruir esse caminho neural, o que leva tempo e exposi\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quem tem \u201couvido musical\u201d possui mais facilidade para aprender os tons lexicais de uma l\u00edngua tonal. O professor Patrick Wong e seus colaboradores (2007) explicam que m\u00fasicos conseguem apreender os tons do mandarim mais rapidamente, justamente porque o c\u00e9rebro deles j\u00e1 desenvolveu sensibilidade a varia\u00e7\u00f5es de altura, mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o-m\u00fasicos n\u00e3o consigam aprender. Isso significa apenas que o ponto de partida \u00e9 diferente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a pesquisadora Nat\u00e1lia Gorina-Careta e seus colegas, em pesquisa publicada em 2024, esse processo come\u00e7a ainda antes do nascimento: beb\u00eas expostos a duas l\u00ednguas no per\u00edodo pr\u00e9-natal j\u00e1 apresentam respostas neurais diferentes daqueles expostos a apenas uma. O c\u00e9rebro dos beb\u00eas j\u00e1 vai se especializando nos sons da pr\u00f3pria l\u00edngua e reduzindo a sensibilidade a contrastes que n\u00e3o existem nela. Por isso, ao nascer, qualquer crian\u00e7a pode aprender qualquer l\u00edngua do mundo. Com o tempo, o sistema auditivo se &#8220;afina&#8221; para o que \u00e9 relevante no ambiente lingu\u00edstico em que a crian\u00e7a cresce e, para falantes de portugu\u00eas, os tons do mandarim ficam fora desse mapa desde cedo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A boa not\u00edcia \u00e9 que o c\u00e9rebro adulto preserva essa habilidade conhecida como plasticidade cerebral para reorganizar os caminhos neurais. Em termos simples, isso significa que o c\u00e9rebro consegue se reorganizar e criar novos caminhos de conex\u00e3o entre os neur\u00f4nios a partir de novas experi\u00eancias, inclusive as auditivas. N\u00e3o \u00e9 algo exclusivo da inf\u00e2ncia, pois o c\u00e9rebro adulto continua mudando em resposta ao que vivemos e aprendemos, s\u00f3 que de forma mais gradual. Conforme os professores Xinchun Wang, Allard Jongman e Joan Sereno (2003), adultos falantes de ingl\u00eas, uma l\u00edngua n\u00e3o tonal, conseguem aprender a distinguir os tons do mandarim com treinamento auditivo focado, e esse aprendizado se transfere para situa\u00e7\u00f5es reais de fala. O segredo est\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o repetida e consciente, preferencialmente com varia\u00e7\u00e3o de vozes e contextos, para que o c\u00e9rebro generalize o padr\u00e3o e n\u00e3o memorize apenas um falante espec\u00edfico da nova l\u00edngua.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, se os tons parecem imposs\u00edveis no come\u00e7o, isso n\u00e3o diz nada sobre sua capacidade de aprender. \u00c9 sobre como o c\u00e9rebro humano funciona e como voc\u00ea pode utilizar m\u00e9todos e estrat\u00e9gias para identificar e diferenciar os tons da l\u00edngua. O que ocorre \u00e9 que ele precisa reaprender a prestar aten\u00e7\u00e3o em pistas sonoras que antes eram consideradas pouco relevantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez por isso os aprendizes iniciantes de mandarim passem por uma experi\u00eancia curiosa. Depois de semanas ou meses de estudo, muitos relatam que os tons parecem surgir de repente. Sons que antes pareciam id\u00eanticos come\u00e7am a se diferenciar. O ouvido, pouco a pouco, aprende a ouvir aquilo que antes passava despercebido.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Como fonoaudi\u00f3loga e professora de mandarim para brasileiros, posso afirmar que a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conseguir ouvir a diferen\u00e7a \u00e9 o ponto de partida, n\u00e3o o obst\u00e1culo definitivo. Aprender uma nova l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 apenas memorizar palavras e regras gramaticais. \u00c9 tamb\u00e9m aprender uma nova forma de perceber sons e elementos culturais. E, a partir disso, desenvolver as estruturas da l\u00edngua-alvo para uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, talvez os tons do mandarim n\u00e3o sejam imposs\u00edveis. Talvez eles apenas nos lembrem que ouvir tamb\u00e9m \u00e9 uma habilidade que se aprende &#8211; ou melhor, que se percebe.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">KRAUS, Nina <em>et al.<\/em> Auditory learning through active engagement with sound: biological impact of community music lessons in at-risk children. <strong>Frontiers in Neuroscience<\/strong>, v. 8, n. 351, 2014.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">GORINA-CARETA, Nat\u00e0lia <em>et al.<\/em> Exposure to bilingual or monolingual maternal speech during pregnancy affects the neurophysiological encoding of speech sounds in neonates differently. <strong>Frontiers in Human Neuroscience<\/strong>, v. 18, n. 1379660, 2024.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">WANG, Xinchun; JONGMAN, Allard; SERENO, Joan A. Acoustic and perceptual evaluation of Mandarin tone productions before and after perceptual training. <strong>Journal of the Acoustical Society of America<\/strong>, v. 113, n. 2, p. 1033\u20131043, 2003.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">WONG, Patrick C. M.<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> et al.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> Musical experience shapes human brainstem encoding of linguistic pitch patterns. <strong>Nature Neuroscience<\/strong>, v. 10, n. 4, p. 420\u2013422, 2007.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autora:<b> Yuh Shyuan Chu<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Fonoaudi\u00f3loga (CRFa 2-24246), p\u00f3s-graduanda em neuroci\u00eancias, professora de mandarim. S\u00e3o Paulo, SP. Siga: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fono.yuhchu\/\">@fono.yuhchu<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea j\u00e1 tentou aprender mandarim, provavelmente viveu esta cena: o professor fala m\u0101 (\u5988, m\u00e3e) e m\u01ce (\u9a6c, cavalo) e, aos seus ouvidos, as duas palavras soam&#8230; exatamente iguais. Voc\u00ea se pergunta se est\u00e1 com algum problema auditivo. N\u00e3o est\u00e1. 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