{"id":222,"date":"2022-03-10T17:30:35","date_gmt":"2022-03-10T20:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/superavit\/?p=222"},"modified":"2022-03-10T17:30:35","modified_gmt":"2022-03-10T20:30:35","slug":"reportagem-como-sair-do-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/superavit\/2022\/03\/10\/reportagem-como-sair-do-vermelho\/","title":{"rendered":"Reportagem &#8211; Como sair do vermelho?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em 2021, \u00edndice de endividamento das fam\u00edlias bateu recorde no Brasil. Especialistas analisam o cen\u00e1rio e d\u00e3o orienta\u00e7\u00f5es para quem deseja sair do vermelho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A soma de diversos fatores fez com que o \u00edndice de endividamento das fam\u00edlias no Brasil batesse recorde em 2021, conforme n\u00fameros da Pesquisa de Endividamento e Inadimpl\u00eancia do Consumidor (Peic), da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio (CNC), divulgados no in\u00edcio desse ano. De acordo com o levantamento, em 2021, a m\u00e9dia chegou a 70,9% de fam\u00edlias endividadas no pa\u00eds, com um crescimento de 4,4% na compara\u00e7\u00e3o com 2020, sendo esse o maior aumento desde 2010, ano de in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 ainda pior no Rio Grande do Sul, onde a Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio de Bens e de Servi\u00e7os do Estado do Rio Grande do Sul (Fecom\u00e9rcio-RS) divulgou ainda em 2021 que o \u00edndice de inadimpl\u00eancia das fam\u00edlias ga\u00fachas est\u00e1 em 81,9%. A baixa alfabetiza\u00e7\u00e3o financeira do brasileiro somada com as situa\u00e7\u00f5es de crises econ\u00f4micas e \u00e0 pandemia s\u00e3o a receita perfeita para um aumento no n\u00famero de fam\u00edlias endividadas. Diante desse cen\u00e1rio, fica a pergunta: como sair do vermelho?<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Dr. Alexandre Braga, do Centro de Ci\u00eancias Socio-Organizacionais (CCSO) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), salienta que o primeiro passo para isso \u00e9 criar um or\u00e7amento mensal de receitas e de gastos, separando cada um dos desembolsos realizados pelas fam\u00edlias. \u201c\u00c9 importante, quando da constru\u00e7\u00e3o do instrumento, que se fa\u00e7a para pelo menos um per\u00edodo de 12 meses, haja visto que alguns gastos ocorrem em \u00e9pocas espec\u00edficas, n\u00e3o podendo ser simplesmente colocados de maneira linear, como por exemplo: IPVA, IPTU, matr\u00edculas e materiais escolares, entre outros\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, devem ser inclu\u00eddos nesse processo crian\u00e7as e adolescentes, para que descubram desde cedo a import\u00e2ncia do tema para o seu futuro. \u201cTenho orientado trabalhos acad\u00eamicos desta natureza, e os achados remetem a evidente falta de conhecimentos b\u00e1sicos or\u00e7ament\u00e1rios, que aliados \u00e0 falta de prud\u00eancia e a uma press\u00e3o da sociedade pelo imediatismo desenfreado, acabam sendo alguns dos mais fortes fatores de insucesso financeiro das pessoas\u201d, revela.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os elementos que facilitam o endividamento, o professor cita a facilidade de se obter cr\u00e9dito, dado que as institui\u00e7\u00f5es financeiras est\u00e3o cada vez mais agressivas na oferta de produtos. Braga afirma que se as pessoas gastassem somente o que elas possuem de receita, n\u00e3o dariam espa\u00e7o para que os juros entrassem no seu or\u00e7amento. \u201cOs juros e elevadas parcelas comprometem a capacidade de pouparem em um primeiro momento, ou at\u00e9 mesmo, em situa\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas, de poderem adquirir os bens e servi\u00e7os b\u00e1sicos do dia a dia\u201d, previne Braga.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram a falta de planejamento e as facilidades de obter cr\u00e9dito que fizeram com que a balconista Fernanda Ferreira, 27 anos, comprometesse todo o seu sal\u00e1rio no pagamento de d\u00edvidas e juros. \u201cInfelizmente eu me empolguei e acabei fazendo v\u00e1rias compras parceladas. Quando me livrava de uma, fazia outra. Parcelava fatura do cart\u00e3o de cr\u00e9dito e usava todo o limite do cheque especial. Depois de conversar com um amigo que trabalha num banco, descobri que tinha ca\u00eddo numa armadilha. S\u00f3 agora, um ano depois, estou come\u00e7ando a sair dessa\u201d, conta, destacando que caiu na tenta\u00e7\u00e3o de usar todos os limites que lhe eram disponibilizados pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras, mesmo sem ganhar o suficiente para arcar com todos os gastos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto importante que ajuda o consumidor a entrar em uma situa\u00e7\u00e3o de inadimpl\u00eancia \u00e9 a baixa alfabetiza\u00e7\u00e3o financeira dos brasileiros. Em uma pesquisa do Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos (PISA), de 2018, o Brasil ficou em 17\u00b0 lugar, dentre 20 pa\u00edses avaliados sobre compet\u00eancia financeira. Para o economista e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comercial de Pelotas (ACP), Mauro Roberto Bom, a inclus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o financeira no curr\u00edculo escolar seria importante para que os adolescentes chegassem \u00e0 fase adulta com conhecimentos b\u00e1sicos sobre finan\u00e7as. \u201cAs pessoas precisam conhecer mais como funcionam os mecanismos financeiros do cotidiano, como o cheque especial, o cart\u00e3o de cr\u00e9dito, o que representa o parcelamento da fatura, o que \u00e9 uma taxa de juros do governo, etc. Ningu\u00e9m fala para o jovem sobre isso: o que \u00e9 uma taxa de juros, o que \u00e9 o IPTU, o que \u00e9 o ITBI e outros impostos\u201d, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p>O economista acredita que esse ensinamento deveria iniciar a partir do 7\u00b0 ano do Ensino Fundamental, tendo em vista que se os pais n\u00e3o tiveram alfabetiza\u00e7\u00e3o financeira, dificilmente eles ter\u00e3o habilidades para dar essa forma\u00e7\u00e3o aos jovens dentro de casa. \u201cEu h\u00e1 poucos dias conversava com dois estudantes universit\u00e1rios da fam\u00edlia sobre como \u00e9 que funcionava o sistema financeiro da sociedade e um deles me olhou e disse: nunca vimos nada disso. Ent\u00e3o, s\u00e3o dois tipos de preparos: um preparo do intelecto e um preparo para a vida\u201d, afirma Mauro Roberto Bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa avalia\u00e7\u00e3o converge com a perspectiva do professor Braga, que afirma que um dos desafios das escolas, especialmente no tema da educa\u00e7\u00e3o financeira, deveria ser ir al\u00e9m de ensinar a matem\u00e1tica tradicional, tal como as fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, percentuais, etc. \u201cTeria que envolver tamb\u00e9m o comportamento financeiro, a constru\u00e7\u00e3o de or\u00e7amentos, defini\u00e7\u00e3o de prioridades e tamb\u00e9m o empreendedorismo, entre as iniciativas que ajudassem os alunos adolescentes a prosperarem como seres humanos, independente da profiss\u00e3o escolhida. A educa\u00e7\u00e3o financeira deve ser entendida como um tema transversal\u201d, aponta o docente.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o publicit\u00e1rio Tiago Beck, que hoje trabalha com assessoria pol\u00edtica, concorda com a perspectiva dos especialistas. Ele avalia que se tivesse tido orienta\u00e7\u00f5es e forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica sobre planejamento financeiro tanto ele, quanto amigos e colegas da sua gera\u00e7\u00e3o, estariam melhor financeiramente. \u201cEu estou bem, mas sei que ao longo dos anos, se tivesse feito um planejamento bem elaborado, poderia estar numa situa\u00e7\u00e3o ainda melhor. Muitos dos meus amigos e ex-colegas, no entanto, enfrentam muitas dificuldades hoje em dia justamente porque n\u00e3o tivemos essa forma\u00e7\u00e3o financeira. Ou seja, quem est\u00e1 endividado poderia estar bem, e quem est\u00e1 bem poderia estar melhor ainda\u201d, avalia o publicit\u00e1rio, que aos 40 anos come\u00e7a a se preocupar mais com finan\u00e7as pessoais e, na medida em que estuda o tema, percebe como fez falta orienta\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas no passado.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Braga explica que o endividamento \u00e9 um compromisso financeiro assumido por um determinado tempo que pode ser feito para comprar um ve\u00edculo, uma casa ou pagar uma viagem, por exemplo. \u201cDeste modo devemos ter em conta que a \u00fanica certeza que temos \u00e9 de que teremos que honrar este compromisso por um valor maior que o or\u00e7ado \u00e0 vista, e ainda: a receita mensal ou faturamento, como se diz no ambiente empresarial, \u00e9 incerta para uma parte relevante da popula\u00e7\u00e3o, assim como para as organiza\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o temos, por assim dizer, um ponto de exclama\u00e7\u00e3o nas d\u00edvidas e um ponto de interroga\u00e7\u00e3o na disponibilidade de recursos. Isto tamb\u00e9m deveria ser levado em conta quando da tomada de decis\u00e3o das pessoas se endividarem\u201d, orienta. No entanto, o docente salienta que h\u00e1 mais de uma possibilidade para o uso da palavra \u201cendividamento\u201d. Ele lembra que geralmente a palavra \u00e9 usada em sentido negativo, por\u00e9m, em alguns casos, como no dos investimentos, ela pode ser um recurso importante para o sucesso. \u201cSeria um tipo de endividamento ben\u00e9fico ou saud\u00e1vel\u201d, destaca, chamando a aten\u00e7\u00e3o que, mesmo nesses casos, \u00e9 preciso tomar cuidado com o tamanho do endividamento pessoal, para que ele n\u00e3o corra o risco de se transformar em inadimpl\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, para quem est\u00e1 no vermelho e integra as estat\u00edsticas apresentadas no in\u00edcio dessa reportagem, \u00e9 preciso dar os primeiros passos. O primeiro \u00e9 fazer o planejamento financeiro para 12 meses, conforme apontou o professor Braga. Posteriormente, verificando que os gastos est\u00e3o maiores do que as receitas, \u00e9 preciso adequar o or\u00e7amento, fazendo os ajustes necess\u00e1rios para que despesas fixas e regulares, tais como aluguel, parcela de compras, conta de luz, \u00e1gua, supermercado, combust\u00edvel, etc, n\u00e3o consumam todo o or\u00e7amento. Feito isso, \u00e9 preciso fazer um planejamento sobre como deixar a inadimpl\u00eancia e, nessa fase, pode ser importante uma renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvida, desde que ela esteja planejada, pois n\u00e3o adianta o cidad\u00e3o renegociar a d\u00edvida apenas para postergar o compromisso e, no dia dos vencimentos, n\u00e3o poder pagar. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil, exige muito sacrif\u00edcio, mas \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda. Eu tive que chegar no fundo do po\u00e7o para me dar conta disso. Minha dica \u00e9 para que as pessoas se informem e se controlem para n\u00e3o passar pelo que eu passei\u201d, adverte a balconista Fernanda Ferreira, que projeta sair do vermelho at\u00e9 a metade do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, esse \u00e9 um processo que pode ser demorado e dolorido, que exige paci\u00eancia e disciplina. Assim, investir tempo em reeduca\u00e7\u00e3o financeira e tentar sair da cultura do consumo imediato, pode ser um bom investimento para deixar a indesej\u00e1vel lista de inadimplentes. Afinal, como destacou o professor da Universidade Federal de Minhas Gerais (UFMG) Juliano Pinheiro na palestra \u201cFinan\u00e7as pessoais em tempos de crise\u201d realizada de forma online no ano passado: \u201cN\u00e3o gaste o dinheiro que voc\u00ea n\u00e3o tem para impressionar quem voc\u00ea n\u00e3o conhece\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2021, \u00edndice de endividamento das fam\u00edlias bateu recorde no Brasil. 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