{"id":484,"date":"2020-08-14T09:24:22","date_gmt":"2020-08-14T12:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/siiepe\/?page_id=484"},"modified":"2020-08-19T13:34:59","modified_gmt":"2020-08-19T16:34:59","slug":"tema-da-6a-siiepe","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/siiepe\/siiepe-2020\/tema-da-6a-siiepe\/","title":{"rendered":"Tema da 6\u00aa SIIEPE"},"content":{"rendered":"<p>Quando perguntado como ser\u00e1 o mundo p\u00f3s pandemia, o\u00a0 fil\u00f3sofo italiano Roberto Esposito respondeu: \u201cCertamente, um mundo diferente\u201d<a href=\"#nota-1\"><sup>1<\/sup><\/a>. H\u00e1 sinais de que a pandemia causada pelo novo coronav\u00edrus, que mudou, em poucos meses, aspectos dos modos de vida em diferentes pa\u00edses, esteja entre os fatos que provocar\u00e3o mudan\u00e7as profundas nas sociedades. Isso porque as formas de enfrentamento da aguda crise inaugurada pela doen\u00e7a compuseram um rol de situa\u00e7\u00f5es que revelam desafios, conflitos e possibilidades. Como bem observou a feminista estadunidense Judith Butler: \u201cAs quest\u00f5es b\u00e1sicas &#8211; como viver, como enfrentar a mortalidade e qual a melhor forma de entender o mundo &#8211; s\u00e3o aquelas que impulsionam as humanidades repetidas vezes.\u201d<a href=\"#nota-2\"><sup>2<\/sup><\/a> S\u00e3o, portanto, as quest\u00f5es que nos fazem pensar, inclusive sobre aquilo que nem gostar\u00edamos de admitir a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez, um dos aspectos dessa pandemia, que inunde de possibilidades a insurg\u00eancia de mudan\u00e7as determinantes, esteja em ter ela se mostrado, como disse Esposito, \u201co primeiro evento, ainda mais que as guerras mundiais, realmente global. Nenhum pa\u00eds foi ou ser\u00e1 poupado, como ao contr\u00e1rio aconteceu durante as guerras\u201d. E, ainda mais, essa pandemia pode ser, nas palavras do fil\u00f3sofo franc\u00eas Jean-Luc Nancy \u201cem todos os n\u00edveis, um produto da globaliza\u00e7\u00e3o. Ela enfatiza suas caracter\u00edsticas e tend\u00eancias. \u00c9 um agente de livre com\u00e9rcio ativo, combativo e efetivo.\u201d<a href=\"#nota-3\"><sup>3<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel: h\u00e1 muito o que falar ainda sobre o tempo que estamos vivendo, apesar do n\u00famero inquantific\u00e1vel de narrativas, de toda a ordem, que foram e est\u00e3o sendo difundidas por diferentes meios.\u00a0 H\u00e1 muitas an\u00e1lises, muitas opini\u00f5es, muitos estudos. E uma parte significativa dessas vozes prognostica uma realidade diferente, quando a pandemia terminar.<\/p>\n<p>E, sim, olhando para a hist\u00f3ria, percebemos que as grandes pandemias foram respons\u00e1veis por mudan\u00e7as irrevers\u00edveis nas sociedades. Gr\u00e9cia e Roma antigas conheceram pestes avassaladoras nas suas grandes cidades. A Peste de Justiniano, que tendo sido documentada, registrou um dado que leva a crer na morte de metade da popula\u00e7\u00e3o europeia \u00e0 \u00e9poca, marcou o fim da idade antiga, assim como a peste negra determinou o fim da idade m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Estamos diante de outra grande pandemia e no fluxo dos acontecimentos profetizamos um mundo novo, para quando \u201ctudo acabar\u201d. Ser\u00e1 que estamos vendo paradigmas liquefazerem-se e novos, advirem? Ser\u00e1 que velhos conceitos e h\u00e1bitos desgastados ser\u00e3o substitu\u00eddos?<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos (2020) analisa que a irrup\u00e7\u00e3o de uma pandemia exige mudan\u00e7as dr\u00e1sticas nas formas de vida, mas, sobretudo, indica que algumas verdades n\u00e3o s\u00e3o imut\u00e1veis, como a ideia conservadora de que n\u00e3o h\u00e1 alternativa ao modo de vida imposto pelo hipercapitalismo, de consumo desenfreado, revelando, mais do que tudo, as fragilidades humanas, as desigualdades e as crises permanentes a que v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es mundiais j\u00e1 vinham sendo submetidas. \u00c9 poss\u00edvel um mundo menos desigual?<\/p>\n<p>Perguntas como essas cabem neste insubstancial presente, porque n\u00e3o s\u00e3o poucos os dilemas que se apresentam. Abdicar da presen\u00e7a f\u00edsica, cientes de que n\u00e3o somos capazes de viver sem o conv\u00edvio, \u00e9 um dilema. Abrir m\u00e3o do di\u00e1logo em voz e imagem reais, pela prote\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia interpessoal, \u00e9 outro dilema. Ver a plenitude de uma natureza renovada por conta da nossa aus\u00eancia, \u00e9 mais outro. E quantos mais poder\u00e3o ser listados por linhas e linhas.<\/p>\n<p>Haveria, portanto, outro tema que se impusesse t\u00e3o obviamente do que o de discutir, durante os dias desta Semana Integrada, qual ser\u00e1 a universidade que enfrentar\u00e1 um mundo transformado pela pandemia? O que seremos quando a trama profunda da realidade for diferente? O que poder\u00e1 vir a ser professor, estudante, pesquisador, t\u00e9cnico quando nossas formas de operar conhecimentos n\u00e3o puderem prescindir dos novos (ou nem t\u00e3o novos) meios? H\u00e1 muitas perguntas que no futuro parecer\u00e3o dispens\u00e1veis e tantas outras que desenham um horizonte ainda pouco discern\u00edvel.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00e3o fugiremos delas. Este evento, reunindo a for\u00e7a do pensamento acad\u00eamico, atrav\u00e9s das suas dimens\u00f5es (ensino, pesquisa, extens\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o), reunindo os atores que movimentam essas for\u00e7as, encontrando nos meios as possibilidades e nas circunst\u00e2ncias, os desafios, deixar\u00e1 em 2020 a marca da capacidade que as universidades tem de olhar para si, de olhar a partir de si e de considerar sua alavanca, seu motivo, sua ess\u00eancia, a realidade, o tempo presente e a transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span id=\"nota-1\" style=\"font-size: 10pt;\"><sup>1<\/sup>Entrevista com Roberto Esposito: A primeira imuniza\u00e7\u00e3o \u00e9 o direito. UNISINOS, Instituo Humanitas. 06 maio 2020. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598664-a-primeira-imunizacao-e-o-direito-entrevista-com-roberto-esposito\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598664-a-primeira-imunizacao-e-o-direito-entrevista-com-roberto-esposito<\/a>. Acesso em 07 ago. 2020.<\/span><\/p>\n<p><span id=\"nota-2\" style=\"font-size: 10pt;\"><sup>2<\/sup>YANCE, G. Entrevista com Judith Butler: O luto \u00e9 um ato pol\u00edtico em meio \u00e0 pandemia e suas disparidade. 04 maio 2020. Carta Maior. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Pelo-Mundo\/Judith-Butler-O-luto-e-um-ato-politico-em-meio-a-pandemia-e-suas-disparidades\/6\/47390\">https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Pelo-Mundo\/Judith-Butler-O-luto-e-um-ato-politico-em-meio-a-pandemia-e-suas-disparidades\/6\/47390<\/a>. Acesso em 07 ago. 2020.<\/span><\/p>\n<p><span id=\"nota-3\" style=\"font-size: 10pt;\"><sup>3<\/sup>NANCY, Jean-Luc. Um v\u00edrus demasiado humano.\u00a0 18 maio 2020. Blog do Soci\u00f3filo<i>, <\/i>2020<i>. <\/i>Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogdolabemus.com\/2020\/05\/18\/notas-sobre-a-pandemia-um-virus-demasiado-humano-por-jean-luc-nancy\">https:\/\/blogdolabemus.com\/2020\/05\/18\/notas-sobre-a-pandemia-um-virus-demasiado-humano-por-jean-luc-nancy<\/a>. Acesso em 07 ago. 2020.<\/span><\/p>\n<p><span id=\"nota-4\" style=\"font-size: 10pt;\">SANTOS, Boaventura de Sousa. Coronav\u00edrus: tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no\u00a0ar. In: Dossi\u00ea Coronav\u00edrus e Sociedade, Blog Bointempo, 2020.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando perguntado como ser\u00e1 o mundo p\u00f3s pandemia, o\u00a0 fil\u00f3sofo italiano Roberto Esposito respondeu: \u201cCertamente, um mundo diferente\u201d1. 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