Segurança do Trabalho e Conservação Preventiva

Este trabalho resulta da vivência no canteiro de obra junto aos artífices experientes que atuam nas Ruínas de São Miguel. O reconhecimento prévio do sítio ocorreu na primeira viagem técnica, em setembro de 2024, etapa fundamental para que a equipe de professores e estudantes se preparasse para o treinamento final, desenvolvido em conjunto com os trabalhadores responsáveis pela manutenção cotidiana do monumento. O relato a seguir descreve uma das dinâmicas realizadas, relacionada à segurança do trabalho, componente integrante de um conjunto mais amplo de atividades.

A experiência no canteiro modelo das Ruínas de São Miguel ultrapassou a aplicação direta de procedimentos de segurança do trabalho. Tratou-se de compreender o patrimônio como um organismo vivo, cuja lógica difere de um canteiro convencional. Enquanto em obras comuns o ambiente se ajusta ao planejamento, nas ruínas é o planejamento que se submete às características do lugar. Cada fissura, cada volume de pedra e cada sombra projetada pela fachada monumental impõem limites, revelam histórias e sinalizam cuidados necessários.

Desde a primeira visita técnica, evidenciou-se a necessidade de rever práticas habituais para construir uma abordagem adequada ao contexto. A aplicação literal das Normas Regulamentadoras não contemplava a complexidade do patrimônio, que exige, além da prevenção, atenção, escuta e respeito ao sítio histórico.

No dia destinado ao treinamento, a chegada do grupo à sacristia sob chuva intensa evidenciou a expectativa coletiva para as duas semanas de atividades. A equipe reunia trabalhadores sem experiência prévia em patrimônio, visitantes ocasionais e artífices já familiarizados com o local. Para que a relevância de cada etapa — do uso dos EPIs ao posicionamento de andaimes — fosse plenamente compreendida, tornou-se necessário estabelecer vínculos entre os participantes e o próprio monumento.

A atividade de mapeamento de riscos contou com participação ativa. Obstáculos foram identificados, sugestões foram apresentadas e relatos pessoais emergiram, envolvendo acidentes anteriores, improvisos e inseguranças. A dinâmica aplicada permitiu integrar percepções, demonstrando que a proposta se fundamentava na troca de conhecimentos. Reconhecer a experiência de cada trabalhador foi determinante para consolidar o entendimento coletivo das medidas de segurança do trabalho.

A dinâmica teve como propósito transformar a tensão, as expectativas e as curiosidades em aprendizado. Os participantes foram divididos em duas equipes encarregadas de observar diferentes setores das ruínas, identificar riscos, classificá-los e propor soluções. O cruzamento das análises reforçou o entendimento da responsabilidade compartilhada entre preservar vidas e conservar o patrimônio.

Ao longo das ações, tornou-se evidente que a atuação em patrimônio exige mais do que domínio técnico: exige sensibilidade. Essa delicadeza se manifesta tanto no contato físico com a pedra quanto na condução das relações entre as pessoas. O cuidado dedicado ao monumento refletiu-se no cuidado mútuo do grupo, estabelecendo a segurança como elemento de pertencimento.

Ao final da dinâmica, o ambiente revelou maior integração e consciência coletiva. Nas semanas seguintes, práticas mais seguras foram adotadas espontaneamente, e diferentes situações passaram a ser comunicadas com naturalidade. A compreensão de que preservar o sítio implica também proteger uns aos outros tornou-se parte do cotidiano de trabalho.

A experiência demonstrou que a conservação das Ruínas de São Miguel não depende apenas de técnica, mas de presença, diálogo e escuta ativa. No contexto do canteiro modelo, a segurança mostrou-se inseparável da memória, da responsabilidade compartilhada e do respeito à historicidade que antecede todos os que ali atuam.