Bases Históricas

Missões: territórios de encontros e histórias

As Missões vão muito além de conjuntos de sítios arqueológicos e ruínas em pedra e cal. Elas são territórios densamente habitados por memórias, narrativas e vivências que atravessam séculos, atualizando sentidos do passado no cotidiano das pessoas que vivem e circulam por essa região. As antigas reduções jesuítico-indígenas, longe de serem vestígios silenciosos de um tempo encerrado, continuam a produzir significados, afetos e disputas no presente.

Historicamente, as Missões se constituíram como um espaço de encontros e tensões entre diferentes mundos. O projeto missioneiro dos séculos XVII e XVIII articulou saberes europeus, sobretudo da Companhia de Jesus, com os conhecimentos, cosmologias e práticas dos povos indígenas, principalmente dos Guarani. A organização das reduções, a produção artística, a música, a arquitetura e a própria vida cotidiana revelam uma experiência profundamente híbrida, marcada tanto por processos de dominação colonial quanto por estratégias indígenas de apropriação, ressignificação e resistência.

Após o fim do projeto colonial das missões, esse território não se tornou um espaço vazio ou abandonado, como por muito tempo sugeriu a historiografia oficial. Ao longo do século XIX e início do XX, a região missioneira foi sendo continuamente ocupada e transformada por diferentes grupos sociais. Povos indígenas permaneceram circulando pela região, reelaborando seus vínculos com os antigos povoados, enquanto populações luso-brasileiras, afrodescendentes e, posteriormente, imigrantes europeus, como alemães, poloneses e italianos, passaram a integrar esse mosaico étnico-cultural. Cada um desses grupos estabeleceu relações com os remanescentes missioneiros, atribuindo-lhes novos usos, sentidos simbólicos e afetivos.

No século XX, com o avanço das políticas de patrimônio, as ruínas das Missões passaram a ser reinterpretadas como símbolos da identidade regional e nacional. Em 1922, as ruínas do templo de São Miguel foram reconhecidas como lugar histórico e monumento estadual; em 1938, foram tombadas como patrimônio nacional; em 1970, foram tombados os sítios de São João Batista, em Entre-Ijuís, São Nicolau, no município de mesmo nome, e São Lourenço Mártir, em São Luiz Gonzaga; e, em 1983, São Miguel foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

Esse longo processo de patrimonialização, entretanto, privilegiou uma narrativa monumental, centrada na herança jesuítica e nos grandes feitos do passado, frequentemente silenciando as experiências indígenas, populares e locais. As políticas de preservação produziram, assim, uma imagem oficial das Missões, ao mesmo tempo em que geraram tensões com as comunidades do entorno, que mantinham com esses bens relações tradicionais, cotidianas e devocionais.

Nas últimas décadas, novas abordagens têm ampliado esse olhar, reconhecendo as Missões como uma paisagem cultural viva, na qual patrimônio material e imaterial se entrelaçam. O registro do sítio de São Miguel Arcanjo como Tava: lugar de referência para o povo Guarani reconhece esse espaço como sagrado e evidencia a centralidade das cosmologias indígenas na compreensão desse território. Da mesma forma, as práticas religiosas, as narrativas orais, os causos, as festas, as emoções e os usos contemporâneos do passado missioneiro demonstram que esse patrimônio não se esgota nas ruínas consagradas. Ele se manifesta nas formas como as pessoas lembram, sentem, disputam e reinventam a história no presente.

Assim, falar das Missões é falar de diversidade, de camadas sobrepostas de tempo e de experiências plurais com e através do patrimônio. É reconhecer que esse território foi e continua sendo produzido por múltiplos atores, cujas histórias nem sempre encontram lugar nas narrativas oficiais, mas são fundamentais para compreender a riqueza cultural da região. As Missões permanecem como um espaço de diálogo entre passado e presente, no qual memória, identidade e pertencimento se constroem de forma dinâmica, revelando que o patrimônio, mais do que herança, é uma relação viva com a história.

Canteiro das Missões: políticas de patrimônio e escutas no presente

Ao longo do tempo, o patrimônio missioneiro foi sendo recoberto por sucessivas camadas de reconhecimento institucional. Tombamentos estaduais, proteção federal, inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, registros no campo do patrimônio imaterial e reconhecimentos em escala regional e internacional se sobrepõem sobre os mesmos lugares. Esse acúmulo de títulos, embora reforce a centralidade simbólica das Missões, também produz um cenário complexo de gestão, no qual diferentes esferas do poder público, instituições e comunidades passam a compartilhar, nem sempre de forma articulada, responsabilidades sobre o mesmo território patrimonial.

Essa sobreposição de políticas revela um aspecto fundamental das Missões contemporâneas: o patrimônio não é apenas um legado do passado, mas um campo vivo de disputas, negociações e expectativas. O que se preserva, como se preserva e para quem se preserva são questões que atravessam o cotidiano dos municípios missioneiros, dos órgãos federais e, de forma especialmente sensível, das comunidades indígenas M’byá Guarani. As ruínas, os sítios arqueológicos, o Museu das Missões e os lugares de referência cultural coexistem com cidades pequenas, com estruturas administrativas limitadas e com demandas sociais que extrapolam o campo estrito da conservação material.

As escutas realizadas no âmbito do Canteiro Modelo de Conservação das Missões evidenciam que a governança do patrimônio missioneiro enfrenta desafios estruturais. De um lado, gestores federais lidam com a necessidade de conciliar rigor técnico, preservação de longo prazo e uso social dos sítios, em um contexto de escassez de recursos humanos e financeiros. De outro, os gestores municipais operam em realidades demográficas reduzidas, com equipes enxutas, orçamentos limitados e forte expectativa de que o patrimônio atue como vetor de desenvolvimento econômico, especialmente por meio do turismo. Nesse cenário, as normas e restrições impostas pelas políticas de preservação nem sempre dialogam com as dinâmicas locais, gerando tensões, incompreensões e, por vezes, afastamento da comunidade em relação ao patrimônio.

Ao mesmo tempo, as narrativas trazidas pelas lideranças M’byá Guarani recolocam no centro do debate a dimensão viva e espiritual das Missões. Para os Guarani, lugares como São Miguel Arcanjo não são apenas vestígios históricos, mas territórios sagrados, atravessados por memórias ancestrais e formas próprias de relação com a terra. A Tava, reconhecida como lugar de referência para o povo Guarani, explicita os limites de uma política patrimonial centrada exclusivamente na materialidade e nos valores monumentais, exigindo abordagens que considerem território, cultura viva, autonomia e justiça social como partes indissociáveis da preservação.

As Missões evidenciam como o discurso oficial de patrimônio, ao privilegiar especialistas, critérios estéticos e narrativas universalizantes, tende a silenciar experiências locais, afetos e usos cotidianos do patrimônio. As escutas realizadas mostram que preservar as Missões hoje implica reconhecer o patrimônio como um campo político, atravessado por relações de poder, e assumir a necessidade de práticas mais inclusivas, participativas e éticas na gestão.

A partir dessas reflexões, o Canteiro Modelo de Conservação das Missões se propõe como um espaço de mediação entre diferentes saberes, temporalidades e interesses. Ao articular universidades, órgãos de preservação, gestores públicos e comunidades, o projeto busca contribuir para a construção de ações que visam articular ideias para propostas de gestão compartilhada, capazes de integrar conservação, educação patrimonial, acessibilidade, uso social e valorização das identidades que compõem o território missioneiro. Trata-se de compreender que a preservação das Missões não se sustenta apenas na proteção das pedras, mas na escuta contínua das pessoas que vivem, sentem e reinventam esse patrimônio no presente.

Assim, as Missões reafirmam seu caráter de paisagem cultural viva, onde memória, história, experiência e cidadania se articulam. Mais do que um passado a ser contemplado, elas nos colocam o desafio de construir, coletivamente, formas de cuidado com o patrimônio que reconheçam sua diversidade étnico-cultural, sua dimensão emocional e sua profunda vinculação com as lutas e esperanças das comunidades que seguem habitando e ressignificando esse território.