Pesquisa Pós-Doutorado

O projeto “Patrimônio cultural, poder e usos do passado: uma abordagem crítica das políticas de preservação em São Miguel das Missões (RS)”, desenvolvido pelo pós-doutorando Darlan de Mamann Marchi junto ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPel (PROGRAU/UFPel), está sendo financiado pela CAPES por meio do Programa Institucional de Pós-Doutorado (PIPD). O estudo foi integrado às ações do projeto Os Saberes das Missões: Canteiro Modelo de Conservação, em abril de 2025, sob a supervisão da Profa. Adriane Borda, a qual faz parte do corpo docente permanente do PROGRAU e da equipe do Projeto os Saberes das Missões.

A pesquisa tem como objetivo analisar criticamente as políticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil, tomando como estudo de caso o município de São Miguel das Missões, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO. O foco do projeto recai sobretudo sobre as políticas de patrimônio implementadas durante o regime ditatorial empresarial-militar, entre as décadas de 1960 e 1980, período marcado por práticas autoritárias de gestão, pela intensificação das políticas de turismo e por intervenções profundas no território e na vida comunitária.

Partindo da compreensão do patrimônio cultural como uma construção histórica atravessada por relações de poder, a pesquisa investiga os processos de construção, legitimação e implementação das políticas patrimoniais, com ênfase nos usos do passado missioneiro jesuítico-guarani e nas disputas simbólicas, políticas e sociais associadas a esses processos. Busca-se compreender como determinadas narrativas foram institucionalizadas e quais impactos produziram sobre a comunidade local, o espaço urbano e as memórias sociais.

Entre os objetivos centrais do projeto estão a identificação dos discursos e mecanismos que sustentaram as políticas de preservação em São Miguel das Missões, a avaliação de seus efeitos socioculturais de longo prazo e a análise das tensões entre patrimônio material, patrimônio imaterial e os saberes e práticas comunitárias. A partir dessa análise, o projeto discute criticamente os limites e permanências dos modelos tradicionais de preservação, bem como os entraves à implementação de formas de gestão patrimonial mais inclusivas, participativas e alinhadas às realidades contemporâneas.

Do ponto de vista teórico, o projeto dialoga com abordagens críticas do patrimônio cultural, dos usos do passado e das políticas de memória, mobilizando conceitos como “lugares de memória”, “discurso autorizado do patrimônio” e “emoções patrimoniais”. Metodologicamente, fundamenta-se sobretudo na pesquisa documental e na análise histórica de legislações, relatórios técnicos e discursos institucionais, articuladas, de forma complementar, à consideração das memórias comunitárias, orientando uma reflexão crítica sobre os efeitos sociais e simbólicos das políticas públicas de preservação.