{"id":127,"date":"2017-03-24T20:09:38","date_gmt":"2017-03-24T23:09:38","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/roquettepinto\/?p=127"},"modified":"2017-03-24T20:19:13","modified_gmt":"2017-03-24T23:19:13","slug":"projeto-de-oficinas-de-video-experimental-discente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/roquettepinto\/2017\/03\/24\/projeto-de-oficinas-de-video-experimental-discente\/","title":{"rendered":"Projeto de oficinas de v\u00eddeo experimental discente"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e9ssica Tha\u00eds Demarchi<br \/>\nMestranda Artes Visuais \/UFPel<\/p>\n<p>O presente relato pretende elucidar de maneira muito breve, um respiro a respeito da pesquisa  de mestrado que venho realizando no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes Visuais da Universidade Federal de Pelotas.<br \/>\nA pesquisa em quest\u00e3o consiste em um projeto de oficinas de v\u00eddeo experimental discente na conjuntura do ensino de Arte como uma tentativa de criar poss\u00edveis ant\u00eddotos que se contraponham aos est\u00edmulos uniformizadores das subjetividades difundidos pela grande m\u00eddia. No trabalho em quest\u00e3o a grande m\u00eddia refere-se, sobretudo, \u00e0 ind\u00fastria cultural no sentido dos canais de maior audi\u00eancia da televis\u00e3o aberta brasileira .<br \/>\nAs discuss\u00f5es acerca da ind\u00fastria cultural ser\u00e3o tecidas principalmente com base em Theodor Adorno (2016) e Guy Debord (1997). Mas, como nesta ocasi\u00e3o daremos \u00eanfase ao programa das oficinas que ser\u00e3o realizadas neste ano com uma turma da gradua\u00e7\u00e3o em Artes Visuais da UFPel na disciplina de \u201cAteli\u00ea de V\u00eddeo\u201d e outra turma de ensino fundamental, por hora \u00e9 mais importante que falemos um pouco sobre a l\u00f3gica ecos\u00f3fica em F\u00e9lix Guattari (2001).<br \/>\nAtrav\u00e9s de poucas e densas palavras, o autor esclarece que a nossa experi\u00eancia de vida vem sendo gangrenada pela m\u00eddia. O presente trabalho est\u00e1 impulsionado a buscar m\u00e9todos para nadar em uma mar\u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 essa \u201cgangrena\u201d causada pelos est\u00edmulos uniformizadores da consci\u00eancia emitidos pelos meios de massa. Nesse sentido, o contato com a ecosofia na pesquisa auxiliou na percep\u00e7\u00e3o de que a produ\u00e7\u00e3o discente de audiovisual experimental poderia auxiliar na produ\u00e7\u00e3o de \u201cant\u00eddotos para a uniformiza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e telem\u00e1tica, o conformismo das modas, as manipula\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o pela publicidade, pelas sondagens etc\u201d (GUATTARI, p. 16).<br \/>\nExplorando rela\u00e7\u00f5es de poder existentes nas estruturas de bens, de servi\u00e7os e de produ\u00e7\u00e3o de signos que vem se instaurando na sociedade, Guattari explica que a rela\u00e7\u00e3o da subjetividade (seja ela vegetal, social, c\u00f3smica ou animal) com sua exterioridade vem sofrendo um processo de involu\u00e7\u00e3o, de forma que o singular vai dissipando suas peculiaridades. Buscando uma reflex\u00e3o sobre o futuro das maneiras de viver em sociedade no planeta, o autor complementa dizendo que:<\/p>\n<p>As forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e as inst\u00e2ncias executivas parecem totalmente incapazes de apreender essa problem\u00e1tica no conjunto de suas implica\u00e7\u00f5es. Apesar de estarem come\u00e7ando a tomar uma consci\u00eancia parcial dos perigos mais evidentes que amea\u00e7am o meio ambiente natural de nossas sociedades, elas geralmente se contentam em abordar o campo dos danos industriais e, ainda assim, unicamente numa perspectiva tecnocr\u00e1tica, ao passo que s\u00f3 uma articula\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica \u2014 a que chamo ecosofia \u2014 entre os tr\u00eas registros ecol\u00f3gicos (o do meio ambiente, o das rela\u00e7\u00f5es sociais e o da subjetividade humana) \u00e9 que poderia esclarecer convenientemente tais quest\u00f5es. (2001, p.8)<\/p>\n<p>O autor v\u00ea na pr\u00e1tica ecos\u00f3fica, um vigor de confronto contra as brutas consequ\u00eancias do capitalismo p\u00f3s-industrial, o qual ele prefere denominar como Capitalismo Mundial Integrado (CMI). Para ele, os princ\u00edpios cultivados por esta norma econ\u00f4mica est\u00e3o propensos a espargir sua pujan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 pelos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de massa. A corpulenta parceria estabelecida entre o sistema regido pelo capital e a m\u00eddia auxilia na conserva\u00e7\u00e3o dos valores preconceituosos e segregativos entre imigrados, mulheres, negros e toda uma gigante por\u00e7\u00e3o populacional que tem sido incansavelmente inferiorizada e explorada.<br \/>\nPensando nas formas como a grande m\u00eddia nutre essas sementes de domina\u00e7\u00e3o e consumo, as oficinas de v\u00eddeo experimental s\u00e3o pensadas como um instrumento que auxilie os jovens em um processo em que eles sejam produtores de significa\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o apenas consumidores. Mais do que isso, deseja-se problematizar os conte\u00fados veiculados pelos meios de massa lan\u00e7ando sobre eles um olhar mais cr\u00edtico e sens\u00edvel do que muitos est\u00e3o acostumados. Al\u00e9m de questionar esses materiais, ser\u00e3o exploradas tamb\u00e9m videoartes e quaisquer outros audiovisuais que possam ajudar no processo de uma ressingulariza\u00e7\u00e3o que se coloque na linha de combate contra a estandardiza\u00e7\u00e3o dos comportamentos alimentada pela m\u00eddia atrav\u00e9s da reprodu\u00e7\u00e3o c\u00edclica, com novas roupagens, dos mesmos tipos de informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOptou-se pelo v\u00eddeo experimental  uma vez que, j\u00e1 que o intento \u00e9 problematizar os tra\u00e7os da grande m\u00eddia, \u00e9 importante que n\u00e3o compactuemos com seus padr\u00f5es est\u00e9ticos de imagem. Por isso, o experimental servir\u00e1 como a tentativa da descoberta do novo sem compromisso com o circuito comercial, como uma produ\u00e7\u00e3o de signos que surgem de uma experi\u00eancia em que os estudantes possam estar o mais livres quanto for poss\u00edvel para criar.<br \/>\nNesse sentido, o processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o ponto chave das oficinas. N\u00e3o ser\u00e3o realizadas aulas destinadas exclusivamente para a explicita\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas tradicionais da produ\u00e7\u00e3o audiovisual como roteiro, dire\u00e7\u00e3o, ilumina\u00e7\u00e3o, enquadramentos ou edi\u00e7\u00e3o. Conforme as necessidades dos alunos forem aflorando, poderemos explorar algumas dessas t\u00e9cnicas, mas sem que haja a necessidade de um dom\u00ednio t\u00e9cnico avan\u00e7ado ou com ideais visuais enaltecidos pela grande m\u00eddia.<br \/>\nEnt\u00e3o, o desenvolvimento das oficinas ser\u00e1 feito atrav\u00e9s de bate papos coletivos que nos ajudar\u00e3o a discutir os modos de vida na contemporaneidade, as implica\u00e7\u00f5es dos meios de massa em nossos modos de agir e a l\u00f3gica ecos\u00f3fica. Alguns assuntos ser\u00e3o levados como sugest\u00e3o de pauta, mas conforme os participantes da turma forem se conhecendo, poderemos pensar quais ser\u00e3o os t\u00f3picos abordados para que melhor atendam aos interesses e necessidades do grupo.<br \/>\nAl\u00e9m dos di\u00e1logos, tamb\u00e9m ser\u00e3o propostas algumas experi\u00eancias na tentativa de colocar em pr\u00e1tica algumas das ideias levantadas durantes as discuss\u00f5es. Nesse processo \u00e9 que ser\u00e1 proposta a produ\u00e7\u00e3o dos v\u00eddeos experimentais, ou seja, n\u00e3o haver\u00e3o momentos preestabelecidos para a produ\u00e7\u00e3o audiovisual e para as experi\u00eancias. Eles estar\u00e3o imbricados um no outro e v\u00e3o ir acontecendo conforme o ritmo em que cada um dos participantes for sentindo-se capaz e desejar produzir sentidos para expressar os pensamentos que forem surgindo.<br \/>\nExemplo de uma dessas experi\u00eancias pode ser visto atrav\u00e9s de um breve esbo\u00e7o daquilo que poder\u00e1 ser uma das oficinas chamada de Oficina da luneta de papel:<br \/>\nNesta ocasi\u00e3o, ser\u00e1 proposto um recorte singular no olhar: os participantes ser\u00e3o provocados a percorrer trajetos cotidianos, por\u00e9m segurando um canudo &#8211; a luneta em quest\u00e3o &#8211; feito de papel sobre um olho, sendo que o outro olho estar\u00e1 fechado. A experi\u00eancia visa proporcionar uma ressingulariza\u00e7\u00e3o do olhar por meio de um desconforto moment\u00e2neo (causado pela limita\u00e7\u00e3o da capacidade visual) que busca desterritorializar um olhar acostumado\/viciado pelos est\u00edmulos midi\u00e1ticos. A pequena luneta de papel, inspirada em uma a\u00e7\u00e3o realizada por Cl\u00e1udio Tarouco de Azevedo (2013), \u00e9 capaz de gerar uma nova moldura ao olhar, fazendo com que este precise adaptar-se \u00e0 nova condi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEssa a\u00e7\u00e3o vislumbra \u201cuma est\u00e9tica que brota de um recorte, de um novo que surge com a limita\u00e7\u00e3o do olhar e que, paradoxalmente, amplia esse olhar\u201d (ibid., p. 234). Atrav\u00e9s da moment\u00e2nea limita\u00e7\u00e3o do olhar afunilado no canudo, nasce a provoca\u00e7\u00e3o de uma maior aten\u00e7\u00e3o aos detalhes e dire\u00e7\u00f5es que v\u00e3o sendo percorridas. Em fun\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia peculiar, o olhar fica \u00e0 margem de modifica\u00e7\u00f5es que tendem \u00e0 agu\u00e7ar sua sensibiliza\u00e7\u00e3o, culminando em um olhar que desabrolha desse enquadramento singularmente meticuloso.<br \/>\nEsta oficina j\u00e1 foi realizada pela pesquisadora uma vez sob o t\u00edtulo V\u00eddeo Experimental \u2013 Olhar Sens\u00edvel como um teste. A a\u00e7\u00e3o foi executada de maneira volunt\u00e1ria na 4\u00ba Semana Acad\u00eamica dos Cursos T\u00e9cnicos de Comunica\u00e7\u00e3o Visual e Design de Interiores, promovida pela Coordenadoria de Design do Instituto Federal Sul-rio-grandense, campus Pelotas. A produ\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise dos dados sobre a experi\u00eancia est\u00e3o em curso e ser\u00e3o apresentadas no primeiro trimestre de 2018, na ocasi\u00e3o da disserta\u00e7\u00e3o referente ao trabalho do qual estamos falando.<br \/>\nAlgumas das outras oficinas que ser\u00e3o propostas giram em torno de experi\u00eancias relacionadas \u00e0 devires humanos e n\u00e3o humanos, \u00e0 quest\u00e3o da representatividade, da solidariedade e de possibilidades de reciclar materiais ao inv\u00e9s de consumir desenfreadamente.<br \/>\nPor interm\u00e9dio das oficinas, vislumbra-se um trabalho que possa ramificar em frutuosas possibilidades de rela\u00e7\u00f5es humanas e inumanas solid\u00e1rias e de estrutura\u00e7\u00e3o de um corpo social que se institua atrav\u00e9s de subjetividades enriquecidas pela valoriza\u00e7\u00e3o das formas raras de vida, da dessemelhan\u00e7a e das peculiaridades.<br \/>\nA a\u00e7\u00e3o pretende produzir dados que possam dar suporte para outros educadores que estejam dispostos a construir um processo de ensino e aprendizagem pluralizado e que, mais do que respeitar, valorize a potencialidade criadora da diferen\u00e7a e da singularidade como possibilidade de novos modos de vida mais justos e solid\u00e1rios.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>ADORNO. Theodor. Ind\u00fastria cultural e sociedade. 10. ed. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2016.<br \/>\nAZEVEDO, C. T. Por uma educa\u00e7\u00e3o ambiental biorrizom\u00e1tica: cartografando devires e clinamens atrav\u00e9s de processos de cria\u00e7\u00e3o e po\u00e9ticas audiovisuais. 2013. 350 f. Tese (Doutorado em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental) \u2013 Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande. 2013.<br \/>\nDEBORD. Guy. A sociedade do espet\u00e1culo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.<br \/>\nGUATTARI, F\u00e9lix. As tr\u00eas ecologias. 11. ed. Campinas: Papirus, 2001.<br \/>\nMACHADO, Arlindo. Pioneiros do v\u00eddeo e do cinema experimental na Am\u00e9rica Latina. Significa\u00e7\u00e3o: Revista de Cultura Audiovisual, S\u00e3o Paulo, v. 37, n. 33, p. 21-40, jun.\/set. 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9ssica Tha\u00eds Demarchi Mestranda Artes Visuais \/UFPel O presente relato pretende elucidar de maneira muito breve, um respiro a respeito da pesquisa de mestrado que venho realizando no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes Visuais da Universidade Federal de Pelotas. 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