{"id":117,"date":"2025-03-30T14:18:41","date_gmt":"2025-03-30T17:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/reportagememcurso\/?p=117"},"modified":"2025-04-05T21:29:42","modified_gmt":"2025-04-06T00:29:42","slug":"personagens-historicos-que-nao-aprendemos-na-escola-conheca-alvaro-ayala-seus-legados-para-a-historia-e-a-razao-para-a-falta-da-memoria-historica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/reportagememcurso\/2025\/03\/30\/personagens-historicos-que-nao-aprendemos-na-escola-conheca-alvaro-ayala-seus-legados-para-a-historia-e-a-razao-para-a-falta-da-memoria-historica\/","title":{"rendered":"Personagens hist\u00f3ricos que n\u00e3o aprendemos na escola: conhe\u00e7a \u00c1lvaro Ayala, seus legados para a hist\u00f3ria e a raz\u00e3o para a falta da mem\u00f3ria hist\u00f3rica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Marco Lapolli Ayala<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Num tempo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>P\u00e1gina infeliz da nossa hist\u00f3ria<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Passagem desbotada da mem\u00f3ria<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Das nossas novas gera\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Dormia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>A nossa p\u00e1tria-m\u00e3e t\u00e3o distra\u00edda<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Sem perceber que era subtra\u00edda<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Em tenebrosas transa\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Seus filhos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Erravam cegos pelo continente<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Levavam pedras feito penitentes<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Erguendo estranhas catedrais<\/em>\u201d<br \/>\nTrecho da m\u00fasica \u201cVai Passar\u201d, composta por Chico Buarque<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XX, dentre tantos momentos hist\u00f3ricos at\u00edpicos e obst\u00e1culos para a forma\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o harmoniosa \u2013 tanto no Brasil quanto no mundo \u2013 surgem diversos grupos de diferentes ideologias pol\u00edticas e sociais. E \u00e9 nos movimentos das camadas mais populares e dos trabalhadores que surge um cidad\u00e3o que provocou grande impacto e inc\u00f4modo na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul e tamb\u00e9m da na\u00e7\u00e3o brasileira: \u00c1lvaro Leonardi Ayala (1923-1999).<br data-start=\"546\" data-end=\"549\" \/>Ayala, filho de Andr\u00e9 Jer\u00f4nimo Ayala e Rosa Leonardi Ayala, era um oper\u00e1rio do setor eletricit\u00e1rio que viveu at\u00e9 o fim de sua vida em fun\u00e7\u00e3o de lutas contra a desigualdade social, sempre sendo um homem que adorava dialogar, conscientizar a popula\u00e7\u00e3o sobre o que estava acontecendo no Brasil. Segundo o advogado Victor Nu\u00f1ez, Ayala era muito habilidoso no trato com as pessoas, bom argumentador, n\u00e3o brigava, n\u00e3o era radical no relacionamento com os outros \u2013 mesmo que, conforme Lucy Ayala, uma das filhas de \u00c1lvaro, fosse um homem que n\u00e3o era convencido, mas sim convencedor \u2013 e era algu\u00e9m que priorizava o bem-estar social acima de tudo, sem supervalorizar interesses individuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Se voc\u00ea \u00e9 capaz de se indignar cada vez que uma justi\u00e7a \u00e9 cometida no mundo, ent\u00e3o somos companheiros. \u00c9 o que importa<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Bertold Brecht<\/p>\n<p>Ayala se comprometeu pela maior parte da sua vida para lutar em prol das melhores condi\u00e7\u00f5es de vida dos seres humanos, al\u00e9m de se dedicar \u00e0 classe popular e prolet\u00e1ria, por meio de sua participa\u00e7\u00e3o no sindicalismo ga\u00facho e brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Vivemos arrochados por uma pol\u00edtica econ\u00f4mica internacional que impede nossos avan\u00e7os pol\u00edticos [&#8230;]. Assim como Jango, sentimos tamb\u00e9m saudade de um l\u00edder aut\u00eantico e democr\u00e1tico de nossa categoria profissional. Ayala foi nosso companheiro, que veio do RS trazendo uma bagagem de conhecimento, lutas, honradez, dignidade [&#8230;]. Encontramos no companheiro Ayala a disposi\u00e7\u00e3o de luta e todo apoio moral<\/em>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Clodsmidt Riani, ex-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores da Ind\u00fastria (CNTI)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong data-start=\"31\" data-end=\"59\">A VIDA POL\u00cdTICA DE AYALA<\/strong><br data-start=\"59\" data-end=\"62\" \/>\u00c9 necess\u00e1rio entender o contexto anterior e durante o per\u00edodo de ativismo de \u00c1lvaro para compreender seu legado.<br data-start=\"174\" data-end=\"177\" \/>A vida pol\u00edtica na \u00e1rvore geneal\u00f3gica de Ayala come\u00e7a antes dele. A fam\u00edlia de seu pai era anarquista de origem uruguaia e migrou para Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, antes de \u00c1lvaro nascer. Andr\u00e9 Ayala acreditava que \u201co proletariado s\u00f3 ser\u00e1 livre no dia em que o \u00faltimo burgu\u00eas for enforcado com as tripas do \u00faltimo padre\u201d. Assim, Ayala foi muito influenciado por seu pai a seguir uma vida com um posicionamento pol\u00edtico voltado para a classe oper\u00e1ria (outros parentes de \u00c1lvaro, como os j\u00e1 citados Andr\u00e9 e Rosa, al\u00e9m de seus filhos que ainda ser\u00e3o mencionados, ter\u00e3o seus nomes citados junto ao sobrenome. Ao usar apenas o sobrenome \u201cAyala\u201d, refere-se ao personagem principal deste texto: \u00c1lvaro).<br data-start=\"888\" data-end=\"891\" \/>Em 1941, Ayala se juntou ao PCB (Partido Comunista do Brasil), onde, sob orienta\u00e7\u00e3o do partido, passou a atuar nas lutas populares e na conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] ele [Ayala] tinha uma vis\u00e3o, apesar de ser muito direcionada \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ao comunismo, que era o processo ideol\u00f3gico dele, mas uma vis\u00e3o de mundo extremamente cr\u00edtica, sabe? Ele conseguia entender o que estava acontecendo em todos os demais setores e entender que [&#8230;] a postura dele estava ajudando na constru\u00e7\u00e3o de um mundo diferente. Ele realmente acreditava que essa compreens\u00e3o atrav\u00e9s do comunismo levaria as pessoas a uma sociedade melhor e lutava diariamente com isso. Isso \u00e9 muito evidente no trabalho dele\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Su\u00e9llen De Medeiros Cortes, historiadora, professora de Hist\u00f3ria, mestranda em Hist\u00f3ria na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e influenciadora digital<\/p>\n<p>Em 1944, ap\u00f3s alguns anos trabalhando na Cia. Estadual de Energia El\u00e9trica (CEEE), se juntou ao sindicato dos eletricit\u00e1rios. A sua participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a partir de ent\u00e3o, come\u00e7a a crescer cada vez mais ao longo do tempo e ser mais valorizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cE, o Ayala, eu acho que pra quem foi contempor\u00e2neo dele, viveu na mesma \u00e9poca, tinha uma consci\u00eancia da lideran\u00e7a sindical, da lideran\u00e7a pol\u00edtica que ele era. Tanto que, na documenta\u00e7\u00e3o, fica muito claro que ele foi extremamente consultado. As pessoas procuravam ele pra saber o que ele achava das coisas. Ent\u00e3o, ele era uma refer\u00eancia. E \u00e9 curioso como a hist\u00f3ria, as vezes, vai criando as suas narrativas e vai contando algumas coisas que, quando a gente cruza entrevistas que foram dadas pelo Ayala com as situa\u00e7\u00f5es que estavam acontecendo naquela \u00e9poca, a gente n\u00e3o percebe, ou melhor, percebe pouco n\u00e9, que ele tinha uma narrativa daquele assunto. Vou te dar um exemplo; quando o Brizola fez os \u2018batalh\u00f5es da legalidade\u2019, tudo que a gente tem de produ\u00e7\u00e3o intelectual diz que o Brizola foi a lideran\u00e7a dos batalh\u00f5es da legalidade. O Ayala, ele dava algumas entrevistas dizendo assim: \u2018N\u00e3o, foram os movimentos sociais e os movimentos sindicais, que se uniram pelos batalh\u00f5es da legalidade. N\u00f3s trein\u00e1vamos pra pegar em armas e fazer uma revolu\u00e7\u00e3o\u2019. Ent\u00e3o, n\u00e3o foi t\u00e3o bonitinho quanto essa vis\u00e3o do Brizola como se construiu, foi muito mais radical como a vis\u00e3o que eles tinham.\u201d <\/em><br \/>\nSu\u00e9llen De Medeiros Cortes<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1950 a 1960, Ayala realizou diversos feitos. Com seu amigo \u2013 tamb\u00e9m atuante no sindicato da energia el\u00e9trica \u2013 Jorge Campezatto, comandou o sindicato (\u00c1lvaro como secret\u00e1rio executivo e seu parceiro como presidente). Posteriormente, Ayala se manteve na \u00e1rea sindical, enquanto Campezatto se direcionou para a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica partid\u00e1ria. Al\u00e9m disso, \u00c1lvaro foi presidente do Conselho Estadual de Trabalhadores do Rio Grande do Sul, fundador do Comando Sindical de Porto Alegre, que unia todos os sindicatos da cidade, delegado da CNTI e representante do Rio Grande do Sul no Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), sob a lideran\u00e7a do presidente Clodsmidt Riani.<br data-start=\"706\" data-end=\"709\" \/>Durante seu auge como pol\u00edtico e ativista, teve a oportunidade de viajar para fora do pa\u00eds para participar de reuni\u00f5es e congressos, inclusive na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<br data-start=\"871\" data-end=\"874\" \/>Ayala foi preso durante a ditadura militar. Ap\u00f3s ser solto, anistiado e readmitido no final do regime, retornou \u00e0s lutas sociais. Mesmo sendo mais velho, continuou viajando pelo pa\u00eds e se mantendo ativo nos movimentos populares em busca de uma na\u00e7\u00e3o mais justa. No entanto, teve uma atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00e3o presente como no per\u00edodo entre as ditaduras do Brasil.<br data-start=\"1227\" data-end=\"1230\" \/>Considerando que Ayala come\u00e7ou a participar dos movimentos estudantis, sindicatos e partidos aos 18 anos, ele militou desde o fim do Estado Novo de Get\u00falio Vargas at\u00e9 a fase da Nova Ordem Mundial, no final do mil\u00eanio. Muitos momentos hist\u00f3ricos e a tens\u00e3o social marcaram esse per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>O Brasil que Ayala esteve inserido \u2013 do Estado Novo \u00e0 Jo\u00e3o Goulart<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201c<em>N\u00e3o era s\u00f3 aqui no Rio Grande do Sul, tch\u00ea. Em todo o pa\u00eds, a origem do movimento sindical est\u00e1 no anarquismo, mais precisamente na corrente anarco-sindicalista, que chegou atrav\u00e9s da imigra\u00e7\u00e3o de italianos, espanh\u00f3is e portugueses. Foram eles os primeiros a trazer, junto com a pequena bagagem, o idealismo da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. At\u00e9 ent\u00e3o, o movimento oper\u00e1rio era um caso de pol\u00edcia. As respostas \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es eram as pris\u00f5es e os espancamentos. Com a influ\u00eancia dos anarco-sindicalistas surgem os sindicatos dos trabalhadores em Chap\u00e9us, dos Trabalhadores no Com\u00e9rcio, dos Pedreiros, at\u00e9 que, na d\u00e9cada de 30, come\u00e7am a se formar as chamadas Uni\u00f5es Sindicais. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Mas as origens do movimento sindical s\u00e3o bem anteriores. Em 1918 os trabalhadores de S\u00e3o Paulo fizeram uma greve geral que paralisou S\u00e3o Paulo. A maior metr\u00f3pole do sul do pa\u00eds, tch\u00ea, esteve nas m\u00e3os dos trabalhadores e, como na \u00e9poca a influ\u00eancia dos anarquistas era muito grande, n\u00e3o havia, infelizmente, a necess\u00e1ria compreens\u00e3o pol\u00edtica. Hoje, se consegu\u00edssemos com uma greve dominar uma cidade como S\u00e3o Paulo, o fato nos levaria imediatamente a buscar o poder pol\u00edtico. E os anarquistas em 17, 18, n\u00e3o quiseram o poder pol\u00edtico. Queriam o poder econ\u00f4mico. N\u00e3o foram para o pal\u00e1cio do governo, foram distribuir comida para o povo. As classes dominantes, organizadas, passando o rev\u00e9s, sacudiram a poeira e tomaram conta da situa\u00e7\u00e3o<\/em><em>\u201d<br \/>\n<\/em>Ayala<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"31\" data-end=\"541\">No come\u00e7o de sua vida pol\u00edtica, em 1941, Ayala presenciou a ditadura de Get\u00falio Vargas e a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o ent\u00e3o ditador adotava posturas similares ao nazifascismo e havia quadros simpatizantes de Hitler. Em 1940, o pr\u00f3prio Get\u00falio, a bordo de Minas Gerais, fez um discurso favor\u00e1vel ao fascismo. Os atos p\u00fablicos da \u00e9poca eram intensos para for\u00e7ar Vargas a tomar iniciativas contra o Eixo. Em 1942, o Brasil rompeu rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com a Alemanha e a It\u00e1lia, al\u00e9m de declarar guerra.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"543\" data-end=\"1029\">Com o fim do Estado Novo, surgiram os governos populistas. Esse car\u00e1ter de lideran\u00e7a \u00e9 basicamente um apelo ao povo, no qual o crucial era ter a popula\u00e7\u00e3o do seu lado, no seguinte sentido: &#8220;Eu, como presidente, n\u00e3o preciso ter o apoio de pol\u00edticos, parlamentares e partidos; tendo os cidad\u00e3os, isso \u00e9 o que importa&#8221;. Assim, de modo geral, os l\u00edderes populistas n\u00e3o resolviam todos os empecilhos sociais, mas buscavam medidas para conquistar a credibilidade do povo e se manter no poder.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1031\" data-end=\"1952\">Embora, ap\u00f3s a queda de Vargas, tenha havido um trabalho de redemocratiza\u00e7\u00e3o, algumas pessoas queriam Get\u00falio de volta \u00e0 posse por medo de perder os direitos trabalhistas conquistados por ele (movimento conhecido como Queremismo). Depois do Estado Novo, Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente do pa\u00eds. No entanto, ele buscou barrar e impedir os movimentos sociais e sindicais, manteve posturas e opress\u00f5es de car\u00e1ter nazifascista, cassou os registros e mandatos dos 15 parlamentares eleitos pelo PCB \u2013 1 senador e 14 deputados federais \u2013 com apoio de press\u00f5es reacion\u00e1rias, fez o Partido Comunista cair na clandestinidade, assim como a Confedera\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores do Brasil, entre outros feitos contra a classe oper\u00e1ria. O per\u00edodo de lideran\u00e7a de Dutra foi marcado pela privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos fundamentais \u2013 como energia, g\u00e1s, telefone e transportes \u2013 que ficaram sob controle de empresas multinacionais.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1954\" data-end=\"2360\">De Get\u00falio Vargas (na sua vers\u00e3o constitucionalista) ao governo de Juscelino Kubitschek, houve um levante popular, do sindicalismo, da luta contra o peleguismo \u2013 que ser\u00e1 explicado posteriormente \u2013 e de for\u00e7as progressistas. Get\u00falio prop\u00f4s liberdades pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es anti-imperialistas, conquistando certo apoio do povo. Tanto que o suic\u00eddio de Vargas agitou ainda mais a popula\u00e7\u00e3o em suas lutas sociais.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2362\" data-end=\"2547\">O sucessor de Get\u00falio, Juscelino, com seu plano de &#8220;50 anos em 5&#8221;, trouxe grandes avan\u00e7os industrialistas e progressistas, fugindo de tradicionalismos e agradando a classe trabalhadora.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2549\" data-end=\"2604\">Em 1961, J\u00e2nio Quadros foi eleito presidente do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>A rea\u00e7\u00e3o encontrou J\u00e2nio Quadros, um l\u00edder populista de alto carisma e com grande capacidade de chamar o povo pra si [&#8230;] contra o candidato do movimento sindical e dos movimentos progressista e nacionalista, General Lott, que, apesar de reacion\u00e1rio e conservador, tinha um compromisso com as for\u00e7as populares. [&#8230;] J\u00e2nio faz um governo com os maiores absurdos: pro\u00edbe rinha de galo e mai\u00f4 de duas pe\u00e7as. Por outro lado, condecora Che Guevara com a Ordem Superior da Medalha do Cruzeiro do Sul<\/em>\u201d<br \/>\nAyala<\/p>\n<p>No governo de J\u00e2nio e, alguns meses depois, de Jo\u00e3o Goulart (Jango), foi um momento em que todas as esquerdas e for\u00e7as nacionalistas se uniram, segundo Ayala. Foi uma fase de alta conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u2013 tanto urbana, quanto a rural, onde era mais dif\u00edcil de chegar informa\u00e7\u00f5es por estarem longe dos grandes centros dos munic\u00edpios \u2013 e do aumento do n\u00famero de greves e manifesta\u00e7\u00f5es, reivindicando reformas agr\u00e1rias (redistribui\u00e7\u00e3o de terras) e urbanas (melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para os trabalhadores).<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio curioso que demonstra as \u00f3timas oportunidades que Ayala teve foi justamente nesse governo controverso de 1961. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, \u00e9 encaminhado por J\u00e2nio Quadros para a Confer\u00eancia de Ministros das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, em Montevideo, e leva Ayala \u2013 ent\u00e3o presidente e fundador do Comando Sindical de Porto Alegre e delegado da CNTI \u2013\u00a0 junto a ele. E l\u00e1, tiveram a honra de estar em contato com diversas pessoas e pol\u00edticos importantes, inclusive, ouvir um discurso hist\u00f3rico de Che Guevara. A partir dessa pron\u00fancia, Ayala chegou \u00e0 seguinte conclus\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Se houve ali uma coisa que o imperialismo entendeu como li\u00e7\u00e3o foi: ou eles acabavam com a liberdade na Am\u00e9rica Latina, ou seriam derrubados. A for\u00e7a do discurso de Che foi fant\u00e1stica\u201d<br \/>\n<\/em>Ayala<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E, assim como previsto nessa afirma\u00e7\u00e3o, o que \u00c1lvaro sup\u00f4s, aconteceu.<\/p>\n<p><strong>O Brasil que Ayala esteve inserido &#8211; ditadura civil-militar e a influ\u00eancia da Guerra Fria<\/strong><\/p>\n<p>Em 1964, se inicia a segunda e \u00faltima ditadura que j\u00e1 existiu no Brasil. O golpe de Estado e a promulga\u00e7\u00e3o do primeiro Ato Institucional viria a mudar completamente o rumo da hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o. Vale lembrar que o AI 1 previu a exclus\u00e3o de 441 civis das vias p\u00fablicas; a suspens\u00e3o de direitos pol\u00edticos de 102 cidad\u00e3os; cassa\u00e7\u00e3o de mandatos legislativos; a permiss\u00e3o para Castello Branco prender indiv\u00edduos considerados perigosos \u00e0 p\u00e1tria por ele e pelos militares; a exonera\u00e7\u00e3o e aposentadoria \u00e0s for\u00e7as de alguns funcion\u00e1rios p\u00fablicos; e o aumento dos poderes dos ditadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>O que eles n\u00e3o conseguiram em 51 e em 61 eles conseguiram em 64. E usaram t\u00e9cnicas muito avan\u00e7adas, j\u00e1 com especialistas do Servi\u00e7o Secreto Norte-Americano trabalhando aqui<\/em>\u201d<br \/>\nAyala<\/p>\n<p>Essa atitude foi tomada por conta do medo causado pelas iniciativas de Jo\u00e3o Goulart como presidente (ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros). As reformas de base \u2013 que previam mudan\u00e7as agr\u00e1rias, educacionais, tribut\u00e1rias, administrativas e urbanas \u2013 do ent\u00e3o l\u00edder do pa\u00eds foram muito apoiados pelos movimentos sociais e oper\u00e1rios. Ent\u00e3o, para evitar aplicar essa reforma, que poderia contribuir para a evolu\u00e7\u00e3o das classes populares e dos trabalhadores, al\u00e9m do avan\u00e7o do Comunismo, realizou-se o golpe militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>A inten\u00e7\u00e3o dos militares era muito mais evitar os movimentos reformistas em vez de ter o pr\u00f3prio poder<\/em>\u201d<br \/>\nLucy Ayala, jornalista aposentada e filha de \u00c1lvaro Ayala<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"31\" data-end=\"464\">O contexto da Guerra Fria tamb\u00e9m ajudou a formar o novo cen\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas tamb\u00e9m na Am\u00e9rica do Sul. Os movimentos pr\u00f3-socialismo cresceram com a influ\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS), assim como os pr\u00f3prios sindicatos, manifesta\u00e7\u00f5es jovens e estudantis. O medo dessa expans\u00e3o, por parte do outro lado da Guerra Fria, o capitalista, culminou nesse \u201cimperialismo\u201d (segundo palavras de Ayala) tomando atitudes para cont\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"466\" data-end=\"1232\">Embora a civiliza\u00e7\u00e3o harmoniosa tenha ficado claramente mais distante de ser alcan\u00e7ada, havia divis\u00f5es entre os cidad\u00e3os sobre quem era pr\u00f3 e contra a ditadura. Embora a classe popular, de um modo geral, estivesse contente com a presid\u00eancia de Jo\u00e3o Goulart, houve indiv\u00edduos, sejam elitistas ou n\u00e3o, que aprovaram o golpe. Al\u00e9m disso, de acordo com Lucy Ayala, os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa tamb\u00e9m eram divididos, e, em Porto Alegre, as maiores m\u00eddias eram o \u201c\u00daltima Hora\u201d \u2013 que agradava as classes inferiorizadas e, com a ditadura, teve suas atividades proibidas, vindo a se transformar no jornal \u201cZero Hora\u201d \u2013 e o Correio do Povo. Posto isso, havia registros de polariza\u00e7\u00e3o e distin\u00e7\u00f5es nas opini\u00f5es frente ao caos social enfrentado no s\u00e9culo at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1234\" data-end=\"1935\">Sob esse cen\u00e1rio, a opress\u00e3o era uma presen\u00e7a marcante. Os sindicatos e movimentos oper\u00e1rios eram perseguidos. A institui\u00e7\u00e3o dos AI\u2019s permitiu a pris\u00e3o e tortura de pessoas, o que ia al\u00e9m de pol\u00edticos: qualquer um que fosse considerado uma amea\u00e7a \u00e0 p\u00e1tria e se posicionasse de maneira oposta ao regime estava sujeito \u00e0 domina\u00e7\u00e3o. Todos os civis perderam grande parte de seus direitos. Ayala e outros sindicalistas, ativistas, trabalhadores e amigos dele foram capturados. As fam\u00edlias dos detentos tamb\u00e9m eram pressionadas em meio a essas circunst\u00e2ncias. Muitos foram mortos e desaparecidos. Ayala, por exemplo, foi preso algumas vezes, mas s\u00f3 foi anistiado em 1979 e readmitido no seu emprego em 1981.<\/p>\n<p><strong>O Brasil que Ayala esteve inserido \u2013 a batalha contra o peleguismo<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"106\" data-end=\"741\">O \u201cpelego\u201d \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o para o l\u00edder sindical que media interesses entre sindicato e governo, permitindo a atua\u00e7\u00e3o de governantes no sindicato ou adotando atitudes e posturas que favoreciam as autoridades governamentais. O pelego \u00e9 o traidor do movimento sindical, uma vez que o sindicalismo surge justamente como uma a\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00e3o contra as autoridades do pa\u00eds, estado ou munic\u00edpio. Segundo Ayala, vencer o peleguismo n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. Era comum que, com tudo pronto para acontecer uma assembleia sindical, o Minist\u00e9rio chegasse e proibisse a reuni\u00e3o. As reuni\u00f5es das categorias fundamentais eram as mais afetadas.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"743\" data-end=\"1667\">Greves, o combate aos pelegos e autoridades que queriam fechar movimentos sindicais se tornaram muito fortes e comuns. Uma das a\u00e7\u00f5es anti-peleguismo foi o fato de Carlos Lacerda, considerado traidor do PCB e comandante de rea\u00e7\u00f5es ao comunismo, liderar um projeto, que foi confrontado e fracassou, de cercar a sede da CNTI. Outro exemplo \u00e9 que, durante uma reuni\u00e3o no Congresso Nacional dos Trabalhadores da Ind\u00fastria, em 1960, surgiu a ideia de criar o Comando Geral dos Trabalhadores como uma central sindical no Rio de Janeiro. Holanda Cavalcanti, o maior pelego do pa\u00eds, sabendo que perderia influ\u00eancia, se demitiu da presid\u00eancia da CNTI na esperan\u00e7a de que o Congresso fechasse. Por\u00e9m, posteriormente, o CGT foi criado pelo novo presidente Clodsmidt Riani e a CNTI n\u00e3o encerrou suas atividades. Foi a partir da indica\u00e7\u00e3o de Clodsmidt que Ayala se tornou delegado do Congresso e representante do Rio Grande do Sul no CGT.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>A solidariedade no movimento sindical ga\u00facho sempre foi muito mais forte<\/em>. <em>O resto do pa\u00eds s\u00f3 aprendeu a ser solid\u00e1rio depois de 53, em consequ\u00eancia da greve dos metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo, violentamente reprimida e com mortes<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Jorge Campezatto, ex-vereador de Porto Alegre e ex-presidente do Sindicato dos Eletricit\u00e1rios de Porto Alegre<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Mergulho no tempo e me vejo nos anos 60, juntamente com Clodsmidt Riani, tentando derrubar uma ditadura sindical que, por 16 anos, se instalara na maior entidade sindical brasileira, a CNTI. Em todos os estados cont\u00e1vamos com o apoio de valorosos companheiros. Todavia, merece um destaque especial o apoio que tivemos no RS atrav\u00e9s de Ayala. S\u00f3brio, fiel, idealista e aut\u00eantico l\u00edder, soube, com bastante sabedoria, conquistar para o nosso lado alguns votos que jamais pensamos em conseguir<\/em>. <em>[&#8230;] Hoje, sem sua presen\u00e7a, sentimos a necessidade de transmitir aos mais jovens as qualidades desse sindicalista<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Francisco de Chagas, 1\u00ba presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores da Ind\u00fastria do Rio Grande do Norte e ex-diretor da CNTI<\/p>\n<p>Depois de muitos anos de luta, aos poucos, o peleguismo era enfrentado com sucesso e se tornava um obst\u00e1culo melhor. No entanto, com o golpe de 1964, as classes dominantes e autoridades governamentais voltaram a ter os movimentos sociais e populares em suas m\u00e3os; fator que s\u00f3 veio a se encerrar a partir do fim da ditadura.<\/p>\n<p><strong>O Brasil que Ayala esteve inserido \u2013 redemocratiza\u00e7\u00e3o e nova ordem mundial<\/strong><\/p>\n<p>Com a decad\u00eancia do regime militar, mais uma vez, acontece um processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, uma nova constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 feita em 1988, e os cidad\u00e3os tiveram direitos retomados. Por outro lado, pessoas ainda estavam desaparecidas e traumas persistiram \u2013 e existem at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>J\u00e1 no mundo, a Guerra Fria estava se encerrando, o socialismo causava impress\u00e3o de derrotado, mesmo que n\u00e3o tenha deixado de existir. Isso fica evidente em processos como a fragmenta\u00e7\u00e3o da URSS, a queda do Muro de Berlim, e as guerras civis entre os povos da antiga Iugosl\u00e1via que culminaram na separa\u00e7\u00e3o do antigo pa\u00eds. A partir da\u00ed, surge a Nova Ordem Mundial e o neoliberalismo como uma forma mais liberal do capitalismo predominante no planeta.<\/p>\n<p>A vertente neoliberal chega no Brasil com os primeiros presidentes eleitos p\u00f3s queda da ditadura civil-militar, provocando uma mudan\u00e7a no funcionamento do trabalho. A busca pela menor participa\u00e7\u00e3o do governo e do Estado nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pela privatiza\u00e7\u00e3o das empresas gera maior livre com\u00e9rcio, menor taxa de impostos, maior competitividade de mercado e globaliza\u00e7\u00e3o da economia, pol\u00edtica, de culturas, corpora\u00e7\u00f5es (que se tornam multinacionais), tecnologias, entre outros quesitos.<\/p>\n<p>Entretanto, Ayala aponta quest\u00f5es negativas de modelos neoliberais, principalmente em quest\u00e3o do desemprego e dos oper\u00e1rios:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Pequenos empres\u00e1rios, quer da ind\u00fastria, quer do com\u00e9rcio, quer de servi\u00e7os, est\u00e3o sendo massacrados pelo capital especulativo [&#8230;]. Por exemplo: num determinado bairro, tem 20, 30, 40 lojas do pequeno com\u00e9rcio [&#8230;]. Vem o supermercado, o shopping, e cria, atrav\u00e9s da publicidade, uma expectativa de compra muito grande, numa perspectiva de que o consumidor vai ser beneficiado. E o consumidor deixa a lojinha da esquina, e vai para o supermercado, onde, al\u00e9m do pre\u00e7o da mercadoria, ele vai pagar o pre\u00e7o da publicidade. Se esse supermercado conseguiu emprego para 10 pessoas, as 30 ou 40 lojinhas que ele fechou, que tinham 3 ou 4 empregados cada uma, que d\u00e1 um total de 100, extinguiram 100 postos de trabalho. Precisamos investir na luta contra o livre com\u00e9rcio, contra as privatiza\u00e7\u00f5es e contra a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses que v\u00e3o favorecer a ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica). Vai facilitar as privatiza\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o passar\u00e3o mais pelos \u00f3rg\u00e3os diretivos dos pa\u00edses. [&#8230;] o presidente tem sido muito sens\u00edvel aos apelos americanos. E esses apelos se renovar\u00e3o. <\/em>Ayala, em entrevista na r\u00e1dio \u201cLiga\u00e7\u00e3o Direta do Gua\u00edba\u201d, em Porto Alegre<\/p>\n<p>\u00c1lvaro tamb\u00e9m pontua a separa\u00e7\u00e3o e desuni\u00e3o de trabalhadores, que se torna inevit\u00e1vel com o neoliberalismo, al\u00e9m de apontar uma raz\u00e3o para a redu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a dos movimentos sindicais na d\u00e9cada de 90 em diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Se o n\u00famero crescente de greves no in\u00edcio da d\u00e9cada caiu cerca de 50% foi em virtude da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo e tamb\u00e9m por causa da pol\u00edtica internacional do trabalho. A globaliza\u00e7\u00e3o vem introduzindo o capital especulativo na nossa economia, vem afogando, vem massacrando a ind\u00fastria nacional. E a ind\u00fastria nacional, num desespero pra sobreviver, dispensa trabalhadores, fecha frentes de servi\u00e7o, o que nos leva ao quadro de um trabalhador desesperado que todos os dias, quando volta pra casa, tem medo de, no outro dia estar desempregado. Um trabalho com esse desespero, com o mercado cada vez diminuindo mais, s\u00f3 pode baixar o n\u00famero de greves [&#8230;]. J\u00e1 n\u00e3o se reivindica mais; pelo contr\u00e1rio, se luta desesperadamente para manter o emprego. [&#8230;] Tanto que, nas assembleias, hoje, cada vez \u00e9 maior o n\u00famero de aposentados. [&#8230;] Esses trabalhadores, que est\u00e3o vendo a situa\u00e7\u00e3o como est\u00e1, n\u00e3o tem coragem de sequer assumir uma posi\u00e7\u00e3o reivindicat\u00f3ria, porque ela precisa sustentar a fam\u00edlia [&#8230;]. Com as privatiza\u00e7\u00f5es [globaliza\u00e7\u00e3o] foram postos para rua uma barbaridade de trabalhadores<\/em>. [&#8230;] <em>E o que mais preocupa o movimento sindical \u00e9 que o capital est\u00e1 se unindo, o capital se organiza cada vez mais. A gente v\u00ea na imprensa que at\u00e9 as grandes pot\u00eancias financeiras internacionais est\u00e3o se unindo, est\u00e1 havendo fus\u00e3o de grandes bancos. Ent\u00e3o, no momento que o capital se une, se fortifica, n\u00f3s vamos dividir os trabalhadores da base? [&#8230;] Esse projeto sempre foi prejudicial porque traz a desuni\u00e3o dos trabalhadores e n\u00e3o representa nenhuma solu\u00e7\u00e3o para os problemas vividos pela classe trabalhadora\u201d <\/em><br \/>\nAyala, clamando por unicidade sindical em meio \u00e0 unicidade capital<\/p>\n<p>Dessa maneira, a Nova Ordem Mundial \u00e9 composta majoritariamente pelo capitalismo e neoliberalismo, em um mundo globalizado (em v\u00e1rios sentidos), mais tecnol\u00f3gico e digital, com as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e econ\u00f4micas mais amplas; caracter\u00edsticas que trazem pontos positivos e negativos.<\/p>\n<p><strong>O que dava tanto poder para Ayala?<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 mencionado, Ayala teve uma grande repercuss\u00e3o por conta da sua pr\u00f3pria personalidade, da vontade de liderar e representar um grande grupo sem querer privilegiar seus desejos individuais, sendo algu\u00e9m, segundo a historiadora Su\u00e9llen, algu\u00e9m muito consultado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 outra quest\u00e3o que o pr\u00f3prio Ayala afirma que dava poder para algumas pessoas como ele:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Se o servi\u00e7o de energia el\u00e9trica para, para o Parque Industrial e o com\u00e9rcio. O servi\u00e7o telef\u00f4nico paralisado deixa o pa\u00eds sem comunica\u00e7\u00e3o. T\u00ednhamos o poder de paralisar cidades de porte.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Considerando o cen\u00e1rio tecnol\u00f3gico e o com\u00e9rcio no in\u00edcio e metade do s\u00e9culo XX, as \u00e1reas citadas, al\u00e9m do transporte e do g\u00e1s, eram indispens\u00e1veis para o funcionamento dos per\u00edmetros urbanos e do Brasil como um todo. Se os Minist\u00e9rios quisessem calar, proibir reuni\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de trabalhadores; esses setores poderiam \u2013 e fizeram, constantemente \u2013 fazer greves, parar suas atividades por um determinado tempo, causando empecilhos no pa\u00eds e para o governo. Ent\u00e3o, mesmo que houvesse uma tentativa de reduzir a express\u00e3o das \u00e1reas fundamentais, havia um limite justamente para que n\u00e3o houvesse uma crise com a falta delas.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o s\u00f3 Ayala, mas tamb\u00e9m outros ativistas e os sindicatos desses setores, tinham muito poder pol\u00edtico e presen\u00e7a na luta pela igualdade social. Esse aspecto tamb\u00e9m foi muito positivo para o combate ao peleguismo \u2013 demiss\u00e3o de l\u00edderes pelegos \u2013 e como forte influ\u00eancia e conscientiza\u00e7\u00e3o para os outros movimentos sindicais e para a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia Ayala, desde a marginaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 supera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ayala morava com sua esposa, Zillah, e os filhos: L\u00facia, Lucy, Andr\u00e9 \u2013 que morreu aos 12 anos, antes do nascimento da pr\u00f3xima crian\u00e7a \u2013 e \u00c1lvaro (sim, tinha o mesmo nome e os sobrenomes iguais tamb\u00e9m). Posteriormente, o casal adotaria uma menina, a Isabel. Era uma fam\u00edlia que passava dificuldades financeiras. Ayala j\u00e1 era contestado, procurado e reconhecido antes mesmo da ditadura de 1964. No entanto, a persegui\u00e7\u00e3o contra ele e seus parentes foi mais intensa durante o regime.\u00a0Com a institui\u00e7\u00e3o do AI 1, desde o primeiro dia, n\u00e3o s\u00f3 Ayala, como outros pol\u00edticos, foram presos, tiveram suas casas invadidas para procurar documentos, fotos, pap\u00e9is ou outras coisas que pudessem indicar outras pessoas, lugares, ou os pr\u00f3prios artefatos como perigosos para os militares.\u00a0H\u00e1 relatos dele e da fam\u00edlia sobre a persegui\u00e7\u00e3o. Por exemplo, algumas vezes, quando Ayala n\u00e3o estava, passavam na frente da sua resid\u00eancia e ligavam lanternas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 janela, assustando quem vivia com ele. \u00c0s vezes, eles entravam e vasculhavam os pertences, at\u00e9 mesmo roupas \u00edntimas, bagun\u00e7avam a moradia \u00e0 procura de algo escondido.<\/p>\n<p>Com a press\u00e3o psicol\u00f3gica sob todos, Ayala se \u201cexila\u201d em sua casa de praia. Assim, n\u00e3o estaria longe dos familiares e seria mais f\u00e1cil de receber informa\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia e o que estava acontecendo no pa\u00eds. Ainda assim, os contatos eram prec\u00e1rios. Al\u00e9m disso, de meia em meia hora, os parentes eram questionados pelo ex\u00e9rcito se Ayala se encontrava l\u00e1 \u2013 na resid\u00eancia em Porto Alegre.\u00a0Por conseguinte, como a opress\u00e3o e a humilha\u00e7\u00e3o seguiam presentes mesmo com Ayala n\u00e3o estando na capital, ele decide se entregar aos militares em 1967. Ademais, tamb\u00e9m fez isso para garantir integridade e seguran\u00e7a f\u00edsica como uma forma de evitar uma tortura maior, desaparecimento e a morte.<\/p>\n<p>Ayala foi detido junto \u00e0 Campezatto. Na pris\u00e3o, tinham que dormir de luz acesa, n\u00e3o podiam ler jornal, ouvir r\u00e1dio, nem sair da cela, a qual s\u00f3 tinha grades uma rampa que descia \u00e1gua e querosene de lavagem de ve\u00edculos, provocando cheiros desagrad\u00e1veis e tosse. At\u00e9 que os familiares fizeram muita press\u00e3o e eles foram transferidos para a penitenci\u00e1ria estadual, separados dos presos comuns e com trabalhos.\u00a0O fato de \u00c1lvaro ter viajado pra R\u00fassia foi uma grave acusa\u00e7\u00e3o e \u201cjustificativa\u201d para o aumento a repress\u00e3o, considerado \u201cformado em Moscou\u201d e acusado de querer mudar o poder \u00e0 for\u00e7a, quando n\u00e3o era bem assim.<\/p>\n<p>Zillah trabalhou um tempo vendendo livros e, depois, criou um avi\u00e1rio no fundo da casa. Se n\u00e3o bastasse toda a opress\u00e3o e a batalha por sustento, a fam\u00edlia tamb\u00e9m teve que aguentar a trag\u00e9dia da morte de Andr\u00e9, apenas com 12 anos, em um acidente de bicicleta. A cria\u00e7\u00e3o do \u00faltimo filho biol\u00f3gico, \u00c1lvaro, foi um tanto traum\u00e1tica, n\u00e3o s\u00f3 por conta do contexto, mas tamb\u00e9m considerando que Andr\u00e9 morreu enquanto Zillah estava gr\u00e1vida, em 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Eu n\u00e3o tenho muita lembran\u00e7a [&#8230;]. A minha consci\u00eancia sobre esses atos todos, veio muito depois. [&#8230;] Eu, pessoalmente, sentia aus\u00eancia da m\u00e3e, a m\u00e3e tinha que trabalhar e eu ficava com uma empregada dom\u00e9stica, ou em alguns momentos em final de tarde eu ficava sozinho em casa. Eu sentia um pouco a aus\u00eancia da m\u00e3e e tamb\u00e9m do pai quando ele trabalhava, assim que solto, e preso tamb\u00e9m. No per\u00edodo que o pai tava preso, tem muitas fotos minhas na penitenci\u00e1ria com o pai, mas n\u00e3o tenho lembran\u00e7a desses dias.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00c1lvaro Leonardi Ayala Filho, professor de f\u00edsica da UFPEL e filho de Ayala criado em meio \u00e0 ditadura militar<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"31\" data-end=\"163\">Enquanto Ayala estava na penitenci\u00e1ria, havia o medo do desaparecimento e da morte dele, sem que sua esposa e seus filhos soubessem.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"165\" data-end=\"881\">Al\u00e9m disso, existem situa\u00e7\u00f5es que ocorreram e at\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe ao certo como foram, ou que cada pessoa envolvida tem uma vers\u00e3o diferente dessa hist\u00f3ria. Um exemplo de ru\u00eddo de comunica\u00e7\u00e3o muito curioso ocorre na pr\u00f3pria fam\u00edlia Ayala. \u00c1lvaro menciona, em relato registrado na homenagem em forma de livro <em data-start=\"474\" data-end=\"509\">\u201cTch\u00ea! Companheiro e Amigo Ayala\u201d<\/em>, que tinha uma fotografia com Che Guevara, Leonel Brizola e Santiago Dantas, tirada em Montevid\u00e9u, que foi queimada ou jogada fora pelos militares. Por outro lado, n\u00e3o foi bem isso o que aconteceu. Em entrevista, Lucy Ayala afirma que quem arruinou essa e outras fotografias foi a pr\u00f3pria esposa e a outra filha, L\u00facia, com o intuito de evitar exp\u00f4-los a perigos maiores.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"883\" data-end=\"1279\">Ainda segundo relatos de Lucy, a repress\u00e3o era presente em todos os n\u00edveis. N\u00e3o era vi\u00e1vel sair ou se apresentar, por medo de viol\u00eancia e agress\u00e3o. Houve um dia, por exemplo, em que as filhas n\u00e3o puderam ir para a escola porque o ex\u00e9rcito j\u00e1 estava situado em frente \u00e0 casa. A rotina da fam\u00edlia estava totalmente afetada. Eles eram constantemente vigiados pelos mecanismos de press\u00e3o sobre Ayala.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1281\" data-end=\"1499\">Por outro lado, esse per\u00edodo foi marcado pela hist\u00f3ria batalhadora e de supera\u00e7\u00e3o, principalmente por parte de Zillah, que tinha que cuidar e sustentar os tr\u00eas filhos durante a persegui\u00e7\u00e3o, seja com Ayala preso ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] a m\u00e3e foi criada no campo, e ela era algu\u00e9m com muito recurso, ela ia l\u00e1 e dava um jeito. O Claudio era sobrinho da m\u00e3e e a m\u00e3e dele morreu no parto. Ele foi l\u00e1 pra casa com 7 dias e ela arranjou uma cabra pra dar leite para o Claudio. E ela tinha essa coisa de criar bicho. [&#8230;] ela batalhava pela fam\u00edlia e trabalhava, costurava, criou uma escola de costura, e foi criando op\u00e7\u00f5es do que chamamos hoje de empreendedorismo pra bancar a fam\u00edlia. Na real, a m\u00e3e foi uma muito batalhadora! A gente sempre teve a certeza que estava do lado certo da for\u00e7a! A ditadura que tava errada, os bandidos estavam do lado de l\u00e1, um dia eles cairiam! A hist\u00f3ria tava do nosso lado! N\u00f3s \u00e9ramos v\u00edtimas! A gente n\u00e3o abaixava a cabe\u00e7a! A m\u00e3e era porreta, era muito forte! O que nos manteve de p\u00e9 foi a personalidade da Zillah.<\/em>\u201d<br \/>\nLucy Ayala<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"31\" data-end=\"575\">Ayala, submetido a muita fiscaliza\u00e7\u00e3o por parte dos militares, seguiu agindo de modo carism\u00e1tico e emp\u00e1tico, mesmo em meio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Na penitenci\u00e1ria, ele era querido e procurado por diversos detentos, como consequ\u00eancia de suas atitudes. Ayala escrevia e lia cartas para os presos que n\u00e3o tinham tais habilidades ou que n\u00e3o eram alfabetizados; era comum que muitos deles tivessem vindo do interior do estado para Porto Alegre e fossem detidos na capital. As fam\u00edlias desses indiv\u00edduos pensavam que estavam desaparecidos ou mortos.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"577\" data-end=\"1014\">Al\u00e9m disso, \u00c1lvaro conseguiu Habeas Corpus para detentos cujo tempo de pena j\u00e1 havia sido ultrapassado, mas que n\u00e3o eram soltos por falta de documenta\u00e7\u00e3o (Ayala lia livros sobre direito e redigia peti\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o). Ademais, tamb\u00e9m auxiliava outros presos para que fossem levados \u00e0 Fazenda da Brigada, para trabalhar como caseiros, onde teriam alimenta\u00e7\u00e3o e uma por\u00e7\u00e3o de terra, mesmo que ainda fossem submetidos e monitorados pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1016\" data-end=\"1186\">Assim, \u00c1lvaro sempre foi bem tratado e reconhecido dentro da penitenci\u00e1ria. H\u00e1 relatos de que detentos choravam ao saber do momento em que Ayala seria liberado da pris\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por que muitas pessoas n\u00e3o sabem sobre Ayala atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>Existem algumas explica\u00e7\u00f5es para o fato de a hist\u00f3ria de Ayala ser esquecida por alguns e desconhecida por outros, principalmente em compara\u00e7\u00e3o com outros sujeitos hist\u00f3ricos de conhecimento dos cidad\u00e3os brasileiros. Como j\u00e1 mencionado, Ayala teve uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil muito mais intensa nos anos finais do Estado Novo at\u00e9 sua pris\u00e3o, em 1967. Ap\u00f3s a anistia e a redemocratiza\u00e7\u00e3o, ele voltou a militar ativamente, embora de forma mais moderada. Ayala era muito consultado antes da ditadura civil-militar, e essa pr\u00e1tica continuou ap\u00f3s o regime, embora com menor frequ\u00eancia. Ap\u00f3s sua morte, sua mem\u00f3ria foi se apagando aos poucos. Hoje em dia, sabe-se menos sobre \u00c1lvaro do que se sabia h\u00e1 30, 40, ou principalmente 60 e 70 anos atr\u00e1s. Dessa maneira, a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria e a forma como se desenharam os rumos de Ayala podem explicar, em parte, essa d\u00favida:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] apesar da gente ter no\u00e7\u00e3o de que o Ayala era uma figura de lideran\u00e7a emblem\u00e1tica, a pris\u00e3o e a ditadura traumatizam, n\u00e9? Silenciam, fazem com que as pessoas tenham medo daquilo que aconteceu se repita. Ent\u00e3o, eu acho que at\u00e9 por conta do que possa vir a acontecer com a pr\u00f3pria fam\u00edlia, as pessoas se tornam mais discretas. [&#8230;] At\u00e9 a redemocratiza\u00e7\u00e3o isso impera nas pessoas. Ent\u00e3o eu acho que muito desse silenciamento \u00e9 devido a isso; uma escolha que ele fez de, talvez, ser mais discreto, sabe? Ele nunca deixou de militar, mas com a ideia de tomar cuidado porque era perigoso. [&#8230;] Ningu\u00e9m sabe o que houve de verdade, ningu\u00e9m sabe a intensidade disso. [&#8230;], isso \u00e9 bem claro, n\u00e3o s\u00f3 com ele, mas com outras pessoas tamb\u00e9m\u201d<br \/>\n<\/em>Su\u00e9llen De Medeiros Cortes<\/p>\n<p>Por outro ponto de vista, conforme o filho de Ayala, as pr\u00f3prias posturas reacion\u00e1rias contra os movimentos populares fazem hist\u00f3rias serem esquecidas ou n\u00e3o serem passadas adiante:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>A ditadura militar fez retroceder este momento hist\u00f3rico de independ\u00eancia econ\u00f4mica e fez retroagir isso, fez tamb\u00e9m que grandes figuras e lideran\u00e7as dessa \u00e9poca fossem propositalmente esquecidas. [&#8230;] a hist\u00f3ria do Brasil sempre teve um movimento para ser esquecida. O movimento sindical e os pr\u00f3prios movimentos de lideran\u00e7as de Jo\u00e3o Goulart viveram um momento hist\u00f3rico onde esses personagens trabalhavam com popularidade pra criar um pa\u00eds cada vez mais independente e foram expulsos da cena p\u00fablica pela ditadura militar<\/em>\u201d<br \/>\n\u00c1lvaro Leonardi Ayala Filho<\/p>\n<p>Assim, esses s\u00e3o alguns dos contextos que frearam a passagem do legado de Ayala adiante.<\/p>\n<p><strong>Por que n\u00e3o temos conhecimento sobre certos epis\u00f3dios hist\u00f3ricos e pessoas importantes, como A<\/strong><strong>yala? \u2013 a complexidade da historiografia e da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"33\" data-end=\"351\">Com a afirma\u00e7\u00e3o anterior do professor Ayala Filho, \u00e9 percept\u00edvel que a ditadura civil-militar foi registrada com o intuito de excluir outras vis\u00f5es, viv\u00eancias e momentos da sociedade, mesmo sabendo que esses &#8216;lados&#8217; exclu\u00eddos existiram no contexto. Ou seja, optaram por registrar uma posi\u00e7\u00e3o em detrimento das outras.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"353\" data-end=\"1083\">O processo de escolhas narrativas para a escrita da Hist\u00f3ria \u00e9 natural. O problema surge quando quest\u00f5es e fatos que mudam ou trazem um novo sentido ao que se descreve &#8216;passam batido&#8217; ou s\u00e3o deletados \u2013 propositalmente. Essa quest\u00e3o \u00e9tica nas formas de relato \u00e9 muito complexa em todos os seus meios poss\u00edveis, como nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, jornais, livros e at\u00e9 mesmo no pr\u00f3prio di\u00e1logo entre humanos. Como as hist\u00f3rias s\u00e3o feitas de narrativas, prioriza-se uma ou a soma de algumas, mas deve haver uma obriga\u00e7\u00e3o de apresentar tudo o que est\u00e1 envolvido, em vez de negar ou n\u00e3o dar aten\u00e7\u00e3o a uma parte espec\u00edfica. Isso \u00e9 necess\u00e1rio para uma an\u00e1lise mais aprofundada do passado, do presente e para a constru\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1085\" data-end=\"2387\">Existem diversos m\u00e9todos comunicacionais e t\u00e9cnicas para a historiografia. Um deles, que predominou por muito tempo, \u00e9 o Positivismo, cujo lema principal \u00e9 considerar ver\u00eddico tudo o que \u00e9 cient\u00edfico e comprovado, tornando essa &#8216;verdade&#8217; imut\u00e1vel at\u00e9 que outro estudo corroborado possa substitu\u00ed-la. Seguindo esse modelo, h\u00e1 tr\u00eas fases para o desenvolvimento: teol\u00f3gica, metaf\u00edsica e positiva (que vai da cren\u00e7a em mitos, passa pela racionalidade e chega at\u00e9 o ponto em que se adquire, de fato, o conhecimento). Consequentemente, valorizam-se mais as ci\u00eancias exatas em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s humanas (&#8216;n\u00e3o-exatas&#8217;, subjetivas, que exigem maior interpreta\u00e7\u00e3o), documentos escritos e oficiais, al\u00e9m do empirismo. Por conseguinte (e isso tamb\u00e9m passa a ser um princ\u00edpio), essa vertente \u00e9 amplamente utilizada para valorizar o &#8216;macro&#8217;, ou seja, estudar um grupo, uma comunidade, um pa\u00eds, um povo como um todo para o registro hist\u00f3rico, a fim de entender o cidad\u00e3o comum \u2013 o &#8216;micro&#8217; \u2013 daquela \u00e9poca e compreender o pr\u00f3prio contexto. Assim, priorizam-se tamb\u00e9m grandes acontecimentos, n\u00fameros, datas e pessoas mais renomadas, com legados maiores \u2013 como presidentes, reis, pol\u00edticos, figuras famosas por determinada raz\u00e3o, governos, fil\u00f3sofos, elitistas, especialistas em determinada \u00e1rea, cientistas e pesquisadores.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2389\" data-end=\"2462\">No entanto, o Positivismo traz um problema nas suas escolhas narrativas:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] a gente tem um problema na Hist\u00f3ria que fala muito a respeito dos sujeitos hist\u00f3ricos, que \u00e9 quem conta a hist\u00f3ria. Como a Hist\u00f3ria sempre tem uma narrativa dos vencedores, a gente esquece, \u00e0s vezes, de olhar pra volta e entender o que as pessoas estavam fazendo; as pessoas comuns, o que elas estavam atuando e de que maneira elas estavam fazendo isso. [&#8230;] como a Hist\u00f3ria \u00e9 feita de narrativas, se optou por uma narrativa. Mas, a gente tem a obriga\u00e7\u00e3o de apresentar outras coisas, sabe? A gente tem que trazer!\u201d<\/em><br \/>\nSu\u00e9llen De Medeiros Cortes<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"44\" data-end=\"332\">Muitas vezes (ou at\u00e9 na maioria das vezes), o ser humano prefere acreditar no oficial e no profissional. Isso \u00e9 normal e, em algumas situa\u00e7\u00f5es, inevit\u00e1vel. Por\u00e9m, o erro consiste em n\u00e3o consultar as falas, depoimentos, materiais e indiv\u00edduos que tamb\u00e9m s\u00e3o testemunhas, embora subjetivas.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"334\" data-end=\"566\">Sob esse vi\u00e9s, conclui-se que o uso do Positivismo evita descrever profundamente o cidad\u00e3o e\/ou o povo que n\u00e3o seja \u201cmacro\u201d, que n\u00e3o produza fontes escritas ou que n\u00e3o tenha sido ensinado e alfabetizado para possuir essa capacidade.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"568\" data-end=\"1418\">Em contrapartida, no per\u00edodo entre as duas guerras mundiais, surge a micro-hist\u00f3ria italiana. Como o pr\u00f3prio nome sugere, h\u00e1 um realce ao \u201cmicro\u201d em vez do \u201cmacro\u201d, ou seja, analisar o indiv\u00edduo \u2013 desde o cidad\u00e3o comum at\u00e9 uma pessoa de renome, com a mesma metodologia, mas com resultados distintos \u2013 para entender o todo. Esse modelo \u00e9 realizado de forma que uma \u00fanica pessoa n\u00e3o defina tudo, mas que a soma dos \u201cmicros\u201d resulte na composi\u00e7\u00e3o do \u201cmacro\u201d, em vez de validar [apenas] grandes nomes para o registro de um indiv\u00edduo ou de uma hist\u00f3ria qualquer. Dessa maneira, consideram-se outros materiais para a historiografia. Al\u00e9m da escrita e dos documentos oficiais, fontes concretas, abstratas e orais tamb\u00e9m s\u00e3o meios para o estudo da Hist\u00f3ria. Com isso, classes populares e marginalizadas ganham um novo valor e h\u00e1 mais recursos para a escrita.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1420\" data-end=\"2132\">Contudo, h\u00e1 um obst\u00e1culo para a realiza\u00e7\u00e3o da micro-hist\u00f3ria: a carga e o esfor\u00e7o. Para sua aplica\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio, idealmente, analisar sujeito por sujeito; trata-se de um trabalho a longo prazo que precisa de uma consider\u00e1vel quantidade de historiadores, estudantes e sujeitos interessados. Por exemplo, um professor das ci\u00eancias humanas, em uma aula de Ensino Fundamental ou M\u00e9dio, que queira usar esse modelo para a explica\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias escolares, teria que estimular os alunos a pesquisar, refletir e apresentar um personagem para tentar representar uma situa\u00e7\u00e3o, uma vez que j\u00e1 existem conte\u00fados que precisam ser ensinados pelas leis educacionais para concluir as obriga\u00e7\u00f5es com os materiais did\u00e1ticos.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2134\" data-end=\"2532\">Assim, est\u00e1 estreitamente relacionado \u00e0s doutrinas historiogr\u00e1ficas o problema que responde \u00e0 pergunta sobre n\u00e3o aprendermos sobre hist\u00f3rias e certos personagens importantes para a humanidade: o perigoso ciclo vicioso que circunda a quest\u00e3o da (des)valoriza\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o antropol\u00f3gica, que se manifesta de diversas maneiras, sendo a log\u00edstica das vertentes de registro hist\u00f3rico apenas uma delas.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2534\" data-end=\"2995\">\u00c9 pertinente come\u00e7ar a discorrer sobre a manifesta\u00e7\u00e3o mais simples do empecilho para explic\u00e1-lo: o pouco tempo disponibilizado para as disciplinas de estudo do homem (Hist\u00f3ria, Geografia, Filosofia, Sociologia) n\u00e3o motiva suficientemente os jovens a trabalh\u00e1-las. Desse modo, cria-se um desinteresse sobre o que ocorre \u00e0 sua volta, no mundo e em seu dia a dia, o que pode ser perigoso para a sobreviv\u00eancia individual e at\u00e9 mesmo para uma civiliza\u00e7\u00e3o harmoniosa.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2997\" data-end=\"3309\">A falta de est\u00edmulo e investimento tamb\u00e9m se mostra como um obst\u00e1culo \u2013 seja um incentivo financeiro, seja na carga hor\u00e1ria da disciplina escolar, seja na aplica\u00e7\u00e3o de conhecimentos e evid\u00eancias de situa\u00e7\u00f5es e projetos que abram a mente dos alunos \u2013 promovendo o trato das ci\u00eancias antropol\u00f3gicas como obsoletas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Acho que n\u00e3o h\u00e1 interesse, tem desconhecimento, at\u00e9 por parte da esquerda, [&#8230;]. A hist\u00f3ria do pa\u00eds e qualquer movimento social deveriam ser estudados na escola. Por isso que chegamos num congresso com muitos corruptos. E tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel estudar tudo que tiver na hist\u00f3ria em poucas horas semanais, \u00e9 dif\u00edcil ter todo o conhecimento universal e saber da tua hist\u00f3ria local. E ainda assim, tem muito desinteresse e individualismo<\/em>.\u201d<br \/>\nLucy Ayala<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cO primeiro ano do Ensino M\u00e9dio, por exemplo, eu t\u00f4 levando eles pra uma sa\u00edda de campo na Biblioteca P\u00fablica, com o objetivo de ver fontes hist\u00f3ricas. Ent\u00e3o eles v\u00e3o levar luva, m\u00e1scara, manusear jornais antigos, documentos antigos, pesquisar l\u00e1 pra ter essa experi\u00eancia, que a maioria n\u00e3o teve. E sabe que \u00e9 interessante que a maioria n\u00e3o sabe que pode? Eles n\u00e3o sabem que podem entrar l\u00e1 e usar, que qualquer pessoa pode usar, que \u00e9 s\u00f3 tu pedir autoriza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o esse tipo de coisa \u00e9 algo que tu precisa estar constantemente reafirmando, sabe? Ent\u00e3o, pra quebrar um pouco o paradigma dos alunos, a gente vai na biblioteca e depois eu vou levar eles na prefeitura e a gente vai entrar nos gabinetes. [&#8230;] e eu falei que n\u00f3s \u00edamos entrar e eles ficaram assim: \u2018pode?!\u2019. Eles acham que esses lugares n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis. Ent\u00e3o, [&#8230;] \u00e9 um come\u00e7o de dar uma forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica mais cr\u00edtica, entende?\u201d<br \/>\n<\/em>Su\u00e9llen De Medeiros Cortes<\/p>\n<div class=\"flex flex-1 grow basis-auto flex-col overflow-hidden\">\n<div class=\"relative h-full\">\n<div class=\"flex h-full flex-col overflow-y-auto [scrollbar-gutter:stable]\">\n<div class=\"mt-1.5 flex flex-col text-sm @thread-xl\/thread:pt-header-height md:pb-9\">\n<article class=\"w-full text-token-text-primary\" dir=\"auto\" data-testid=\"conversation-turn-8\" data-scroll-anchor=\"true\">\n<div class=\"text-base my-auto mx-auto py-5 px-6\">\n<div class=\"mx-auto flex flex-1 text-base gap-4 md:gap-5 lg:gap-6 md:max-w-3xl group\/turn-messages focus-visible:outline-none\" tabindex=\"-1\">\n<div class=\"group\/conversation-turn relative flex w-full min-w-0 flex-col agent-turn @xs\/thread:px-0 @sm\/thread:px-1.5 @md\/thread:px-4\">\n<div class=\"relative flex-col gap-1 md:gap-3\">\n<div class=\"flex max-w-full flex-col flex-grow\">\n<div class=\"min-h-8 text-message relative flex w-full flex-col items-end gap-2 whitespace-normal break-words text-start [.text-message+&amp;]:mt-5\" dir=\"auto\" data-message-author-role=\"assistant\" data-message-id=\"f5aa5ef9-2699-4e09-8d1c-687bbb8224f4\" data-message-model-slug=\"gpt-4o-mini\">\n<div class=\"flex w-full flex-col gap-1 empty:hidden first:pt-[3px]\">\n<div class=\"markdown prose w-full break-words dark:prose-invert light\">\n<p class=\"\" data-start=\"44\" data-end=\"541\">Al\u00e9m da quest\u00e3o da falta de apoio e do desinteresse, o Positivismo compromete a educa\u00e7\u00e3o \u2013 nas escolas, nas institui\u00e7\u00f5es de base, em alguns cursos e at\u00e9 mesmo no ambiente familiar \u2013 e o aprofundamento sobre ocorridos hist\u00f3ricos, o dia a dia em tempos atuais e sujeitos imprescind\u00edveis para a Hist\u00f3ria. Ao promover a ideia de que a ci\u00eancia \u00e9 imut\u00e1vel at\u00e9 o surgimento de algo oficial que a substitua, deixa-se de desenvolver compet\u00eancias que tamb\u00e9m s\u00e3o importantes, como o senso cr\u00edtico individual.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"543\" data-end=\"1962\">Antes de entender as m\u00e1s consequ\u00eancias da doutrina \u2013 al\u00e9m da desconsidera\u00e7\u00e3o de falas, materiais, escritos e personalidades \u2013 para o corpo social, \u00e9 preciso considerar o seguinte instinto do ser humano: o indiv\u00edduo, quando nasce e\/ou n\u00e3o \u00e9 amadurecido o suficiente, busca, por natureza, usufruir como base de suas a\u00e7\u00f5es as viv\u00eancias do in\u00edcio de sua vida, que v\u00eam da influ\u00eancia de amigos, escola, colegas, fam\u00edlia e, principalmente, da m\u00e3e (ou de algu\u00e9m respons\u00e1vel por exercer a \u201cfun\u00e7\u00e3o-m\u00e3e\u201d). Nesse sentido, se o meio de educa\u00e7\u00e3o for baseado em posturas positivistas \u2013 seja por um professor, seja pela \u201cfun\u00e7\u00e3o-m\u00e3e\u201d \u2013 o sujeito levar\u00e1 essa ideologia adiante para sua pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Mesmo que, em alguns casos, os prop\u00f3sitos do Positivismo sejam inevit\u00e1veis, essa forma de an\u00e1lise pode ser perigosa, pois n\u00e3o estimula a reflex\u00e3o e d\u00favidas do tipo: \u201cPor qu\u00ea?\u201d, \u201cComo?\u201d, \u201cPara qu\u00ea?\u201d, \u201cE ent\u00e3o?\u201d, \u201cIsso \u00e9 certo?\u201d, \u201cIsso sempre foi assim?\u201d, \u201cComo isso me afeta?\u201d, \u201cQuando, onde e em que contexto se tornou assim?\u201d, \u201cAntes de ser assim, como era?\u201d, entre outras. A falta de espa\u00e7os para questionamentos se torna um empecilho na forma\u00e7\u00e3o de seres humanos, principalmente na antropologia e em outros estudos n\u00e3o exatos, subjetivos, que podem ser capazes de alterar o que j\u00e1 era assegurado como certo ou errado. Nem tudo ser\u00e1 sempre igual. Fen\u00f4menos, descobertas, mudan\u00e7as s\u00fabitas e crises das mais variadas maneiras ocorrem.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1964\" data-end=\"4157\">\u00c9 com essa interpreta\u00e7\u00e3o positivista de mundo, al\u00e9m de outros motivos, que as fake news, generaliza\u00e7\u00f5es apressadas e o negacionismo cient\u00edfico acontecem. As pessoas, por meio dessa postura, acreditam que o que aprenderam em sua base, em casa, pelos seus principais educadores \u2013 a escola e a \u201cfun\u00e7\u00e3o-m\u00e3e\u201d \u2013 \u00e9 o que sempre ser\u00e1 ver\u00eddico, n\u00e3o dando abertura ou chances para novidades. Para esses cidad\u00e3os, comprova\u00e7\u00f5es que v\u00eam de fontes novas s\u00e3o \u201cmateriais inventados\u201d. Ent\u00e3o, as ci\u00eancias humanas estariam \u201cfabricando verdades\u201d. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 assim. A Hist\u00f3ria n\u00e3o tem como objetivo escrever e dar um conceito ao passado e ao presente que n\u00e3o possa mudar posteriormente, mas sim analisar as evid\u00eancias, relatos, materiais e documentos que surgem, podendo modificar ou acrescentar algo em um registro j\u00e1 feito. O papel dessa \u00e1rea, junto \u00e0 micro-hist\u00f3ria, pode ter seus objetivos brevemente resumidos na seguinte pergunta levantada em uma reportagem do fil\u00f3sofo Michel Foucault feita no Ir\u00e3 (que \u00e9 um dos motivos para a escrita deste texto sobre Ayala, inclusive): \u201cO que est\u00e1 acontecendo em nosso presente que n\u00e3o chega at\u00e9 n\u00f3s?\u201d. \u00c9 se contrapondo aos fundamentos do Positivismo que surgem reportagens e livros de rep\u00f3rteres, com uma fun\u00e7\u00e3o muito similar, como a obra liter\u00e1ria <em data-start=\"3243\" data-end=\"3267\">Todo Dia a Mesma Noite<\/em>, de Daniela Arbex. De acordo com o artigo \u201cNarrar uma trag\u00e9dia do presente: transgress\u00f5es ao regime de pr\u00e1ticas em <em data-start=\"3383\" data-end=\"3407\">Todo Dia a Mesma Noite<\/em> de Daniela Arbex\u201d, h\u00e1 um relato da autora que, ao ser convidada para viver em Santa Maria \u2013 local da trag\u00e9dia reportada \u2013 e cobrir o caso da Boate Kiss 5 anos depois, inicialmente n\u00e3o pensava em ir, pois acreditava que j\u00e1 havia conhecimento suficiente sobre a trag\u00e9dia. No entanto, ao ser mais estimulada e decidir trabalhar na produ\u00e7\u00e3o da grande reportagem, ela se chocou e se emocionou com os relatos, depoimentos, experi\u00eancias e obst\u00e1culos que estavam por tr\u00e1s das not\u00edcias sobre o incidente. Portanto, ao publicar o livro com os detalhes descobertos, Daniela acrescentou muito ao registro do caso Kiss, alterando o ensinamento e a interpreta\u00e7\u00e3o do caso, mesmo que minimamente. Hist\u00f3rias nunca s\u00e3o terminadas em si mesmas, e nunca ser\u00e3o acabadas.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"4159\" data-end=\"4465\">Sob esse vi\u00e9s, a vida de Ayala e a obra <em data-start=\"4199\" data-end=\"4232\">Tch\u00ea! Companheiro e Amigo Ayala<\/em> s\u00e3o fontes que acrescentam \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil e do Rio Grande do Sul e que devem ser relembradas como uma parcela importante para a mem\u00f3ria e o desenvolvimento da humanidade. Quebram-se, mais uma vez, os pressupostos positivistas.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"4467\" data-end=\"5710\">N\u00e3o s\u00f3 a Hist\u00f3ria, \u00e1reas humanas e o jornalismo, mas a ci\u00eancia como um todo desempenha essa fun\u00e7\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o, como as teorias da evolu\u00e7\u00e3o: as leis do uso e desuso e a lei dos caracteres adquiridos de Lamarck foram analisadas e majoritariamente refutadas por Darwin, que elaborou os estudos que s\u00e3o aceitos como verdade hoje. As postula\u00e7\u00f5es de Lamarck s\u00e3o exemplos de conceitos confirmados por um certo per\u00edodo, at\u00e9 que uma refer\u00eancia oficial os substitu\u00edsse. Logo, \u00e9 poss\u00edvel que surja outro cientista que mude ou acrescente os conceitos de evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos. Outro exemplo \u00e9 o Iluminismo, que veio a combater ideologias do Absolutismo, mas que falhou em considerar a raz\u00e3o e n\u00e3o abordou a exist\u00eancia do inconsciente, que posteriormente foi estudado por Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud. Teorias s\u00e3o recicl\u00e1veis, conhecimentos s\u00e3o reformul\u00e1veis, mas isso n\u00e3o quer dizer que um trabalho trocado seja obsoleto, exclu\u00eddo ou in\u00fatil: produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas s\u00e3o de extrema necessidade justamente para o progresso e para aprender com erros do passado. Por\u00e9m, precisa-se de cuidado e aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o citar afirma\u00e7\u00f5es infundadas, insuficientes ou at\u00e9 mesmo criminais, como obras que defendam ou neguem o (neo)nazismo e o darwinismo social.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"5712\" data-end=\"6092\">Indo al\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel compreender o Positivismo como um moldador e estabilizador do capitalismo (o que o \u201cesquecido\u201d Ayala tanto batalhou contra). Tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido associ\u00e1-lo \u00e0 base curricular nacional voltada para a forma\u00e7\u00e3o de pessoas que funcionem em prol desse modelo econ\u00f4mico e pol\u00edtico e que n\u00e3o tenham senso cr\u00edtico sobre o que acontece \u00e0 sua volta e com seus antepassados.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"6094\" data-end=\"6772\">Uma vez que a BNCC \u2013 Base Nacional Comum Curricular \u2013 \u00e9 produzida pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, a transmiss\u00e3o das ideologias e ensinamentos sobre o que \u00e9 importante para o governo est\u00e1 em jogo, o que \u00e9 um processo natural, independentemente dos prop\u00f3sitos pol\u00edticos de tais l\u00edderes e tal partido. Portanto, em um pa\u00eds de modelo capitalista, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada para a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os que trabalhem para a produ\u00e7\u00e3o de capital e seus outros fundamentos. Mas a base curricular se torna um obst\u00e1culo quando opta por narrativas que comprometem outras compet\u00eancias e parte do desenvolvimento do indiv\u00edduo, al\u00e9m de deixar de abordar quest\u00f5es que podem ir contra o pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>N\u00e3o aprendemos [sobre os sindicatos e os movimentos populares] porque a educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u00e9 organizada pra que n\u00e3o conhe\u00e7amos a verdadeira hist\u00f3ria do pa\u00eds e o papel dos movimentos sindicais na valoriza\u00e7\u00e3o e em tornar as classes trabalhadoras atores sociais importantes.<\/em>\u201d<br \/>\n\u00c1lvaro Leonardi Ayala Fliho<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mt-3 w-full empty:hidden\">\n<div class=\"text-center\">\n<p>Voltando \u00e0 micro-hist\u00f3ria, vale relembrar que ela surgiu mais ou menos na d\u00e9cada de 1920\/1930 e essa metodologia s\u00f3 foi poss\u00edvel de ser aplicada em territ\u00f3rio brasileiro ap\u00f3s a ditadura civil-militar, considerando a hist\u00f3ria local.<\/p>\n<p>Avaliando esses cen\u00e1rios e a BNCC, os materiais did\u00e1ticos, at\u00e9 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s, eram de car\u00e1ter positivista; se aprendia pouco profundamente e criticamente sobre as hist\u00f3rias em si, valorizando mais os grandes nomes, datas e n\u00fameros. Em contrapartida, desde a d\u00e9cada de 90, ocorre \u2013 e ainda est\u00e1 em processo \u2013 uma metamorfose nos livros escolares e vestibulares, de um modo geral, mais voltada para uma an\u00e1lise mais interpretativa e l\u00f3gica de acontecimentos e tudo o que possa estar envolvido, at\u00e9 mesmo nas ci\u00eancias exatas. Entretanto, o capitalismo ainda tenta n\u00e3o expor ou deixar que os cidad\u00e3os enxerguem os seus erros, insucessos e quest\u00f5es que podem ir contra si mesmos. Para o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se manter ativo, fazendo com que o sujeito seja um prolet\u00e1rio que apenas exer\u00e7a sua fun\u00e7\u00e3o e n\u00e3o reflita sobre isso, aplicar o Positivismo potencializa a estabilidade desse modelo pol\u00edtico e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Com a alian\u00e7a entre posturas capitalistas e positivistas nas escolas, al\u00e9m da falta de desenvolvimento de senso cr\u00edtico e investimento, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 presen\u00e7a de discuss\u00f5es e aulas de temas morais, de sa\u00fade f\u00edsica, mental, de seguran\u00e7a (tanto pessoal, quanto p\u00fablica) e outras compet\u00eancias e habilidades. Isso tamb\u00e9m culmina em outros problemas sociais, como ansiedade, depress\u00e3o, incertezas e incapacidade de um sujeito lidar com sua sobreviv\u00eancia e experi\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] os nossos av\u00f3s, eles estudaram Hist\u00f3ria de uma maneira de \u2018decoreba\u2019. Eles acreditavam que aquela forma de educa\u00e7\u00e3o, principalmente no per\u00edodo de ditadura militar, dos nossos pais e tal, ele era muito limitador, ele n\u00e3o permitia tu ir al\u00e9m. Agora, na faculdade de Hist\u00f3ria, tu estuda da maneira mais cr\u00edtica, mais exigente. E quando tu sai pro mercado, se tu passar num concurso p\u00fablico, tu n\u00e3o consegue aplicar as coisas diferentes porque n\u00e3o tem recurso; se tu for pra uma escola particular, tu n\u00e3o vai fazer aquilo que tu acha melhor, e sim, qual \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o da escola. Cada escola tem uma orienta\u00e7\u00e3o. Existem escolas religiosas aqui na cidade que trabalham criacionismo, t\u00e1? Principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 evolucionismo. Ent\u00e3o, depende muito de como que isso vai ser abordado, n\u00e3o \u00e9 uma coisa muito simples de comandar\u201d<br \/>\n<\/em>Su\u00e9llen De Medeiros Cortes<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"44\" data-end=\"335\">Desse modo, urge a necessidade de compreender a forma\u00e7\u00e3o do ciclo vicioso que responde \u00e0 d\u00favida sobre deixar de aprender sobre alguns epis\u00f3dios e sujeitos importantes para o entendimento da sociedade e da humanidade. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio interpretar e unir as teses anteriores em uma s\u00f3:<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"337\" data-end=\"2628\">Um governo busca, por natureza, expandir suas ideologias, promovendo o bem-estar social no local que lidera (ou deveria). O capitalismo, ent\u00e3o, aplica seus fundamentos. Entretanto, como m\u00e1 consequ\u00eancia e aproveitamento da propriedade privada, hierarquias sociais, vis\u00e3o voltada ao lucro e \u00e0 meritocracia, h\u00e1 dom\u00ednio e opress\u00e3o de classes inferiorizadas financeiramente, indo contra os princ\u00edpios da civiliza\u00e7\u00e3o humana (garantir direitos, deveres e sobreviv\u00eancia para todos em conjunto, sendo um interm\u00e9dio mais f\u00e1cil para tanto do que uma guerra de cada um por si). A Hist\u00f3ria e a ci\u00eancia \u2013 como meios de avalia\u00e7\u00e3o, pesquisa e estudo de acontecimentos e fen\u00f4menos \u2013 permitem que os cidad\u00e3os entendam o que est\u00e1 acontecendo com eles e ao redor deles, evidenciando ocorridos e suas consequ\u00eancias positivas e negativas. Sabendo disso, h\u00e1 uma campanha entre as autoridades e elites capitalistas para \u201capagar\u201d esse fator (um exemplo \u00e9 o que o professor Ayala Filho comentou sobre o movimento para a hist\u00f3ria do Brasil ser esquecida). Por conseguinte, reduz-se o investimento na educa\u00e7\u00e3o e na promo\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias e artes que possam abordar quesitos que sejam contra o modelo, diminuindo o interesse e o est\u00edmulo do aluno, al\u00e9m da carga hor\u00e1ria do estudo (uma vez que algumas disciplinas s\u00e3o consideradas obrigat\u00f3rias nas institui\u00e7\u00f5es de base, elas n\u00e3o podem ser descartadas completamente). E, para manter o capitalismo ainda mais fortalecido e desenvolver indiv\u00edduos capacitados apenas para manter esse sistema, o Positivismo \u00e9 apropriado como um \u201cfantoche\u201d, um \u201cc\u00e3o de guarda\u201d. As propostas dessa doutrina historiogr\u00e1fica encaixam-se perfeitamente para esse intuito de impedir que as pessoas pensem no que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista oferece que pode ser question\u00e1vel e contest\u00e1vel, e de que s\u00f3 cumpram as obriga\u00e7\u00f5es pr\u00e9-estabelecidas, mantendo a domin\u00e2ncia. Dessa maneira, a cria\u00e7\u00e3o de sujeitos influenciada pelo m\u00e9todo positivista passar\u00e1 \u2013 ao exercer a \u201cfun\u00e7\u00e3o-m\u00e3e\u201d, ensinar um filho, parente, aluno e\/ou jovem \u2013 essa tend\u00eancia \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. Assim, o tal ciclo vicioso e perigoso entre capitalismo, escolhas narrativas e educa\u00e7\u00e3o estar\u00e1 concretizado. Positivismo e a classe dominante s\u00e3o uma uni\u00e3o antag\u00f4nica da dupla micro-hist\u00f3ria e o setor popular, oper\u00e1rio e\/ou marginalizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[o capitalismo infere que] n\u00f3s temos que criar um indiv\u00edduo que tenha compet\u00eancias t\u00e9cnicas especificas, mas que n\u00e3o tenha uma vis\u00e3o cr\u00edtica da sociedade. Assim, esquecer das lutas das classes populares na nossa hist\u00f3ria \u00e9 parte do projeto de forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos pouco cr\u00edticos que possam cumprir as fun\u00e7\u00f5es exigidas pelo capitalismo na forma atual.\u201d<\/em><br \/>\n\u00c1lvaro Leonardi Ayala Filho<\/p>\n<p>Logo, a pergunta do t\u00edtulo dessa se\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cPor que deixamos de aprender sobre certos epis\u00f3dios hist\u00f3ricos e pessoas importantes, como Ayala?\u201d \u2013 est\u00e1 respondida: a causa \u00e9 a desvaloriza\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es antropol\u00f3gicas, que vem como consequ\u00eancia do ciclo vicioso explicado. Essa tamb\u00e9m \u00e9 a raz\u00e3o para outros empecilhos sociais. Alguns deles seriam a n\u00e3o conscientiza\u00e7\u00e3o; depress\u00e3o; ansiedade; inseguran\u00e7as; incertezas; falta de senso cr\u00edtico; polariza\u00e7\u00f5es; desinforma\u00e7\u00e3o e consequentes discursos de \u00f3dio. Al\u00e9m disso, o caso de Ayala \u2013 assim como, muito possivelmente, outros presos pol\u00edticos, ativistas, representantes, historiadores, jornalistas \u2013 conteve o medo da opress\u00e3o, tortura, morte e consequ\u00eancias em sua fam\u00edlia como outros obst\u00e1culos para as pessoas tomarem conhecimento de sua trajet\u00f3ria. O apagar da mem\u00f3ria sobre Ayala teve como causas, al\u00e9m da historiografia e a educa\u00e7\u00e3o, o trauma em jogo.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os primeiros passos para haver um conhecimento hist\u00f3rico mais amplo?<\/strong><\/p>\n<p>Sob as causas citadas, \u00e9 percept\u00edvel que h\u00e1 estruturas que entregam pol\u00eamicas e feridas para a humanidade que, logo, precisam de solu\u00e7\u00f5es para a evolu\u00e7\u00e3o do corpo social.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] se o povo conhecesse a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, talvez o governo n\u00e3o conseguiria dominar povo, n\u00e3o conseguiria porque eles seriam muito mais cr\u00edticos. Ent\u00e3o, trazer a verdade \u00e0 tona gera o inc\u00f4modo. Vou te dar um exemplo. Durante o governo da Dilma Rousseff foi feito trabalho de \u2018mem\u00f3ria, justi\u00e7a e verdade\u2019. V\u00e1rias coisas vieram \u00e0 tona. Inclusive, o filme \u2018Ainda Estou Aqui\u2019 s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por conta disso: porque os segredos que vieram da ditadura militar vieram \u00e0 tona durante esse processo entre 2012 e 2014, e o que aconteceu ali pra trazer esses elementos. Quando esses elementos vieram, muitas pessoas entenderam e foram instigadas a saber: \u2018ah, ent\u00e3o era isso aqui o que acontecia\u2019. Outras pessoas, negaram: \u2018at\u00e9 agora aprendi assim; t\u00e3o trazendo novas verdades e as novas verdades est\u00e3o erradas; \u00e9 verdade o que eu aprendi\u2019. Ent\u00e3o, esse \u00e9 um movimento muito dif\u00edcil. O pr\u00f3prio filme [Ainda Estou Aqui], quando foi lan\u00e7ado, muitas pessoas n\u00e3o aceitaram o filme, t\u00e1? Muitas pessoas negaram a verdade, que aquilo era uma fake news. O filme ganhou um Oscar, mas as pessoas continuam reafirmando isso. \u00c9 muito complicado. H\u00e1 um sistema maior que \u00e9 dif\u00edcil de romper; que a gente t\u00e1 num processo de melhoria, mas que t\u00e1 longe de resolver, sabe? N\u00e3o estamos perto de resolu\u00e7\u00e3o\u201d<br \/>\n<\/em>Su\u00e9llen De Medeiros Cortes<\/p>\n<article class=\"w-full text-token-text-primary\" dir=\"auto\" data-testid=\"conversation-turn-12\" data-scroll-anchor=\"true\">\n<div class=\"text-base my-auto mx-auto py-5 px-6\">\n<div class=\"mx-auto flex flex-1 text-base gap-4 md:gap-5 lg:gap-6 md:max-w-3xl group\/turn-messages focus-visible:outline-none\" tabindex=\"-1\">\n<div class=\"group\/conversation-turn relative flex w-full min-w-0 flex-col agent-turn @xs\/thread:px-0 @sm\/thread:px-1.5 @md\/thread:px-4\">\n<div class=\"relative flex-col gap-1 md:gap-3\">\n<div class=\"flex max-w-full flex-col flex-grow\">\n<div class=\"min-h-8 text-message relative flex w-full flex-col items-end gap-2 whitespace-normal break-words text-start [.text-message+&amp;]:mt-5\" dir=\"auto\" data-message-author-role=\"assistant\" data-message-id=\"5bf23e90-0b16-4350-84f7-604a2e58fffc\" data-message-model-slug=\"gpt-4o-mini\">\n<div class=\"flex w-full flex-col gap-1 empty:hidden first:pt-[3px]\">\n<div class=\"markdown prose w-full break-words dark:prose-invert light\">\n<p class=\"\" data-start=\"44\" data-end=\"740\">A pr\u00f3pria obra <em data-start=\"59\" data-end=\"77\">Ainda Estou Aqui<\/em> \u00e9 um \u00f3timo exemplo de an\u00e1lise do tipo micro-hist\u00f3ria. O filme, em vez de falar apenas do \u00fanico personagem que foi morto (Rubens Paiva), aborda toda a pris\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o da esposa Eunice Paiva (que \u00e9 o foco central), e o modo como cada filho lidou com ambos os pais desaparecidos \u2013 sendo que os mais novos n\u00e3o sabiam o que estava acontecendo \u2013 e com Rubens, que nunca mais voltou. Logo, em apenas uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, h\u00e1 a avalia\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios \u201cmicros\u201d individualmente \u2013 uns menos e outros mais \u2013 e somados para avaliar um \u201cmacro\u201d \u2013 a fam\u00edlia Rubens Paiva \u2013 realizando diversas cr\u00edticas sociais contra a ditadura militar, o capitalismo e o regime vigente.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"742\" data-end=\"1175\">Portanto, antes de buscar qualquer investimento para um conhecimento mais amplo da Hist\u00f3ria, a substitui\u00e7\u00e3o do Positivismo pela micro-hist\u00f3ria se torna imprescind\u00edvel. Ou seja, mesmo que, como j\u00e1 visto, governos, especialistas e autoridades optaram por escolhas narrativas e\/ou um aspecto de lideran\u00e7a contest\u00e1vel, a solu\u00e7\u00e3o primordial n\u00e3o est\u00e1 \u2013 necessariamente \u2013 na substitui\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o, mas no interm\u00e9dio para empreg\u00e1-la.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1177\" data-end=\"2130\">Independentemente de qualquer contexto social, governo, popula\u00e7\u00e3o, doutrina pol\u00edtica ou comunidade presente, o uso das ideologias e morais do modelo historiogr\u00e1fico italiano, tanto para o pr\u00f3prio registro hist\u00f3rico quanto para a educa\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo para o dia a dia e rotina dos indiv\u00edduos, mudaria a forma de entender, lidar e enfrentar quest\u00f5es da vida do ser humano. Ao aplicar a micro-hist\u00f3ria, a aten\u00e7\u00e3o nos estudos, pesquisas e rela\u00e7\u00f5es sociais ser\u00e1 dividida igualmente para a compreens\u00e3o de todas as fontes de informa\u00e7\u00f5es existentes, assim como as pr\u00f3prias pessoas. Como consequ\u00eancia, a interpreta\u00e7\u00e3o, constante pensamento e o senso cr\u00edtico dos cidad\u00e3os estar\u00e3o em maior atividade para a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; uma vez que h\u00e1 um maior aprofundamento no registro de fen\u00f4menos. Assim, haver\u00e1 uma maior inclus\u00e3o social, al\u00e9m de discuss\u00f5es e combates mais efetivos sobre os outros empecilhos na sociedade, sendo muitos deles advindos do capitalismo.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2132\" data-end=\"2442\">Desse modo, h\u00e1 a necessidade de reformula\u00e7\u00e3o desse modelo pol\u00edtico vigente a partir da pr\u00f3pria micro-hist\u00f3ria. Se sua aplica\u00e7\u00e3o no capitalismo n\u00e3o for suficiente para eliminar as domin\u00e2ncias de classes, a exclus\u00e3o de partes da Hist\u00f3ria, a meritocracia e os outros problemas, a\u00ed sim a doutrina deve ser trocada.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2444\" data-end=\"2862\">Ademais, investimentos na educa\u00e7\u00e3o por meio da altera\u00e7\u00e3o na BNCC, est\u00edmulos financeiros, incentivos no interesse dos alunos, mudan\u00e7as nas log\u00edsticas de aplica\u00e7\u00e3o das aulas nas escolas e na conscientiza\u00e7\u00e3o das pessoas \u2013 n\u00e3o s\u00f3 nas escolas, mas nos meios sociais e familiares \u2013 para n\u00e3o passar para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es os erros cometidos no passado s\u00e3o necess\u00e1rios. Para tanto, a micro-hist\u00f3ria tamb\u00e9m se far\u00e1 presente.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"2864\" data-end=\"3493\">Sob esse cen\u00e1rio, a historiografia do estudo do micro \u00e9 o n\u00facleo para todos os outros meios de aumentar o amplo conhecimento hist\u00f3rico, e tamb\u00e9m para a solu\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos para a civiliza\u00e7\u00e3o na sociedade. \u00c9 o caso do livro e homenagem <em data-start=\"3101\" data-end=\"3135\">Tch\u00ea! Companheiro e Amigo Ayala!<\/em>, outro perfeito exemplo da aplica\u00e7\u00e3o de micro-hist\u00f3ria, que usa a an\u00e1lise do contexto hist\u00f3rico j\u00e1 registrado, falas e depoimentos de Ayala sobre a situa\u00e7\u00e3o social e suas viv\u00eancias, mais a express\u00e3o de outros sujeitos, companheiros, amigos e testemunhas que comentaram e acrescentaram na escrita da sua atua\u00e7\u00e3o, seus feitos e na vis\u00e3o de mundo dos leitores.<\/p>\n<p><strong>A esperan\u00e7a \u00e9 a \u00faltima que morre!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c[&#8230;] o banco mundial disse que com 0,7% do PIB nacional n\u00f3s liquidar\u00edamos com a pobreza absoluta no pa\u00eds. Com 2 a 3% do PIB nacional seria poss\u00edvel manter as crian\u00e7as pobres na escola atrav\u00e9s do pagamento de uma renda m\u00ednima a seus familiares. E o banco diz mais: se peg\u00e1ssemos de 2 a 3% do PIB nacional n\u00f3s ter\u00edamos condi\u00e7\u00f5es de iniciar a grande reforma agr\u00e1ria que terminaria com o problema do desemprego no pa\u00eds. Para isto precisa duas coisas. Primeiro: o governo fixar prioridades. Segundo: ter uma vontade pol\u00edtica de resolver os problemas que afligem o povo brasileiro. Acredito na luz no fim do t\u00fanel. [&#8230;] O governo s\u00f3 ouve os aliados ele, at\u00e9 os protetores dele, desde que estes interesses n\u00e3o respinguem na \u00e1rea econ\u00f4mica. Quando \u00e9 para atingir o povo, [..] os trabalhadores sem terra, [&#8230;] as crian\u00e7as sem comida, o governo n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o ouve e n\u00e3o quer resolver por uma quest\u00e3o muito simples: teria que botar o dedo nos grandes problemas nacionais. [&#8230;] N\u00e3o vamos esquecer o seguinte: se n\u00f3s dermos terra para todos que querem trabalhar nela, [&#8230;] os problemas come\u00e7am a ser resolvidos. Vai aumentar a produ\u00e7\u00e3o, vai aumentar a distribui\u00e7\u00e3o, vai aumentar a capacidade de compra do povo. Consequentemente, aumentam as for\u00e7as comerciais, aumenta a quest\u00e3o da ind\u00fastria e o dinheiro brasileiro come\u00e7a a rolar e deixa de ficar parado na m\u00e3o de meia d\u00fazia de especuladores, quase todos eles representando capitais internacionais\u201d<br \/>\n<\/em>Ayala<\/p>\n<div class=\"flex flex-1 grow basis-auto flex-col overflow-hidden\">\n<div class=\"relative h-full\">\n<div class=\"flex h-full flex-col overflow-y-auto [scrollbar-gutter:stable]\">\n<div class=\"mt-1.5 flex flex-col text-sm @thread-xl\/thread:pt-header-height md:pb-9\">\n<article class=\"w-full text-token-text-primary\" dir=\"auto\" data-testid=\"conversation-turn-14\" data-scroll-anchor=\"true\">\n<div class=\"text-base my-auto mx-auto py-5 px-6\">\n<div class=\"mx-auto flex flex-1 text-base gap-4 md:gap-5 lg:gap-6 md:max-w-3xl group\/turn-messages focus-visible:outline-none\" tabindex=\"-1\">\n<div class=\"group\/conversation-turn relative flex w-full min-w-0 flex-col agent-turn @xs\/thread:px-0 @sm\/thread:px-1.5 @md\/thread:px-4\">\n<div class=\"relative flex-col gap-1 md:gap-3\">\n<div class=\"flex max-w-full flex-col flex-grow\">\n<div class=\"min-h-8 text-message relative flex w-full flex-col items-end gap-2 whitespace-normal break-words text-start [.text-message+&amp;]:mt-5\" dir=\"auto\" data-message-author-role=\"assistant\" data-message-id=\"71a4ef71-d909-4ca4-8d52-aa73750a164f\" data-message-model-slug=\"gpt-4o-mini\">\n<div class=\"flex w-full flex-col gap-1 empty:hidden first:pt-[3px]\">\n<div class=\"markdown prose w-full break-words dark:prose-invert light\">\n<p class=\"\" data-start=\"44\" data-end=\"767\">Sob esse vi\u00e9s, em meio \u00e0s injusti\u00e7as sociais, o contexto hist\u00f3rico, a influ\u00eancia de sua fam\u00edlia anarquista e sua pr\u00f3pria personalidade, Ayala encontra o comunismo, e\/ou (pelo menos) uma distribui\u00e7\u00e3o mais igualit\u00e1ria de recursos, como o caminho para o prop\u00f3sito da civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 todos os envolvidos terem sua sobreviv\u00eancia e bem-estar social garantidos, em que as pessoas possam ter o direito \u00e0 liberdade e seus desejos garantidos, desde que n\u00e3o destruam ou ameacem o direito do outro. Sob esse cen\u00e1rio e a partir desse trecho de fala de \u00c1lvaro, fica claro que, embora ele sempre tenha sido contra as pol\u00edticas e governos anticomunistas de sua \u00e9poca, a solu\u00e7\u00e3o para o caos social est\u00e1 em uma boa administra\u00e7\u00e3o de modo geral.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"769\" data-end=\"1587\">Moldar e proteger a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o que a ger\u00eancia de uma cultura \u2013 l\u00edderes, autoridades, um governo de um povo, pa\u00eds, estado, cidade, do globo \u2013 precisa cumprir como comandantes. Em contrapartida, fica claro que a desigualdade social, o \u201cmuito nas m\u00e3os de poucos\u201d e vice-versa, al\u00e9m do aproveitamento desse poder de gerir para suprir apenas suas pr\u00f3prias vontades, \u00e9 quest\u00e3o de uma m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o, desonestidade e promo\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a na sociedade. Por outro lado, os cidad\u00e3os tamb\u00e9m n\u00e3o podem viver de qualquer jeito sabendo que t\u00eam seus direitos assegurados. Mesmo que, a partir da leitura de todo esse texto, o abuso de autoridade seja o mais comum entre os egocentrismos, a soma dos ego\u00edsmos entre os indiv\u00edduos \u2013 com suas distintas fun\u00e7\u00f5es \u2013 culmina em uma bagun\u00e7a maior e numa guerra de todos contra todos.<\/p>\n<p class=\"\" data-start=\"1589\" data-end=\"2189\">Assim, basta cada um fazer sua parte para cumprir os prop\u00f3sitos da civiliza\u00e7\u00e3o. Mesmo que haja quest\u00f5es que sejam muito mais complexas, que envolvam compet\u00eancias, pol\u00edticas e habilidades que, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o de dom\u00ednio de algumas pessoas, ainda h\u00e1 a possibilidade de tudo e todos viverem harmoniosamente, sem desrespeitos \u00e0s regras e agress\u00f5es. Bem como o pr\u00f3prio Ayala menciona. Mesmo com toda a opress\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o e traumas que sofreu, ele acredita na supera\u00e7\u00e3o, no bem-estar social, na vit\u00f3ria contra o mal. A esperan\u00e7a \u00e9 a \u00faltima que morre! Ainda h\u00e1 luz no fim do t\u00fanel! \u00c9 poss\u00edvel, sim!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Mas, se n\u00f3s temos planos [&#8230;]<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por que n\u00e3o p\u00f4-los logo em a\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Tal seja agora a inaugura\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Da nova nossa civiliza\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>T\u00e3o singular igual ao nosso \u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>E sejam belos, livres, luminosos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Os nossos sonhos de na\u00e7\u00e3o.<\/em>\u201d<br \/>\nTrecho da m\u00fasica \u201cEcos do \u00c3o\u201d, do compositor Lenine<\/p>\n<p><strong>A arte de ser companheiro \u2013 obrigado, Ayala!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Infelizmente n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s o querido dirigente sindical \u00c1lvaro Leonardi Ayala, o mais antigo l\u00edder classista em atividade no Brasil. No \u00faltimo dia 24 de janeiro* [de 1999], sua fam\u00edlia e seus companheiros e amigos do Sinergesul [Sindicato dos Trabalhadores em Energia El\u00e9trica do Rio Grande do Sul] e do Partido Popular Socialista [PPS, para onde Ayala migrou ap\u00f3s sair do PCB] dele se despediram em comovida homenagem que lhe foi prestada por ocasi\u00e3o do seu sepultamento. A \u00eanfase dos oradores assinalou que durante toda sua exist\u00eancia o melhor de seus dias foi dedicado \u00e0 defesa dos oprimidos. [&#8230;] Quando faleceu, aos 75* anos de idade, ainda era diretor em seu sindicato de classe e, tamb\u00e9m, integrante do Diret\u00f3rio Municipal do PPS em Porto Alegre.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Jo\u00e3o Aveline, jornalista e integrante da Comiss\u00e3o de \u00c9tica do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">*na frase original de Aveline, foram mencionados dados errados que aqui foram corrigidos<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>Ayala. Por mais que quis\u00e9ssemos expressar o seu significado pol\u00edtico, pessoal, humano, n\u00e3o seriam essas linhas suficientes para tal pretens\u00e3o. De qualquer forma, \u00e9 o que [&#8230;] foi poss\u00edvel resgatar da sua emocionante hist\u00f3ria de vida. Mas, com certeza, \u00e9 insuficiente para o que voc\u00ea representou e representa para n\u00f3s urbanit\u00e1rios e, dentre n\u00f3s ou irmanados a n\u00f3s, especialmente para os comunistas, humanistas e democratas por excel\u00eancia, al\u00e9m de sindicalistas de car\u00e1ter eminentemente classista que tiveram em voc\u00ea dos melhores e mais significativos exemplos de vida e de coer\u00eancia existencial \u2013 na vida familiar, na milit\u00e2ncia, na \u00e9tica pol\u00edtica e, por fim, no respeito a valores inexpugn\u00e1veis para o exerc\u00edcio da lideran\u00e7a pol\u00edtica, sindical e partid\u00e1ria \u2013 que voc\u00ea, singularmente, nos legou. [&#8230;] motivados pela admira\u00e7\u00e3o e saudade que voc\u00ea e a sua hist\u00f3ria nos inspira e provoca, fica, indel\u00e9vel, um signo especial da sua personalidade: a luta incessante pela constru\u00e7\u00e3o da unidade dos setores progressistas dos movimentos sociais rumo ao socialismo com democracia, onde todos os homens e mulheres, velhos e crian\u00e7as, possam ser solid\u00e1rios e felizes\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Luiz Gonzaga Ulh\u00f4a Ten\u00f3rio, Ex-Diretor-Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Urbanit\u00e1rios da CUT, realizadora do livro \u201cTch\u00ea! Companheiro e Amigo Ayala\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"-me-1 -ms-2.5 flex select-none items-center p-1 touch:-me-2 touch:-ms-3.5 -mt-1 duration-[1.5s] focus-within:transition-none hover:transition-none pointer-events-none [mask-image:linear-gradient(to_right,black_33%,transparent_66%)] [mask-position:100%_0%] [mask-size:300%_100%] motion-safe:transition-[mask-position] group-hover\/turn-messages:pointer-events-auto group-hover\/turn-messages:[mask-position:0_0] group-focus-within\/turn-messages:pointer-events-auto group-focus-within\/turn-messages:[mask-position:0_0] has-[[data-state=open]]:pointer-events-auto has-[[data-state=open]]:[mask-position:0_0]\" style=\"text-align: right;\"><\/div>\n<div class=\"mt-3 w-full empty:hidden\">\n<div class=\"text-center\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"absolute\">\n<div class=\"flex items-center justify-center\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<div 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