Brenda Pereira Paranhos e Maria Eduarda Dias França/Reportagem em Curso

Em meio ao burburinho do centro de Pelotas, um prédio centenário se destaca entre as construções históricas. Com suas paredes carregadas de memórias e sua arquitetura eclética, o Mercado Central é mais do que um ponto comercial: é um espaço de encontros e cultura. Nesta reportagem, você vai conhecer um pouco mais sobre esse local que carrega tanta história.

Erguendo Um Patrimônio

O Mercado Central de Pelotas começou a ser construído em 1845, durante a passagem de Dom Pedro II pela cidade. A região escolhida para a edificação do prédio foi um terreno próximo à Praça da Regeneração, atual Praça Coronel Pedro Osório. Durante o período colonial, os comerciantes solicitaram a construção de um local para trocas e vendas de mercadorias, como o charque. Paralelamente ao crescimento econômico, houve também o crescimento populacional, com a formação dos bairros ao redor do centro do município. A obra do Mercado Central foi finalizada em 1852 e, décadas depois, em 1912, passou por uma restauração inspirada na arquitetura europeia.

Entre 1911 e 1914, o Mercado sofreu transformações significativas em sua fachada e planta, incluindo a instalação da torre do relógio e do farol de ferro, importados de Hamburgo, na Alemanha, e inspirados na Torre Eiffel de Paris. Em 1969, um grande incêndio destruiu parte do local, restando apenas a estrutura de ferro. O episódio quase levou à demolição do prédio para a construção de um supermercado em seu lugar. No entanto, a prefeitura decidiu reconstruí-lo, e, em 1985, o então prefeito Bernardo de Souza decretou o tombamento do edifício pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Em 2001, Pelotas aderiu ao programa Monumenta, uma iniciativa do governo federal para financiar a restauração de sítios históricos no Brasil. O projeto contemplou a revitalização da área central da cidade, incluindo obras na Praça Coronel Pedro Osório e no Mercado Central. Com essa reforma, houve também a redescoberta do valor afetivo e histórico do prédio.

Entre o Passado e o Futuro

Considerado o coração de Pelotas, com seus 176 anos, o Mercado Central é um dos mais antigos do país. Sua arquitetura eclética traduz o passado da cidade, ao mesmo tempo que dialoga com a modernidade. Essa combinação torna o espaço único e atrai centenas de visitantes todos os anos. Em uma noite de verão, por exemplo, é possível ouvir uma roda de pagode enquanto se toma um mate ou se come um pastel, cercado por paralelepípedos e prédios históricos que só Pelotas proporciona.

De acordo com o perfil do Instagram “Mercado Central de Pelotas”, o local conta com 83 bancas, das quais apenas 42 estão alugadas. Entre os comércios presentes, encontram-se docerias, armazéns, restaurantes, lojas de produtos artesanais, lancherias e peixarias, todas repletas de tradição e cultura local.

Seja para relaxar após o trabalho, saborear um “doce de Pelotas”, visitar a feira de pulgas aos fins de semana, ouvir uma palestra ou simplesmente contemplar a arquitetura e a história do local, o Mercado agrada a diversos públicos. E ainda oferece uma bela oportunidade para fotos com a “Torre Eiffel pelotense”, mais conhecida como Torre do Relógio.

Vozes do Mercado

O Mercado Central é um espaço onde diferentes histórias se cruzam, e, em nossa pesquisa para esta reportagem, conhecemos alguns personagens que fazem parte desse ambiente.

Klécio Santos

Logo no início da pesquisa, descobrimos o livro Mercado Central 1985-2014, que registra a trajetória do local, seus detalhes e curiosidades, além de um rico acervo fotográfico. Conversamos com o jornalista e autor da obra, Klécio Santos, que compartilhou sua principal motivação para escrevê-la: “Escrevi porque considero esse um dos locais mais importantes de Pelotas, no coração da cidade. Mais que um ponto de comércio, o Mercado foi palco de encontros, cultura e resistência”. Ele também relembrou os períodos de incertezas, a superação do incêndio e a consolidação do Mercado como um dos principais pontos turísticos da cidade.

Fernando Ferreira

Fernando Ferreira é artesão, desenhista profissional e músico há 20 anos. No início de 2024, solicitou autorização da prefeitura para expor seu trabalho em espaços públicos. Apresentou-se em diferentes pontos da cidade e, em dezembro, foi convidado pela Loja de Doces Imperatriz, no Mercado Central, para interagir com o público e oferecer desenhos personalizados aos clientes. Seu trabalho vai de caricaturas a retratos realistas, agregando ainda mais arte ao local.

Entre o Balcão e a Gestão: Perspectivas do Comércio Local

Conversamos também com Aline Leivas, funcionária de uma loja de lembrancinhas, e Vera Venzke, empresária da Doceria Fran’s. Ambas apontaram desafios como a burocracia imposta pela prefeitura e a falta de divulgação. Segundo Vera, muitos clientes desconhecem que as docerias do Mercado funcionam aos domingos. Para elas, um maior apoio ajudaria a expandir o comércio.

Realce para um Resgate

A cultura tradicional refletida no Mercado Central resiste ao tempo, atravessando gerações e acolhendo diferentes públicos. Para que esse patrimônio não se perca, é essencial o empenho da comunidade e o suporte do poder público. Esta reportagem buscou registrar um fragmento dessa história, que, apesar de marcada por desafios, segue viva. Se você tiver a oportunidade, visite e consuma a cultura local. Não vai se arrepender.