{"id":66,"date":"2016-07-22T10:00:34","date_gmt":"2016-07-22T13:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/projetocotas\/?p=66"},"modified":"2016-07-19T06:29:21","modified_gmt":"2016-07-19T09:29:21","slug":"racismo-e-falta-de-formacao-dificultam-educacao-de-temas-etnicos-raciais-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/projetocotas\/2016\/07\/22\/racismo-e-falta-de-formacao-dificultam-educacao-de-temas-etnicos-raciais-nas-escolas\/","title":{"rendered":"Racismo e falta de forma\u00e7\u00e3o dificultam educa\u00e7\u00e3o de temas \u00e9tnicos raciais nas escolas"},"content":{"rendered":"<p>FONTE: <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/especiais\/vale\/racismo-e-falta-de-formacao-dificultam-educacao-de-temas-etnicos-raciais-nas-escolas\/\">Carta Educa\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>Por\u00a0<em>Dimalice Nunes, <\/em>em\u00a029 de fevereiro de 2016.<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o de temas sobre hist\u00f3ria e cultura afro-brasileiras voltou \u00e0 pauta com o debate sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que entre as propostas elimina t\u00f3picos como Hist\u00f3ria Antiga, Medieval e Moderna para priorizar a Hist\u00f3ria do Brasil, das Am\u00e9ricas e da \u00c1frica. No entanto, a discuss\u00e3o das <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/aulas\/medio\/a-ambigua-trajetoria-do-racismo-no-futebol-no-brasil\/\" target=\"_blank\">rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais<\/a> na escola e a inclus\u00e3o desses temas v\u00eam muito antes da BNCC. Em 2003, entrava em vigor a Lei 10.639, que obriga a inser\u00e7\u00e3o, nos curr\u00edculos de escolas p\u00fablicas e particulares, da hist\u00f3ria e cultura africana e ind\u00edgena. Passada mais de uma d\u00e9cada, a realidade est\u00e1 longe do que prev\u00ea a lei.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/entrevistas\/historia-negra-escola-branca\/\" target=\"_blank\">Amilcar Araujo Pereira<\/a>, doutor em Hist\u00f3ria e professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenou uma pesquisa sobre a implementa\u00e7\u00e3o da Lei 10.639 durante mais de quatro anos. Ele acredita que o fundamento euroc\u00eantrico da educa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 um dos principais entraves para que a lei seja cumprida. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil mudar essa realidade, que \u00e9 hist\u00f3rica. Muitas gera\u00e7\u00f5es foram formadas a partir dessa educa\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica. Leva tempo e \u00e9 preciso esfor\u00e7o pol\u00edtico para transformar essa realidade\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Outro ponto fundamental levantado por Pereira \u00e9 a quest\u00e3o racial em si. \u201cO <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/entrevistas\/o-racismo-no-dia-a-dia-nao-e-nada-sutil\/\" target=\"_blank\">racismo<\/a> \u00e9 um elemento estruturante das desigualdades, inclusive nas desigualdades evidentes nos curr\u00edculos e nas pr\u00e1ticas educativas\u201d, afirma. \u201cAcredito que a aplica\u00e7\u00e3o da Lei 10.639, onde ela se d\u00e1, tem contribu\u00eddo para <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/aulas\/medio\/manifeste-se\/\" target=\"_blank\">a luta contra o racismo<\/a>, desnaturalizando sentimentos de superioridade e de inferioridade e apresentando conhecimentos e contribui\u00e7\u00f5es produzidos por todos os grupos populacionais que formaram a sociedade\u201d, acredita o especialista.<\/p>\n<p><strong>O racismo \u00e9 ponto central<\/strong> da discuss\u00e3o para Leonardo Borges da Cruz. Ele \u00e9 doutor em Sociologia e pesquisador em rela\u00e7\u00f5es raciais, al\u00e9m de lecionar no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo (IFSP) e colaborar com o projeto ENEMEX,\u00a0plataforma de apoio para prepara\u00e7\u00e3o de alunos para o Enem. Segundo o professor, \u00e9 inerente ao comportamento brasileiro lidar com o racismo de forma naturalizada, como se experi\u00eancias pr\u00f3prias ou de pessoas pr\u00f3ximas reduzissem a import\u00e2ncia da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ele, isso se revela na dificuldade dos brasileiros identificarem pr\u00e1ticas e predisposi\u00e7\u00f5es racistas. \u201cEssa pretens\u00e3o contribui para desqualificar dispositivos legais, na medida em que a tem\u00e1tica n\u00e3o sai do senso comum e da reprodu\u00e7\u00e3o de preconceitos e discursos ideol\u00f3gicos.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, aponta Cruz, pouqu\u00edssimas institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior ofereciam \u00e0 \u00e9poca da lei forma\u00e7\u00e3o com disciplinas na \u00e1rea \u2013 o que est\u00e1 mudando lentamente. Outro ponto \u00e9 a j\u00e1 conhecida desvaloriza\u00e7\u00e3o do profissional da educa\u00e7\u00e3o. \u201cNa maioria das redes de ensino os docentes n\u00e3o recebem mais do que uns trocados e um aperto de m\u00e3o para se atualizarem em suas \u00e1reas pesquisas. Assim, dificilmente s\u00e3o estimulados \u00e0 inova\u00e7\u00e3o\u201d, critica. A falta de prepara\u00e7\u00e3o dos docentes \u00e9 barreira mencionada tamb\u00e9m por Pereira: \u201cH\u00e1 muito a ser feito ainda, mas n\u00e3o h\u00e1 como negar o avan\u00e7o obtido em muitas universidades, especialmente nas p\u00fablicas. Ainda est\u00e1 muito longe do ideal, mas acredito que estamos avan\u00e7ando.\u201d<\/p>\n<p>Se as faltas de incentivo para a especializa\u00e7\u00e3o e todas as dificuldades inerentes \u00e0 doc\u00eancia s\u00e3o conhecidas, as iniciativas individuais d\u00e3o o tom na inser\u00e7\u00e3o da cultura e hist\u00f3ria afro-brasileira nas escolas. Pereira afirma que em suas pesquisas constatou que h\u00e1 bastante interesse do professor em mudar essa realidade. \u201cPrecisamos combater o racismo, produzir mais conhecimentos sobre hist\u00f3ria e culturas negra e ind\u00edgena, disponibilizar mais espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada para essas tem\u00e1ticas, mas sempre lidando com dificuldades de infraestrutura e recursos, tanto nas escolas quanto nas universidades\u201d, observa. Apesar dos obst\u00e1culos, ele acredita, estamos diante de um caminho sem volta.<\/p>\n<p>J\u00e1 Cruz v\u00ea que o interesse n\u00e3o \u00e9 sempre evidente, mas aparece em diversos casos individuais. \u201cCom alguma exposi\u00e7\u00e3o ao tema feita por especialistas, muitos docentes vencem a resist\u00eancia e se interessam\u201d. H\u00e1 ainda, na sua opini\u00e3o, a quest\u00e3o dos gestores em educa\u00e7\u00e3o, muitas vezes reprodutores do senso comum de que a quest\u00e3o racial no Brasil n\u00e3o \u00e9 priorit\u00e1ria. \u201cNoto que as aulas existem, com raras exce\u00e7\u00f5es, nas escolas em que h\u00e1 algum docente empenhado no tema. Geralmente s\u00e3o especialistas na tem\u00e1tica racial ou interessados em busca de orienta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_11324\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<div id=\"attachment_11324\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11324\" class=\"wp-image-11324 size-medium\" src=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Jongo-Marambaia107-600x400.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/><p id=\"caption-attachment-11324\" class=\"wp-caption-text\">Integrantes do jongo (dan\u00e7a de roda de origem africana) de Mangaratiba (RJ) se preparam para uma apresenta\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<\/figure>\n<p>Para atender \u00e0 demanda a Funda\u00e7\u00e3o\u00a0Vale realizou, h\u00e1 dois anos, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de Mangaratiba, um curso de extens\u00e3o universit\u00e1ria sobre a tem\u00e1tica \u00e9tnico-racial voltado para a forma\u00e7\u00e3o de professores. Os encontros, que contaram com a contribui\u00e7\u00e3o de profissionais que s\u00e3o refer\u00eancia nacional no estudo e na pesquisa em educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, forneceram subs\u00eddios a professores e gestores para a aplica\u00e7\u00e3o efetiva da lei, como forma de estimular a pr\u00e1tica docente nos princ\u00edpios da pluralidade e do respeito \u00e0s diferen\u00e7as. Participaram da capacita\u00e7\u00e3o 45 diretores escolares de Mangaratiba, o que contempla toda a rede de ensino municipal.<\/p>\n<p>Da experi\u00eancia nasceu a publica\u00e7\u00e3o <em>Educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no <a href=\"http:\/\/www.fundacaovale.org\/pt-br\/artigos\/ultimos-artigos\/Documents\/educacao-relacoes-etnico-raciais.pdf\" target=\"_blank\">Brasil: trabalhando com hist\u00f3rias e culturas africanas e afro-brasileiras nas salas de aula<\/a>.<\/em>\u00a0A publica\u00e7\u00e3o traz conte\u00fados sobre as hist\u00f3rias da \u00c1frica e da presen\u00e7a dos negros no Brasil, al\u00e9m de discutir a educa\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no cotidiano escolar. O material oferece tamb\u00e9m indica\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas e exemplos pr\u00e1ticos de atividades que podem ser desenvolvidas em sala de aula.<\/p>\n<p>Andreia Prestes, especialista em educa\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Vale, concorda que a n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o da lei e a aus\u00eancia da hist\u00f3ria afro-brasileira no curr\u00edculo tem a ver com o racismo. \u201cO preconceito racial persiste e n\u00e3o trabalhar hist\u00f3ria da cultura afro-brasileira e ind\u00edgena em sala de aula \u00e9 um reflexo, porque o professor n\u00e3o v\u00ea import\u00e2ncia. Mas existe tamb\u00e9m um movimento forte para que a lei seja aplicada\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Andreia conta que em 2012 a Funda\u00e7\u00e3o Vale come\u00e7ou a pesquisar quest\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o que poderiam ser abordadas em suas a\u00e7\u00f5es e descobriu que n\u00e3o existiam muitas institui\u00e7\u00f5es que trabalhavam para o fortalecimento da Lei 10.639. Da\u00ed nasceu a experi\u00eancia piloto em Mangaratiba.<\/p>\n<p>Atualmente a Funda\u00e7\u00e3o Vale segue abordando o tema dentro do projeto Roda de Conversa, que prev\u00ea a entrega de uma maleta com 12 livros infantis \u00e0s escolas. Percebendo a car\u00eancia de t\u00edtulos que abordassem hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e ind\u00edgena, o projeto passou a incluir publica\u00e7\u00f5es do g\u00eanero ao acervo doado e levar \u00e0s escolas p\u00fablicas escritores representativos do tema, como Daniel Munduruku, ind\u00edgena refer\u00eancia na autoria de livros infantis ind\u00edgenas, e Sonia Rosa, que trata da cultura africana. De 2013 a 2015 mais de 30 munic\u00edpios foram contemplados.<\/p>\n<p>O tema segue no radar da Funda\u00e7\u00e3o. Maria Alice Santos, gerente de Educa\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Vale afirma que apoiar as secretarias de educa\u00e7\u00e3o no fortalecimento de leis que tornam obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria e da cultura afro-brasileira e ind\u00edgena \u00e9 uma das formas de contribuir para o desenvolvimento dos territ\u00f3rios. \u201cAplicar essas leis \u00e9 fundamental para que a diversidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira seja representada e para que a escola seja, de fato, um ambiente positivo de constru\u00e7\u00e3o de identidades\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FONTE: Carta Educa\u00e7\u00e3o Por\u00a0Dimalice Nunes, em\u00a029 de fevereiro de 2016. 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