{"id":2087,"date":"2022-06-20T13:52:08","date_gmt":"2022-06-20T16:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/?p=2087"},"modified":"2022-07-18T16:40:46","modified_gmt":"2022-07-18T19:40:46","slug":"nosso-reconhecimento-e-homenagem-ao-indigenista-bruno-pereira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/2022\/06\/20\/nosso-reconhecimento-e-homenagem-ao-indigenista-bruno-pereira\/","title":{"rendered":"Nosso reconhecimento e homenagem ao indigenista Bruno Pereira"},"content":{"rendered":"<h2>&#8216;Dif\u00edcil, cansativo, perigoso&#8217;, disse Bruno \u00e0 Folha antes de ir \u00e0 floresta pela \u00faltima vez<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-size: 12px;\">Indigenista morto falou \u00e0 reportagem semanas antes de ingressar na regi\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Vale do Javari, no AM<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MANAUS<\/strong> &#8220;O presidente [Jair Bolsonaro] n\u00e3o demarcou um cent\u00edmetro como ele prometeu. O presidente da Funai, o [Marcelo] Xavier, est\u00e1 l\u00e1 para isso. \u00c9 a administra\u00e7\u00e3o do caos. N\u00e3o sei n\u00e3o [suspiro]. Dif\u00edcil, cansativo, perigoso. Vamos simbora.&#8221;<\/p>\n<p>Foi dessa forma que o indigenista Bruno Pereira, 41, completou uma de suas respostas \u00e0 Folha durante longa entrevista por telefone semanas antes de viajar pela \u00faltima vez \u00e0 terra ind\u00edgena Vale do Javari, no Amazonas.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de 22 de abril, dia em que se comemora o descobrimento do Brasil. Passados 44 dias, em 5 de junho, Bruno desapareceu nas imedia\u00e7\u00f5es da terra ind\u00edgena. Foi assassinado ao lado do jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips, 57, que escrevia um livro sobre a Amaz\u00f4nia e contava com a ajuda do indigenista.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Bruno era funcion\u00e1rio licenciado da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio). Naquele dia, foi procurado pela Folha para falar sobre os riscos que vivem hoje os ind\u00edgenas isolados, sua especialidade de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/files\/2022\/06\/BrunoPereira.png\"><img class=\"aligncenter size-large wp-image-2089\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/files\/2022\/06\/BrunoPereira-1024x683.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/files\/2022\/06\/BrunoPereira-1024x683.png 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/files\/2022\/06\/BrunoPereira-400x267.png 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/files\/2022\/06\/BrunoPereira-768x512.png 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ppgant\/files\/2022\/06\/BrunoPereira.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"font-size: 10px;\">O indigenista Bruno Pereira, 41, que foi assassinado na terra ind\u00edgena Vale do Javari, na Amaz\u00f4nia &#8211; Daniel Marenco-9.out.2019\/Ag\u00eancia O Globo<\/p>\n<p>Nos cerca de 50 minutos de entrevista, o tom do indigenista variou entre a preocupa\u00e7\u00e3o, quando tratava da seguran\u00e7a e do risco de mortes dos isolados, e o entusiasmo, com as possibilidades de manter a atua\u00e7\u00e3o na defesa dos direitos e liberdades dos ind\u00edgenas por meio do que chamava de &#8220;resist\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Quando se referia \u00e0 Funai, de onde se afastara a seu pedido, Bruno demonstrava abatimento e indigna\u00e7\u00e3o, em especial quando o tema era a atual gest\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o federal, sob comando de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Ex-coordenador-geral de \u00cdndios Isolados e de Recente Contato, Bruno passou a atuar na linha de frente na prote\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena por meio da Univaja (Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari). A regi\u00e3o \u00e9 alvo de invas\u00f5es em raz\u00e3o da pesca e de ca\u00e7a ilegais, garimpo e influ\u00eancia do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u00c0 <strong>Folha<\/strong> ele analisou a condi\u00e7\u00e3o atual da Funai, falou em persegui\u00e7\u00e3o a ele e a outros servidores, tratou da influ\u00eancia externa sobre a autarquia e apresentou sua vis\u00e3o geral sobre a pol\u00edtica indigenista do pa\u00eds e a condi\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Naquele dia, Bruno pediu \u00e0 reportagem que n\u00e3o publicasse suas declara\u00e7\u00f5es sobre a Funai, por uma orienta\u00e7\u00e3o de seus advogados, j\u00e1 que enfrentava uma situa\u00e7\u00e3o de conflito interno desde o seu afastamento.<\/p>\n<p>Agora, diante de sua tr\u00e1gica morte e do interesse jornal\u00edstico sobre o que ele pensava sobre o tema, a Folha publica sua entrevista. Naquele dia, Bruno estava em Santar\u00e9m (PA).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>PERSEGUI\u00c7\u00c3O E ASS\u00c9DIO NA FUNAI<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Olha, isso \u00e9 fundamental. Destruir por dentro [a Funai] e arrumar aliados que mantenham a fachada que eles precisam. Quando eu saio da CGiirc [coordena\u00e7\u00e3o geral de \u00edndios isolados], fui coordenador geral, a gente j\u00e1 imaginava o que vinha. Mesmo num governo que j\u00e1 n\u00e3o era interessante, quando vem [Michel] Temer, existia um respeito ao lado democr\u00e1tico, republicano de o Estado brasileiro funcionar [&#8230;] Com a virada nesse novo governo e a queda do general Franklimberg [Freitas], presidente da Funai \u00e0 \u00e9poca, ele mesmo chama a gente e diz: \u2018Se preparem que ele vem para arrebentar tudo\u2019. \u00c9 n\u00e3o funcionar para funcionar.<\/p>\n<p>Quanto mais desestruturar, mexer na normatiza\u00e7\u00e3o interna e amea\u00e7ar servidores, mais ele consegue.<br \/>\nN\u00e3o culpo todos os meus colegas. Eu vim para a resist\u00eancia e estou sendo perseguido desde ent\u00e3o at\u00e9 hoje. Est\u00e3o abrindo processo contra mim. Minha alian\u00e7a \u00e9 muito maior com os \u00edndios que com o Estado e a Funai. N\u00e3o estou preocupado.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o coloco essa quest\u00e3o para todos os meus colegas servidores. N\u00e3o d\u00e1 para o servidor sozinho ir contra uma m\u00e1quina pesada dessa, e o Estado na m\u00e3o deles. Sendo que eu n\u00e3o consigo, isso \u00e9 perfil meu e de outros, fechar os olhos, fingir que nada est\u00e1 acontecendo e ficar brincando de ter um cargo<br \/>\nnuma estrutura de poder dessa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eles vieram amea\u00e7ar. Est\u00e3o abrindo processos contra v\u00e1rios do OPI [Observat\u00f3rio dos Direitos Humanos dos Povos Ind\u00edgenas Isolados e de Recente Contato]. Eu como colaborador e conhecedor da OPI, contra Univaja [Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari] e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>\u00c9 o perfil autorit\u00e1rio dessa gest\u00e3o, desses delegados. Eles t\u00eam um modus operandi. Quando saio da CGiirc, assim que eu sa\u00ed, j\u00e1 era proibido falar. Eu disse: \u2018Vou falar\u2019. N\u00e3o estou nem a\u00ed. E abri a boca. Dei entrevistas na \u00e9poca. Aquilo ali foi usado como dossi\u00ea em reuni\u00f5es. Em cima da mesa, o presidente da Funai, \u2018pa\u2019, \u2018eu vou quebrar o sigilo financeiro e banc\u00e1rio desse cara\u2019.<br \/>\nTentando amea\u00e7ar. Eu n\u00e3o me intimidei. Os demais foram perseguidos um por um.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>LICEN\u00c7A DA FUNAI<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o recebo, mas continuo servidor p\u00fablico. Posso ficar at\u00e9 seis anos nela [licen\u00e7a]. Sou concursado. Acho que eles acharam que iam se livrar. Ningu\u00e9m achava que ia sair a licen\u00e7a, e eles deram.<\/p>\n<p>Saiu, eu me silencio, vou para sombra e vou costurar essas articula\u00e7\u00f5es no pa\u00eds inteiro com um monte de gente. Conhe\u00e7o a turma inteira da OPI. A Univaja, eu trabalho. A OPI, eu contribuo. Eles est\u00e3o me denunciando exatamente por causa disso. A den\u00fancia \u00e9 que eu estou em conflito de interesse por estar<br \/>\natuando na atividade privada ind\u00edgena, que \u00e9 papel de atua\u00e7\u00e3o [que] seria do Estado.<\/p>\n<p>O processo est\u00e1 chegando a\u00ed, j\u00e1 passou na CGU [Controladoria Geral da Uni\u00e3o]. Eles tinham interesse de mandar eu voltar. Como se fosse me punir, mandar eu voltar a trabalhar na terra que eu trabalho h\u00e1 12 anos. Acho que eles dissuadiram dessa costura. N\u00e3o falaram mais em eu voltar. Bom, estou na expectativa. Vou responder muito sereno e continuo o combate pelos direitos dos \u00edndios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>POL\u00cdTICA IND\u00cdGENA DOS ISOLADOS<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A galera ali [Funai] est\u00e1 preocupante. Tem uns ali que se corromperam e est\u00e3o fazendo um jogo muito perigoso de escolher o que deve ser entregue para manter os cargos.<\/p>\n<p>\u00c9 complexo porque o Estado \u00e9 preponderante, \u00e9 predominante na prote\u00e7\u00e3o desses povos. Eles n\u00e3o t\u00eam como sair gritando: \u2018Estou precisando de ajuda\u2019, como outros povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea viu agora no ATL [Acampamento Terra Livre], 7.000 \u00edndios, uma for\u00e7a pol\u00edtica, enfrentando o governo que atacou os direitos.<\/p>\n<p>Os isolados, n\u00e3o. \u00c9 uma pauta que passava meio marginal. A sociedade branca, hegem\u00f4nica adora falar dos \u00edndios pelados que est\u00e3o no mato como antigamente, mas ningu\u00e9m encampava.<\/p>\n<p>O Estado sempre foi muito importante na pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o dos \u00edndios isolados. O Brasil \u00e9 vanguardista, no mundo, na Am\u00e9rica. Foi muito copiada a pol\u00edtica p\u00fablica do Brasil e hoje est\u00e1 nas m\u00e3os de pessoas com interesses, que a gente sabe que n\u00e3o \u00e9 proteger os isolados. O interesse \u00e9 de abrir os territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>O presidente da Funai em janeiro fez um comunicado aberto, abrindo m\u00e3o de Ituna-Itat\u00e1 [PA], tendo expedi\u00e7\u00f5es recentes que mostraram poss\u00edveis vest\u00edgios da presen\u00e7a desses \u00edndios. Rapaz, isso ainda vai ser estudado muito. A dimens\u00e3o disso \u00e9 grav\u00edssima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>LOBBY CONTRA OS ISOLADOS<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o em cima de todas as restri\u00e7\u00f5es [de uso em terras com ind\u00edgenas isolados]. Restri\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa fr\u00e1gil e d\u00e1 muito poder ao presidente da Funai. Em lugares que n\u00e3o est\u00e1 confirmado, tr\u00eas delas s\u00e3o em frentes de expans\u00e3o.<br \/>\nOnde est\u00e3o hoje Ituna [PA], Jacare\u00faba-Katawixi [AM] e Piripkura [MT] s\u00e3o de interesses fundi\u00e1rios e miner\u00e1rios monstruosos. S\u00e3o terras relativamente grandes e que valem milh\u00f5es e milh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 vendo essa press\u00e3o para derrubar Igarap\u00e9 Taboca [AC]. Nem na Tanaru [RO]. Agora, as outras est\u00e3o no arco do desmatamento e no interesse de gente que manda no pa\u00eds hoje. De gente que manda na Funai. Esses caras do agroneg\u00f3cio retr\u00f3grado. E quem era Marcelo Xavier, n\u00e9?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem ningu\u00e9m de gra\u00e7a. O que segura ele s\u00e3o deputados e senadores. O que estiver ao alcance dele, do presidente da Funai, ele vai fazer. Desfazer terra ind\u00edgena n\u00e3o vai porque vai levar umas porradas no Supremo como est\u00e1 tomando nas restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>\u2018TIRAR TERRA DO \u00cdNDIO \u00c9 MATAR O \u00cdNDIO\u2019<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas isolados, primeiro, precisam de uma terra intang\u00edvel. Terra plena, que tenha ca\u00e7a, \u00e1gua, frutas. Tudo que eles tenham no h\u00e1bito deles. Segundo ponto \u00e9 que eles t\u00eam uma vulnerabilidade epidemiol\u00f3gica e pol\u00edtica. Um grupo desse com a Covid \u00e9 p\u00e1 e queda. Pessoas superfortes, musculosas, saud\u00e1veis, mulheres com crian\u00e7as lindas, todos caem doentes e morrem por causa de uma gripe. A Covid seria muito mais devastadora.<\/p>\n<p>A pandemia foi did\u00e1tica. Quando a gente ficou nesse ai ai ai com Covid morrendo gente para cacete no mundo inteiro \u00e9 meio como eles passam a vida inteira.<\/p>\n<p>Precisam de prote\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e agentes especializados sabendo lidar quando eles andam fora do territ\u00f3rio ou precisam de um contato para sobreviver. Tirar terra do \u00edndio \u00e9 matar o \u00edndio. \u00c9 o que est\u00e3o tentando fazer. Vira uma eterna fuga [dos \u00edndios isolados], uma di\u00e1spora em busca de sua terra. \u00c9 a hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>PERDA DE EXPERTISE<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o pode ser a palavra \u00fanica e final, entende? N\u00e3o tem perna, n\u00e3o tem feito expedi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o se parte para demarca\u00e7\u00e3o de terra sem ter confirma\u00e7\u00f5es. S\u00f3 parte para demarca\u00e7\u00e3o se tiver confirma\u00e7\u00e3o dos \u00edndios. N\u00e3o tem nem um e nem outro ocorrendo. Hoje, j\u00e1 vai para uma quest\u00e3o al\u00e9m dessa desestrutura\u00e7\u00e3o que se tornou a pol\u00edtica de isolados desse governo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma perda desse conhecimento, dessa expertise da floresta, dos sertanistas em fun\u00e7\u00e3o da falta de prepara\u00e7\u00e3o de quadros que n\u00e3o sejam vindos somente de concurso p\u00fablico. A\u00ed, o cara de S\u00e3o Paulo, do Recife vai aprender tudo da floresta em dois, tr\u00eas anos. N\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>O primeiro passo era come\u00e7ar a ter equipes para localiza\u00e7\u00e3o de isolados bem formadas, estruturadas e com metas claras de atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem isso hoje.<br \/>\nTemos uma defici\u00eancia hist\u00f3rica e nesse governo \u00e9 proibido querer resolver problemas.<\/p>\n<p>O que eles est\u00e3o fazendo \u00e9 apagando foguinho porque o pau quebrou no Supremo por causa da Covid. \u00c9 barreira sanit\u00e1ria, n\u00e3o sei o qu\u00ea. Mas ter um plano log\u00edstico para tirar garimpeiro dos ianom\u00e2mi, que tem terra de isolado tamb\u00e9m e outros lugares, n\u00e3o \u00e9 interesse dessa administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>LOCAIS EM RISCO<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jacare\u00faba-Katawixi \u00e9 uma terra grande. Ela est\u00e1 totalmente furada, tomada por madeireiros. Tem um drama ligado ao asfaltamento da BR-319. O coordenador de \u00edndios isolados que fez a expedi\u00e7\u00e3o e disse que localizou os \u00edndios e essa [portaria de restri\u00e7\u00e3o de uso] de Jacare\u00faba n\u00e3o foi renovada nem por seis meses. O presidente da Funai s\u00f3 vai fazer se judicializar.<\/p>\n<p>Piripikura tem a\u00e7\u00f5es judiciais pesadas e \u00edndios confirmados. A gente sabe, de bastidores, de acord\u00f5es rolando de novo com essa dire\u00e7\u00e3o da Funai para diminuir a terra e liberar umas fazendas l\u00e1 dentro. Pirititi \u00e9 mais [amea\u00e7ada] pela explora\u00e7\u00e3o de madeira e a expans\u00e3o agropecu\u00e1ria. Ela fica pr\u00f3xima da BR-174. J\u00e1 teve invas\u00e3o de garimpeiros ali perto.<\/p>\n<p>Ituna-Itat\u00e1 \u00e9 complexo e precisa da confirma\u00e7\u00e3o oficial dos \u00edndios ainda. Voc\u00ea exp\u00f5e muito. Porque o fazendeiro, madeireiro est\u00e1 ao lado. E um governo alucinado desse, ele [invasor] acha que vai derrubar a terra mesmo. Se ele ficar ali pacientemente e esperar um pouco porque \u2018esse neg\u00f3cio [demarca\u00e7\u00e3o] n\u00e3o vai para frente n\u00e3o\u2019. \u2018Vamos invadindo, vamos invadindo que \u00e9 Bolsonaro, estamos juntos\u2019. \u2018Vai mudar a lei sobre terra ind\u00edgena\u2019. \u2018Tem muita terra e pouco \u00edndio\u2019.<\/p>\n<p>Num contexto para al\u00e9m dos \u00edndios isolados, o presidente n\u00e3o demarcou um cent\u00edmetro como ele prometeu. O presidente da Funai, o Xavier, est\u00e1 l\u00e1 para isso. \u00c9 a administra\u00e7\u00e3o do caos. N\u00e3o sei n\u00e3o [suspiro]. Dif\u00edcil, cansativo, perigoso. Vamos simbora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>RAIO-X<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Bruno Pereira, 41<\/h5>\n<p>Servidor de carreira da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) desde 2010, estava licenciado depois de ter sido exonerado da Coordena\u00e7\u00e3o Geral de \u00cdndios Isolados e Rec\u00e9m-Contatados, na qual esteve por 14 meses. Trabalhava para a Univaja (Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari) quando foi assassinado junto ao jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-size: 14px;\">Reportagem realizada dia 22 de abril de 2022 pela rep\u00f3rter Rosiene Carvalho publicada no Jornal Folha de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Dif\u00edcil, cansativo, perigoso&#8217;, disse Bruno \u00e0 Folha antes de ir \u00e0 floresta pela \u00faltima vez &nbsp; Indigenista morto falou \u00e0 reportagem semanas antes de ingressar na regi\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Vale do Javari, no AM &nbsp; MANAUS &#8220;O presidente [Jair Bolsonaro] n\u00e3o demarcou um cent\u00edmetro como ele prometeu. 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