{"id":1809,"date":"2021-10-07T18:00:21","date_gmt":"2021-10-07T21:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?p=1809"},"modified":"2022-05-23T18:05:14","modified_gmt":"2022-05-23T21:05:14","slug":"texto-vikings-entre-o-senso-comum-e-a-construcao-historiografica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/2021\/10\/07\/texto-vikings-entre-o-senso-comum-e-a-construcao-historiografica\/","title":{"rendered":"Texto: Vikings? Entre o senso comum e a constru\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Vikings? Entre o senso comum e a constru\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Lukas Gabriel Grzybowski (UEL)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O equ\u00edvoco mais comum em torno do tema dos chamados vikings \u00e9 considerar que o termo se refira a um grupo \u00e9tnico, um povo, e que ser um viking apresenta algum tipo de identidade cultural ou mesmo nacional. Pelo contr\u00e1rio, o termo viking se refere a uma atividade, qual seja, a pirataria e pilhagem, e assim como \u201cadvogado\u201d n\u00e3o se refere a um povo, \u201cviking\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o. Essa confus\u00e3o entre os piratas escandinavos \u2013 que podemos chamar de vikings propriamente ditos \u2013 e os povos germ\u00e2nicos que ocupavam o territ\u00f3rio da Escandin\u00e1via entre o fim da Idade do Ferro e o in\u00edcio da Idade M\u00e9dia ocorre parcialmente em virtude dos autores das narrativas que tratam dos contatos entre os habitantes do continente europeu e os escandinavos, que foram intensificados quando os escandinavos ampliaram seus espa\u00e7os de pilhagem sobre os territ\u00f3rios ocupados por esses autores. Nesse caso, tratavam-se em geral de vikings.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso lembrar que quando olhamos para os relatos da \u00e9poca medieval \u2013 aquilo que entre historiadores chamamos de fontes \u2013 os escandinavos raramente s\u00e3o chamados \u201cvikings\u201d, exceto talvez nas fontes em n\u00f3rdico antigo. A prefer\u00eancia \u00e9 pelo emprego de etn\u00f4nimos, ou seja, os nomes dos grupos \u00e9tnicos aos quais esses indiv\u00edduos pertenciam. Assim, os autores falam em <em>dani<\/em> (dinamarqueses), <em>nortmanni<\/em> (normandos\/homens do norte) e, em menor grau, <em>sueones<\/em> (suecos). Paralelamente, uma vez que os autores do continente europeu eram majoritariamente associados \u00e0s institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas, as quais eram tamb\u00e9m um alvo preferido pelos piratas escandinavos gra\u00e7as \u00e0 riqueza das institui\u00e7\u00f5es, esses escandinavos n\u00e3o raramente eram tratados apenas como pag\u00e3os e b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prefer\u00eancia pelo termo \u201cviking\u201d para designar os escandinavos de modo geral \u00e9, do contr\u00e1rio, uma inven\u00e7\u00e3o bem recente. Proposta no s\u00e9culo XVIII por alguns historiadores e antiquaristas que encontraram tal designa\u00e7\u00e3o em documentos oriundos da Inglaterra medieval, a designa\u00e7\u00e3o \u201cviking\u201d se popularizou no s\u00e9culo seguinte, sobretudo na historiografia brit\u00e2nica, e da\u00ed partiu para conquistar o mundo. Nesse processo, todavia, muito mais que o conhecimento acad\u00eamico, foram as artes do per\u00edodo rom\u00e2ntico que sedimentaram a ideia de que todo escandinavo era um viking (na verdade, a maioria dos escandinavos eram camponeses empobrecidos) e que o termo \u201cviking\u201d designava uma determinada cultura ou povo da \u00e9poca medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil tentar estabelecer uma causa \u00fanica para esse fen\u00f4meno, mesmo porque ele n\u00e3o \u00e9 \u00fanico, mas m\u00faltiplo. Diferentes grupos e pessoas se interessam e buscam conhecimento em rela\u00e7\u00e3o aos escandinavos e aos vikings por raz\u00f5es distintas, que s\u00e3o moldadas pelo contexto em que cada um se encontra. Os vikings do grande p\u00fablico tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes dos personagens hist\u00f3ricos que a academia se dedica a estudar e as intersec\u00e7\u00f5es entre esses universos s\u00e3o multifacetadas e nem sempre pac\u00edficas. Alguns grupos buscam nos assuntos da Escandin\u00e1via da Era Viking os fundamentos da sua identidade nacional \u2013 como na Noruega, Su\u00e9cia, Dinamarca ou Isl\u00e2ndia modernas. Outros procuram atrav\u00e9s do conhecimento do passado fundamentar suas pr\u00e1ticas religiosas atuais. Ainda outros indiv\u00edduos s\u00e3o atra\u00eddos pelo ambiente de viol\u00eancia, bravura ou virilidade que uma \u00e9poca marcada por constantes saques e incurs\u00f5es b\u00e9licas sugere. Aqui, h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que procuram se aproximar de uma no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a pura e demais tipos de preconceitos associados \u00e0 ideia de uma Escandin\u00e1via germ\u00e2nica e ariana \u2013 o que \u00e9 um mito inventado no s\u00e9culo XIX, que fique bem claro. Por fim, existem os acad\u00eamicos, que se interessam por diferentes aspectos dessa sociedade por encontrarem ali respostas para suas inquieta\u00e7\u00f5es. Se todas essas rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o express\u00e3o de apre\u00e7o \u00e9 um tema a ser debatido. Afinal, eu n\u00e3o creio ser uma grande homenagem ou uma postura muito reverente ao passado escandinavo quando um supremacista branco sai espalhando mentiras sobre aquele povo, por mais que esse indiv\u00edduo acredite que sim. Mas, tirando esses casos extremos, acredito que muito do interesse pelo passado escandinavo surge da alteridade desse povo nas interpreta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas que lhes s\u00e3o atribu\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um alter ego, muitos procuram nos escandinavos aquilo que n\u00e3o encontram em si mesmos, mas que consideram desej\u00e1vel. Como exemplo mais t\u00e1cito nesse sentido talvez o caso da liberdade feminina possa ser evocado, ou a ideia de liberdade e aventura que permeia as a\u00e7\u00f5es dos saqueadores que v\u00eam do mar. Certo \u00e9, contudo, que poucos procuram essas informa\u00e7\u00f5es por apresentar um interesse genu\u00edno no conhecimento acad\u00eamico sobre o tema, caso contr\u00e1rio, os livros que meus colegas e eu escrevemos, estariam constantemente nas listas de best-sellers. Somente uma parcela pequena dos consumidores do \u201cproduto vikings\u201d acaba indo al\u00e9m e se engajando com a investiga\u00e7\u00e3o do passado escandinavo. E est\u00e1 bem assim. Jamais devemos nos esquecer que se trata de produtos de entretenimento e, nesse contexto, oferecem ao p\u00fablico hoje a possibilidade de escapar de rotinas enfadonhas atrav\u00e9s da imagina\u00e7\u00e3o de grandes aventuras, batalhas e conquistas. Interessantemente, muitas das informa\u00e7\u00f5es que possu\u00edmos dos vikings se originam de um interesse similar pelo l\u00fadico. As sagas, as poesias m\u00edticas e heroicas, as artes da Era Viking que s\u00e3o t\u00e3o importantes para nosso conhecimento dessa cultura tamb\u00e9m tinham como objetivo ocupar e distrair as pessoas nos longos invernos do norte escandinavo. Quem sabe n\u00e3o \u00e9 essa a conex\u00e3o que nos liga aos \u201cvikings\u201d?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja o card no Instagram sobre Vikings e Supremacistas <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CUqVVWesobM\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ELLIOTT, Andrew B.R. Medievalism, Politics and Mass Media: Appropriating the Middle Ages in the Twenty-First Century: Boydell &amp; Brewer Ltd, 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GEARY, Patrick, 2013. \u201cA Europa Das Na\u00e7\u00f5es Ou a Na\u00e7\u00e3o Europa: Mitos De Origem Passados E Presentes.\u201d RLEC 1 (1): 21\u201335.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KR\u00dcGER, Jana. \u201eWikinger\u201c im Mittelalter. Die Rezeption von v\u00edkingr m. und v\u00edking f. in der altnordischen Literatur. Berlin: Walter de Gruyter, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VALENCIA-GARC\u00cdA, Louie Dean. Far-Right Revisionism and the End of History: Alt\/histories \/ Edited by Louie Dean Valencia-Garc\u00eda. 1st. London: Routledge, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WAWN, Andrew. The Vikings and the Victorians Inventing the Old North in Nineteenth-Century Britain. Cambridge: D.S. Brewer, 2002.<\/p>\n<p>Fonte da imagem: Frank Bernard Dicksee (1853\u20131928), &#8220;Vikings Heading for Land&#8221; (1873) Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Frank_Dicksee_-_Vikings_Heading_for_Land.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Frank_Dicksee_-_Vikings_Heading_for_Land.jpg<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vikings? 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