{"id":7090,"date":"2025-12-23T12:00:00","date_gmt":"2025-12-23T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=7090"},"modified":"2025-12-23T13:59:08","modified_gmt":"2025-12-23T16:59:08","slug":"entre-o-sopro-da-criacao-e-o-peso-da-queda-a-construcao-simbolica-da-identidade-crista","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/entre-o-sopro-da-criacao-e-o-peso-da-queda-a-construcao-simbolica-da-identidade-crista\/","title":{"rendered":"Entre o sopro da cria\u00e7\u00e3o e o peso da queda: A constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da identidade crist\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p  style=\"text-align: right;\">Pablo Gatt<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">No compasso l\u00edrico das palavras de Chico Buarque e Ruy Braga, quando proclamam que \u201cn\u00e3o existe pecado do lado de baixo do Equador\u201d, somos conduzidos ao territ\u00f3rio em que o imagin\u00e1rio e a mem\u00f3ria hist\u00f3rica se entrela\u00e7am. Neste eco distante, ouvimos ressoar a antiga express\u00e3o <em>Ultra aequinoxialem non peccari<\/em>, registrada em 1641 pelo cronista holand\u00eas Caspar Barlaeus. Entre o Velho e o Novo Mundo, ergue-se o mito de uma terra onde a lei hesitava em p\u00f4r os p\u00e9s, enquanto a Europa permanecia amarrada \u00e0 teia simb\u00f3lica de normas forjadas desde a primeira desobedi\u00eancia de Ad\u00e3o e Eva.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Caminhando por essas veredas simb\u00f3licas, retornamos ao G\u00eanesis, ao epis\u00f3dio que consagra, para sempre, o entrela\u00e7amento entre norma e proibi\u00e7\u00e3o. O chamado Pecado Original, narrado nos vers\u00edculos 3:16-24, n\u00e3o apenas expulsa o primeiro casal do \u00c9den, mas imprime em toda a humanidade o peso da perda e a nostalgia de um Para\u00edso inalcan\u00e7\u00e1vel. Como se cada linha do texto b\u00edblico carregasse o sopro dessa ruptura primordial, moldando identidades, fronteiras e expectativas de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">\u00c9 nesse ponto que o imagin\u00e1rio Medieval encontra seu vigor: a promessa do Para\u00edso como revers\u00e3o de todas as dores, a fuga da fome, da doen\u00e7a, da fragilidade e da pr\u00f3pria mortalidade. Uma utopia que permite reverter a ideia do Pecado Original e retornar a um est\u00e1gio que sempre nos foi negado. No fundo, a esperan\u00e7a do \u00c9den funciona como espelho invertido da realidade humana e, sobretudo, medieval, onde o interdito, a culpa e a busca pela reden\u00e7\u00e3o se tornaram experi\u00eancias t\u00e3o concretas quanto as muralhas de uma fortaleza.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Entre mito, teologia e poesia, seguimos desvendando esse imagin\u00e1rio que, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, habitou serm\u00f5es, iluminuras, confiss\u00f5es e sonhos. Porque, afinal, a Idade M\u00e9dia tamb\u00e9m vive de suas met\u00e1foras, e s\u00e3o elas que continuam a nos convidar a atravessar, ainda hoje, o limiar do s\u00edmbolo do Para\u00edso perdido e do Pecado Original de Ad\u00e3o e Eva.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Ancorados no epis\u00f3dio inaugural da expuls\u00e3o de Ad\u00e3o e Eva do Para\u00edso, ergueu-se uma constela\u00e7\u00e3o de discursos crist\u00e3os que adicionaram densas camadas \u00e0 narrativa b\u00edblica e moldaram o imagin\u00e1rio sobre a natureza humana corrompida. Dessa matriz simb\u00f3lica, desse gesto primordial de desobedi\u00eancia, nasceram normas, interditos e fronteiras que definiram identidades e marcaram diferen\u00e7as. Cada coment\u00e1rio teol\u00f3gico, cada serm\u00e3o, cada alegoria medieval parecia acrescentar mais um fio ao vasto tear que transformou o pecado original em lente pela qual se compreendia o humano.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Ao levantar o v\u00e9u sobre essa rede de sentidos, percebemos que tais discursos, afinados \u00e0s premissas do pecado primeiro, esculpiram uma no\u00e7\u00e3o de humanidade indivisivelmente ferida, cuja corrup\u00e7\u00e3o se transmitia como heran\u00e7a, ou destino, a todos os descendentes de Ad\u00e3o e Eva. Esse enredo n\u00e3o apenas atravessou o imagin\u00e1rio social acerca da norma, mas influenciou a organiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e dos pap\u00e9is sociais na Idade M\u00e9dia, marcando modos de viver, de se perceber e de pertencer.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Enquanto no estado original da natureza humana a Cria\u00e7\u00e3o reflete a bondade e a perfei\u00e7\u00e3o divina (<em>G\u00eanesis<\/em> 1: 31; <em>De natura boni<\/em>, II, 17, 51-52; <em>ST,<\/em> <em>I<sup>a<\/sup><\/em>, q. 91, a. 2, resp.), o pecado represente o v\u00edcio que emerge como uma qualidade que corrompe a alma (AGOSTINHO, <em>De Perfectione Justitiae Hominis<\/em>, c. II). Isso, porque, para Tom\u00e1s de Aquino o v\u00edcio n\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o divina, mas uma escolha que se contrap\u00f5e diretamente \u00e0 ess\u00eancia da virtude, pois a virtude nasce do desejo do bem imut\u00e1vel: o amor de Deus que \u00e9 considerado tamb\u00e9m a raiz de todas as virtudes (ST, <em>I<sup>a<\/sup><\/em>&#8211;<em> II<sup>ae<\/sup><\/em>, q. 84, a. 1, resp.).<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Ao seguirmos essa trilha interpretativa evidenciamos que Pecado Original ultrapassou o campo do comportamento individual: ele se converte no eixo que orientou identidades, valores e expectativas que os discursos crist\u00e3os consolidaram desde os primeiros s\u00e9culos. Como lembram Le Goff e Truong (2014, p. 29), \u00e9 precisamente na Idade M\u00e9dia que se instala esse elemento fundamental da identidade coletiva ocidental: um Cristianismo \u201catormentado pela quest\u00e3o do corpo, ao mesmo tempo glorificado e reprimido, exaltado e recha\u00e7ado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Pouco a pouco, esse s\u00edmbolo tornou-se o cora\u00e7\u00e3o pulsante da pr\u00f3pria identidade crist\u00e3. Transformou-se em fundamento teol\u00f3gico e cultural, em chave hermen\u00eautica para compreender a condi\u00e7\u00e3o humana e, ao mesmo tempo, o lastro que sustenta a normatividade social. Por isso, os discursos que gravitavam em torno do Pecado Original articularam um sistema de representa\u00e7\u00f5es que, ao evocar o estado puro e depois deca\u00eddo de Ad\u00e3o e Eva, influenciaram diretamente a constru\u00e7\u00e3o das identidades, a percep\u00e7\u00e3o do corpo, a condena\u00e7\u00e3o do prazer e a vigil\u00e2ncia moral sobre a sexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Como bem observa Franco Jr. (2021, p. 45), a cristandade medieval n\u00e3o via em Ad\u00e3o e Eva meras figuras m\u00edticas, mas ancestrais reais, pais de toda a humanidade. E se essa progenitura estava contaminada, espalhada pelos quatro cantos da Terra, n\u00e3o poderia escapar \u00e0s vicissitudes que a teologia atribu\u00eda \u00e0 queda do g\u00eanero humano. Assim, o s\u00edmbolo do Pecado Original tornou-se mais que uma doutrina: transformou-se numa moldura para compreender o mundo e a si pr\u00f3prio, uma narrativa que atravessou s\u00e9culos, corpos e consci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Ao percorrermos essas camadas simb\u00f3licas que entrela\u00e7am mito, teologia e mem\u00f3ria hist\u00f3rica, compreendemos que o Pecado Original n\u00e3o se limitou a uma simples narrativa de desobedi\u00eancia, mas converteu-se no mais duradouro alicerce interpretativo do Ocidente crist\u00e3o. Da express\u00e3o \u201cn\u00e3o existe pecado do lado de baixo do Equador\u201d \u00e0s especula\u00e7\u00f5es de Barlaeus, das exegeses patr\u00edsticas \u00e0s sistematiza\u00e7\u00f5es escol\u00e1sticas, reencontramos sempre o mesmo movimento: a tentativa de explicar a condi\u00e7\u00e3o humana a partir da perda do Para\u00edso e da nostalgia de um estado irrecuper\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Nesse horizonte, a Idade M\u00e9dia ergueu um edif\u00edcio simb\u00f3lico no qual a queda de Ad\u00e3o e Eva operou como chave hermen\u00eautica que atravessou corpos, condutas e imagin\u00e1rios. A partir dela, definiram-se normas e interditos, modelaram-se identidades, disciplinaram-se desejos e conformaram-se expectativas sociais. Agostinho, ao reconhecer no pecado o v\u00edcio capaz de corromper a alma, e Tom\u00e1s de Aquino, ao reafirmar a virtude como retorno ao Bem imut\u00e1vel, refor\u00e7aram um sistema teol\u00f3gico que compreendia a humanidade como ferida, mas orientada para a reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Como mostraram Le Goff, Truong e Franco Jr., esse legado medieval ecoou muito al\u00e9m dos claustros mon\u00e1sticos: impregnou o cotidiano, moldou sensibilidades e consolidou a percep\u00e7\u00e3o do corpo como campo de tens\u00e3o entre gl\u00f3ria e amea\u00e7a, entre pureza e queda. Assim, o Pecado Original tornou-se mais que um epis\u00f3dio fundador, tornou-se uma matriz cultural que atravessou s\u00e9culos, oferecendo ao cristianismo uma narrativa capaz de explicar o mundo, ordenar a sociedade e conferir sentido \u00e0s fragilidades humanas.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Se hoje revisitamos essas imagens, n\u00e3o o fazemos apenas para recuperar ecos de um passado distante, mas para compreender como essas constru\u00e7\u00f5es ainda organizam, silenciosamente, modos de pensar, sentir e habitar o mundo. Entre o \u00c9den perdido e a esperan\u00e7a de sua restaura\u00e7\u00e3o, permanece viva a met\u00e1fora que ajudou a forjar a identidade ocidental: a consci\u00eancia de que somos, simultaneamente, herdeiros da queda e buscadores da reden\u00e7\u00e3o, sempre caminhando entre o interdito e a promessa, entre a culpa e o desejo de retornar ao Para\u00edso que nos funda e nos escapa.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><strong>B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">AUGUSTINUS, Santo. De perfecti\u014dne justiti\u00e6 hominis (A Treatise Concerning Man\u2019s Perfection in Righteousness). In: SCHAFF, Philip (ed.). <strong>Nicene and Post-Nicene Fathers<\/strong>, First Series, vol. V. Grand Rapids, MI: Christian Literature Publishing Co., 1886.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">AGOSTINHO DE HIPONA. <strong>De natura boni, II, 4, 43<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de M. Santiago de Carvalho, Mediaevalia. Textos e Estudos, vol. 1. Porto, Funda\u00e7\u00e3o Engenheiro Ant\u00f3nio de Almeida, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">FRANCO J\u00daNIOR, Hil\u00e1rio. <strong>Em Busca do Para\u00edso Perdido<\/strong>: As Utopias Medievais. Cotia, S\u00e3o Paulo: Ateli\u00ea Editorial; Ara\u00e7oiaba da Serra, S\u00e3o Paulo: Editora Mn\u00eama, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. <strong>Uma hist\u00f3ria do corpo na Idade M\u00e9dia<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">TOM\u00c1S DE AQUINO. <strong>Summa Theologiae<\/strong>. 2\u00b0 ed., Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2001.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p  style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutor em Hist\u00f3ria Social das Rela\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas \u2013 UFES e Professor Substituto na mesma Institui\u00e7\u00e3o. E-mail: gattpablo@gmail.com. <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7520287446667143\">Http:\/\/lattes.cnpq.br\/7520287446667143<\/a>.<\/p>\n\n\n\n\n\n<div class=\"citationSection\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 23 de Dezembro de 2025.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> GATT, Pablo. Entre o peso da cria\u00e7\u00e3o e o peso da queda: A constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da identidade crist\u00e3. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 23 de dez. 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/entre-o-sopro-da-criacao-e-o-peso-da-queda-a-construcao-simbolica-da-identidade-crista\/\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/entre-o-sopro-da-criacao-e-o-peso-da-queda-a-construcao-simbolica-da-identidade-crista\/<\/a> Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pablo Gatt[1] No compasso l\u00edrico das palavras de Chico Buarque e Ruy Braga, quando proclamam que \u201cn\u00e3o existe pecado do lado de baixo do Equador\u201d, somos conduzidos ao territ\u00f3rio em que o imagin\u00e1rio e a mem\u00f3ria hist\u00f3rica se entrela\u00e7am. 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