{"id":7037,"date":"2025-10-28T12:00:00","date_gmt":"2025-10-28T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=7037"},"modified":"2025-10-28T12:02:44","modified_gmt":"2025-10-28T15:02:44","slug":"saberes-em-movimentoa-medicina-medieval-e-seus-aspectos-de-globalidade-e-conectividade","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/saberes-em-movimentoa-medicina-medieval-e-seus-aspectos-de-globalidade-e-conectividade\/","title":{"rendered":"Saberes em movimento:a medicina medieval e seus aspectos de globalidade e conectividade"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: right;\">Mauricio Ribeiro Damaceno<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Refletir sobre a medicina medieval pelas lentes da Hist\u00f3ria Global implica superar a vis\u00e3o de uma pr\u00e1tica restrita ao espa\u00e7o europeu e reconhecer que sua constitui\u00e7\u00e3o ocorreu no entrela\u00e7amento de tradi\u00e7\u00f5es diversas. Os tratados m\u00e9dicos e cir\u00fargicos resultaram de di\u00e1logos que inclu\u00edram legados da Antiguidade e aportes vindos de contextos \u00e1rabe-isl\u00e2micos<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, judaicos, crist\u00e3os e de outras culturas e matrizes religiosas, produzindo um saber marcado por tradu\u00e7\u00f5es, reelabora\u00e7\u00f5es e interc\u00e2mbios de largo alcance. Nesse quadro, a medicina do medievo aparece n\u00e3o apenas como um conjunto de t\u00e9cnicas de cura, mas como express\u00e3o de um mundo interligado, no qual contatos e atravessamentos moldaram experi\u00eancias comuns.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Todavia, isso n\u00e3o significa ignorar figuras da hist\u00f3ria da medicina medieval, como Henri de Mondeville (1260-1320) e Guy de Chauliac (1300-1368), presentes h\u00e1 tanto tempo em nossas pesquisas. O desafio consiste em situ\u00e1-los como atores inseridos em redes amplas, em constante di\u00e1logo com tradi\u00e7\u00f5es intelectuais e pr\u00e1ticas oriundas de diferentes espa\u00e7os. Suas obras revelam tanto a apropria\u00e7\u00e3o criativa de refer\u00eancias geogr\u00e1ficas diversas quanto a inscri\u00e7\u00e3o em realidades locais de ensino, escrita e atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Nesse horizonte, tornam-se vis\u00edveis as m\u00faltiplas camadas que comp\u00f5em a medicina medieval.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">A abordagem da Hist\u00f3ria Global transforma a percep\u00e7\u00e3o convencional da Idade M\u00e9dia, ampliando o foco e adotando uma perspectiva descentralizada, que evidencia conex\u00f5es e trocas entre regi\u00f5es distintas. Em vez de considerar esse per\u00edodo isolado ao contexto europeu, essa vis\u00e3o valoriza rotas comerciais terrestres e mar\u00edtimas, interculturalidades e trocas econ\u00f4micas e culturais entre diferentes continentes, incluindo \u00c1frica e \u00c1sia, sem se limitar \u00e0s fronteiras nacionais ou ao conceito de Estado-na\u00e7\u00e3o. Essa perspectiva questiona a fragmenta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria em segmentos r\u00edgidos, propondo uma compreens\u00e3o mais complexa, na qual os fen\u00f4menos hist\u00f3ricos se apresentam como fluxos multidirecionais e n\u00e3o lineares, atravessando m\u00faltiplas temporalidades. Al\u00e9m disso, desafia o eurocentrismo, oferecendo uma narrativa mais inclusiva, capaz de reconhecer racionalidades distintas e experi\u00eancias diversas de sociedades frequentemente marginalizadas na historiografia tradicional (Silveira, 2019, p. 222-230).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Elementos associados \u00e0 Hist\u00f3ria Global, como com\u00e9rcio transcontinental, migra\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias e for\u00e7adas, imp\u00e9rios multi\u00e9tnicos e circula\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas culturais, manifestavam-se em m\u00faltiplos contextos s\u00e9culos antes de 1600. Fontes textuais e vest\u00edgios materiais sobreviventes revelam uma rede complexa de intera\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias, exigindo an\u00e1lise rigorosa para apreender alcance, natureza e significado dessas rela\u00e7\u00f5es. A circula\u00e7\u00e3o de pessoas, ideias e produtos entre tradi\u00e7\u00f5es culturais diversas constitui eixo central para compreender uma Idade M\u00e9dia interconectada, na qual din\u00e2micas locais e de longa dist\u00e2ncia coexistiam e se entrela\u00e7avam. Essa coexist\u00eancia fornece um prisma essencial para interpretar os limites da comunica\u00e7\u00e3o global no medievo e oferece elementos comparativos para a an\u00e1lise de outros momentos hist\u00f3ricos marcados por intera\u00e7\u00f5es complexas entre o global e o local (Holmes; Standen, 2015, p. 106).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">As redes medievais organizadas para finalidades distintas frequentemente estabeleciam pontos de interse\u00e7\u00e3o. Na Alta Idade M\u00e9dia, por exemplo, estruturas de com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia interagiam com redes locais de distribui\u00e7\u00e3o de recursos, evidenciando a interdepend\u00eancia entre escalas de circula\u00e7\u00e3o. Embora a reconstru\u00e7\u00e3o dessas redes a partir de achados arqueol\u00f3gicos seja desafiadora, a conjun\u00e7\u00e3o de registros materiais e textuais permite compreender como se expandiam ou se retra\u00edam conforme oportunidades comerciais e press\u00f5es competitivas, assim como a maneira pela qual demandas locais condicionavam a agenda dos comerciantes e viajantes de longo percurso (Holmes; Standen, 2015, p. 114).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">O desenvolvimento dos estudos globais n\u00e3o implica marginaliza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias locais, tampouco desvaloriza\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas, literaturas e hist\u00f3rias nacionais. Pelo contr\u00e1rio, compreender articula\u00e7\u00f5es entre nacionalismo e colonialismo-imperialismo exige aten\u00e7\u00e3o a m\u00faltiplas escalas de an\u00e1lise, desde as dimens\u00f5es mais restritas at\u00e9 as mais amplas. O exame do global, nesse sentido, n\u00e3o elimina a relev\u00e2ncia de recortes regionais, mas recorda que, para os sujeitos hist\u00f3ricos, cada espa\u00e7o se constitu\u00eda como centro de mundo, e que, para a investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, nenhuma regi\u00e3o pode receber primazia absoluta em detrimento das demais. Assim, o olhar global amplia o escopo das conex\u00f5es poss\u00edveis, ao mesmo tempo que preserva a especificidade das condi\u00e7\u00f5es locais e de seus contextos pr\u00f3prios (Heng, 2021, p. 12-15).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Abre-se espa\u00e7o para uma historiografia que valoriza a multiplicidade de ritmos e percursos de interc\u00e2mbio, revelando a densidade e complexidade das rela\u00e7\u00f5es que atravessavam sociedades antigas. A reconstru\u00e7\u00e3o de um passado global, portanto, n\u00e3o pode se limitar \u00e0s macroestruturas econ\u00f4micas de longa dura\u00e7\u00e3o, devendo incluir a an\u00e1lise minuciosa de tramas culturais, sociais, religiosas e ecol\u00f3gicas, bem como das intera\u00e7\u00f5es envolvendo animais, plantas, bact\u00e9rias, ambientes e express\u00f5es art\u00edsticas. Trata-se de considerar, de modo abrangente, o ciclo vital humano em suas interdepend\u00eancias com o meio ambiente e com a diversidade de experi\u00eancias que compuseram mundos anteriores (Heng, 2021, p. 53).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">As propostas surgidas no \u00e2mbito da Hist\u00f3ria Global e das perspectivas transnacionais buscaram evidenciar conex\u00f5es hist\u00f3ricas por meio de ferramentas como an\u00e1lise multiescalar, longa dura\u00e7\u00e3o, fluxos de longa dist\u00e2ncia e interlocu\u00e7\u00e3o entre diferentes \u00e1reas do conhecimento. Sob esse prisma, a reflex\u00e3o sobre intera\u00e7\u00f5es anteriores \u00e0 modernidade mostrou-se indispens\u00e1vel. Existiram tradi\u00e7\u00f5es antigas e medievais de escrita da hist\u00f3ria que examinaram outras sociedades, ressaltando v\u00ednculos atravessando tempos e espa\u00e7os diversos. Esses testemunhos oferecem elementos valiosos, sobretudo pelo modo como conceberam alteridades sem recorrer a categorias formuladas posteriormente, como as no\u00e7\u00f5es oitocentistas de \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpovo\u201d (Bovo; Bayard, 2020, p. 11).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Em vez de apoiar-se em estruturas interpretativas desenvolvidas para outros per\u00edodos, a tarefa urgente consiste em compreender como as intera\u00e7\u00f5es entre Europa, \u00c1frica e \u00c1sia foram efetivamente vividas no contexto medieval. Isso demanda narrativas capazes de capturar as conex\u00f5es, respeitando suas l\u00f3gicas pr\u00f3prias e evitando anacronismos. O objetivo \u00e9 produzir hist\u00f3rias conectadas que revelem os sentidos atribu\u00eddos pelas pr\u00f3prias sociedades medievais \u00e0s suas experi\u00eancias de interc\u00e2mbio, sem reduzir a complexidade dessas rela\u00e7\u00f5es a categorias anal\u00edticas de matriz moderna (Bovo; Bayard, 2020, p. 12).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Tendo isso em vista, a an\u00e1lise de tratados m\u00e9dicos, como <em>A Cirurgia<\/em>, de Henri de Mondeville, e <em>Cirurgia Magna<\/em>, de Guy de Chauliac, evidencia um di\u00e1logo constante com autoridades da Antiguidade e da Idade M\u00e9dia, muitas delas vinculadas a tradi\u00e7\u00f5es intelectuais situadas al\u00e9m do espa\u00e7o franc\u00eas<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Esse aspecto ressalta a necessidade de compreend\u00ea-los no interior de redes de circula\u00e7\u00e3o de saberes, formadas por intera\u00e7\u00f5es que ultrapassavam fronteiras regionais e lingu\u00edsticas. Esses tratados n\u00e3o devem ser interpretados como produ\u00e7\u00f5es isoladas, mas como frutos de circuitos de transmiss\u00e3o que inclu\u00edam deslocamentos para outros centros de saber, participa\u00e7\u00e3o em campanhas militares junto a monarcas e acompanhamento de itiner\u00e1rios da corte papal. A esse conjunto de experi\u00eancias somava-se o acesso a tradu\u00e7\u00f5es de textos da Antiguidade, da tradi\u00e7\u00e3o \u00e1rabe-isl\u00e2mica e judaica, que alimentavam a incorpora\u00e7\u00e3o e reelabora\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas em m\u00faltiplos contextos. Do mesmo modo, a transmiss\u00e3o oral exercia papel relevante na difus\u00e3o do conhecimento, refor\u00e7ando a interconectividade transregional caracter\u00edstica da medicina medieval.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Henri de Mondeville pareceu reconhecer que o saber m\u00e9dico n\u00e3o se constitu\u00eda de forma isolada, mas resultava de processos de circula\u00e7\u00e3o, interc\u00e2mbio e esfor\u00e7o coletivo. Ainda na abertura de <em>A Cirurgia<\/em>, ele assinalou que seu conhecimento foi adquirido por meio de deslocamentos cont\u00ednuos, enfrentando riscos e priva\u00e7\u00f5es em nome da aprendizagem, o que evidencia a dimens\u00e3o transregional da experi\u00eancia m\u00e9dica medieval. Segundo Mondeville:<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; margin-top: 10px; margin-left: calc(10vw + 8rem); font-size: 11pt;\">[&#8230;] os s\u00e1bios disc\u00edpulos da [cirurgia], de quem falamos, podem e devem se alegrar [&#8230;], visto que aqui se encontram em condi\u00e7\u00f5es de aprender [&#8230;], tudo aquilo que n\u00f3s, modernos<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, e todos os nossos predecessores, viajando por diversos territ\u00f3rios, adquirimos em feitos de armas valentes e sobremodo perigosos, e em estudos c\u00e9lebres, com pesados esfor\u00e7os e despesas cotidianas, expondo nossas pr\u00f3prias pessoas aos mais graves perigos e a in\u00fameras priva\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m se oferece aqui, como j\u00e1 foi dito, o maior n\u00famero poss\u00edvel de segredos racionais e comprovados, recolhidos dos autores de medicina, utilizados e depois deixados apenas em parte em seus escritos, achando-se dispersos e esparsos em outros lugares. Esses segredos s\u00e3o fruto da experi\u00eancia de homens s\u00e1bios, \u00edntegros e antigos, que n\u00e3o quiseram revel\u00e1-los, nem mesmo a seu filho primog\u00eanito, sen\u00e3o em risco de morte, como se fossem mais preciosos do que qualquer outra coisa (Henri de Mondeville, 1893, p. 04-05).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Essa percep\u00e7\u00e3o individual, inscrita no testemunho de Mondeville, ganha maior densidade quando observada no conjunto mais amplo das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas medievais. A tradi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica crist\u00e3 deve ser compreendida em di\u00e1logo constante com outras culturas, mais do que em posi\u00e7\u00e3o de primazia sobre elas. Mosteiros e escolas europeias, embora relevantes, n\u00e3o constitu\u00edram os \u00fanicos centros de produ\u00e7\u00e3o de saber m\u00e9dico no medievo. Judeus e mu\u00e7ulmanos mantiveram pr\u00e1ticas m\u00e9dicas que atravessaram toda a Idade M\u00e9dia e, desde os primeiros s\u00e9culos, muitos de seus m\u00e9dicos foram reconhecidos como competentes no atendimento a membros da alta nobreza civil e eclesi\u00e1stica. A possibilidade de viver em comunidades aut\u00f4nomas e dispersas em diversas regi\u00f5es favoreceu a circula\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias, alimentando a constitui\u00e7\u00e3o de um corpo de conhecimentos diversificado. Figuras como Mois\u00e9s Maim\u00f4nides (1135-1204), influenciado pelo fil\u00f3sofo e m\u00e9dico mu\u00e7ulmano Averr\u00f3is (1126-1198), exemplificam a vitalidade de uma tradi\u00e7\u00e3o judaico-isl\u00e2mica que se articulava com a cristandade (Almeida, 2009, p. 40-41).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">A pr\u00e1tica da medicina em territ\u00f3rios isl\u00e2micos envolvia igualmente crist\u00e3os e judeus, atuando como m\u00e9dicos em cortes e hospitais, mas tamb\u00e9m como fil\u00f3sofos, monges e intelectuais. Entre os judeus, o exerc\u00edcio da medicina chegou a ser considerado um campo privilegiado de atua\u00e7\u00e3o intelectual. Nas cidades de Damasco e Bagd\u00e1, cortes principescas e os califados empregavam m\u00e9dicos de diversas origens. Foi com o Isl\u00e3 que se consolidou o espa\u00e7o posteriormente identificado como hospital (<em>maristan<\/em>), onde circulavam teorias herdadas de Galeno (129-216), mas tamb\u00e9m saberes vindos de tradi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas crist\u00e3s nestorianas de Gundeshapur, cidade iraniana marcada por forte presen\u00e7a \u00e1rabe e judaica (Goody, 2011, p. 54-61).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Gundeshapur, constituiu um verdadeiro polo de converg\u00eancia intelectual, reunindo m\u00e9dicos provenientes da \u00cdndia e de diferentes regi\u00f5es do Oriente M\u00e9dio. A P\u00e9rsia mantinha ainda intensas conex\u00f5es com a China atrav\u00e9s da rede de rotas que mais tarde seria conhecida como Rota da Seda, o que facilitava o deslocamento de pessoas, pr\u00e1ticas e ideias. Desde a conquista \u00e1rabe em 638, observa-se o entrela\u00e7amento de tradi\u00e7\u00f5es gal\u00eanicas e hipocr\u00e1ticas com a medicina ayurv\u00e9dica indiana, configurando um campo de saber h\u00edbrido, em constante reelabora\u00e7\u00e3o. O aprendizado dos \u00e1rabes com os residentes locais ampliou o repert\u00f3rio que mais tarde alcan\u00e7aria os territ\u00f3rios ocidentais (Goody, 2011, p. 65-66).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">As bibliotecas em terras \u00e1rabe-isl\u00e2micas desempenharam papel decisivo na preserva\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de saberes. A Casa da Sabedoria de Bagd\u00e1, vinculada ao movimento de tradu\u00e7\u00e3o do Califado Ab\u00e1ssida (750-1258), tornou-se um dos maiores reposit\u00f3rios de conhecimento da Antiguidade. Ali foram traduzidos, preservados e estudados textos de autores greco-romanos, como Hip\u00f3crates (460-370 a.C.), Galeno, Plat\u00e3o (427-347 a.C.) e Arist\u00f3teles (384-322 a.C.), mas tamb\u00e9m indianos e chineses, a exemplo de Sushruta (800-700 a.C), Charaka (s\u00e9c. II d.C.), Aryabhata (476-550) e Brahmagupta (598-668). Al\u00e9m das tradu\u00e7\u00f5es, desenvolveram-se obras originais de grande impacto, como os tratados de Hunain Ibn Ishaq (809-873), m\u00e9dico especializado em enfermidades oculares, que verteu para o \u00e1rabe importantes cole\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas gregas, incluindo as de Galeno e Hip\u00f3crates (Pormann; Savage-Smith, 2007, p. 20-29; Iskandar, 2008, p. 1081-1083; Lyons, 2009, p. 55-77; Al-Khalili, 2011, p. 53).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">No s\u00e9culo XI, Constantino, o Africano (1114-1187), tradutor oriundo do Norte da \u00c1frica e monge do mosteiro beneditino de Montecassino, desempenhou papel decisivo ao verter para o latim obras m\u00e9dicas \u00e1rabes, com o objetivo de rastrear por meio delas o legado da medicina greco-romana e torn\u00e1-lo acess\u00edvel. Essas tradu\u00e7\u00f5es forneceram a base doutrinal sobre a qual se desenvolveria, no s\u00e9culo XIII, a escol\u00e1stica m\u00e9dica, especialmente por meio das leituras cr\u00edticas e coment\u00e1rios que se teceram sobre esses textos e de novas tradu\u00e7\u00f5es do grego e do \u00e1rabe. O processo tradut\u00f3rio, entretanto, n\u00e3o se limitava \u00e0 simples convers\u00e3o lingu\u00edstica: a fidelidade e o tipo de tradu\u00e7\u00e3o \u2013 &nbsp;literal ou livre, prim\u00e1ria ou secund\u00e1ria \u2013 variavam conforme m\u00faltiplos fatores, incluindo a concep\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do tradutor, as l\u00ednguas de origem e de destino (do grego, \u00e1rabe ou hebraico para o latim; do latim \u00e0s l\u00ednguas vern\u00e1culas; entre vern\u00e1culos; ou do grego ao vern\u00e1culo), o g\u00eanero do texto original e a forma\u00e7\u00e3o, interesses e prefer\u00eancias tanto dos tradutores quanto do p\u00fablico destinat\u00e1rio; entre todos os desafios enfrentados, a tradu\u00e7\u00e3o do grego representou o maior obst\u00e1culo, visto que at\u00e9 o s\u00e9culo XI muito pouco havia sido vertido para o latim, exigindo esfor\u00e7os extraordin\u00e1rios para que o saber m\u00e9dico antigo pudesse ser recuperado e incorporado. Um desafio enfrentado por m\u00e9dicos \u00e1rabe-isl\u00e2micos (Dos Santos, 2014, p. 123-124; Furlan, 2003, p.23).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Essa longa trajet\u00f3ria de transmiss\u00e3o textual e pr\u00e1tica m\u00e9dica evidencia que a educa\u00e7\u00e3o e a escrita m\u00e9dicas foram produtos de redes complexas de intera\u00e7\u00f5es, atravessando fronteiras geogr\u00e1ficas, temporais e culturais. O que muitas vezes foi narrado pela historiografia em chave nacionalista como um processo aut\u00f4nomo europeu, revela-se, sob um olhar global, como resultado de uma multiplicidade de conex\u00f5es que a escrita tradicional da hist\u00f3ria tende a homogeneizar ou apagar.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">F\u00edsicos-cirurgi\u00f5es medievais como Henri de Mondeville e Guy de Chauliac reservaram espa\u00e7o expressivo em suas obras \u00e0s autoridades \u00e1rabe-isl\u00e2micas e judaicas. Em <em>A Cirurgia<\/em> de Mondeville, das 1.299 cita\u00e7\u00f5es totais, 475 correspondem a esse conjunto de autores. J\u00e1 na <em>Cirurgia Magna<\/em>, Chauliac recorreu a quase 1.400 cita\u00e7\u00f5es de autoridades antigas e medievais, sendo que, entre os medievais, mais de 60% pertencem a essas tradi\u00e7\u00f5es. Esses n\u00fameros mostram que o conhecimento m\u00e9dico circulava em redes amplas, compostas por diferentes territ\u00f3rios, racionalidades e pr\u00e1ticas, em que os saberes \u00e1rabe-isl\u00e2micos e judaicos, sem excluir outras culturas e tradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o foram marginais, mas constitutivos da pr\u00e1tica m\u00e9dico-cir\u00fargica (Nicaise, 1890, p. XLVIII; Nicaise, 1893, p. XXXVIII).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Entre essas autoridades, Avicena (980-1037) ocupa lugar importante. Henri de Mondeville o citou 307 vezes, e Guy de Chauliac recorreu a suas obras em 661 passagens, n\u00famero superado apenas pelas men\u00e7\u00f5es a Galeno (Nicaise, 1890, p. XLVIII; Nicaise, 1893, p. XXXVIII). Essa presen\u00e7a maci\u00e7a reflete a for\u00e7a de sua produ\u00e7\u00e3o intelectual, especialmente do <em>C\u00e2none da Medicina<\/em> (<em>al-Q\u0101n\u016bn f\u012b al-\u1e6cibb<\/em>), obra que integrou heran\u00e7as hipocr\u00e1ticas e gal\u00eanicas a conhecimentos \u00e1rabe-isl\u00e2micos e \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia pr\u00e1tica do autor (Pereira, 2015, p. 18-48).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">O prest\u00edgio de Avicena explica-se tamb\u00e9m pela amplitude de sua forma\u00e7\u00e3o intelectual. Desde a inf\u00e2ncia, a memoriza\u00e7\u00e3o do Cor\u00e3o lhe conferiu disciplina e rigor, e logo passou ao estudo da l\u00f3gica com o <em>Isagoge<\/em><a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> de Porf\u00edrio (234-304\/309), da geometria com os <em>Elementos<\/em> de Euclides (s\u00e9c. III a.C.) e da astronomia com o <em>Almagesto<\/em> de Ptolomeu (90-168). Esse percurso o levou \u00e0 filosofia natural, \u00e0 metaf\u00edsica e ao direito, embora seu maior desafio tenha sido a compreens\u00e3o da <em>Metaf\u00edsica<\/em> de Arist\u00f3teles, superado apenas com as interpreta\u00e7\u00f5es de Al-F\u0101r\u0101b\u012b (870-950). Aos vinte anos, iniciou sua produ\u00e7\u00e3o autoral, que culminaria na obra <em>C\u00e2none da Medicina<\/em> (Pereira, 2015, p. 18-48). Obra de not\u00e1vel densidade conceitual e estrutura sistem\u00e1tica, o <em>C\u00e2none<\/em> circulou amplamente na cristandade latina, muitas vezes em fragmentos ou por meio de coment\u00e1rios, mas sempre como refer\u00eancia obrigat\u00f3ria em universidades como Bolonha e Montpellier (Wallis, 2010, p. 198-199).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">O exame das cita\u00e7\u00f5es presentes nas obras de m\u00e9dicos como Henri de Mondeville e Guy de Chauliac revela ainda a import\u00e2ncia de outras figuras centrais da medicina medieval, como Rhazes (850-923), Albucasis (936-1013), Haly Abbas (930-994), Averr\u00f3is (1126-1198) e Maim\u00f4nides (1135-1204). Suas contribui\u00e7\u00f5es, profundamente enraizadas em tradi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas que floresceram em cidades como Bagd\u00e1, C\u00f3rdoba e Fez, atravessaram fronteiras religiosas e pol\u00edticas, integrando-se \u00e0s pr\u00e1ticas m\u00e9dicas europeias. Guy de Chauliac, por exemplo, mencionou Albucasis em 175 passagens, Haly Abbas em 149, Rhazes em 161, Averr\u00f3is em 67 e Maim\u00f4nides em 29, compondo um mosaico de refer\u00eancias transregionais. Henri de Mondeville, embora em menor propor\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m incorporou esses autores, evidenciando a ampla circula\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia de suas obras (Nicaise, 1890, p. XLVIII; Nicaise, 1893, p. XXXVIII).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Assim, a pr\u00e1tica m\u00e9dica medieval configurou-se como resultado de circula\u00e7\u00f5es complexas e multidirecionais do saber, sustentadas por tradu\u00e7\u00f5es, manuscritos, coment\u00e1rios e tradi\u00e7\u00f5es orais. Longe de se restringir a uma recep\u00e7\u00e3o unilateral europeia, a medicina constituiu um sistema interconectado de redes intelectuais, no qual transitavam pessoas, conceitos e metodologias. Nesse contexto, f\u00edsicos-cirurgi\u00f5es como Henri de Mondeville e Guy de Chauliac n\u00e3o apenas dialogaram com as tradi\u00e7\u00f5es \u00e1rabe-isl\u00e2mica, judaica e greco-romana, mas tamb\u00e9m assimilaram, ainda que de modo indireto, saberes locais e conhecimentos provenientes de diferentes culturas. Esse entrela\u00e7amento evidencia que o campo m\u00e9dico medieval ultrapassava fronteiras culturais, religiosas e geogr\u00e1ficas. Tal perspectiva exige o abandono de narrativas nacionalistas e\/ou euroc\u00eantricas, em favor do reconhecimento da pluralidade de atores, centros e comunidades de pr\u00e1tica que configuraram o saber m\u00e9dico no medievo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Refletir sobre essas redes n\u00e3o apenas enriquece nossa compreens\u00e3o da medicina medieval, mas tamb\u00e9m nos convida a expandir o olhar sobre a Hist\u00f3ria Global, estimulando pesquisadoras e pesquisadores a examinar de forma mais ampla os fluxos de conhecimento e as intera\u00e7\u00f5es culturais em per\u00edodos anteriores \u00e0 modernidade. A an\u00e1lise desses contextos interconectados abre espa\u00e7o para questionar fronteiras r\u00edgidas, pensar o papel das circula\u00e7\u00f5es transregionais e aprofundar a compreens\u00e3o de como saberes circulavam, se transformavam e se apropriavam em m\u00faltiplos espa\u00e7os e tempos. Em suma, esse olhar nos convida a reconsiderar a Hist\u00f3ria Medieval como um campo din\u00e2mico de interc\u00e2mbios globais, cujo estudo continua a desafiar e inspirar novas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">AL-KHALILI, Jim. <em>The House of Wisdom:<\/em>How Arabic Science Saved Ancient Knowledge and Gave Us the Renaissance. New York: Penguin Press, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">ALMEIDA, Cybele Crosseti de. Do mosteiro \u00e0 universidade: considera\u00e7\u00f5es sobre uma hist\u00f3ria social da medicina na Idade M\u00e9dia. <em>Revista Aedos<\/em>, v. 2, n. 2, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/aedos\/article\/view\/9830\">https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/aedos\/article\/view\/9830<\/a>&gt;. Acesso em: 9 set. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">BOVO, Cl\u00e1udia Regina; BAYARD, Adrien. Hist\u00f3rias conectadas da Idade M\u00e9dia: abordagens globais antes de 1600. <em>Esbo\u00e7os<\/em>: hist\u00f3rias em contextos globais, [S. l.], v. 27, n. 44, p. 10-16, 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/esbocos\/article\/view\/2175-7976.2020.e71225\">https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/esbocos\/article\/view\/2175-7976.2020.e71225<\/a>&gt;. Acesso em: 2 set. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">DOS SANTOS, Dulce O. Amarante. Os saberes da medicina medieval. <em>Hist\u00f3ria Revista<\/em>, Goi\u00e2nia, v. 18, n. 1, p. 121-134, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/revistas.ufg.br\/historia\/article\/view\/29847\">https:\/\/revistas.ufg.br\/historia\/article\/view\/29847<\/a>&gt;. Acesso em: 5 set. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">FURLAN, Mauri. Brev\u00edssima hist\u00f3ria da teoria da tradu\u00e7\u00e3o no Ocidente: II. A Idade M\u00e9dia. <em>Cadernos de Tradu\u00e7\u00e3o<\/em>, [S. l.], v. 2, n. 12, p. 9-28, 2003. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/traducao\/article\/view\/6195\">https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/traducao\/article\/view\/6195<\/a>&gt;. Acesso em: 5 set. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">GOODY, Jack. <em>Renascimento<\/em>:um ou muitos. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">HENG, Geraldine. <em>The Global Middle Ages<\/em>:An Introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">HENRI DE MONDEVILLE. <em>Chirurgie de ma\u00eetre Henri de Mondeville<\/em>. 1320. Tradu\u00e7\u00e3o de E. Nicaise, com a colabora\u00e7\u00e3o do Dr. Saint-Lager e F. Chavannes. Paris: Biblioth\u00e8que Nationale de France, 1893.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">HOLMES, Catherine; STANDEN, Naomi. Defining the Global Middle Ages (AHRC Research Network). <em>Medieval Worlds<\/em>, n. 1, p. 106-117, 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.medievalworlds.net\/?arp=0x00324b69\">https:\/\/www.medievalworlds.net\/?arp=0x00324b69<\/a>&gt;. Acesso em: 5 set. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">ISKANDAR, Albert Z. \u1e24unayn Ibn Is\u1e25\u0101q. In: SELIN, Helaine (ed.). <em>Encyclopaedia of the History of Science, Technology, and Medicine in Non-Western Cultures<\/em>. Dordrecht: Springer, 2008, p. 1081-1083.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">LYONS, Jonathan. <em>The House of Wisdom<\/em>:How the Arabs Transformed Western Civilization. New York: Bloomsbury Press, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">NICAISE, E. Auteurs cit\u00e9s par Mondeville. In: MONDEVILLE, Henri de. <em>Chirurgie de Ma\u00eetre Henri de Mondeville<\/em>. Paris: Biblioth\u00e8que Nationale de France, 1893. p. XXX-XXXVIII.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">NICAISE, E. La m\u00e9decine et la chirurgie. In: CHAULIAC, Guy de. <em>Cirurgia Magna de Gui de Chauliac<\/em><strong>.<\/strong> Paris: Biblioth\u00e8que Nationale de France, 1890. p. XVIII-XLVIII.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">PEREIRA, Evandro Santana. IBN S\u012aN\u0100: uma biografia filos\u00f3fica. In: <em>A imortalidade da alma no <\/em>Kit\u0101b al-n\u0101fs<em> (Livro da alma) de Ibn S\u012bn\u0101 (Avicena)<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) \u2013 Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, Centro de Ci\u00eancias Humanas e Naturais, 2015. p. 18-48.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">PORMANN, Peter E.; SAVAGE-SMITH, Emilie. <em>Medieval Islamic Medicine<\/em>. Washington, DC: Georgetown University Press, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">SILVEIRA, Aline Dias da. Hist\u00f3ria global da Idade M\u00e9dia: estudos e propostas epistemol\u00f3gicas. <em>Roda da Fortuna<\/em>, v. 8, n. 2, p. 210-236, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">WALLIS, Faith (ed.). <em>Medieval Medicine<\/em>: a Reader. Toronto: University of Toronto Press, 2010.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Mato Grosso (<a href=\"mailto:mauricioribeiro96@hotmail.com\">mauricioribeiro96@hotmail.com<\/a>). Link do curr\u00edculo lattes: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9973548749338942\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/9973548749338942<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Conv\u00e9m esclarecer que o termo \u201c\u00e1rabe\u201d refere-se a uma identidade \u00e9tnico-lingu\u00edstica e cultural, ao passo que \u201cmu\u00e7ulmano\u201d designa uma identidade religiosa. Dessa forma, nem todos os \u00e1rabes seguem o Isl\u00e3, assim como nem todos os mu\u00e7ulmanos s\u00e3o de origem \u00e1rabe, justificando o emprego distinto de ambos os conceitos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Refere-se \u00e0s regi\u00f5es onde Henri de Mondeville e Guy de Chauliac viveram, estudaram e exerceram a pr\u00e1tica m\u00e9dica, na maior parte de suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> N\u00e3o se trata de uma refer\u00eancia \u00e0 modernidade em sentido cronol\u00f3gico atual, mas de uma categoria relativa, marcada pela compara\u00e7\u00e3o com os \u201cantigos\u201d (autoridades antigas).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Ou <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Categorias de Arist\u00f3teles<\/em>.<\/p>\n\n\n<div class=\"citationSection\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 28 de Outubro de 2025.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> DAMACENO, Mauricio Ribeiro. Saberes em movimento: a medicina medieval e seus aspectos de globalidade e conectividad<strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 28 de out. 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/saberes-em-movimentoa-medicina-medieval-e-seus-aspectos-de-globalidade-e-conectividade\/\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/saberes-em-movimentoa-medicina-medieval-e-seus-aspectos-de-globalidade-e-conectividade\/<\/a> Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mauricio Ribeiro Damaceno[1] Refletir sobre a medicina medieval pelas lentes da Hist\u00f3ria Global implica superar a vis\u00e3o de uma pr\u00e1tica restrita ao espa\u00e7o europeu e reconhecer que sua constitui\u00e7\u00e3o ocorreu no entrela\u00e7amento de tradi\u00e7\u00f5es diversas. Os tratados m\u00e9dicos e cir\u00fargicos resultaram de di\u00e1logos que inclu\u00edram legados da Antiguidade e aportes vindos de contextos \u00e1rabe-isl\u00e2micos[2], judaicos, &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/saberes-em-movimentoa-medicina-medieval-e-seus-aspectos-de-globalidade-e-conectividade\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1170,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-7037","page","type-page","status-publish","hentry","nodate","item-wrap"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.7 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Saberes em movimento:a medicina medieval e seus aspectos de globalidade e conectividade - POIEMA<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/saberes-em-movimentoa-medicina-medieval-e-seus-aspectos-de-globalidade-e-conectividade\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Saberes em movimento:a medicina medieval e seus aspectos de globalidade e conectividade - POIEMA\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Mauricio Ribeiro Damaceno[1] Refletir sobre a medicina medieval pelas lentes da Hist\u00f3ria Global implica superar a vis\u00e3o de uma pr\u00e1tica restrita ao espa\u00e7o europeu e reconhecer que sua constitui\u00e7\u00e3o ocorreu no entrela\u00e7amento de tradi\u00e7\u00f5es diversas. 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