{"id":6973,"date":"2025-07-22T12:00:00","date_gmt":"2025-07-22T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=6973"},"modified":"2025-11-24T14:16:21","modified_gmt":"2025-11-24T17:16:21","slug":"outra-das-maravilhas-destas-ilhas-e-que-tem-como-governante-uma-mulher-a-representacao-e-a-legitimidade-de-mulheres-soberanas-no-relato-de-ibn-ba%e1%b9%ad%e1%b9%adu%e1%b9%ada-sec-xiv-d-c","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/outra-das-maravilhas-destas-ilhas-e-que-tem-como-governante-uma-mulher-a-representacao-e-a-legitimidade-de-mulheres-soberanas-no-relato-de-ibn-ba%e1%b9%ad%e1%b9%adu%e1%b9%ada-sec-xiv-d-c\/","title":{"rendered":"&#8220;Outra das maravilhas destas ilhas \u00e9 que tem como governante uma mulher&#8221;: A representa\u00e7\u00e3o e a legitimidade de mulheres soberanas no relato de Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da (s\u00e9c. XIV D.C.\/VIII H.)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: right;\">Patrik Madruga Gon\u00e7alves<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Ap\u00f3s retornar ao Magreb, o viajante ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da (1304-1369) recitou suas aventuras para ibn Juzayy (f. 1357), escriv\u00e3o da corte mar\u00ednida de Ab\u016b \u02bfIn\u0101n F\u0101ris (r. 1348-1358). Intitulado <em>Tu\u1e25fat al-nu\u1e93\u1e93\u0101r f\u012b ghar\u0101\u02c0ib al-am\u1e63\u0101r wa-\u02c1aj\u0101\u02c0ib al-asf\u0101r<\/em><a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, o relato atualmente \u00e9 mais conhecido apenas como <em>Ri\u1e25la<\/em> (Viagem). Nele, acompanhamos os longos deslocamentos pelo espa\u00e7o afro-eurasi\u00e1tico sob a vis\u00e3o de um mu\u00e7ulmano sunita arabizado. Cobrindo do Sahel Africano ao Mar da China, a obra se tornou uma importante fonte acerca do s\u00e9culo XIV. Dentre os incont\u00e1veis aspectos que chamam aten\u00e7\u00e3o na <em>Ri\u1e25la<\/em>, destacamos aqui a presen\u00e7a de tr\u00eas mulheres soberanas \u2013 duas figuras hist\u00f3ricas do Subcontinente Indiano e uma associada ao imagin\u00e1rio do per\u00edodo. Neste sentido, veremos a seguir como cada relato contribui para se compreender as estrat\u00e9gias de legitimidade dessas figuras, assim como os condicionamentos narrativos do autor que as descreve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Na <em>Ri\u1e25la<\/em> de ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, as mulheres ocupam um espa\u00e7o majoritariamente subalternizado, surgindo no plano de fundo como concubinas ou esposas. Por outro lado, a obra \u00e9 valorizada justamente por trazer \u201creminisc\u00eancias sobre suas rela\u00e7\u00f5es com certos indiv\u00edduos e at\u00e9 mesmo sobre os sentimentos por suas esposas, concubinas e filhos.\u201d (Tolmacheva, 2017, p. 165). No geral, o relato \u00e9 rico em detalhes sobre quem o viajante conheceu ou ouviu falar. No cen\u00e1rio sul-asi\u00e1tico, por exemplo, narra a hist\u00f3ria resumida do Sultanato de Deli, onde menciona o governo de <em>sul\u1e6d\u0101n <\/em>Ra\u1e0diyya (r. 1236-1240), soberana durante a dinastia dos mamelucos (1206-1290). Ao visitar o sultanato das Ilhas Maldivas, por sua vez, descobre que a atual governante \u00e9 uma mulher, Khad\u012bja (r. <em>ca<\/em>. 1348-1379) (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 540-541, 701-702).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">No primeiro caso, a legitima\u00e7\u00e3o perpassa diretamente por disputas na sucess\u00e3o patrilinear, performance de g\u00eanero, papel sexual e apoio \u201cc\u00edvico-militar\u201d. Com o falecimento do seu pai e ascens\u00e3o do meio-irm\u00e3o Rukn al-D\u012bn, Ra\u1e0diyya passou a ser perseguida junto de outros membros da fam\u00edlia. Com o apoio da popula\u00e7\u00e3o tanto quanto da elite militar, consegue o destronar e o executar<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Ao assumir o governo, cunhou moedas em nome pr\u00f3prio<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> e buscou se dissociar do papel atribu\u00eddo \u00e0s mulheres naquele contexto, performando uma s\u00e9rie de atividades tidas por masculinas.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Exercendo o poder durante quatro anos, \u00e9 caracterizada na <em>Ri\u1e25la<\/em> como algu\u00e9m que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; margin-top: 10px; margin-left: calc(10vw + 8rem); font-size: 11pt;\">montava a cavalo como os homens, armada com arco e aljava, rodeada de seus v\u00e1lidos e sem cobrir o rosto. Mais adiante se suspeitou que mantinha rela\u00e7\u00f5es com um escravo abiss\u00ednio e o povo resolveu destron\u00e1-la e obrig\u00e1-la a casar. [&#8230;] Frente o destronamento de Ra\u1e0diyya, seu irm\u00e3o menor, N\u0101\u1e63ir al-D\u012bn, subiu ao trono [&#8230;] Prontamente Ra\u1e0diyya e seu marido se levantaram contra ele (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 540-541).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Derrotada na tentativa de retomar o poder, Ra\u1e0diyya foge sozinha e consegue um lugar de descanso com algum campon\u00eas, estando nesse momento \u201cvestida de homem\u201d para se disfar\u00e7ar. Ao dormir, no entanto, essa pessoa lhe examina, \u201cvendo que debaixo das roupas levava uma t\u00fanica bordada de ouro e perolas. Compreendendo que se tratava de uma mulher, a matou e desnudou, espantando seu cavalo e a sepultando em sua propriedade\u201d. Ao tentar vender as roupas, o campon\u00eas \u00e9 descoberto e punido. O irm\u00e3o, agora sult\u00e3o, a sepulta adequadamente e honra a irm\u00e3 que combateu, sendo sua tumba \u201cvisitada por peregrinos e tida como um lugar \u2018santo\u2019\u201d. (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 541).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">O caso amoroso de Ra\u1e0diyya \u00e9 apresentado pela fonte como a justificativa para sua queda. Al\u00e9m disso, o escravizado desaparece da narrativa ap\u00f3s a subvers\u00e3o do concubinato tradicional e a tentativa de retorno ao poder se d\u00e1 pelo apoio do novo marido. Neste ponto, lembremos que a representa\u00e7\u00e3o trazida pelo viajante foi escrita um s\u00e9culo ap\u00f3s a morte da soberana. Neste sentido, ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da tamb\u00e9m estaria inserido dentro de um processo de ressignifica\u00e7\u00e3o dos eventos que culminaram na derrocada de Ra\u1e0diyya. Segundo Alyssa Gabbay (2011, p. 55-58), a deposi\u00e7\u00e3o teria ocorrido exclusivamente pelo interesse da elite mameluca turca por um soberano mais manipul\u00e1vel, n\u00e3o pelos supostos \u201cesc\u00e2ndalos\u201d ligados \u00e0s pr\u00e1ticas sexuais ou de g\u00eanero da governante. Assim, seria somente depois da morte de Ra\u1e0diyya que uma produ\u00e7\u00e3o indo-p\u00e9rsica e \u00e1rabe acabariam generificando os motivos dos seus opositores. Afinal, \u201cna vis\u00e3o de ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, ela transgrediu limites pol\u00edticos, raciais, sexuais e de g\u00eanero, ofensas pelas quais foi punida, colocada em seu lugar e obrigada a se casar\u201d (Haeri, 2020, p. 128).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">No caso da soberana das Ilhas Maldivas, por sua vez, o texto inicia refor\u00e7ando a peculiaridade de sua posi\u00e7\u00e3o, expressando que \u201coutra das maravilhas destas ilhas \u00e9 que tem como governante uma mulher\u201d (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 701). Se Ra\u1e0diyya, entretanto, caiu ao inverter a l\u00f3gica de um recurso islamizado tornado t\u00edpico \u00e0quelas sociedades, Khad\u012bja permanece no poder legitimada pela dinastia que representa e, no olhar masculino do relato, por estabelecer um governo conjunto ao seu marido-vizir \u2013 figura quem ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da se direciona em todas as ocasi\u00f5es de contato com a administra\u00e7\u00e3o do sultanato e que ele aparenta atribuir grande poder de decis\u00e3o (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d]). Segundo David Waines (2010, p. 175), \u201co poder real nas Maldivas estava firmemente nas m\u00e3os dos membros masculinos do c\u00edrculo \u00edntimo da rainha, primeiro com seus sucessivos maridos e depois com seu filho\u201d. Apesar da afirma\u00e7\u00e3o, devemos considerar a exist\u00eancia de disputas internas pela manuten\u00e7\u00e3o do poder, onde se faz necess\u00e1rio enfatizar o horizonte de atua\u00e7\u00e3o dessas mulheres. Neste ponto, quest\u00f5es acerca de sua legitimidade podem nos trazer algumas contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Observa-se que o relato de Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da (2005 [\u201c1356\u201d], p. 702) n\u00e3o deslegitima Khad\u012bja, descrevendo os sinais que indicam pelo menos o reconhecimento de sua autoridade nominal, como a men\u00e7\u00e3o na <em>khu\u1e6dbah<\/em><a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> e a emiss\u00e3o de decretos em seu nome. Al\u00e9m disso, ao relatar os costumes locais de casamento, o viajante descreve uma tradi\u00e7\u00e3o onde \u201csempre a mulher quem, ao se aproximar deixa [um] pano aos p\u00e9s do marido. Observam esse mesmo ritual para saudar o sult\u00e3o, de maneira que h\u00e3o de levar sempre consigo um pano nestas ocasi\u00f5es\u201d. Contudo, nas audi\u00eancias que participou, aponta que o povo \u201ch\u00e1 de levar consigo dois peda\u00e7os de pano, pois esse \u00e9 o costume. Ao se aproximarem para prestar seus respeitos pelo lado da sultana, lhe deixam um pano aos p\u00e9s e logo, ao saudar o vizir, que \u00e9 \u0176am\u0101l al-D\u012bn, o marido de Khad\u012bja, lhe tiram outro\u201d (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 696-697, 702).&nbsp; Neste momento, se transp\u00f5e o elemento simb\u00f3lico do lar para o espa\u00e7o institucional do sultanato, onde a legitimidade din\u00e1stica espelha o compromisso de uma esposa para com o marido, assim como da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 governante. Em seguida, o s\u00fadito se dirige na mesma qualidade ao vizir: evita com isso que as posi\u00e7\u00f5es governamentais impliquem na invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internas ao casamento \u2013 demarcada pela fideliza\u00e7\u00e3o de uma parte \u00e0 outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Desta maneira, Khad\u012bja conseguia articular os s\u00edmbolos e ritos locais para refor\u00e7ar sua legitimidade no poder, enquadrando-as dentro de uma estrutura pol\u00edtica mu\u00e7ulmana reconfigurada. Mesmo o casamento, rela\u00e7\u00e3o que possibilitava uma forma de controle e supervis\u00e3o pelos maridos, serviu em alguma medida para refor\u00e7ar sua posi\u00e7\u00e3o em detrimento das ambi\u00e7\u00f5es dos outros ramos familiares ou dos interesses de poderosos locais, evitando a busca por brechas para sua deposi\u00e7\u00e3o, como no caso de Ra\u1e0diyya em Deli.<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">No olhar discursivo do documento, a subvers\u00e3o completa dessa ordem s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando o relato adentra terras pouco definidas de povos externos ao <em>d\u0101r al-Isl\u0101m<\/em>, especialmente onde a <em>ummah<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\"><sup><strong><sup>[8]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/em> \u00e9 inexistente, n\u00e3o conflitando ou dialogando a sua estrutura sociocultural com o meio e, portanto, fazendo com que o choque cultural das fronteiras ceda espa\u00e7o \u00e0s maravilhas dos lugares inacess\u00edveis. Entre as regi\u00f5es de Java-Sumatra e a China, por exemplo, ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da teria chegado na misteriosa terra de Taw\u0101lis\u012b. Descreve seus dom\u00ednios como t\u00e3o vastos quanto os dos chineses<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>, um povo adorador de \u00eddolos, com apar\u00eancia semelhante aos turcos, de pele cobreada, bravos e esfor\u00e7ados, cujas mulheres montariam a cavalo e seriam boas arqueiras. A filha do rei, Urdu\u0177a, regia uma das cidades. Recepcionando o viajante, o cen\u00e1rio que se comp\u00f5e \u00e9 uma invers\u00e3o feminina das cortes que visitou anteriormente, onde<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; margin-top: 10px; margin-left: calc(10vw + 8rem); font-size: 11pt;\">em seu grande sal\u00e3o para sess\u00f5es [&#8230;] mulheres que a rodeavam mantinham registros que deixavam a sua disposi\u00e7\u00e3o. Outras, em seu entorno, mais velhas, eram suas conselheiras [&#8230;] Adiante se encontravam os homens. A sala de audi\u00eancia estava revestida com tapetes de seda, cortinas igualmente de seda e tamb\u00e9m madeira de s\u00e2ndalo, incrustada com placas de ouro [&#8230;] Depois de cumprimentar a princesa, ela me contestou em turco [&#8230;] Essa mulher sabia escrever bem em \u00e1rabe [&#8230;] O chefe do barco me contou que essa princesa contava com mulheres em suas tropas \u2013 livres, servas e prisioneiras \u2013 que combatiam como os var\u00f5es [&#8230;] Tamb\u00e9m me contou o mesmo marinheiro que pr\u00edncipes a pediam em matrimonio e ela respondia: \u2018N\u00e3o casarei sen\u00e3o com quem, lutando comigo, me ven\u00e7a\u2019. Ao que se guardavam de enfrent\u00e1-la por temor da vergonha que significaria ser derrotado por ela. (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 750-752).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Como coloca Ross E. Dunn (1986, p. 264), esse espa\u00e7o \u2013 especulado sem conclus\u00f5es satisfat\u00f3rias entre Filipinas, Reino de Champa ou algum outro lugar do sudeste asi\u00e1tico \u2013 se comporta como um embelezamento de diversas tradi\u00e7\u00f5es e hist\u00f3rias de um misterioso \u201creino das mulheres\u201d, t\u00edpico da literatura \u00e1rabe, europeia e mesmo chinesa no per\u00edodo medieval. Nesse sentido, concordamos com Roxanne Euben (2008, p. 80-81) em sua an\u00e1lise sobre os \u201cOutros\u201d, onde conclui que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; margin-top: 10px; margin-left: calc(10vw + 8rem); font-size: 11pt;\">a representa\u00e7\u00e3o de mulheres por ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da constitui em parte os contornos de todas as outras polaridades que governam a narrativa, pois muitas vezes funcionam como uma esp\u00e9cie de lenda, como em um mapa, pelo qual seu p\u00fablico masculino pode decodificar a taxonomia da <em>Ri\u1e25la <\/em>sobre povos e culturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">As peculiaridades desse reino e suas maravilhas se tornavam poss\u00edveis na medida em que estavam situados fora do espa\u00e7o transformado pela <em>ummah<\/em> \u2013 corpo social e religioso que d\u00e1 materialidade e sentido ao local em que se assenta. A completa transgress\u00e3o das bordas encaminha para situa\u00e7\u00f5es em que a ordem social e as consequ\u00eancias de sua invers\u00e3o se dissolvem pela completa aus\u00eancia de grupos mu\u00e7ulmanos historicamente assentados. O Isl\u00e3 e suas terras, entretanto, continuam sendo um referencial fixo para os povos do mundo. Portanto, a princesa conhece a exist\u00eancia da \u00cdndia, que chama de pa\u00eds da pimenta, sabe falar em turco (a principal l\u00edngua de diversos sult\u00f5es que emergiam naquele per\u00edodo) e escreve em \u00e1rabe \u2013 o que demonstra para o viajante ao p\u00f4r, no papel, a f\u00f3rmula isl\u00e2mica \u201cEm nome de Deus, o Misericordioso, o Piedoso\u201d (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, 2005 [\u201c1356\u201d], p. 751). Por outro lado, a resposta para essa invers\u00e3o completa ocorre justamente nas zonas de intensa fronteira cultural e institucional, onde a hist\u00f3rica presen\u00e7a minorit\u00e1ria, mas marcante da <em>ummah<\/em>, seja enquanto parcela dominada, aparte ou dominante, torna essencial que se assegure a autoridade e a moral jur\u00eddica entre seus pares \u2013 consolidando efetivamente aquele espa\u00e7o na realidade do relato de viagem.<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">DUNN, Ross E. <strong>The Adventures of Ibn Battuta<\/strong>: A muslim Traveler of the 14th Century. Berkeley: University of California Press, 1986.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">EUBEN, Roxanne L. <strong>Journeys to the Other Shore<\/strong>: Muslim and Western Travelers in Search of Knowledge. Nova Jersey: Princeton University Press, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">GABBAY, Alyssa. In Reality a Man: Sultan Iltutmish, His Daughter, Raziya, and Gender Ambiguity in Thirteenth Century Northern India. <strong>Journal of Persianate Studies<\/strong>, Leiden, v. 4, p. 45-63, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">GON\u00c7ALVES, Patrik M.&nbsp; <strong>&#8220;Tu \u00e9s o viajante dos \u00e1rabes e n\u00e3o-\u00e1rabes&#8221;:<\/strong> os limites do <em>dar al-Islam<\/em> e suas zonas de contato em ibn Battuta (703-770 H.\/1304-1369 d.C.). 2024. 147 p. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria) \u2013 Centro de Ci\u00eancias Sociais e Humanas, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">HAERI, Shahla. <strong>The Unforgettable Queens of Islam<\/strong>: Succession, Authority, Gender. Cambridge: Cambridge University Press. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">IBN BA\u1e6c\u1e6c\u016a\u1e6cA. <strong>A trav\u00e9s del Islam<\/strong>. 2\u00aa Ed. Introdu\u00e7\u00e3o, Tradu\u00e7\u00e3o e Notas: Federico Arb\u00f3s e Seraf\u00edn Fanjul. Madri: Editora Alianza, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">TOLMACHEVA, Marina A. Concubines on the Road: Ibn Battuta\u2019s Slave Women. <em>In<\/em>: GORDON, Matthew S.; HAIN, Kathryn A. (org.). <strong>Concubines and Courtesans: Women and Slavery in Islamic History<\/strong>. Nova Iorque: Oxford University Press, 2017, p. 163\u2013189.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">WAINES, David. <strong>The Odyssey of Ibn Battuta<\/strong>: Uncommon Tales of a Medieval Adventurer. Londres: I.B Tauris &amp; C. Ltd, 2010.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (patrikmadruga.g@hotmail.com). Lattes: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6276037177449083\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/6276037177449083<\/a>. O seguinte texto deriva parcialmente do subcap\u00edtulo \u201cA conduta e suas prescri\u00e7\u00f5es: concubinas e soberanas\u201d, presente na minha disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado e aqui revisado para o novo formato de publica\u00e7\u00e3o (Gon\u00e7alves, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u201cUm presente para aqueles que contemplam as peculiaridades das cidades e as maravilhas da viagem\u201d. As tradu\u00e7\u00f5es para o portugu\u00eas s\u00e3o de minha autoria, exceto quando sinalizado o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> O pai de Ra\u1e0diyya e Rukn al-D\u012bn Firuz Shah foi o sult\u00e3o Iltutmish (r. 1211-1236). Com seu falecimento, disputas de narrativas ocorrem sobre o desejo de sucess\u00e3o do falecido, mas que culminam na ascens\u00e3o do filho mencionado. Alyssa Gabbay (2011, p. 47) descreve que \u201cseu breve e tumultuado reinado foi dominado por sua m\u00e3e, Shah Terken, que governou o reino enquanto Firuz Shah se ocupava com \u2018bufonaria, sensualidade e divers\u00e3o\u2019 [\/]. O uso de Shah Terken de seu poder rec\u00e9m-descoberto para acertar velhas contas levou a uma revolta generalizada entre os nobres e oficiais do reino, muitos dos quais se rebelaram abertamente. Em meio \u00e0 turbul\u00eancia, Shah Terken tentou matar Ra\u1e0diyya, ao que o povo de Deli se levantou, atacou o pal\u00e1cio e apreendeu Shah Terken. Ap\u00f3s uma agita\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel, as for\u00e7as de Deli e membros do grupo de escravos pessoal de Iltutmish entronizaram Ra\u1e0diyya, que ordenou a pris\u00e3o de Firuz Shah. Ele foi executado em 18 Rabi\u02bf I 634 \/ 19 de novembro de 1236.\u201d. Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da, por sua vez, remove Shah Terken da equa\u00e7\u00e3o, atribuindo a tirania para o pr\u00f3prio governante. Na sua vers\u00e3o, a persegui\u00e7\u00e3o contra Ra\u1e0diyya \u00e9 precedida por outra contra um terceiro irm\u00e3o (esse de pai e m\u00e3e). Seu assassinato leva Ra\u1e0diyya a suplicar ao povo por justi\u00e7a, culminando na entroniza\u00e7\u00e3o da mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> \u201cSua cunhagem tamb\u00e9m transmitia um senso de legitimidade masculina ou uma luta por ela. Algumas de suas moedas traziam seu nome e o de seu pai; Iltutmish foi proclamado como <em>al-solt\u0101n al-a\u02bfzam<\/em> (o maior sult\u00e3o) e Raziya, <em>al-solt\u0101n al-mo\u02bfazzam<\/em> (o grande sult\u00e3o), e identificado como <em>bent al-solt\u0101n<\/em> (filha do sult\u00e3o). Moedas posteriores nomeiam Raziya sozinha. Talvez significativamente, ela aparece tanto nas moedas quanto nas primeiras hist\u00f3rias com a alcunha neutra e inspiradora de <em>sultan<\/em>: rei, l\u00edder.\u201d (Gabbay, 2011, p. 53). Neste ponto, \u00e9 interessante observar que Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da a denomina \u2013 erroneamente \u2013 como <em>sul\u1e6d\u0101na<\/em>. Este \u00e9 o termo que ele utiliza tamb\u00e9m para Khad\u012bja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Debatendo a articula\u00e7\u00e3o dos papeis de g\u00eanero naquela sociedade, Alyssa Gabbay aponta sobre a positividade associada ao masculino, dizendo que havia \u201cuma conota\u00e7\u00e3o mais ampla de \u2018homem\u2019 do que uma definida apenas pelo sexo biol\u00f3gico. Annemarie Schimmel sustenta que o substantivo \u2018homem\u2019 (<em>rajul<\/em> em \u00e1rabe, <em>mard<\/em> em persa) pode se referir a \u2018qualquer indiv\u00edduo que sinceramente se esfor\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a Deus, sem fazer qualquer refer\u00eancia direta ao g\u00eanero biol\u00f3gico do indiv\u00edduo em quest\u00e3o\u2019\u201d. Nisto, interessante notar que \u201cs\u00e9culos depois, ao recontar a hist\u00f3ria da designa\u00e7\u00e3o de Ra\u1e0diyya como sucessora de Iltutmish, um historiador da Era Mughal tem o sult\u00e3o dizendo sobre Raziya que \u2018embora ela seja uma mulher na apar\u00eancia, ainda assim em suas qualidades mentais ela \u00e9 um homem e na verdade ela \u00e9 melhor do que [meus] filhos\u2019\u201d (Gabbay, 2011, p. 53-54).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Serm\u00e3o realizado na sexta-feira. A men\u00e7\u00e3o do governante nela \u00e9, assim como na cunhagem de moedas, um dos principais s\u00edmbolos de legitima\u00e7\u00e3o dentro das institui\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas. Na <em>Ri\u1e25la<\/em>, ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da diz que o \u201c<em>muezim<\/em> menciona a sultana no serm\u00e3o da sexta-feira e algum outro dia mais, dizendo: Meu Deus, assiste a tua comunidade, a que h\u00e1s elegido, em tu sabedoria, entre os demais povos, e cuja cabe\u00e7a h\u00e1 posto, como prova de miseric\u00f3rdia para com todos mu\u00e7ulmanos, a sultana Khad\u012bja, filha de \u0176al\u0101l al-D\u012bn [=Omar I das Maldivas], filho do sult\u00e3o Salah al-Din\u201d (Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da (2005 [\u201c1356\u201d], p. 702, colchetes nosso).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Essa estrat\u00e9gia matrimonial, por outro lado, abria brechas para seu pr\u00f3prio marido-vizir tentar usurpar o trono. Khad\u012bja enfrentou duas dessas tentativas, recuperando o poder ambas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> A <em>Ummah<\/em> \u2013 Comunidade (dos Crentes) \u2013 refere ao conjunto de todos mu\u00e7ulmanos. <em>D\u0101r al-Isl\u0101m<\/em> \u2013 Morada do Isl\u00e3 \u2013 refere ao espa\u00e7o territorial regido pelos seus adeptos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> A compara\u00e7\u00e3o tem um papel recorrente na retrata\u00e7\u00e3o de outros espa\u00e7os, contribuindo para situar o desconhecido pelo conhecido. Este, portanto, diz respeito menos ao que \u00e9 imediato na experiencia do leitor-ouvinte (ainda que o seja) e mais sobre a mobiliza\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es intelig\u00edveis que alimentem \u2013 em propor\u00e7\u00e3o, sabor, apar\u00eancia, cheiro \u2013 essas \u201cnovas\u201d observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Sobre esse tema, recomendo o terceiro cap\u00edtulo da minha disserta\u00e7\u00e3o (Gon\u00e7alves, 2024).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"citationSection\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 22 de Julho de 2025.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> GON\u00c7ALVES, Patrik Madruga. &#8220;Outra das maravilhas destas ilhas \u00e9 que tem como governante uma mulher&#8221;: A representa\u00e7\u00e3o e a legitimidade de mulheres soberanas no relato de Ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da (s\u00e9c. XIV D.C.\/VIII H.) <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 22 jul. 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/outra-das-maravilhas-destas-ilhas-e-que-tem-como-governante-uma-mulher-a-representacao-e-a-legitimidade-de-mulheres-soberanas-no-relato-de-ibn-ba%e1%b9%ad%e1%b9%adu%e1%b9%ada-sec-xiv-d-c\/\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/outra-das-maravilhas-destas-ilhas-e-que-tem-como-governante-uma-mulher-a-representacao-e-a-legitimidade-de-mulheres-soberanas-no-relato-de-ibn-ba%e1%b9%ad%e1%b9%adu%e1%b9%ada-sec-xiv-d-c\/<\/a> Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patrik Madruga Gon\u00e7alves[1] Ap\u00f3s retornar ao Magreb, o viajante ibn Ba\u1e6d\u1e6d\u016b\u1e6da (1304-1369) recitou suas aventuras para ibn Juzayy (f. 1357), escriv\u00e3o da corte mar\u00ednida de Ab\u016b \u02bfIn\u0101n F\u0101ris (r. 1348-1358). 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