{"id":6575,"date":"2025-05-01T12:00:56","date_gmt":"2025-05-01T15:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=6575"},"modified":"2025-05-02T11:31:36","modified_gmt":"2025-05-02T14:31:36","slug":"os-grandes-cumplices-medievalismo-e-nacionalismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/os-grandes-cumplices-medievalismo-e-nacionalismo\/","title":{"rendered":"OS GRANDES C\u00daMPLICES: MEDIEVALISMO E NACIONALISMO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Escrito por Richard J. Utz<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Traduzido e adaptado por Luiz Guerra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Em 1877, sete anos ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o da Als\u00e1cia-Lorena, Guilherme II, Imperador da Alemanha, visitou Metz. Os funcion\u00e1rios do gabinete do prefeito, todos alem\u00e3es, reuniram-se no telhado da Catedral de Santo Est\u00eav\u00e3o para celebrar a sua visita com uma queima de fogos de artif\u00edcio. No processo, todo o telhado da catedral pegou fogo e uma reforma plurianual do edif\u00edcio tornou-se necess\u00e1ria. Essa renova\u00e7\u00e3o incluiu n\u00e3o s\u00f3 a reconstru\u00e7\u00e3o da cobertura danificada, mas tamb\u00e9m uma grande redefini\u00e7\u00e3o do resto do edif\u00edcio. Nessa \u00e9poca, a arquitetura neog\u00f3tica havia se tornado o estilo preferido para constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o representacional em todo o mundo ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Grupos nacionalistas alem\u00e3es chegaram at\u00e9 a decidir (erroneamente) que a arquitetura g\u00f3tica tinha sido inventada na Alemanha medieval, durante o dom\u00ednio da dinastia Hohenstaufen no Sacro Imp\u00e9rio Romano (c. 1138-1254), e era, portanto, ideal para regermanizar regi\u00f5es francesas recentemente anexadas. Consequentemente, a reforma da Catedral de Metz n\u00e3o s\u00f3 substituiu o telhado danificado, mas tamb\u00e9m trocou o portal ocidental neocl\u00e1ssico por um g\u00f3tico. Para a est\u00e1tua do profeta Daniel, o escultor usou como modelo o rosto do imperador Guilherme II. Pouco depois da Primeira Guerra Mundial, as m\u00e3os da est\u00e1tua foram algemadas e um pergaminho com o texto <a href=\"https:\/\/www.coloradohistoricnewspapers.org\/?a=d&amp;d=TWC19181129.2.16&amp;e=-------en-20--1--img-txIN%7ctxCO%7ctxTA--------0------\">Sic transit gloria mundi<\/a> foi adicionado. V\u00e1rios cart\u00f5es postais foram criados desse momento, mas as algemas e a placa logo foram retiradas. Posteriormente, o bigode da escultura foi removido para minimizar a semelhan\u00e7a com o imperador.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-6578\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz1-primeiro-de-maio-400x257.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"257\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz1-primeiro-de-maio-400x257.png 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz1-primeiro-de-maio.png 567w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Figura 1:\u00a0 Uma das fotografias de Guilherme II que pode ter servido de modelo ao escultor, que acrescentou o imperador \u00e0 fachada da Catedral de Metz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Esse epis\u00f3dio na hist\u00f3ria da Catedral de Metz revela que muito do que vemos e sabemos sobre a cultura medieval hoje n\u00e3o se baseia em artefatos e textos medievais originais, mas em reconstru\u00e7\u00f5es, reimagina\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es posteriores desses textos e artefatos. E a maioria destas acontece numa \u00e9poca em que as na\u00e7\u00f5es europeias entravam em uma corrida armamentista pela superioridade pol\u00edtica, militar, econ\u00f3mica e cultural que levaria a m\u00faltiplas alterca\u00e7\u00f5es regionais e a duas guerras mundiais. Certas ideias falsas sobre o passado medieval tornaram-se um ponto de refer\u00eancia central para essas na\u00e7\u00f5es, \u00e0 medida que se esfor\u00e7avam para criar identidades nacionais distintas em apoio aos seus v\u00e1rios objetivos. A cultura medieval \u00e9 cooptada como um \u201cpassado \u00fatil\u201d e posta a servir as ideologias nacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Castelos e catedrais, alguns dos vest\u00edgios mais vis\u00edveis da Idade M\u00e9dia, est\u00e3o entre os locais mais populares para a cria\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o do orgulho nacional. Tal qual a Catedral de Metz, Guilherme II mandou restaurar as ru\u00ednas do castelo de Hohk\u00f6nigsburg como uma lembran\u00e7a das origens da regi\u00e3o da Als\u00e1cia na hist\u00f3ria alem\u00e3, e ordenou uma restaura\u00e7\u00e3o semelhante para o Marienburg (Castelo de Malbork) na Pr\u00fassia Ocidental, para homenagear a mem\u00f3ria dos Cavaleiros Teut\u00f4nicos medievais, e proteger a reivindica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Alemanha a uma regi\u00e3o tamb\u00e9m contestada pela Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Se Guilherme II tentou construir o seu pr\u00f3prio imp\u00e9rio alem\u00e3o como um segundo Reich que reviveu o original, ou primeiro Reich, de Frederico Barbarossa, Adolf Hitler e os Nacional-Socialistas usaram das mesmas \u201cra\u00edzes medievais\u201d para as suas pr\u00f3prias reivindica\u00e7\u00f5es de poder no seu chamado Terceiro Reich. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, a restaurada Marienburg foi transformada em destino de peregrina\u00e7\u00e3o anual da Juventude Hitlerista e da Liga das Mo\u00e7as Alem\u00e3s. Al\u00e9m disso, Marienburg serviu de modelo para os Castelos da Ordem Nacional Socialista, escolas especiaisreservadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do alto escal\u00e3o da elite nazista, erguidas em formato de castelos para sustentar a impress\u00e3o de uma liga\u00e7\u00e3o a um vago passado glorioso<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz2-primeiro-de-maio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-6580\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz2-primeiro-de-maio-400x278.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz2-primeiro-de-maio-400x278.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz2-primeiro-de-maio.jpg 567w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Figura 2:\u00a0 A restaura\u00e7\u00e3o de Hohk\u00f6nigsburg entre 1901 e 1908 \u2013 Wikimedia Commons<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Em meados do s\u00e9culo XIX, a Catedral de Col\u00f4nia passou a representar as esperan\u00e7as e os sonhos da burguesia alem\u00e3, cujos membros viam no seu estado inacabado um s\u00edmbolo adequado da sempre inacabada na\u00e7\u00e3o alem\u00e3. A constru\u00e7\u00e3o estava paralisada desde meados de 1560, com uma grande grua de madeira deixada em p\u00e9 cerca de 56 metros acima do solo, no topo da torre sul. Ideias emergentes sobre a preserva\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, combinadas com um poderoso fervor nacional, levaram ao Festival de Constru\u00e7\u00e3o de Catedrais (Dombaufest) de 1842, um evento que tamb\u00e9m uniu o patriotismo regional, a religiosidade cat\u00f3lica, o desejo de reconcilia\u00e7\u00e3o pac\u00edfica entre a Igreja e o Estado, planos para integrar a Ren\u00e2nia na Pr\u00fassia, o entusiasmo burgu\u00eas pelas artes e o entusiasmo rom\u00e2ntico pela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">As ideias recorrentes de Deus, Cultura\/Arte e P\u00e1tria eram vistas como tendo a sua exemplifica\u00e7\u00e3o mais magistral na Catedral de Col\u00f4nia, porque ela ofereceria um testemunho not\u00e1vel da grandeza medieval alem\u00e3 e, portanto, do car\u00e1cter nacional alem\u00e3o. E, porque o esfor\u00e7o supra-regional para reparar e finalizar a sua constru\u00e7\u00e3o deveria igualar os enormes esfor\u00e7os pol\u00edticos supra-regionais necess\u00e1rios para forjar e aperfei\u00e7oar a nova na\u00e7\u00e3o alem\u00e3. A catedral medieval, conclu\u00edda nos tempos contempor\u00e2neos, tornou-se um monumento sonhado deliberadamente para o futuro e um importante e glorificante memorial secular de um passado imaginado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-6581\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz3-primeiro-de-maio-354x400.jpg\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz3-primeiro-de-maio-354x400.jpg 354w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz3-primeiro-de-maio.jpg 567w\" sizes=\"auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Figura 3:\u00a0 Catedral de Col\u00f4nia em 4 de setembro de 1842, cerim\u00f4nia da pedra fundamental para o rein\u00edcio das obras \u2013 ilustra\u00e7\u00e3o de Georg Osterwald<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Na Fran\u00e7a, os arquitetos Ludovic Vitet (1802-1873) e Eugene Viollet-le-Duc (1814-1879) acrescentaram outras leituras nacionais politicamente aceit\u00e1veis das catedrais. Com a inten\u00e7\u00e3o de demonstrar sua relev\u00e2ncia e a necessidade da sua conclus\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o, alegaram que a constru\u00e7\u00e3o de catedrais tinha sido uma forma de protesto contra o sistema feudal medieval. Ademais, consciente dos sinais de seu tempo, Viollet-le-Duc, num influente artigo para o Dictionnaire raisonn\u00e9e de l\u2019architecture fran\u00e7aise (1866), ansiava por confirmar o enraizamento das catedrais francesas no percurso hist\u00f3rico da sua na\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-top: 10px; margin-left: calc(10vw + 8rem); font-size: 11pt;\">A unidade mon\u00e1rquica e religiosa, alian\u00e7a das duas pot\u00eancias para constituir uma s\u00f3 nacionalidade provocou o crescimento das grandes catedrais no norte da Fran\u00e7a. Embora as catedrais sejam certamente tamb\u00e9m monumentos religiosos, s\u00e3o sobretudo edif\u00edcios nacionais da nacionalidade francesa, a primeira e mais poderosa tentativa de unidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Esses e outros argumentos semelhantes tornaram poss\u00edvel dotar a catedral medieval de todos aqueles valores, liberdade de pensamento, esp\u00edrito secular e nacionalidade, que a burguesia liberal, bem como os intelectuais anticlericais, foram capazes de aceitar. Assim, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o s\u00f3 a maioria das catedrais francesas foram restauradas, como em Nantes, Limoges, Moulins, mas tamb\u00e9m foram constru\u00eddas novas catedrais, como em Gap, Digne e Marselha, frequentemente em estilo neog\u00f3tico. A maioria dos visitantes das catedrais restauradas ou rec\u00e9m-constru\u00eddas assume, erroneamente, que os edif\u00edcios constituem um testemunho aut\u00eantico do passado medieval. Mesmo que os arquitetos e os cientistas tenham feito o seu melhor para basear o seu trabalho no que sabiam sobre a constru\u00e7\u00e3o medieval, os resultados s\u00e3o necessariamente reimagina\u00e7\u00f5es modernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Isto tornou-se ainda mais evidente ap\u00f3s o inc\u00eandio de 2019 em Notre Dame de Paris, a catedral medieval francesa amplamente utilizada como memorial para cerimonias nacionais seculares, como por exemplo o funeral do General DeGaulle em 1970. <a href=\"https:\/\/news.artnet.com\/art-world\/notre-dame-spire-reconstruction-1894147\">A quest\u00e3o de como reconstruir o edif\u00edcio gravemente danificado evoluiu para uma discuss\u00e3o a n\u00edvel nacional.<\/a> No final, os proponentes do plano para reconstruir fielmente a vers\u00e3o do s\u00e9culo XIX restaurada por Viollet-le-Duc (incluindo a sua torre redesenhada) venceram os planos que visavam uma vers\u00e3o medieval tardia ou uma vers\u00e3o que acrescentasse elementos arquitet\u00f4nicos contempor\u00e2neos. O Senado franc\u00eas determinou que a reconstru\u00e7\u00e3o fosse fiel ao seu \u201c\u00faltimo estado visual conhecido\u201d, e Philippe Villeneuve, o arquiteto-chefe da catedral, at\u00e9 amea\u00e7ou pedir demiss\u00e3o se Notre-Dame n\u00e3o fosse reconstru\u00edda da forma como Viollet-le-Duc a tinha concebido. O ambicioso objetivo do presidente franc\u00eas Emmanuel Macron de restaurar a catedral at\u00e9 os Jogos Ol\u00edmpicos de Paris em 2024 acrescente ainda mais uma prova da import\u00e2ncia contempor\u00e2nea do passado medieval para promover as aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nacionais.<\/p>\n<div class=\"embed-container\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Notre Dame fire: French president Macron vows to rebuild cathedral within five years\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QEV7dfOZKuE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Pode o prest\u00edgio da catedral medieval atravessar o Atl\u00e2ntico e funcionar com sucesso em uma na\u00e7\u00e3o predominantemente protestante? A Catedral Nacional de Washington, que levou apenas um pouco menos de tempo para ser constru\u00edda (83 anos) do que algumas de suas predecessoras medievais, deveria fornecer exatamente essa fun\u00e7\u00e3o secular unificadora para os Estados Unidos da Am\u00e9rica. George Washington (1732-1799) e Pierre &#8216;Peter&#8217; Charles L&#8217;Enfant (1754-1825), um engenheiro militar franco-americano, foram os primeiros a propor a constru\u00e7\u00e3o de uma \u2018grande igreja para fins nacionais\u2019 nos primeiros dias da rep\u00fablica. Mais de 100 anos depois, foi iniciada a constru\u00e7\u00e3o de uma igreja que no estilo g\u00f3tico ingl\u00eas do s\u00e9culo XIV, mas acrescentando caracter\u00edsticas americanas \u00fanicas. Ela representa as importantes liga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas com o passado medieval da Gr\u00e3-Bretanha, mas tamb\u00e9m celebra o caminho p\u00f3s-colonial pr\u00f3prio e independente da na\u00e7\u00e3o: A \u201cjanela espacial\u201d comemora o pouso dos astronautas norte-americanos na Lua com a Apollo 11; in\u00fameras est\u00e1tuas e vitrais mostram nomes como Thomas Jefferson, Martin Luther King, Abraham Lincoln, Rosa Parks, Eleanor Roosevelt e George Washington; e entre as 112 g\u00e1rgulas h\u00e1 representa\u00e7\u00f5es da vida cotidiana nos Estados Unidos: uma jovem com um aparelho odontol\u00f3gico, um pacifista com m\u00e1scara de g\u00e1s, um empres\u00e1rio Yuppie, um neto travesso que acabou de tirar um biscoito de um pote de biscoitos e, claro, a m\u00e1scara de Darth Vader dos filmes Star Wars. Assim, embora seja oficialmente uma igreja episcopal, as muitas caracter\u00edsticas seculares da catedral indicam a sua fun\u00e7\u00e3o como casa de ora\u00e7\u00e3o nacional para todos os cidad\u00e3os da na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 de surpreender que seja o local de servi\u00e7os funer\u00e1rios e memoriais de quase todos os presidentes dos EUA desde 1893, bem como de servi\u00e7os memoriais para as v\u00edtimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.<\/p>\n<div class=\"embed-container\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Only you, the birds, and Darth Vader can get this D.C. view\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EMQnFp14XlM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Tal como as catedrais e castelos medievais ou medievalizados serviram para ajudar os indiv\u00edduos a imaginarem-se como parte de uma comunidade nacional, o mesmo acontece com as obras liter\u00e1rias. Na sua busca por tais narrativas fundadoras, as na\u00e7\u00f5es modernas e seus l\u00edderes intelectuais t\u00eam frequentemente vasculhado \u00e9picos medievais em busca de her\u00f3is fict\u00edcios para determinar tra\u00e7os de car\u00e1cter e valores presumivelmente \u00fanicos de uma na\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Uma vez imaginado que um \u00e9pico medieval representa a na\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 inclu\u00eddo no c\u00e2none dos textos ensinados nas universidades e nas escolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Na Fran\u00e7a, A Can\u00e7\u00e3o de Rolando, a mais antiga obra liter\u00e1ria sobrevivente da Fran\u00e7a medieval, foi elevada a se tornar o \u00e9pico nacional da Fran\u00e7a. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o fict\u00edcia da Batalha de Roncevaux Pass (778), durante o reinado de Carlos Magno. O texto medieval tornou-se prestigioso o suficiente para ser editado por Joseph B\u00e9dier (1864-1938), professor do Coll\u00e8ge de France, como parte de um passional trabalho patri\u00f3tico para combater a influ\u00eancia autorit\u00e1ria dos concorrentes transrenos no estudo da literatura francesa. B\u00e9dier chegaria ao ponto de coletar e interpretar os di\u00e1rios de soldados alem\u00e3es para provar a deprava\u00e7\u00e3o moral do inimigo. Os oficiais durante a Primeira Guerra Mundial liam trechos particularmente heroicos de \u00e9picos medievais antes de enviar seus soldados para a batalha, e os discursos pol\u00edticos abundavam com compara\u00e7\u00f5es entre soldados modernos e cavaleiros medievais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">J\u00e1 na segunda metade do s\u00e9culo XIX, acad\u00eamicos brit\u00e2nicos, dinamarqueses e alem\u00e3es se envolveram em uma corrida cultural sobre qual na\u00e7\u00e3o poderia reivindicar o \u00e9pico do s\u00e9culo IX, Beowulf. Transmitida em um \u00fanico manuscrito, a narrativa se passa na Escandin\u00e1via medieval, escrita em ingl\u00eas antigo, e suas caracter\u00edsticas de g\u00eanero seguiam a tradi\u00e7\u00e3o das lendas heroicas germ\u00e2nicas. O peso de reivindicar o texto medieval inicial era tal que o primeiro chanceler da Alemanha imperial, Otto von Bismarck (1815-1898) se envolveu pessoalmente: Para a primeira cadeira de filologia inglesa na Reichsuniversit\u00e4t na ocupada Estrasburgo, ele apoiou um especialista em Beowulf, Bernhard ten Brink (1841-1892), cujo trabalho sobre o ingl\u00eas antigo, uma l\u00edngua germ\u00e2nica, deveria ajudar a impulsionar a germaniza\u00e7\u00e3o da Als\u00e1cia-Lorena. O governo alem\u00e3o deu um passo adiante ao nomear um de seus novos navios de defesa costeira em homenagem ao her\u00f3i do \u00e9pico medieval em 1915. O SMS Beowulf fazia parte da classe Siegfried de seis navios, em homenagem ao her\u00f3i fict\u00edcio do \u00e9pico nacional alem\u00e3o, o Nibelungenlied do alto alem\u00e3o m\u00e9dio (c. 1200), que tamb\u00e9m inspirou o ciclo oper\u00edstico Der Ring des Nibelungen de Richard Wagner (escrito entre 1848 e 1874). Embora a recep\u00e7\u00e3o nacionalista do Nibelungenlied tenha come\u00e7ado logo ap\u00f3s as Guerras Napole\u00f4nicas e continue at\u00e9 hoje, os nacional-socialistas prestaram especial aten\u00e7\u00e3o a ele. O marechal imperial (Reichsmarschall) de Hitler, Hermann G\u00f6ring, por exemplo, comparou o sacrif\u00edcio dos her\u00f3is, que desafia a morte, no final do \u00e9pico medieval, ao sacrif\u00edcio dos ex\u00e9rcitos alem\u00e3es em Stalingrado. O pr\u00f3prio Hitler, apaixonado por se imaginar como a reencarna\u00e7\u00e3o do governante medieval, chamava G\u00f6ring de seu \u201cpaladino\u201d (o t\u00edtulo usado em romances de cavalaria medieval para um dos principais cavaleiros que cercavam e protegiam o rei) e fez-se pintar como um cavaleiro teut\u00f4nico medieval pelo artista Hubert Lanzinger (Der Bannertr\u00e4ger, 1936).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-6589\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz4-primeiro-de-maio-400x274.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"274\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz4-primeiro-de-maio-400x274.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz4-primeiro-de-maio.jpg 567w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Figura 4:\u00a0 SMS Beowulf \u2013 Bundesarchiv, Bild 146-2008-0173 \/ Renard, Arthur \/ CC-BY-SA 3.0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Um dos padr\u00f5es mais comuns de utiliza\u00e7\u00e3o do passado medieval \u00e9 ligar e legitimar caracter\u00edsticas nacionais modernas com figuras heroicas medievais famosas, tanto reais como fict\u00edcias. Um dos pais fundadores dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, por exemplo, imaginou que os princ\u00edpios pol\u00edticos e jur\u00eddicos e a forma de governo da nova na\u00e7\u00e3o tinham origem na lei sax\u00f4nica, trazida para as Ilhas Brit\u00e2nicas pelas tribos germ\u00e2nicas que cruzaram o Canal da Mancha entre s\u00e9culos V e XII, e n\u00e3o pelo sistema feudal estabelecido pelos normandos depois de 1066. Ansioso por refor\u00e7ar a ideia da independ\u00eancia americana e da retid\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Americana, ele sustentou que, em virtude dessa lei sax\u00f4nica, os colonos do continente americano eram s\u00faditos da coroa brit\u00e2nica apenas por consentimento, e que o rei George III n\u00e3o detinha o t\u00edtulo da terra. Para visualizar e ancorar essa convic\u00e7\u00e3o, Jefferson prop\u00f4s que o selo oficial dos Estados Unidos mostrasse os irm\u00e3os Hengist e Horsa, dois l\u00edderes sax\u00f5es que, segundo a lenda, estiveram entre os primeiros guerreiros germ\u00e2nicos a chegar \u00e0 ilha.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6590\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz5-primeiro-de-maio.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz5-primeiro-de-maio.jpg 320w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2025\/05\/utz5-primeiro-de-maio-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Figura 5:\u00a0 Selo (rejeitado) de Jefferson dos Estados Unidos, mostrando Hengist e Horsa<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Poucas figuras medievais encontraram tantas aplica\u00e7\u00f5es nacionalistas como o mitogr\u00e1fico Rei Arthur. Winston Churchill, em <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Birth-Britain-History-English-Speaking-Peoples\/dp\/0760768579?crid=1RCYGCWO69YVU&amp;keywords=The+Birth+of+Britain&amp;qid=1642303028&amp;sprefix=the+birth+of+britain,aps,338&amp;sr=8-1&amp;linkCode=sl1&amp;tag=medievalistsn-20&amp;linkId=a46bff6878d54511322684bda406f22f&amp;language=en_US&amp;ref_=as_li_ss_tl\">O Nascimento da Gr\u00e3-Bretanha<\/a> (1956), comparou o valente esp\u00edrito de luta das tropas brit\u00e2nicas em sua batalha contra a Alemanha nazista aos feitos de batalha de Arthur e seus cavaleiros. Ignorando deliberadamente a aus\u00eancia de provas cient\u00edficas da exist\u00eancia de um Artur hist\u00f3rico, ele transformou-o numa prefigura\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio papel de lideran\u00e7a heroica e do de seus generais durante a Segunda Guerra Mundial, criando uma continuidade linear entre a Inglaterra do in\u00edcio da Idade M\u00e9dia e a sua pr\u00f3pria Gr\u00e3-Bretanha contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O presidente dos EUA, John F. Kennedy (1917-1963), cresceu em uma cultura anglo-americana impregnada de hist\u00f3rias a respeito do Rei Arthur. Ap\u00f3s seu assassinato, sua esposa, Jaqueline, e a m\u00eddia dos EUA exaltaram sua presid\u00eancia de apenas 1.000 dias com base no musical da Broadway favorito de Kennedy: Camelot (1960), que celebra a hist\u00f3ria de Arthur como um momento brilhante durante o qual, toda a na\u00e7\u00e3o \u00e9 levada a crer, a bondade e a justi\u00e7a reinavam supremas. Os estadunidenses, chocados e desanimados com o assassinato do presidente, abra\u00e7aram avidamente a fic\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica de que o seu jovem e en\u00e9rgico l\u00edder tinha sido <a href=\"https:\/\/www.life.https:\/\/www.life.com\/history\/jackie-movie-life-magazine\/com\/history\/jackie-movie-life-magazine\/\">uma reencarna\u00e7\u00e3o moderna do lend\u00e1rio governante medieval<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Embora se possa supor que o advento da Uni\u00e3o Europeia teria levado a uma diminui\u00e7\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o nacionalista de um passado medieval imaginado na segunda metade do s\u00e9culo XX, o oposto parece ser o caso. Por um lado, as alterca\u00e7\u00f5es sobre reivindicar \u201cCarolus Magnus\u201d como antepassado da Fran\u00e7a ou da Alemanha diminu\u00edram e foram substitu\u00eddas pela no\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel e realista de que o rei franco \u201cpertence\u201d a numerosas na\u00e7\u00f5es e regi\u00f5es europeias modernas; por outro lado, a mudan\u00e7a da autoridade econ\u00f4mica e social de Estados-na\u00e7\u00e3o individuais para uma associa\u00e7\u00e3o multinacional de mais de 20 pa\u00edses reavivou movimentos de independ\u00eancia etnonacionalistas em algumas regi\u00f5es e movimentos neonacionalistas anti-europeus em outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">O lan\u00e7amento do filme hollywoodiano Cora\u00e7\u00e3o Valente, de Mel Gibson, em 1995, por exemplo, despertou o entusiasmo escoc\u00eas pela independ\u00eancia do Reino Unido. O blockbuster, que ganhou cinco Oscars, incluindo o de Melhor Filme, conta a dram\u00e1tica hist\u00f3ria de William Wallace, um l\u00edder escoc\u00eas que resiste \u00e0 domina\u00e7\u00e3o inglesa no final do s\u00e9culo XIII. Embora repleto de imprecis\u00f5es hist\u00f3ricas, o filme medieval lembrou ao p\u00fablico escoc\u00eas uma \u00e9poca heroica pr\u00e9-colonial, quando n\u00e3o estavam sob o dom\u00ednio ingl\u00eas. Fato \u00e9 que pol\u00edticos nacionalistas usaram a descri\u00e7\u00e3o negativa que o filme faz dos ingleses para explorar <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/politics\/2014\/sep\/12\/salmond-scottish-nationalists-snp-margins-independence-vote\">a crescente anglofobia entre muitos escoceses no final do s\u00e9culo XX<\/a> e consideraram o foco da Uni\u00e3o Europeia nas regi\u00f5es em vez das na\u00e7\u00f5es como uma alavanca \u00fatil para livrar-se do Jugo ingl\u00eas. O anseio nost\u00e1lgico por uma Esc\u00f3cia pr\u00e9-moderna independente tamb\u00e9m desempenhou um papel importante quando 62% dos eleitores escoceses votaram contra o Brexit em 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Na Inglaterra, onde a maioria dos eleitores votou a favor do Brexit, Tommy Robinson e os membros da sua ultranacionalista e branca English Defense League fetichizam o \u201cinglesismo\u201d, simbolizado na <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/uk-news\/2014\/nov\/26\/patriot-games-battle-for-flag-of-st-george-english-identity\">bandeira de S\u00e3o Jorge<\/a>, o santo padroeiro da Inglaterra no s\u00e9culo IV. E rejeitam a Union Jack, bandeira brit\u00e2nica p\u00f3s-medieval que inclui Inglaterra, Esc\u00f3cia, Pa\u00eds de Gales e, por extens\u00e3o, outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Na Fran\u00e7a, um pa\u00eds que apoia fortemente a Uni\u00e3o Europeia, o movimento de direita Frente Nacional, rebatizado como Rassemblement National em 2018, tem resistido \u00e0 cess\u00e3o da soberania nacional por parte do pa\u00eds a \u00f3rg\u00e3os governamentais europeus supranacionais. Propagando o catolicismo conservador, os pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero e o etnonacionalismo xen\u00f3fobo, os l\u00edderes do partido expressaram publicamente <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/uk-health-coronavirus-france-mayday\/defying-french-lockdown-le-pen-places-may-day-wreath-as-macron-urges-unity-idUKKBN22D4UP\/\">uma forte afinidade com Joana D&#8217;Arc<\/a>, na posi\u00e7\u00e3o uma antepassada medieval francesa que defendeu a na\u00e7\u00e3o contra a invas\u00e3o estrangeira (inglesa), exemplificou a feminilidade tradicional (virgem) e morreu pela sua f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">O passado medieval foi reinventado por in\u00fameras causas benignas e louv\u00e1veis nas artes, cultura, m\u00fasica, pol\u00edtica e religi\u00e3o. Essa maleabilidade fascinante desse passado, facilitada pelas centenas de anos que dele nos separam, faz com que pare\u00e7a um significante quase vazio que pode ser aplicado a quase todos os prop\u00f3sitos. Apesar dos esfor\u00e7os de gera\u00e7\u00f5es de acad\u00eamicos para evitar apropria\u00e7\u00f5es e falsifica\u00e7\u00f5es presentistas irrespons\u00e1veis, a grande maioria das reimagina\u00e7\u00f5es nacionalistas da cultura medieval nos tempos modernos tem estado a servi\u00e7o de ideologias autocr\u00e1ticas, totalit\u00e1rias, antissemitas, homof\u00f3bicas, racistas e xen\u00f3fobas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Embora essas tend\u00eancias tenham se tornado vis\u00edveis em numerosos pa\u00edses, as suas manifesta\u00e7\u00f5es recentes mais flagrantes existem na R\u00fassia de Vladimir Putin e no Brasil de Jair Bolsonaro. Putin,<a href=\"https:\/\/www.project-syndicate.org\/commentary\/russia-resurrecting-ivan-the-terrible-eurasianism-by-dina-khapaeva-2017-12\"> como demonstrou Dina Khapaeva<\/a>, apoia abertamente o ultranacionalista Partido Eur\u00e1sia, um movimento pol\u00edtico liderado pelo m\u00edstico pr\u00f3-fascista Alexander Dugin. Dugin e os seus seguidores esfor\u00e7am-se por reviver Ivan, o Terr\u00edvel, como o que consideram a melhor encarna\u00e7\u00e3o de uma aut\u00eantica tradi\u00e7\u00e3o russa, nomeadamente a monarquia autorit\u00e1ria. O \u201ceurasianismo\u201d enquanto ideologia defende ativamente a ado\u00e7\u00e3o de uma nova Idade M\u00e9dia, na qual os \u00faltimos resqu\u00edcios da democracia russa sejam substitu\u00eddos por um poderoso autocrata. Os eurasianistas esperam pelo regresso daquilo que imaginam ser uma ordem social medieval dentro da qual o imp\u00e9rio russo de Ivan ser\u00e1 restaurado, a Igreja Ortodoxa assumir\u00e1 o controle da cultura e da educa\u00e7\u00e3o e a escravatura se tornaria uma caracter\u00edstica aceit\u00e1vel da sociedade. Como resultado vis\u00edvel da alian\u00e7a entre Putin e os eurasianistas, v\u00e1rias est\u00e1tuas de Ivan, o Terr\u00edvel, foram erguidas nos \u00faltimos anos, e houve uma proposta de renomear a Avenida Lenin em Moscow para Rodovia Ivan, o Terr\u00edvel. Numa nega\u00e7\u00e3o completa dos fatos hist\u00f3ricos, Putin chegou a afirmar que Ivan, o Terr\u00edvel, nunca matou ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">No Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro, grupos de extrema direita promoveram uma vers\u00e3o igualmente simplificada da Idade M\u00e9dia para justificar a sua agenda. No geral, eles querem definir seu pa\u00eds como a realiza\u00e7\u00e3o triunfante de um Portugal medieval branco, patriarcal e crist\u00e3o, <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/122152374\/Tropical_Templars_Medievalism_and_Pseudohistory_in_Brazils_Largest_City\">tornando assim os brasileiros brancos os verdadeiros herdeiros de um imaginado passado medieval portugu\u00eas glorioso<\/a>. Isso tamb\u00e9m permite que se oponham \u00e0 democracia secular moderna e \u00e0 igualdade de g\u00eanero em favor do patriarcado, da homofobia, da misoginia, da intoler\u00e2ncia religiosa e do racismo, todos propagados em discursos pol\u00edticos e nas redes sociais. Um document\u00e1rio islamof\u00f3bico particularmente vil, que defende esse tipo de Brasil, \u00e9 \u201cBrasil: A \u00daltima Cruzada\u201d, centrado na conquista \u00e1rabe da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e nas Cruzadas, celebrando o suposto o papel dos Cavaleiros Templ\u00e1rios na hist\u00f3ria de Portugal, incluindo a Reconquista e a expans\u00e3o mar\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Se, durante o s\u00e9culo XIX e a maior parte do s\u00e9culo XX, as reimagina\u00e7\u00f5es isolacionistas e nacionalistas da Idade M\u00e9dia eram na maioria das vezes separadas e independentes, o advento da Internet tornou-as globalmente conectadas. A colabora\u00e7\u00e3o transnacional dos seus proponentes e o abuso insidioso da liberdade comunicativa proporcionada pelas novas tecnologias, especialmente pelas redes sociais, permitiram que o nacionalismo medievalista de extrema direita se tornasse um fen\u00f4meno mundial &#8211; ao ponto de ideias e ideais de uma localidade serem emulados e reciclados em outros lugares como fontes para autenticar e refor\u00e7ar discursos. Portanto, n\u00e3o \u00e9 surpreendente que os medievalismos de Bolsonaro e Putin <a href=\"https:\/\/theobjective.com\/further\/dugin-benoist-olavo-de-carvalho\">partilhem numerosas conectividades<\/a> diretas e indiretas com aqueles empregados por Matteo Salvini, da It\u00e1lia, Richard Spencer, Steve Bannon e Donald Trump, dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, e Viktor Orb\u00e1n, da Hungria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\">Para comunicar com sucesso os seus objetivos, medievalizando nacionalistas, atrav\u00e9s de blogs, Facebook, Twitter, Instagram, TikTok etc., primeiro eles desconectam quaisquer afirma\u00e7\u00f5es que gostariam de fazer dos acontecimentos, textos e artefatos reais do passado que gostariam de se apropriar. Uma vez desconectados de qualquer realidade hist\u00f3rica protetora, essas afirma\u00e7\u00f5es podem ser incessantemente reaproveitadas e repetidas em tropos e memes da Idade M\u00e9dia, incluindo aqueles que apoiam posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas completamente alheias a tudo o que sabemos sobre a cultura medieval. Como Andrew B.R. Elliot explica em seu estudo de 2017, <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Medievalism-Politics-Mass-Media-Appropriating\/dp\/1843845857?crid=17SUE9PIT65T9&amp;keywords=Medievalism,+Politics,+and+Mass+Media&amp;qid=1642303187&amp;sprefix=medievalism,+politics,+and+mass+media,aps,237&amp;sr=8-1&amp;linkCode=sl1&amp;tag=medievalistsn-20&amp;linkId=c0ef355c007a81aa2f256459c1f84c46&amp;language=en_US&amp;ref_=as_li_ss_tl\">Medievalismo, Pol\u00edtica e M\u00eddias de Massa<\/a>, que a onipresen\u00e7a esmagadora dessas imagina\u00e7\u00f5es falsas da cultura medieval as torna praticamente imunes \u00e0 cr\u00edtica acad\u00eamica e \u00e0 retifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Somente um grande e concertado esfor\u00e7o jur\u00eddico e educativo para proteger os fatos da mitografia poder\u00e1 ser capaz de conter as mais vis e delet\u00e9rias campanhas pol\u00edticas de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 2.5rem; padding: 0 1rem;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Originalmente publicado em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.medievalists.net\/2022\/01\/medievalism-and-nationalism\/\">https:\/\/www.medievalists.net\/2022\/01\/medievalism-and-nationalism\/.<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"citationSection\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 01 de Maio de 2025.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> UTZ, Richard. Os Grandes C\u00famplices: Medievalismo e Nacionalismo. Tradu\u00e7\u00e3o: Luiz Guerra. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 01 mai. 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/os-grandes-cumplices-medievalismo-e-nacionalismo\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/os-grandes-cumplices-medievalismo-e-nacionalismo<\/a> Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por Richard J. Utz[1] Traduzido e adaptado por Luiz Guerra Em 1877, sete anos ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o da Als\u00e1cia-Lorena, Guilherme II, Imperador da Alemanha, visitou Metz. Os funcion\u00e1rios do gabinete do prefeito, todos alem\u00e3es, reuniram-se no telhado da Catedral de Santo Est\u00eav\u00e3o para celebrar a sua visita com uma queima de fogos de artif\u00edcio. &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/os-grandes-cumplices-medievalismo-e-nacionalismo\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1170,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-6575","page","type-page","status-publish","hentry","nodate","item-wrap"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>OS GRANDES C\u00daMPLICES: MEDIEVALISMO E NACIONALISMO - POIEMA<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/os-grandes-cumplices-medievalismo-e-nacionalismo\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"OS GRANDES C\u00daMPLICES: MEDIEVALISMO E NACIONALISMO - POIEMA\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Escrito por Richard J. 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