{"id":6200,"date":"2024-10-08T18:00:00","date_gmt":"2024-10-08T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=6200"},"modified":"2024-10-08T15:43:03","modified_gmt":"2024-10-08T18:43:03","slug":"cruzada-grimdark-warhammer-40-000-e-o-movimento-da-cruzada-medieval","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/cruzada-grimdark-warhammer-40-000-e-o-movimento-da-cruzada-medieval\/","title":{"rendered":"Cruzada Grimdark: Warhammer 40.000 e o movimento da cruzada medieval"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Rory MacLellan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quadrag\u00e9simo segundo mil\u00eanio, do jogo de mesa <em>Warhammer 40.000<\/em>, quase toda a humanidade vive sob o dom\u00ednio do <em>Imperium of Man<\/em> (o Imp\u00e9rio da Humanidade). Um regime horrivelmente opressivo &#8211; travado em uma batalha intermin\u00e1vel por sobreviv\u00eancia contra alien\u00edgenas e for\u00e7as demon\u00edacas &#8211; onde nenhuma resist\u00eancia \u00e9 tolerada e quase nenhum avan\u00e7o ou progresso cient\u00edfico \u00e9 permitido. Uma sombria Inquisi\u00e7\u00e3o erradica a heresia e a muta\u00e7\u00e3o, condenando ex\u00e9rcitos inteiros \u00e0 morte pela menor infra\u00e7\u00e3o, enquanto dez mil almas s\u00e3o sacrificadas todos os dias para sustentar o comatoso Imperador, mortalmente ferido, fundador divino do Imp\u00e9rio. Tudo no cen\u00e1rio \u00e9 um exagero, uma efetiva caricatura. O slogan do jogo, \u201cNa escurid\u00e3o sombria de um futuro distante, s\u00f3 existe guerra\u201d [<em>In the grim darkness of the far future there is only war<\/em>], deu origem ao termo <em>grimdark<\/em>, sin\u00f4nimo de algo especialmente sombrio ou dist\u00f3pico, e atualmente um subgen\u00eanero liter\u00e1rio de fic\u00e7\u00e3o especulativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As principais das in\u00fameras campanhas militares do <em>Imperium<\/em> s\u00e3o conhecidas como cruzadas e s\u00e3o lan\u00e7adas apenas pelas mais altas autoridades do <em>Imperium<\/em>, os Gr\u00e3o-Senhores da Terra (High Lords of Terra) (Ultramarines 2nd ed,1993, p. 59). Desde a Grande Cruzada, dez mil anos atr\u00e1s, que estabeleceu o <em>Imperium<\/em>, at\u00e9 a Cruzada <em>Indomitus<\/em> dos \u201cdias atuais\u201d do cen\u00e1rio, essas campanhas podem ser dirigidas contra todo e qualquer inimigo em toda a gal\u00e1xia, s\u00e3o de grande escala e duram d\u00e9cadas ou mais. Alguns grupos dentro do <em>Imperium<\/em> levam as cruzadas ainda mais adiante, como o Cap\u00edtulo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> dos Templ\u00e1rios Negros (<em>Black Templars Chapter<\/em>) dos <em>Space Marines<\/em>. Esses supersoldados geneticamente modificados t\u00eam travado uma cruzada sem fim desde a sua funda\u00e7\u00e3o, dez mil anos antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os f\u00e3s do jogo e de seu mundo podem pensar que esta representa\u00e7\u00e3o de cruzadas \u00e9 exclusiva de <em>Warhammer 40.000<\/em>: guerras santas sem fim, apenas mais uma inven\u00e7\u00e3o do futuro <em>grimdark<\/em> do jogo, um exagero da hist\u00f3ria. Embora isso bem descreva a Grande Cruzada que durou s\u00e9culos, e a escala dessas guerras como um todo, a ampla e constante cruzada do <em>Imperium<\/em> tem uma base hist\u00f3rica no movimento das cruzadas medievais.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m de Jerusal\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A opini\u00e3o popular sobre as cruzadas ainda interpreta essas guerras como sendo dirigidas principalmente \u00e0 Terra Santa. Ela leva em considera\u00e7\u00e3o as nove cruzadas numeradas &#8211; desde a Primeira Cruzada em 1096, que terminou em 1099 com a captura de Jerusal\u00e9m e o estabelecimento de quatro Estados Cruzados na Palestina e na S\u00edria, at\u00e9 a Nona Cruzada em 1271-72, e termina em 1291, quando Acre, o \u00faltimo reduto dos cruzados, caiu nas m\u00e3os do Sultanato Mameluco. Mas os estudiosos das cruzadas, h\u00e1 muito, expandiram o \u00e2mbito dos movimentos, tanto geogr\u00e1fica como cronologicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador Giles Constable prop\u00f4s que havia quatro escolas principais de historiografia de cruzadas, de formas de definir o que eram as cruzadas. As quatro escolas identificadas por Constable foram Tradicionalistas, Pluralistas, Generalistas e Popularistas. A defini\u00e7\u00e3o Tradicionalista de cruzada \u00e9 basicamente a vis\u00e3o de 1096 a 1291: Jerusal\u00e9m e a Terra Santa det\u00eam um status especial nas cruzadas e apenas as expedi\u00e7\u00f5es dirigidas para l\u00e1 realmente contam como cruzadas \u201creais\u201d. A vis\u00e3o Pluralista \u00e9 muito mais expansiva, afirma que qualquer expedi\u00e7\u00e3o realizada com privil\u00e9gios religiosos especiais do Papa, uma bula de cruzada concedendo a remiss\u00e3o completa dos pecados cometidos por aqueles que empreendem a cruzada, e com os participantes fazendo votos penitenciais, foi uma cruzada. Os Generalistas sustentam que as cruzadas eram apenas parte de uma tradi\u00e7\u00e3o muito mais ampla de guerra crist\u00e3 e rejeitam a defini\u00e7\u00e3o das cruzadas como uma entidade separada. Finalmente, os Popularistas veem as cruzadas como movimentos populares de massa alimentados por cren\u00e7as prof\u00e9ticas e apocal\u00edpticas, sendo a Primeira Cruzada o exemplo mais forte disso (Riley-Smith, 2009, p. xi-xii).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como acontece com qualquer divis\u00e3o estrita, existem nuances e complexidades que s\u00e3o suavizadas por estas quatro escolas e a maioria dos historiadores das cruzadas veria pontos fortes e fracos em cada uma delas. Hoje, a posi\u00e7\u00e3o dominante \u00e9 em grande parte Pluralista, tendo em conta a ampla cronologia e geografia dessa defini\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que reconhece a \u00eanfase dos Tradicionalistas no estatuto especial de Jerusal\u00e9m, o destaque que os Popularistas d\u00e3o ao milenarismo e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o das massas, e a posi\u00e7\u00e3o dos Generalistas de ver as cruzadas dentro de um contexto mais amplo de guerra santa crist\u00e3 e viol\u00eancia eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob esta defini\u00e7\u00e3o Pluralista dominante, as cruzadas expandem-se de um pequeno n\u00famero de campanhas ao Oriente Pr\u00f3ximo, para abranger o Norte de \u00c1frica, o Norte da Europa, a Espanha, a Fran\u00e7a e a Europa Oriental. A chamada Reconquista em Espanha e Portugal, que viu os estados crist\u00e3os conquistarem os governantes mu\u00e7ulmanos do sul da pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, foi tratada como cruzada. Ela foi apoiada por bulas de cruzadas e alguns papas at\u00e9 rogaram aos cavaleiros espanh\u00f3is a permanecerem em casa e lutarem por l\u00e1, em vez de irem para Jerusal\u00e9m. Urbano II, cujo discurso em Clermont em 1095 levou \u00e0 Primeira Cruzada, ofereceu aos que lutavam na Espanha a mesma remiss\u00e3o de pecados que aos que iam \u00e0 Palestina. Seu sucessor, Pascoal II, tentou proibir os cavaleiros espanh\u00f3is de viajar para o Oriente, pois isso poderia prejudicar o esfor\u00e7o de guerra na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica (Riley-Smith, 2009, p. 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Norte da Europa, os povos pag\u00e3os do B\u00e1ltico foram alvo de cruzadas a partir do final da d\u00e9cada de 1140. Ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos, os pag\u00e3os prussianos, livonianos, estonianos e lituanos seriam cristianizados na ponta de uma espada por homens que recebiam indulg\u00eancias das cruzadas (Riley-Smith, 2009, p. 17). A conquista das Ilhas Can\u00e1rias, iniciada por dois cavaleiros normandos em 1402, foi apoiada por uma bula cruzada e a cr\u00f4nica da sua campanha apresenta a guerra como uma cruzada (Jensen, 2007, p. 182, rodap\u00e9 103). A conquista de Ceuta, em Marrocos, por Portugal, em 1415, tamb\u00e9m foi tratada como uma cruzada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os alvos n\u00e3o eram apenas os n\u00e3o-crist\u00e3os. Os c\u00e1taros do sul da Fran\u00e7a, nos s\u00e9culos XII e XIII, e os hussitas da Bo\u00eamia, no s\u00e9culo XV, eram ambos grupos crist\u00e3os que o Papa considerou her\u00e9ticos, lan\u00e7ando v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es cruzadas contra eles. Antes da Quarta Cruzada saquear Constantinopla em 1204, ent\u00e3o governada pelos crist\u00e3os ortodoxos, alguns dos cruzados argumentaram que eles seriam um alvo leg\u00edtimo, pois rejeitavam o Papa (Riley-Smith, 2009, p. 18). Na d\u00e9cada de 1290, quando o Papa lutou contra os seus inimigos pol\u00edticos em Roma, a fam\u00edlia Colonna, convocou uma cruzada contra eles. Em 1421, o Parlamento ingl\u00eas pediu a Henrique V que apresentasse uma peti\u00e7\u00e3o ao Papa para uma cruzada contra os irlandeses devido \u00e0 sua resist\u00eancia ao dom\u00ednio ingl\u00eas. Na d\u00e9cada de 1290, quando o Papa lutou contra os seus inimigos pol\u00edticos em Roma, a fam\u00edlia Colonna, convocou uma cruzada contra eles (Riley-Smith, 2009, p. 20). Em 1421, o Parlamento ingl\u00eas pediu a Henrique V que apresentasse uma peti\u00e7\u00e3o ao Papa para uma cruzada contra os irlandeses devido \u00e0 sua resist\u00eancia ao dom\u00ednio ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem do per\u00edodo medieval para o moderno, por volta do in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, faz com que as cruzadas continuem no Mediterr\u00e2neo e se expandam muito al\u00e9m, levadas pela coloniza\u00e7\u00e3o europeia em todas as dire\u00e7\u00f5es. A invas\u00e3o de Marrocos por Portugal em 1578 foi apoiada por bulas cruzadas, tal como a Armada Espanhola enviada contra a Inglaterra protestante em 1588. Ligas cruzadas lutaram contra o Imp\u00e9rio Otomano pelo controle do Mediterr\u00e2neo at\u00e9 1697. Os di\u00e1rios de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo mostram que ele esperava que uma rota ocidental para a \u00cdndia e a riqueza que ela traria levassem \u00e0 recaptura de Jerusal\u00e9m (Hamdani, 1979). Em 1514, Cristiano II da Dinamarca e Noruega recebeu do Papa uma bula de cruzada para uma expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00cdndia atrav\u00e9s do Oceano \u00c1rtico (Jensen, 2007, p. 195). Na \u00c1frica, o reino do Kongo, convertido ao cristianismo pelos portugueses, assumiu as vestimentas dos cruzados, inclusive portando uma bandeira com uma cruz que havia sido aben\u00e7oada pelo Papa contra seus inimigos. Em 1509, o Rei Afonso I do Kongo afirmou que uma cruz e S\u00e3o Tiago apareceram no c\u00e9u antes dele lutar contra o seu irm\u00e3o pag\u00e3o pelo trono, um epis\u00f3dio que n\u00e3o estaria fora de lugar numa cr\u00f3nica da Terceira Cruzada (Simmons, 2022). Tiago foi por muito tempo considerado um santo cruzado, tornando-se conhecido na Espanha como Santiago Matamoros, \u201cmatador de mouros\u201d. Quando a Espanha iniciou a conquista das Am\u00e9ricas, surgiu uma nova variante, Santiago Mataindios, \u201cmatador de \u00edndios\u201d. Embora estas campanhas n\u00e3o fossem apoiadas por bulas papais, a ret\u00f3rica e as imagens das cruzadas continuaram, e as novas col\u00f3nias de Espanha pagariam impostos das cruzadas para apoiar as campanhas na Europa (Tyerman, 2019, p. 431).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Imperium<\/em> promovendo cruzadas em todas as dire\u00e7\u00f5es &#8211; contra hereges e aliens, ou internas para acertar contas pol\u00edticas &#8211; \u00e9 pouco diferente do panorama da Europa medieval e do in\u00edcio da era moderna, de cruzadas contra alvos muito para al\u00e9m do Oriente M\u00e9dio. Um dos livros-fonte do jogo, da d\u00e9cada de 1990, <em>Codex Ultramarines<\/em>, \u00e9 uma das poucas fontes que oferece uma defini\u00e7\u00e3o direta de uma cruzada em <em>Warhammer 40.000<\/em>, e ela se parece muito com a interpreta\u00e7\u00e3o Pluralista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 20vw;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Somente os pr\u00f3prios Gr\u00e3o-Senhores da Terra podem declarar uma Cruzada [\u2026] Quando uma Cruzada \u00e9 declarada, \u00e9 prov\u00e1vel que seja contra Senhores hereges, governos planet\u00e1rios rebeldes que se voltaram contra o <em>Imperium<\/em> pelas suas pr\u00f3prias raz\u00f5es ego\u00edstas. Uma Cruzada tamb\u00e9m pode ser declarada contra mundos alien\u00edgenas ou planetas rec\u00e9m-descobertos que est\u00e3o al\u00e9m da luz do Imperador (Ultramarines 2nd ed,1993, p. 59).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como na Europa medieval, o lan\u00e7amento de uma Cruzada Imperial \u00e9 autorizado por uma autoridade suprema, com um componente religioso, uma vez que entre os Gr\u00e3o-Senhores est\u00e1 o Eclesiarca, chefe do Adeptus Ministorum, a igreja estatal e burocr\u00e1tica do Imperium, e estas campanhas podem ser dirigidas contra todos e quaisquer seus oponentes.<\/p>\n<p><strong>Uma sociedade baseada em cruzadas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As cruzadas s\u00e3o difundidas em toda a sociedade Imperial, \u00e9 o m\u00e9todo padr\u00e3o de travar grandes campanhas, enquanto os indiv\u00edduos podem assumir voluntariamente um voto de cruzada ou ter um imposto sobre eles como puni\u00e7\u00e3o ou penit\u00eancia. A prega\u00e7\u00e3o e a tributa\u00e7\u00e3o maci\u00e7a utilizada para recrutar e financiar as cruzadas significariam que mesmo os n\u00e3o-combatentes seriam afetados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As cruzadas estavam igualmente arraigadas na sociedade medieval. Tornaram-se uma parte central das ideias de cavalaria e realeza, sendo a cruzada o sinal de um bom cavaleiro ou governante. No B\u00e1ltico, cavaleiros de toda a Europa podiam juntar-se aos Cavaleiros Teut\u00f3nicos no seu <em>reisen<\/em> de ver\u00e3o, uma esp\u00e9cie de pacote de f\u00e9rias medieval com os cavaleiros visitantes participando em festas e torneios antes de saquearem a Litu\u00e2nia pag\u00e3. Os impostos das cruzadas foram instaurados em toda a Europa e mesmo fora dela. Urnas de coleta seriam colocadas nas igrejas paroquiais, apoiados pela prega\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Come\u00e7ando com o Segundo Conc\u00edlio de Lyon em 1274, os impostos das cruzadas foram expandidos at\u00e9 nas col\u00f4nias n\u00f3rdicas da Groenl\u00e2ndia. Em 1327, eles pagaram isso na forma de dentes de morsa (Jensen, 2007, p. 161-162). Mesmo na morte, as cruzadas continuaram, com pessoas deixando heran\u00e7as para a Terra Santa. No seu testamento de 1355, Elizabeth de Burgh, condessa do Ulster, deixou 100 marcos para cinco homens armados irem para o Oriente \u201cao servi\u00e7o de Deus e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos seus inimigos\u201d (Nichols, 1780, p. 30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terras que n\u00e3o estavam na fronteira das cruzadas at\u00e9 inventaram ou exageraram a exist\u00eancia de vizinhos n\u00e3o-crist\u00e3os para reivindicar o seu lugar no movimento mais amplo. V\u00e1rias fontes dinamarquesas e norueguesas dos s\u00e9culos XV e XVI afirmam que enfrentavam a sua pr\u00f3pria zona fronteiri\u00e7a que rivalizava com aquela que ficava do outro lado do Mediterr\u00e2neo. Mapas e cronistas retratam a Escandin\u00e1via como acuada ao norte por pag\u00e3os fict\u00edcios, incluindo amazonas, gigantes, unipedes e pigmeus, bem como por culturas reais deslocadas, como t\u00e1rtaros, cumanos e carelianos, todos vivendo muito ao norte e sempre prontos para atacar (Jensen, 2007, p. 180, 190-191).<\/p>\n<p><strong>Cruzados profissionais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cruzados profissionais e vital\u00edcios de <em>Warhammer 40.000<\/em>, os Templ\u00e1rios Negros, tamb\u00e9m t\u00eam contrapartes medievais, principalmente nas ordens religioso-militares que lhes deram o nome. Surgidas no in\u00edcio do s\u00e9culo XII, as ordens militares combinavam a vida mon\u00e1stica com a de cavaleiro. Os mais famosos deles foram os Cavaleiros Templ\u00e1rios, que d\u00e3o o nome aos Templ\u00e1rios Negros, embora o s\u00edmbolo da cruz de Malta e o uniforme preto e branco do cap\u00edtulo sejam retirados de outra ordem militar: os Cavaleiros Hospital\u00e1rios, enquanto seus nomes e t\u00edtulos germ\u00e2nicos s\u00e3o uma refer\u00eancia a uma terceira ordem: os Cavaleiros Teut\u00f4nicos. Estas tr\u00eas ordens medievais levaram a cabo algo similar \u00e0 eterna cruzada dos Templ\u00e1rios Negros. Embora n\u00e3o fossem tecnicamente cruzados, j\u00e1 que os membros das ordens militares geralmente n\u00e3o faziam votos de cruzada, eles continuaram a lutar nas fronteiras da Europa muito depois das principais expedi\u00e7\u00f5es cruzadas terem regressado \u00e0 casa ou terem cessado completamente. Elas foram originalmente criadas em resposta \u00e0 escassez de m\u00e3o de obra nos Estados Cruzados, que precisavam de uma for\u00e7a militar permanente l\u00e1, que n\u00e3o entrasse e sa\u00edsse com cada expedi\u00e7\u00e3o. O seu papel militar n\u00e3o terminou com a perda do Acre em 1291. Os Hospital\u00e1rios mudaram-se primeiro para Chipre, depois para Rodes e ent\u00e3o Malta, onde permaneceram at\u00e9 a sua conquista por Napole\u00e3o em 1798. Durante todo o tempo, travaram uma guerra naval contra o Imp\u00e9rio Otomano e os seus aliados, os Cors\u00e1rios da Barb\u00e1ria. Os Cavaleiros Teut\u00f3nicos estabeleceram-se no B\u00e1ltico no in\u00edcio do s\u00e9culo XIII, governando o seu pr\u00f3prio estado durante mais de trezentos anos, durante os quais guerrearam contra a Litu\u00e2nia pag\u00e3. Mesmo depois que a Reforma os expulsou do B\u00e1ltico, a ordem continuou a formar um regimento no ex\u00e9rcito austro-h\u00fangaro at\u00e9 1918. Essas s\u00e3o apenas as tr\u00eas maiores ordens militares, muitas outras proliferaram por toda a Europa, particularmente na Espanha e Portugal. Propostas para novas ordens militares ocorreram ao longo dos s\u00e9culos XVI e XVII, tendo a \u00faltima sido fundada em 1891. Tal como o <em>Imperium<\/em>, essa foi uma sociedade permeada pela ideia de guerra santa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em termos de seu escopo &#8211; ao atingir todo e qualquer inimigo em toda a gal\u00e1xia &#8211; e sua difus\u00e3o &#8211; seja nas cruzadas como um ato de penit\u00eancia ou na exist\u00eancia de cruzados permanentes como os Templ\u00e1rios Negros &#8211; as cruzadas imperiais t\u00eam muito em comum com as cruzadas medievais e do in\u00edcio do mundo moderno. Embora possa ter sido concebido como uma caricatura do fanatismo medieval, ela est\u00e1 surpreendentemente pr\u00f3xima do passado real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia selecionada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONSTABLE, Giles. <strong>Crusaders and Crusading in the Twelfth Century<\/strong>. Abingdon: Routledge, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HAMDANI, Abbas. Columbus and the Recovery of Jerusalem. <strong>Journal of the American Oriental Society<\/strong>, vol. 99, no. 1, 1979, p. 39-48. JSTOR, https:\/\/doi.org\/10.2307\/598947. Accessed 20 Sept. 2024.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JOHNSON, Jervis; MERETT, Alan; PRIESTLEY, Rick. <strong>Ultramarines<\/strong>. Games Workshop; Nottingham: Reino Unido, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JENSEN, Janus M\u00f8ller. <strong>Denmark and the Crusades<\/strong>, 1400\u20131650. Leiden; Boston: Brill, 2007<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NICHOLS, John (ed.). <strong>A Collection of all the Wills<\/strong>, Now Known to be Extant, of the Kings and Queens of England, Princes and Princesses of Wales, and Every Branch of the Blood Royal, from the Reign of William the Conqueror, to That of Henry the Seventh Exclusive. London: J. Nichols, 1780.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RILEY-SMITH, Jonathan. <strong>What Were the Crusades?<\/strong> London: Ignatius Press, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SIMMONS, Adam. The African Adoption of the Portuguese Crusade during the Fifteenth and Sixteenth Centuries.\u00a0<strong>The Historical Journal<\/strong>, v. 65, n. 3, p. 571-590, 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TYERMAN, Christopher. <strong>World of the Crusades<\/strong>. Yale: Yale University Press, 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordings of panels from the inaugural Warhammer Conference at the University of Heidelberg, Sept. 2024: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@WarhammerConference\">https:\/\/www.youtube.com\/@WarhammerConference<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Doutor em Hist\u00f3ria Medieval pela University of St Andrews rafmaclellan@gmail.com.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> NT: Os Space Marines, originalmente divididos em Legi\u00f5es, foram reorganizados em cap\u00edtulos de natureza quasi mon\u00e1stica ap\u00f3s o fim da Grande Cruzada<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 08 de Outubro de 2024<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> MACLELLAN, Rory. Cruzada Grimdark: Warhammer 40.000 e o movimento da cruzada medieval. Tradu\u00e7\u00e3o: Luiz Guerra.<strong> Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 08 out. 2024 Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/cruzada-grimdark-warhammer-40-000-e-o-movimento-da-cruzada-medieval\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/cruzada-grimdark-warhammer-40-000-e-o-movimento-da-cruzada-medieval. <\/a>Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rory MacLellan[1] No quadrag\u00e9simo segundo mil\u00eanio, do jogo de mesa Warhammer 40.000, quase toda a humanidade vive sob o dom\u00ednio do Imperium of Man (o Imp\u00e9rio da Humanidade). 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