{"id":6006,"date":"2024-06-04T12:00:18","date_gmt":"2024-06-04T15:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=6006"},"modified":"2024-06-03T23:34:20","modified_gmt":"2024-06-04T02:34:20","slug":"visoes-do-passado-na-china-antiga-uma-breve-discussao-sobre-tres-visoes-historiograficas-chinesas-acerca-da-antiguidade-nos-seculos-5-3-aec","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/visoes-do-passado-na-china-antiga-uma-breve-discussao-sobre-tres-visoes-historiograficas-chinesas-acerca-da-antiguidade-nos-seculos-5-3-aec\/","title":{"rendered":"VIS\u00d5ES DO PASSADO NA CHINA ANTIGA: UMA BREVE DISCUSS\u00c3O SOBRE TR\u00caS VIS\u00d5ES HISTORIOGR\u00c1FICAS CHINESAS ACERCA DA ANTIGUIDADE NOS S\u00c9CULOS 5-3 AEC"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Andr\u00e9 Bueno<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]{2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os s\u00e9culos 6 e 4 AEC, os estados chineses estavam cada vez mais envolvidos em uma s\u00e9rie de conflitos intermitentes, que provocaram uma sensa\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia e esgotamento de suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais. Essa \u00e9poca conturbada \u00e9 marcada pelo enfrentamento de v\u00e1rias escolas de pensamento, que buscavam solucionar os problemas sociais decorrentes de uma perigosa escalada de conflitos entre os Estados chineses. O imp\u00e9rio Zhou gradualmente dividiu-se em pot\u00eancias menores, que passaram a lutar pela supremacia, num processo que s\u00f3 terminaria em 221 AEC com a reunifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e forma\u00e7\u00e3o da dinastia Qin. Era um tempo de guerras, intrigas e de \u2018dissolu\u00e7\u00e3o dos costumes\u2019, numa vis\u00e3o pr\u00f3pria dos historiadores da \u00e9poca (Levi, 1991, p. 17-58). O surgimento das escolas de pensamento (Jia), que vem a reboque dessa situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 foi bem apresentado em outros autores como Cheng (2009) e Norden (2018), e a consulta desses materiais nos permitir\u00e1 sermos mais objetivos no exame a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostar\u00edamos de nos deter na an\u00e1lise do problema da \u2018origem da civiliza\u00e7\u00e3o humana chinesa\u2019, e de como sua evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural foi compreendida por alguns pensadores desse per\u00edodo. Como veremos, as descri\u00e7\u00f5es chinesas sobre a aurora da humanidade foram feitas com base em observa\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas de comunidades rurais; olhando para as aldeias dos rinc\u00f5es fronteiri\u00e7os, onde n\u00e3o existiam ainda as preocupa\u00e7\u00f5es com urbanidade, cultura ou escrita, os intelectuais chineses acreditavam que essas povoa\u00e7\u00f5es haviam mantido um modo de vida mais \u2018antigo\u2019, herdado diretamente do passado. E como essas comunidades se transformariam, um dia, em cidades urbanizadas, governadas por leis e funcion\u00e1rios, onde se praticaria a escrita, a m\u00fasica e as belas artes? No hiato que gerava o descompasso entre o \u2018urbano\u2019 e o \u2018rural\u2019, o \u2018novo\u2019 e o \u2018antigo\u2019, os pensadores chineses acreditavam que estaria a chave para compreender onde a \u2018evolu\u00e7\u00e3o\u2019 cultural falhara, provocando os problemas sociais e morais que afligiam o seu mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conf\u00facio (551-479 AEC) foi o primeiro pensador a ter uma preocupa\u00e7\u00e3o clara com o que ele entendia ser uma \u2018decad\u00eancia cultural\u2019. Sua vis\u00e3o do passado pretendia que a civiliza\u00e7\u00e3o se desenvolvera gra\u00e7as \u00e0 transmiss\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o dos ritos sociais, necess\u00e1rios ao estabelecimento da ordem, da moral e do governo. Por isso, seu projeto de salva\u00e7\u00e3o para a sociedade (seu <em>Dao <\/em>\u2013 caminho ou m\u00e9todo) se baseava em uma reforma educacional completa, baseada em um programa de ensino \u00e9tico, que qualificasse tanto os administradores p\u00fablicos a serem melhores governantes como as pessoas a serem melhores cidad\u00e3s. Em seu entendimento sobre o passado, ele destacava a import\u00e2ncia do processo de desenvolvimento cultural, que permitiu o crescimento da sociedade e seu refinamento (Bueno, 2015). Para exemplificar a ideia que estamos propondo, como foi dito, usaremos uma passagem sobre os tempos antigos do Liji (os \u2018Registros da Cultura\u2019 ou \u2018Livro dos ritos\u2019), texto cuja autoria foi atribu\u00edda \u00e0 Conf\u00facio:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 20vw;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">O come\u00e7o, Li (civiliza\u00e7\u00e3o, cultura, ritos) surgiu com a comida e bebida. O povo assava milho e carne de porco, cortados \u00e0 m\u00e3o, em lascas de pedra aquecidas. Cavavam buracos no ch\u00e3o, \u00e0 maneira de vasilhames, e bebiam diretamente nas conchas das m\u00e3os [&#8230;] Antigamente os governantes n\u00e3o possu\u00edam casas; moravam em grutas escavadas ou em abrigos de madeira empilhada, no inverno, e em ninhos feitos com ramos secos (na copa de \u00e1rvores) durante o ver\u00e3o. N\u00e3o conheciam os usos do fogo; comiam frutos e a carne de aves e animais, bebendo seu sangue. N\u00e3o tinham sedas nem outros tecidos, vestiam-se com penas e peles de animais. Mais tarde vieram os S\u00e1bios, que lhes ensinaram a utilizar o fogo e a fundir metais em moldes de barro e a modelar o barro em vasilhas [&#8230;] Come\u00e7aram tamb\u00e9m a usar tecidos de fibras e sedas, preparando as vestes para uso dos vivos e oferendas aos mortos e cultos aos esp\u00edritos e ao C\u00e9u (Liji, 5:10). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como podemos notar, essa descri\u00e7\u00e3o assemelha-se bastante com as concep\u00e7\u00f5es que temos do que seriam as condi\u00e7\u00f5es de vida no per\u00edodo entre paleol\u00edtico e neol\u00edtico. Devemos lembrar que o processo de desenvolvimento das civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uniforme, encontrando varia\u00e7\u00f5es espa\u00e7o-temporais importantes. Isso nos leva a corroborar a ideia da presen\u00e7a de aldeamentos \u2018primitivos\u2019 que inspiraram Conf\u00facio a acreditar que assim viviam seus antepassados \u2013 e que o surgimento dos s\u00e1bios havia promovido o grande desenvolvimento da cultura. Esse processo, no entanto, foi naturalmente acompanhado de alguns problemas. Na idealiza\u00e7\u00e3o de Conf\u00facio, as sociedades mais simples eram mais f\u00e1ceis de administrar, mas enfrentavam, tamb\u00e9m, um maior n\u00famero de adversidades. Por essa raz\u00e3o, a trajet\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa encontrava-se em uma nova fase de estagna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 20vw;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Quando reinava o grande Dao, o mundo era propriedade comum (n\u00e3o pertencendo a nenhuma fam\u00edlia dominante), os governantes eram escolhidos de acordo com a sua sabedoria e capacidade, havia paz e confian\u00e7a m\u00fatua. [&#8230;] Por isso n\u00e3o havia mal\u00edcia nem intrigas, nem ladr\u00f5es nem bandidos, e consequentemente n\u00e3o havia necessidade de cada um fechar a sua porta (ao cair da noite). Assim era o per\u00edodo de <em>Datong<\/em>, ou a <em>Grande Comunidade<\/em>. Agora, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o reina o grande Dao, e o mundo est\u00e1 dividido entre fam\u00edlias advers\u00e1rias (&#8230;) Estabeleceu-se uma aristocracia heredit\u00e1ria e os diversos Estados constru\u00edram cidades, cidadelas e fossos para sua defesa. Os princ\u00edpios de Li (cultura, ritos) e do direito funcionam como simples regras de disciplina [&#8230;] Os mais fortes fisicamente e os mentalmente mais vivos galgam posi\u00e7\u00f5es de relevo, e cada um trata a sua pr\u00f3pria vida. (&#8230;) Este se chama o Per\u00edodo da <em>Xiaokang<\/em> ou &#8220;<em>Per\u00edodo da Paz Menor<\/em>&#8221; (Liji, 1:2).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como podemos observar, Conf\u00facio acreditava que a base do equil\u00edbrio social estava na manuten\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas culturais (usualmente chamadas de \u2018ritos\u2019 pelos sin\u00f3logos do s\u00e9culo 19). Sua transmiss\u00e3o s\u00f3 poderia ser feita, e continuar a existir, com um ativo programa educacional. Ensinar (<em>Jiao<\/em>) era o conceito central das estrat\u00e9gias confucionistas de difus\u00e3o do conhecimento, que virtualmente poderiam restaurar o per\u00edodo da Grande Comunidade. Por essa raz\u00e3o a escola de Conf\u00facio seria chamada de <em>Rujia<\/em>, ou \u2018Escola dos Acad\u00eamicos\u2019, voltada para a forma\u00e7\u00e3o de professores e funcion\u00e1rios de governo. Nesse sentido, o ensino da hist\u00f3ria (<em>Shi<\/em>) era considerado fundamental para compreender o processo de mudan\u00e7a da sociedade. Mesmo em sua \u00e9poca, Conf\u00facio j\u00e1 reclamava da aus\u00eancia de fontes e documentos para conhecer melhor a antiguidade (Lunyu, 3:9), o que constitu\u00eda um desafio para observar as transforma\u00e7\u00f5es no tempo e na cultura. A divis\u00e3o em duas grandes eras, como destacado no fragmento, propunha a exist\u00eancia de um per\u00edodo em que a vida era mais simples (coincidindo com a \u00e9poca \u2018primitiva\u2019) e por isso, um per\u00edodo de \u2018grande harmonia\u2019 (<em>He<\/em>); o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o trouxe uma substancial mudan\u00e7a na qualidade de vida, mas tamb\u00e9m, transformou os sentimentos humanos, que precisaram ser disciplinados pela cultura (<em>Li<\/em>). Esse processo parece ser inevit\u00e1vel, j\u00e1 que os chineses tiveram que enfrentar diversos desafios ao longo de sua exist\u00eancia, como a grande inunda\u00e7\u00e3o (Shujing, cp.3 e 9), na qual os desafios t\u00e9cnicos e \u00e9ticos se impuseram sobre o modo de vida simples e despreocupado. A complexidade da sociedade, portanto, exigia respostas mais profundas e elaboradas, derivadas da pesquisa hist\u00f3rica e da reflex\u00e3o \u00e9tica. Para Conf\u00facio, pois, era crucial resgatar o passado, mas aceitar tamb\u00e9m que os tempos estavam mudando, e que era preciso preparar um futuro melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No sentido contr\u00e1rio a Conf\u00facio, os seguidores do pensador Laozi (s\u00e9c. 6 AEC) propunham que o problema era, exatamente, a Cultura. Toda decad\u00eancia e viol\u00eancia na sociedade eram derivadas da artificialidade das rela\u00e7\u00f5es humanas, que haviam se desconectado de sua natureza original (<em>Ziran<\/em>). Era imposs\u00edvel um sistema dar certo se ele se baseasse nos ritos e leis criadas pelas pr\u00f3prias pessoas. A natureza, em si, destinara um curso espec\u00edfico \u00e0 esp\u00e9cie humana, e ela havia se desviado disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O retorno a uma sociedade saud\u00e1vel passava, assim, pelo abandono indispens\u00e1vel da cultura vigente, e um retorno \u00e0 vida simples das origens. Aparentemente, Laozi e os caminhantes (ou \u2018dao\u00edstas\u2019) se inspiravam justamente nessas aldeias pacatas, e as consideravam o modelo ideal, plaus\u00edvel de ser realizado e o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel de uma sociedade distante das complexidades da civiliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">na antiguidade os que bem atuavam o curso<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">n\u00e3o procuravam iluminar o povo<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">mas sim assingel\u00e1-lo<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">o povo \u00e9 ingovern\u00e1vel se a sabedoria excede<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">portanto<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">governar pela sabedoria \u00e9 espoliar a na\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">n\u00e3o governar pela sabedoria<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">\u00e9 prosperar a na\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">quem sabe os dois aprofunda no ideal<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">saber aprofundar no ideal diz-se virtude m\u00edstica<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">virtude m\u00edstica&#8230;<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">profunda! long\u00ednqua!<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">retorna com as dez mil coisas<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">culmina na grande conc\u00f3rdia<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">(Laozi, 69).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o dessa escola, portanto, os s\u00e1bios (na acep\u00e7\u00e3o confucionista) haviam contribu\u00eddo diretamente para degradar a humanidade, com valores artificiais e a preserva\u00e7\u00e3o de ritos que desviavam as pessoas de sua espontaneidade existencial. O s\u00e1bio dao\u00edsta deveria pretender justamente o contr\u00e1rio, baseando-se numa a\u00e7\u00e3o isenta de prop\u00f3sitos humanos (<em>Wuwei<\/em>), mas voltada a harmoniza\u00e7\u00e3o com os movimentos da natureza e a vontade das pessoas:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">por isso o homem santo&#8230;<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">desejando ficar acima do povo<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">deve nas palavras ficar abaixo<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">desejando ficar \u00e0 frente do povo<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">deve na sua pessoa ficar atr\u00e1s<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">por isso o homem santo&#8230;<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">fica acima e o povo n\u00e3o sente o peso<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">fica \u00e0 frente e o povo n\u00e3o sofre preju\u00edzo<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">(Laozi, 61).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zhuangzi (369-286 AEC), um dos mais representativos dessa escola, secundou as ideias de Laozi, mantendo o mesmo discurso sobre a quest\u00e3o das origens do povo e o desvirtuamento provocado pelos s\u00e1bios:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 20vw;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">As pessoas nada faziam de particular em seus lares, e sa\u00edam a passeios sem destino. Tendo alimentos, regozijavam-se; dando pancadinhas na barriga, andavam de um lado para outro. As capacidades naturais desses homens os levavam at\u00e9 a\u00ed. Os s\u00e1bios vieram depois e os fizeram curvar-se e abaixar-se com cerim\u00f4nias e m\u00fasica, a fim de regular as formas externas de trato social, e ostentaram a caridade e o dever diante deles com o fito de lhes conservar os esp\u00edritos submissos. Depois o povo come\u00e7ou a trabalhar e desenvolveu gosto pelas artes, e come\u00e7ou a lutar entre si na ambi\u00e7\u00e3o do lucro, para a qual n\u00e3o h\u00e1 fim. Eis o erro dos s\u00e1bios. (Zhuangzi, 9:1).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como podemos observar, o discurso sobre o passado traduz a antiguidade como um per\u00edodo de pureza e austeridade; a hist\u00f3ria seria ent\u00e3o um recurso para compreender como os seres de desviaram de um padr\u00e3o original, um testemunho enfim da pr\u00f3pria decad\u00eancia humana; voltar \u00e0s origens, antes da constru\u00e7\u00e3o da cultura, era essencial para a sobreviv\u00eancia, mesmo que isso custasse a destrui\u00e7\u00e3o das cidades e de todos os saberes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com bases nesses mesmos materiais hist\u00f3ricos, a Escola das Leis (<em>Fajia<\/em>) pensou a interpreta\u00e7\u00e3o das origens como a contempla\u00e7\u00e3o de uma trajet\u00f3ria de evolu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da cultura, na qual o ser humano cumpria um papel fundamental. As leis foram criadas para impor ordem ao mundo; e quanto mais complexo o mundo, mais leis seriam necess\u00e1rias. Como produtor de civiliza\u00e7\u00e3o, e animal mais inteligente da natureza, o ser humano podia impor uma nova harmonia a natureza, estabelecendo meios mais eficazes de govern\u00e1-la. Pensadores como Shang Yang (390-338 AEC) e Hanfeizi (280-233 AEC) imaginaram que essa seria a resposta para os dilemas de sua \u00e9poca, com a forma\u00e7\u00e3o de um estado centralizado, forte e unificado, que proibisse a discord\u00e2ncia e punisse a diferen\u00e7a. Com isso, eles esperavam uniformizar a civiliza\u00e7\u00e3o, anulando distin\u00e7\u00f5es e criando uma sociedade org\u00e2nica fundamentada em regras e administrada pela burocracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Shang Yang prop\u00f4s, desta forma, que a leitura sobre as eras antigas da hist\u00f3ria chinesa compreendia um esfor\u00e7o paulatino de controle sobre a natureza e a sociedade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 20vw;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Antigamente, na era do Grande e Ilustre Governante [Huangdi], as pessoas encontravam o seu modo de vida no corte de \u00e1rvores e abate de animais; a popula\u00e7\u00e3o era dispersa e as arvores e os animais numerosos. Nos tempos de Huangdi, nem os animais novos nem os ovos eram apanhados; os funcion\u00e1rios n\u00e3o tinham sal\u00e1rio e, quando as pessoas morriam, n\u00e3o eram autorizadas a utilizar caix\u00f5es exteriores. [&#8230;] Por conseguinte, Huangdi criou as no\u00e7\u00f5es de pr\u00edncipe e ministro, de superior e inferior, de conduta entre pai e filho, entre os irm\u00e3os mais velhos e mais novos, a uni\u00e3o entre marido e mulher e entre companheiro e parceiro. Na p\u00e1tria, aplicou a espada e a serra e, no estrangeiro, utilizou os soldados armados [&#8230;] (Shang Yang, cp.1).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 not\u00e1vel perceber que, apesar dos tempos antigos serem id\u00edlicos (uma condi\u00e7\u00e3o presente nas outras narrativas que vimos at\u00e9 aqui), a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade levou a cria\u00e7\u00e3o de leis, divis\u00f5es e costumes. No entanto, onde Conf\u00facio via a educa\u00e7\u00e3o como uma sa\u00edda para restaurar as pr\u00e1ticas sociais (<em>Li<\/em>), os legistas viam a necessidade de impor a for\u00e7a e a lei (<em>Fa<\/em>) como instrumento necess\u00e1rio de equil\u00edbrio de for\u00e7as. A frase \u2018Na p\u00e1tria, aplicou a espada e a serra e, no estrangeiro, utilizou os soldados armados\u2019 revela, claramente, o desejo de manuten\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da viol\u00eancia por parte do governo. Shang afirmara que \u201cQuando as pessoas s\u00e3o fracas, o Estado \u00e9 forte; portanto, o Estado que possui o Caminho se dedica a enfraquecer o povo\u201d (Shang Yang, cp. 20). Em sua leitura, o per\u00edodo conflituoso em que viviam mostrava que quando os governos afrouxavam o controle, a civiliza\u00e7\u00e3o perdia o rumo. Assim, era imprescind\u00edvel determinar limites e mecanismos de controle para a sociedade continuar a funcionar; e por fim, lan\u00e7ar as bases para uma nova forma de Estado: \u201cn\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica maneira de ordenar uma gera\u00e7\u00e3o [de pessoas]; para beneficiar o Estado, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio imitar a antiguidade\u201d (Shang Yang, cp.1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, o pensador Hanfei foi al\u00e9m de Shang Yang; para ele, enquanto recorr\u00eassemos \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es para justificar os modelos do presente, continuar\u00edamos presos a no\u00e7\u00f5es antigas que n\u00e3o teriam mais serventia (Bueno, 2015b). Dentro da l\u00f3gica dessa escola, observar a hist\u00f3ria seria compreender como as coisas se passaram, mas entender, tamb\u00e9m, que essa antiguidade fora embora, e eram necess\u00e1rias novas respostas para novos tempos: \u201cOs s\u00e1bios, na realidade, n\u00e3o tomam os sucessos do passado e tentam aplic\u00e1-los nos dias de hoje; o que fazem \u00e9 analisar as necessidades atuais e atuar de modo apropriado\u201d (Hanfeizi, cp. 49). Uma solu\u00e7\u00e3o radical seria a sa\u00edda: abolir a hist\u00f3ria, e reescrev\u00ea-la a partir de um novo marco, o Estado centralizado proposto por Qin. Empregar a ret\u00f3rica do passado continuaria a ser uma resposta in\u00fatil para os tempos contempor\u00e2neos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 20vw;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Passado e presente t\u00eam costumes diferentes; o novo e velho adotam medidas diferentes. Usar as formas de generosidade e leni\u00eancia no governo numa era cr\u00edtica como essa \u00e9 como tentar conduzir um cavalo em fuga sem usar r\u00e9deas ou chicote. Este \u00e9 o infort\u00fanio que a ignor\u00e2ncia nos traz. (Hanfeizi, cp.49). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lisi (280-208 AEC), um dos principais ministros do Estado de Qin, levaria essa ideia o extremo, exortando o soberano a promover umas das primeiras persegui\u00e7\u00f5es intelectuais oficiais da hist\u00f3ria, determinando: \u201cQuem usar a antiguidade para criticar o presente ser\u00e1 executado junto com sua fam\u00edlia\u201d. (Shiji, cp.38)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os legistas, portanto, era preciso acabar com o passado para reinventar o futuro. Lisi tentou levar essa ideia a cabo durante o reinado de Qinshi Huangdi, o \u00fanico soberano efetivo da dinastia Qin. Uma s\u00e9rie de medidas violentas e impopulares fariam com que a dinastia, por\u00e9m, tivesse um fim breve, abrindo espa\u00e7o para a ascens\u00e3o da dinasta Han (203 AEC-221 EC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi na dinastia Han que a escola acad\u00eamica de Conf\u00facio seria eleita doutrina estatal, promovendo uma recens\u00e3o dos antigos textos cl\u00e1ssicos e estabelecendo um amplo programa educativo, que tornou o estudo da hist\u00f3ria um dos elementos fundamentais da preserva\u00e7\u00e3o da cultura. O resultado disso seria o surgimento de grandes historiadores, como Sima Qian (145-90 AEC) que reorganizariam a escrita da hist\u00f3ria e a tornariam, em definitivo, um dos mais importantes g\u00eaneros liter\u00e1rios da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa (Hardy, 1999; Ng; Wang, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, como pudemos observar, ao longo do per\u00edodo narrado, essa hist\u00f3ria tornou-se um palco de disputas intelectuais, e as narrativas foram manejadas segundo os conceitos e interpreta\u00e7\u00f5es de cada escola filos\u00f3fica. Essa teoriza\u00e7\u00e3o era crucial em suas propostas, pois o entendimento da hist\u00f3ria como um processo de evolu\u00e7\u00e3o a partir do passado indicava de que forma a civiliza\u00e7\u00e3o havia chegado ao estado em que estava \u2013 e consequentemente, quais estrat\u00e9gias deveriam ser adotadas para solucionar os problemas institucionais vigentes. Dessa forma, a leitura que se fazia da antiguidade, e a maneira como ela era ensinada, determinariam a conclus\u00e3o do processo de constru\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos (<em>Dao<\/em>) filos\u00f3ficos. Essa interpreta\u00e7\u00e3o seria crucial para dar respaldo aos projetos pol\u00edtico para o futuro que estavam em jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bueno, Andr\u00e9. \u2018Abolir o passado, reinventar a hist\u00f3ria: a escrita hist\u00f3rica de Hanfeizi na China do s\u00e9culo III a.C.\u2019 <em>Hist\u00f3ria da Historiografia<\/em>, v.8, n.18, 2015a, 29-42.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______,_____\u00e9. \u2018\u2018N\u00e3o invento, apenas transmito\u2019: reinterpretando a escrita historiogr\u00e1fica de Conf\u00facio\u2019. Rio de Janeiro: <em>Anais da X Semana de Hist\u00f3ria Pol\u00edtica da UERJ<\/em>, 2015b, 251-260.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheng, Anne. <em>Hist\u00f3ria do Pensamento Chin\u00eas<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hardy, Grant. <em>The worlds of bamboo and bronze: Sima Qian\u2019s conquest of history<\/em>. Columbia: Columbia University Press, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laozi. <em>Escritos do Curso e da Virtude<\/em>. Trad. Mario Bruno Sproviero. S\u00e3o Paulo: Mandruv\u00e1, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levi, Jean. <em>Los funcionarios divinos: pol\u00edtica, despotismo y m\u00edstica en la China antigua<\/em>. Madrid: Alianza, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ng, On-Cho; Wang, Edward. <em>Mirroring the past: the writing and use of history in imperial China.<\/em> Honolulu: University of Hawaii Press, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Norden, Brian. <em>Introdu\u00e7\u00e3o a filosofia chinesa cl\u00e1ssica<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2018.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0 O presente texto \u00e9 uma vers\u00e3o revista, modificada e sumarizada do seguinte artigo: BUENO, A. \u00bfQu\u00e9 pasado buscar? Visiones historiogr\u00e1ficas chinas de antig\u00fcedad en los siglos V-III AEC. <em>Revista Internacional de Estudios Asi\u00e1ticos<\/em>, [<em>S. l<\/em>.], v. 1, n. 1, p. 70\u201396, 2022. DOI: 10.15517\/riea.v1i1.49607.<\/p>\n<p>Os fragmentos de Conf\u00facio (Lunyu e Liji), de Zhuangzi, de Shang Yang e Hanfeizi, do Shujing e do Shiji de Sima Qian foram extra\u00eddos de Bueno, Andr\u00e9. Cole\u00e7\u00e3o Textos da China Antiga. Rio de Janeiro: Projeto Orientalismo\/UERJ, 2023. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.orientalismo.net\">www.orientalismo.net<\/a>&gt;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Prof. Adjunto de Hist\u00f3ria Oriental da UERJ. e-mail: andre.bueno@uerj.br Lattes: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4958851883736557\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/4958851883736557<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 04 de Junho de 2024.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> BUENO, Andr\u00e9. Vis\u00f3es do passado na China Antiga: Uma breve discuss\u00e3o sobre tr\u00eas vis\u00f5es historiogr\u00e1ficas chinesas acerca da Antiguidade nos s\u00e9culos 5-3 AEC. Blog do POIEMA. Pelotas: 04 jun. 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/visoes-do-passado-na-china-antiga-uma-breve-discussao-sobre-tres-visoes-historiograficas-chinesas-acerca-da-antiguidade-nos-seculos-5-3-aec\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/visoes-do-passado-na-china-antiga-uma-breve-discussao-sobre-tres-visoes-historiograficas-chinesas-acerca-da-antiguidade-nos-seculos-5-3-aec.<\/a> Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 Bueno[1]{2] Entre os s\u00e9culos 6 e 4 AEC, os estados chineses estavam cada vez mais envolvidos em uma s\u00e9rie de conflitos intermitentes, que provocaram uma sensa\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia e esgotamento de suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais. 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