{"id":5920,"date":"2024-03-26T12:00:24","date_gmt":"2024-03-26T15:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=5920"},"modified":"2024-03-26T12:04:16","modified_gmt":"2024-03-26T15:04:16","slug":"uma-dama-medieval-atraves-dos-seculos-the-lady-of-shalott","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/uma-dama-medieval-atraves-dos-seculos-the-lady-of-shalott\/","title":{"rendered":"UMA DAMA MEDIEVAL ATRAV\u00c9S DOS S\u00c9CULOS \u2013 THE LADY OF SHALOTT"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Fl\u00e1via Amaral<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea gosta do g\u00eanero musical conhecido como \u201cNew Age\u201d e aprecia artistas que gravaram a partir dessa refer\u00eancia, j\u00e1 deve ter se deparado com a obra de Loreena Mckenitt. A cantora, musicista e compositora canadense tem se dedicado desde a d\u00e9cada de 1980 a esse estilo, gravando m\u00fasicas que trazem tem\u00e1ticas m\u00edsticas, mitol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas. Em alguns casos essa artista opta por musicar textos j\u00e1 conhecidos, como ora\u00e7\u00f5es e poesias. Esse \u00e9 o caso da faixa \u201cThe Lady of Shalott\u201d do \u00c1lbum \u201cThe visit\u201d, lan\u00e7ado em 1991 (figura 1) <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. \u00a0Mas quem j\u00e1 ouviu a m\u00fasica, talvez desconhe\u00e7a a informa\u00e7\u00e3o de que esse poema musicado e cantado por Loreena foi composto no s\u00e9culo XIX e tem liga\u00e7\u00e3o com importantes textos medievais como veremos a seguir.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2024\/03\/cd-frente.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5926 \" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2024\/03\/cd-frente.jpg\" alt=\"\" width=\"199\" height=\"199\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2024\/03\/cd-verso.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5927\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2024\/03\/cd-verso.png\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"210\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\">Figura 1: Capa do CD \u201cThe visit\u201d. Fonte: <a href=\"https:\/\/loreenamckennitt.com\">https:\/\/loreenamckennitt.com<\/a>. Acesso em 20\/01\/24.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias do chamado \u201cciclo arturiano\u201d foram um grande sucesso na Idade M\u00e9dia. No entanto, as narrativas e poesias envolvendo as aventuras do Rei Artur e os cavaleiros e damas da T\u00e1vola Redonda, n\u00e3o tiveram repercuss\u00e3o somente naqueles s\u00e9culos. A fortuna cultural de personagens como <em>Guinevere, Lancelot, Merlin, Morgana, Sir Gauvain<\/em>, dentre outros, \u00e9 comprovada pela sua presen\u00e7a em centenas de obras desde o chamado \u201cAntigo Regime\u201d at\u00e9 a contemporaneidade recente: lembremos que o Rei Artur continua sendo um dos personagens \u201cmedievais\u201d mais presentes na cinematografia. Diante desse robusto quadro temporal, destaca-se o s\u00e9culo XIX, momento em que a Idade M\u00e9dia foi retomada pelo movimento rom\u00e2ntico europeu e ressignificada a partir de elementos do nacionalismo em expans\u00e3o. A profus\u00e3o de refer\u00eancias a personagens \u201carturianos\u201d foi evidente e dentre eles destaca-se a figura da \u201c \u00a0Senhora de Shalott\u201d. Personagem presente em algumas obras medievais como a novela italiana \u201cDonna di Scalotta\u201d do s\u00e9culo XIII e \u201cA morte do Rei Artur\u201d de 1485, a Dama tem, nesses textos, sua trajet\u00f3ria ligada ao famoso <em>Sir Lancelot<\/em>. No s\u00e9culo XIX ela se torna a protagonista de poesias, \u00f3peras<sup><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/sup> e v\u00e1rias obras pict\u00f3ricas, em especial na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta Alfred Tennyson (1809-1892), grande expoente liter\u00e1rio desse contexto, escreveu entre 1859-1885, a pedido da pr\u00f3pria Rainha Vit\u00f3ria, a obra \u201cIdylls of the King\u201d, um conjunto de 12 poemas que tratam dos temas arturianos e da T\u00e1vola Redonda. Esse escritor publicou o poema \u201cThe Lady of Shalott\u201d em 1833, ao qual deu uma segunda vers\u00e3o em 1842<sup><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/sup>. Nessa obra, a Senhora de Shalott \u00e9 uma Dama que vive em uma ilha, ficando apenas dentro de seu castelo e s\u00f3 poderia ver o mundo l\u00e1 fora atrav\u00e9s de um espelho. Sua \u00fanica e sistem\u00e1tica atividade era tecer um manto com as imagens que via nesse espelho, sabendo que se a qualquer momento olhasse atrav\u00e9s da janela, iria recair sobre ela uma maldi\u00e7\u00e3o. Eis que um dia, ao ouvir Sir Lancelot cantarolando, a Dama abandona sua tarefa e olha para o cavaleiro: nesse momento o espelho se parte e a mulher sabe que a maldi\u00e7\u00e3o a levar\u00e1 \u00e0 morte. Aceitando o destino, ela deixa o castelo e se deita em um barco para aguardar o seu fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os versos de Tennyson inspiraram ainda algumas das mais famosas pinturas do movimento pr\u00e9-rafaelita, como \u00e9 o caso da tela hom\u00f4nima (figura 2) de John William Waterhouse (1849-1917)<sup><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/sup>\u00a0.O que poderia explicar o grande sucesso e repercuss\u00e3o dessa hist\u00f3ria? Como compreender os motivos que criaram tal identifica\u00e7\u00e3o entre ela e o p\u00fablico europeu do s\u00e9culo XIX? Vamos iniciar essa investiga\u00e7\u00e3o nos debru\u00e7ando sobre o texto do poema oitocentista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2024\/03\/lady-of-shallot.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5928\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2024\/03\/lady-of-shallot.jpg\" alt=\"\" width=\"413\" height=\"304\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Figura 2: The Lady of Shalott. <a href=\"https:\/\/www.wikiart.org\/pt\/john-william-waterhouse\">John William Waterhouse<\/a>, 1888. <em>Tate Museum<\/em>, Londres. <a href=\"https:\/\/onartandaesthetics.com\/2016\/01\/28\/the-lady-of-shalott\/\">https:\/\/onartandaesthetics.com\/2016\/01\/28\/the-lady-of-shalott\/<\/a> Acesso em 24\/01\/24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura po\u00e9tica foi elaborada em 19 estrofes divididas em quatro partes.<sup><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> <\/sup>Os versos s\u00e3o octoss\u00edlabos, obedecendo \u00e0 seguinte ordem:<\/p>\n<div style=\"display: inline;\">\n<div style=\"display: inline;\">\n<table style=\"border-collapse: collapse; width: 100%;\" border=\"1\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"width: 50%;\">\n<p>1<\/p>\n<p>On either side the river lie <span style=\"color: #ff0000;\">A<br \/>\n<\/span>Long fields of barley and of rye, <span style=\"color: #ff0000;\">A<\/span><br \/>\nThat clothe the wold and meet the sky; <span style=\"color: #ff0000;\">A<\/span><br \/>\nAnd thro&#8217; the field the road runs by <span style=\"color: #ff0000;\">A<\/span><br \/>\nTo many-tower&#8217;d Camelot; <span style=\"color: #ff0000;\">B<\/span><br \/>\nAnd up and down the people go, <span style=\"color: #ff0000;\">C<\/span><br \/>\nGazing where the lilies blow <span style=\"color: #ff0000;\">C<\/span><br \/>\nRound an island there below, <span style=\"color: #ff0000;\">C<br \/>\n<\/span>The island of Shalott. <span style=\"color: #ff0000;\">B<\/span><\/td>\n<td style=\"width: 50%;\">\n<p>2<\/p>\n<p>Willows whiten, aspens quiver, <span style=\"color: #ff0000;\">D<\/span><br \/>\nLittle breezes dusk and shiver <span style=\"color: #ff0000;\">D<\/span><br \/>\nThro&#8217; the wave that runs for ever <span style=\"color: #ff0000;\">D<\/span><br \/>\nBy the island in the river <span style=\"color: #ff0000;\">D<\/span><br \/>\nFlowing down to Camelot. <span style=\"color: #ff0000;\">B<\/span><br \/>\nFour gray walls, and four gray towers, <span style=\"color: #ff0000;\">E<\/span><br \/>\nOverlook a space of flowers, <span style=\"color: #ff0000;\">E<\/span><br \/>\nAnd the silent isle imbowers <span style=\"color: #ff0000;\">E<br \/>\n<\/span>The Lady of Shalott. <span style=\"color: #ff0000;\">B<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos chamar a aten\u00e7\u00e3o para as rimas B que foram feitas, em todas as 19 estrofes, com as palavras <em>Camelot<\/em> e <em>Shalott<\/em>. Assinalemos que as outras rimas se organizam em fun\u00e7\u00e3o desse bin\u00f4mio que indica a identidade espacial &#8211; ainda que simb\u00f3lica &#8211; associada aos acontecimentos. Simb\u00f3lica, porque a inten\u00e7\u00e3o do autor n\u00e3o \u00e9 trazer coordenadas geogr\u00e1ficas que tornem poss\u00edvel localizar cartesianamente a Ilha de Shalott, mas sim indicar o \u201cmundo\u201d no qual a hist\u00f3ria se desenrola, vale dizer, o \u201cmundo arturiano\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema traz ainda uma profus\u00e3o de outros paralelismos que v\u00e3o al\u00e9m da estrutura dos versos quando, por exemplo, op\u00f5e a dama ao cavaleiro em sua condi\u00e7\u00e3o de confinamento x liberdade. Encontramos importantes pares e jogos de palavras que s\u00e3o feitos com os voc\u00e1bulos <em>olhar \u2013 sombra<\/em> (sight &#8211; shadow), <em>espelho \u2013 janela<\/em>, al\u00e9m de temas ou \u201cmotivos liter\u00e1rios\u201d de grande peso simb\u00f3lico na composi\u00e7\u00e3o do ambiente id\u00edlico e m\u00e1gico da Ilha de Shalott: as torres, o rio, o barco, a figura da \u201cmulher que tece\u201d etc. N\u00e3o \u00e9 nosso objetivo nos estender nessas interpreta\u00e7\u00f5es que, inclusive j\u00e1 foram aprofundadas em v\u00e1rios estudos liter\u00e1rios e psicol\u00f3gicos <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Vamos voltar \u00e0 seguinte quest\u00e3o: o que poderia explicar o \u00eaxito do poema de Tenysson, que ao retomar um personagem secund\u00e1rio da literatura medieval, o confere uma not\u00f3ria vitalidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renomados autores se preocuparam em explicar a verdadeira obsess\u00e3o que o s\u00e9culo XIX europeu teve pelo per\u00edodo medieval, por seus personagens hist\u00f3ricos e liter\u00e1rios. No livro <em>Le go\u00fbt du Moyen \u00c2ge<\/em>, de 1996, o franc\u00eas Christian Amalvi se prop\u00f5e a desvendar uma \u201cIdade M\u00e9dia\u201d inventada pelo s\u00e9culo XIX e tida como refer\u00eancia a partir de ent\u00e3o. Da mesma forma, Umberto Eco, em um ensaio bastante conhecido<sup><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/sup>, evidencia o s\u00e9culo XIX como momento importante para compreender as formas de \u201csonhar a Idade M\u00e9dia\u201d. Trata-se, antes de qualquer coisa, de buscar desvendar as raz\u00f5es associadas \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o do per\u00edodo medieval enquanto uma era dourada do passado europeu. Nesse caso, um importante conceito da psicologia anal\u00edtica<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>, poderia contribuir na compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carl Jung (1875-1961) preocupou-se, muitas vezes em mostrar a import\u00e2ncia de uma \u201cpsicologia coletiva\u201d no curso dos acontecimentos hist\u00f3ricos. Nesse ponto, assume grande import\u00e2ncia o conceito de \u201cinconsciente coletivo\u201d. Para Jung, a psique humana \u00e9 formada por aspectos conscientes e inconscientes. Essa descri\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lida para quando se observa o comportamento dos grupos humanos, uma vez que, o inconsciente individual se apoiaria em um inconsciente que \u00e9 compartilhado coletivamente. Seria, portanto poss\u00edvel verificar historicamente a import\u00e2ncia do aspecto psicol\u00f3gico nas a\u00e7\u00f5es coletivas: \u201c(&#8230;) assim como os conhecimentos psicol\u00f3gicos facilitam a compreens\u00e3o de acontecimentos hist\u00f3ricos, inversamente tamb\u00e9m fatos hist\u00f3ricos podem lan\u00e7ar nova luz sobre conjunturas psicol\u00f3gicas individuais\u201d. (JUNG, C. 2015, \u00a7 371)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um trecho de \u201cA Vida simb\u00f3lica\u201d, Jung chamou a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia do compartilhamento de s\u00edmbolos na produ\u00e7\u00e3o de sentido da vida humana. Al\u00e9m disso, o autor aponta, especificamente para o momento p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o industrial europeu \u2013 s\u00e9culos XVIII e XIX &#8211; como privilegiado para se observar o impacto psicol\u00f3gico da perda do que ele chamou de uma \u201cvida simb\u00f3lica\u201d, processo que continuaria ao longo do s\u00e9culo XX:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 240px;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">A pessoa humana precisa de vida simb\u00f3lica. E precisa com urg\u00eancia. N\u00f3s s\u00f3 vivemos coisas banais, comuns, racionais ou irracionais \u2013 que naturalmente tamb\u00e9m est\u00e3o dentro do campo de interesse do racionalismo, caso contr\u00e1rio n\u00e3o poder\u00edamos cham\u00e1-las irracionais. Mas n\u00e3o temos vida simb\u00f3lica. Onde vivemos simbolicamente? Em parte alguma, exceto onde participamos no ritual da vida. Mas quem de muitos de n\u00f3s participa do ritual da vida? Muito poucos. (&#8230;)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por isso dizem que temos neuroses de ansiedade, medos noturnos, compuls\u00f5es et antas coisas mais. A alma ficou solit\u00e1ria; ela est\u00e1 <em>extra ecclesiam<\/em> e num estado de n\u00e3o salva\u00e7\u00e3o. E as pessoas n\u00e3o sabem disso. Consideram seu estado patol\u00f3gico e os m\u00e9dicos confirmam esta suposi\u00e7\u00e3o. (Idem, \u00a7625.)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mesma dire\u00e7\u00e3o Marx observou, em uma famosa passagem do \u201cManifesto do Partido Comunista\u201d, que um dos efeitos da expans\u00e3o capitalista e da emerg\u00eancia da hegemonia burguesa foi o desmantelamento de tudo o que era tido como refer\u00eancia: \u201cTudo o que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar, tudo o que \u00e9 sagrado \u00e9 profanado e o homem \u00e9 obrigado por fim a encarar com serenidade suas condi\u00e7\u00f5es reais de vida e suas rela\u00e7\u00f5es com seus semelhantes.\u201d MARX e ENGELS, 2017. p. 19.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a vida simb\u00f3lica \u00e9 performada atrav\u00e9s do rito (com seus s\u00edmbolos), sendo o \u201cdesempenho cultual de fatos psicol\u00f3gicos b\u00e1sicos\u201d, (JUNG, 2015, \u00a7 617) nossa hip\u00f3tese \u00e9 a de que a perda dessas refer\u00eancias no s\u00e9culo XIX pode ter levado a uma movimenta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica coletiva na busca de um al\u00edvio a esse desconforto, idealizando a Idade M\u00e9dia como \u201cum ant\u00eddoto contra a modernidade\u201d, para usarmos a express\u00e3o de Umberto Eco. Esse ant\u00eddoto foi elaborado a partir da inven\u00e7\u00e3o do medievo como um tempo\/lugar de certezas e valores idealizados diante das angustias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201ccondi\u00e7\u00f5es reais de vida\u201d, retomando Marx.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse contexto foi assim definido por Alfred Musset em <em>La confession d\u2019un enfant du si\u00e8cle<\/em>, em 1836:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 240px;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Tr\u00eas elementos dividem ent\u00e3o a vida que se oferece nesse momento aos jovens: atr\u00e1s deles um passado destru\u00eddo para sempre se agitando ainda em suas ru\u00ednas, com todos os f\u00f3sseis dos s\u00e9culos de absolutismo; diante deles a aurora de um imenso horizonte, os primeiros clar\u00f5es do futuro; e entre esses dois mundos&#8230; alguma coisa compar\u00e1vel ao Oceano que separa o velho continente da jovem Am\u00e9rica, alguma coisa vaga e flutuante, um mar agitado e cheio de naufr\u00e1gios, atravessado de tempos em tempos por uma vela branca distante ou por algum navio soprando um forte vapor; o s\u00e9culo presente, em uma palavra, que separa o passado do futuro, que n\u00e3o \u00e9 nenhum nem outro e que \u00e9 os dois ao mesmo tempo e em que n\u00e3o se sabe, a cada passo que se d\u00e1, se anda-se sobre uma semente ou sobre uma sucata. (MUSSET, 1836. p. 7.)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante desse quadro, os temas relacionados \u00e0 Idade M\u00e9dia foram difundidos aludindo a uma simbologia vasta e sendo ideologicamente identificada ao nacionalismo, em um processo de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria que fazia frente \u00e0s afli\u00e7\u00f5es de um mundo dessacralizado. N\u00e3o estou propondo aqui uma psicologiza\u00e7\u00e3o leviana, mas a tentativa de encontrar em outras \u00e1reas do conhecimento reflex\u00f5es que contribuam com o conhecimento hist\u00f3rico. Naquele momento, as revolu\u00e7\u00f5es liberais varriam certezas e criavam a necessidade de uma nova refer\u00eancia coletiva. Acreditamos que a bem sucedida recep\u00e7\u00e3o do poema de Lord Tenysson e da hist\u00f3ria da Senhora de Shalott pode ser explicada pela presen\u00e7a de elementos que, atrav\u00e9s dos s\u00edmbolos, mobilizam temas importantes da psique humana, de repercuss\u00e3o no inconsciente coletivo. A retomada de personagens medievais na literatura contribuiu na tentativa de cria\u00e7\u00e3o de uma nova \u201cvida simb\u00f3lica\u201d. O contato com um mundo arturiano imaginado em uma est\u00e9tica atemporal, hierarquizada e m\u00e1gica, em nossa opini\u00e3o, foi experimentado como uma oportunidade de constru\u00e7\u00e3o de sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><u>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/u><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AMALVI, Christian. <em>Le go\u00fbt du Moyen \u00c2ge<\/em>. Paris: La Boutique de L&#8217;Histoire, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARTAL<strong> Susana G.\u00a0<\/strong>,\u00a0\u201cDe Escalot a Shalott\u00a0: la damisela en su trama\u201d,\u00a0<em>Cuadernos LIRICO<\/em>\u00a0[En l\u00ednea], 9\u00a0|\u00a02013, Publicado el\u00a001 septiembre 2013, consultado el\u00a027 febrero 2024.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHOUDHURY, Biswajit.\u00a0 \u201cAlfred tennyson\u2019s \u201cThe lady of Shalott\u201d: A stylistic analysis\u201d. In: https:\/\/www.indianjournals.com.Volume : 8, Issue : 3.\u00a0 2020. <a href=\"https:\/\/www.indianjournals.com\/ijor.aspx?target=ijor:ijmss&amp;volume=8&amp;issue=3&amp;article=008\">https:\/\/www.indianjournals.com\/ijor.aspx?target=ijor:ijmss&amp;volume=8&amp;issue=3&amp;article=008<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DALBERG-ACTON, John Emerich Edward. [Epigrafe]. In : FUGELSO, Karl. <em>Defining neomedievalism(s)<\/em>. Cambridge: D. S. Brewer, 2010. Studies in Medievalism, 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ECO, Umberto. \u201cDez modos de sonhar a Idade M\u00e9dia\u201d.\u00a0 <em>Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro<\/em>: Nova Fronteira, 1989, p. 74-85.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUNTER, Garland O. \u201cArchetypal Patterns in \u201cThe Lady of Shalott\u201d\u201d. In: <em>Victorians Institute Journal <\/em>(1974) 3. p. 85-94.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MUSSET, A. <em>La confession d\u2019un enfant du si\u00e8cle<\/em>. Paris: Charpentier, 1867. (Primeira publica\u00e7\u00e3o: 1836.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simb\u00f3lica<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_________________ <em>Os arqu\u00e9tipos e o inconsciente coletivo<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LE LAN, Nad\u00e8ge. <em>La demoiselle d\u2019Escalot<\/em> [1230-1978], morte d\u2019amour, inter-dits, temps retrouv\u00e9s. Paris: L\u2019Harmattan, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. <em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Sundermann, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAAD HOSSNE, Andrea. \u201cBarcos \u00e0 Deriva. \u2018Lady of Shalott\u2019 na Literatura e na Pintura\u201d. In : <em>Alea<\/em>. Estudos Neolatinos, 4, 2002. p. 179-197.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAVILLE, Julia. \u201cThe Lady of Shalott: a Lacanian romance\u201d. In: <em>Word &amp; Image &#8211;\u00a0 A Journal of Verbal\/Visual Enquiry. <\/em>01 Jun 2012, p. 71-87.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVA, Marcelo de Souza.\u00a0 \u201cA Senhora de Shalott\u201d. In: <em>O Mundo das Nuvens<\/em> (Blog), Porto Alegre.\u00a0 Publicado em 02\/02\/2014. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/omundodasnuvens.wordpress.com\/2014\/02\/02\/historinhas-da-arte-a-senhora-de-shalott\/\">https:\/\/omundodasnuvens.wordpress.com\/2014\/02\/02\/historinhas-da-arte-a-senhora-de-shalott\/<\/a>. Acesso em: 10\/07\/2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SHANNON JR, Edgar F. \u201cPoetry as Vision: Sight and Insight in &#8220;The Lady of Shalott&#8221;. In: <em>Victorian Poetry<\/em>. Vol. 19, No. 3, Autumn, 1981.p. 207-223 .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIPPI, Peter. <em>J. W. Waterhouse<\/em>. New York: Phaidon, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">UTZ, Richard; SHIPPEY, Tom (ed.). <em>Medievalism in the modern world<\/em>: essays in honour of Leslie J. Workman. Turnhout: Brepols,1998.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Doutora em Hist\u00f3ria Social pela USP. Professora de Hist\u00f3ria Medieval, UFVJM. <a href=\"mailto:flavia.amaral@ufvjm.edu.br\">flavia.amaral@ufvjm.edu.br<\/a>\u00a0 https:\/\/lattes.cnpq.br\/7617600252068860<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Link para a m\u00fasica no Youtube:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GJHA8uzvXS0\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GJHA8uzvXS0<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0 Alguns exemplos dados por Nad\u00e8ge Le Lan (2005)\u00a0: <em>Lancelot du Lac<\/em>, de Augusta Holmes\u00a0;\u00a0<em>Elaine<\/em>, de Herman Bemberg; \u00a0<em>Lancelot<\/em>, de Victorin Jonci\u00e8res e <em>Le chevalier de neige<\/em>, de Boris Vian.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> N\u00e3o teremos espa\u00e7o para discutir em detalhes a rela\u00e7\u00e3o entre os textos medievais e a poesia de Tennyson. Entretanto \u00e9 importante salientar que esse autor acrescentou alguns elementos \u00e0 hist\u00f3ria, mantendo o amor da dama por Lancelot e o destino tr\u00e1gico da mulher em consequ\u00eancia desse amor n\u00e3o correspondido. Em todos os textos, o corpo da dama chega a Camelot em um barco funer\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> John William Waterhouse pintou mais dois quadros intitulados \u201cThe Lady of Shalott\u201d, trazendo outras cenas do poema, nos anos de 1894 e 1915. Artistas como Walter Crane e John La Farge, em 1862 e Arthur Hughes, em 1873, tamb\u00e9m fizeram telas com o t\u00edtulo \u201cThe lady of Shalott\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Nesse texto, utilizaremos a vers\u00e3o de 1842. A poesia completa pode ser acessada no link:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.poetryfoundation.org\/poems\/45360\/the-lady-of-shalott-1842\">https:\/\/www.poetryfoundation.org\/poems\/45360\/the-lady-of-shalott-1842<\/a>. Acesso em 23\/02\/24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> O. GUNTER, Garland. \u201cArchetypal Patterns in \u201cThe Lady of Shalott\u201d. <em>Victorians Institute Journal<\/em> (1974) 3, p. 85\u201394; SHANNON JR, Edgar F. \u201cPoetry as Vision: Sight and Insight in &#8220;The Lady of Shalott&#8221;. In: <em>Victorian Poetry<\/em>. Vol. 19, N. 3, Autumn, 1981.p. 207-223 ; CHOUDHURY, Biswajit.\u00a0 \u201cAlfred tennyson\u2019s \u201cThe lady of Shalott\u201d: A stylistic analysis\u201d. In: <a href=\"https:\/\/www.indianjournals.com\">https:\/\/www.indianjournals.com<\/a>.Volume : 8, Issue : 3.\u00a0 2020. SAVILLE, Julia. \u201cThe Lady of Shalott\u2019: a Lacanian romance\u201d. In: <em>Word &amp; Image<\/em> &#8211; A Journal of Verbal\/Visual Enquiry. 01 Jun 2012, p. 71-87.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> \u201cDez modos de sonhar a Idade M\u00e9dia\u201d. In: ECO, Umberto. <em>Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro<\/em>: Nova Fronteira, 1989, p. 74-85.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Por vezes denominada \u201cpsicologia junguiana\u201d, \u201cprofunda\u201d ou \u201ccomplexa\u201d a psicologia anal\u00edtica foi o ramo criado por Carl Gustave Jung, renomado psiquiatra su\u00ed\u00e7o do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 26 de Mar\u00e7o de 2024.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar<\/strong>: AMARAL, Fl\u00e1via Aparecida. Uma dama medieval atrav\u00e9s dos s\u00e9culos \u2013 The Lady Of Shalott. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 26 mar. 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/uma-dama-medieval-atraves-dos-seculos-the-lady-of-shalott\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/uma-dama-medieval-atraves-dos-seculos-the-lady-of-shalott.<\/a>\u00a0Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1via Amaral[1] Se voc\u00ea gosta do g\u00eanero musical conhecido como \u201cNew Age\u201d e aprecia artistas que gravaram a partir dessa refer\u00eancia, j\u00e1 deve ter se deparado com a obra de Loreena Mckenitt. 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