{"id":5761,"date":"2023-11-14T12:00:28","date_gmt":"2023-11-14T15:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=5761"},"modified":"2023-11-13T20:03:22","modified_gmt":"2023-11-13T23:03:22","slug":"texto-o-que-as-mulheres-pensaram-sobre-esse-tal-de-ser-mulher-seculos-xiv-xv","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-o-que-as-mulheres-pensaram-sobre-esse-tal-de-ser-mulher-seculos-xiv-xv\/","title":{"rendered":"Texto: O que as Mulheres Pensaram Sobre esse tal de &#8216;Ser Mulher&#8217;? (S\u00e9culos XIV-XV)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carolina Niedermeier Barreiro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das perguntas mais inquietantes quando falamos sobre g\u00eanero \u00e9, afinal, o que categorias como \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d significaram para cada per\u00edodo e sociedade; quais campos as categorias como feminino e masculino regeram e como estiveram relacionadas uma \u00e0 outra. \u00c9, ao mesmo tempo, um questionamento indigesto na medida em que a resposta jamais \u00e9 facilmente encontrada e, mesmo quando a encontramos, pode ser que apare\u00e7a aos peda\u00e7os \u2013 fragmentada por in\u00fameras raz\u00f5es. Sabemos que a pergunta exige um olhar cuidadoso diante das documenta\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 fundamental para compreendermos g\u00eanero em sua complexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para respond\u00ea-la, pensemos em um grupo circunscrito: como sujeitos que foram identificados como \u201cmulheres\u201d conceberam essa identidade? De que maneira, portanto, mulheres no per\u00edodo medieval entenderam essa categoria e o papel que carregava? Delimitamos a pergunta, ainda, a um espa\u00e7o e a um tempo: a Inglaterra dos s\u00e9culos finais no medievo, sobretudo a partir de documentos que foram produzidos de alguma maneira por mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, utilizamos as obras de Julian de Norwich (c. 1342-1416), Margery Kempe (c. 1373-1438), Agnes Paston (c. 1405-1479) e Margaret Paston (c. 1420-1484) como refer\u00eancias. Quase contempor\u00e2neas uma \u00e0 outra, elas viveram todas na mesma regi\u00e3o da Inglaterra, Norfolk, na \u00c2nglia Oriental. Julian de Norwich foi uma anacoreta (reclusa) que dedicou sua vida \u00e0 devo\u00e7\u00e3o religiosa e escreveu uma obra de teologia vision\u00e1ria conhecida como <em>Revela\u00e7\u00f5es do Amor Divino <\/em>(entre os anos de 1390 e os primeiros anos de 1400). Margery Kempe, por sua vez, produziu uma autobiografia com um car\u00e1ter fortemente religioso \u2013 podendo ser considerado uma esp\u00e9cie de autohagiografia \u2013 chamado <em>O Livro de Margery Kempe<\/em> (de 1436) em que relatou sua vida de peregrina\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o leiga a Cristo. Agnes e Margaret Paston, enfim, foram parte da mesma fam\u00edlia pertencente \u00e0 <em>gentry<\/em> inglesa cujas cartas versavam sobre defesa de propriedades, media\u00e7\u00e3o de conflitos, rela\u00e7\u00f5es familiares e outros tantos temas cotidianos a ambas no decorrer de suas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entendermos as influ\u00eancias que permearam suas produ\u00e7\u00f5es, pensemos no contexto ingl\u00eas \u00e0 \u00e9poca. A metade do s\u00e9culo XIV foi marcada pelo avan\u00e7o da peste bub\u00f4nica sobre as cidades e o campo, o que produziu consider\u00e1vel instabilidade econ\u00f4mica na regi\u00e3o \u2013 especialmente no com\u00e9rcio, sobre o qual a fam\u00edlia de Margery Kempe dependia para manter sua posi\u00e7\u00e3o financeira (Parker, 2005). A instabilidade alimentou tamb\u00e9m movimentos sociais como revoltas camponesas que se espalharam no final do s\u00e9culo XIV, como a rebeli\u00e3o de 1381 liderada por Wat Tyler (Wagner, 2006). No campo religioso, o crescimento da chamada heresia lolarda amea\u00e7ava a ortodoxia cat\u00f3lica, tendo como resposta a persegui\u00e7\u00e3o contundente aos seguidores de John Wycliff e as primeiras condena\u00e7\u00f5es por essa heresia na regi\u00e3o da \u00c2nglia Oriental (McAvoy, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, a Guerra dos Cem Anos contra a Fran\u00e7a encontrava seu fim por volta de 1453, impactando diretamente a fam\u00edlia Paston \u2013 que se tornaria herdeira do nobre John Fastolf, quem havia enriquecido com a guerra. Esse per\u00edodo seguiu sendo conturbado por conflitos pol\u00edticos, \u00e0 exemplo da Guerra das Duas Rosas (1455-1485). Na ocasi\u00e3o, opunham-se os apoiadores da fam\u00edlia York e os aliados da fam\u00edlia Lancaster em uma disputa direta pelo trono ingl\u00eas (Ellis, 1984). Nesse sentido, o contexto dos s\u00e9culos XIV e XV na Inglaterra foi marcado por diversas turbul\u00eancias tanto pol\u00edticas, quanto econ\u00f4micas e sociais. As consequ\u00eancias desses processos foram, \u00e9 claro, bastante diversas e nem sempre negativas \u00e0s mulheres. Contudo, nos importa pensar que o momento no qual elas viveram exigiu uma rela\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero bastante espec\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a da chamada heresia lolarda na Inglaterra foi um dos aspectos que precisamos destacar. Isso porque esse movimento contava com cr\u00edticas \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o de mulheres na consagra\u00e7\u00e3o de sacramentos \u2013 alguns defendiam, por exemplo, que elas deveriam poder ministrar tamb\u00e9m esses ritos ent\u00e3o limitados ao clero secular, exclusivamente masculino; outros entendiam que as mulheres deveriam ter o direito de participar tamb\u00e9m da prega\u00e7\u00e3o, caso do cl\u00e9rigo Thomas Hoccleve (McAvoy, 2004). Essas perspectivas bastante heterodoxas dos lolardos colocou as mulheres devotas em uma posi\u00e7\u00e3o delicada. O excesso, sobretudo na fala sobre Deus e sobre o sagrado, poderia ser interpretado como um desafio \u00e0s normas da Igreja e uma aproxima\u00e7\u00e3o perigosa \u00e0 heresia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tens\u00e3o institu\u00edda pela presen\u00e7a lolarda na \u00c2nglia Oriental n\u00e3o passou despercebida \u00e0s mulheres que mencionamos. Margery Kempe, por exemplo, teria sido acusada diversas vezes de heresia \u2013 especificamente lolarda \u2013 ao longo de sua vida. Na obra autobiogr\u00e1fica, Kempe narrou a trajet\u00f3ria devocional para a qual havia se dedicado, cuja caracter\u00edstica mais marcante haviam sido os choros intensos derramados por Cristo. Segundo sua obra, teria se prostado aos prantos em diversas ocasi\u00f5es, como um momento de \u00eaxtase, chamando a aten\u00e7\u00e3o dos demais crist\u00e3os tanto em apoio, como em absoluta repreens\u00e3o ao seu comportamento descontrolado e inquietante:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\">\u201cas muitas l\u00e1grimas que ela chorou que a deixaram t\u00e3o fraca e fr\u00e1gil de modo que ela poderia n\u00e3o aguentar contemplar a cruz nem ouvir a Paix\u00e3o de nosso Senhor sem se dissolver em l\u00e1grimas de piedade e compaix\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A devo\u00e7\u00e3o por meio do exagero do corpo e a fala p\u00fablica constante de Margery Kempe sobre Cristo fez com que fosse acusada diretamente de heresia lolarda. Por esse motivo, precisou comprovar sua ortodoxia diante do arcebispo de York, Henry Bowet (1407-1423), acusada de prega\u00e7\u00e3o: \u201cEu n\u00e3o prego senhor; eu n\u00e3o subo em nenhum p\u00falpito. Eu uso apenas comunica\u00e7\u00e3o e boas palavras e o farei enquanto viver\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Nesse ponto, a estrat\u00e9gia utilizada por Kempe nos sugere algumas quest\u00f5es importantes sobre g\u00eanero e como essas mulheres o compreenderam e fizeram uso dele. Diante da acusa\u00e7\u00e3o de corromper a norma que a proibia de pregar (na condi\u00e7\u00e3o de mulher), Kempe negou n\u00e3o o feminino, mas a a\u00e7\u00e3o disruptiva. Ao mesmo tempo, recorreu \u00e0s pr\u00f3prias Escrituras para refor\u00e7ar sua inoc\u00eancia: \u201c\u2018assim ser\u00e3o aqueles aben\u00e7oados que ouvem a palavra de Deus e a mant\u00eam\u2019. E assim, senhor, penso que os Evangelhos me d\u00e3o licen\u00e7a para falar sobre Deus\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> citou a respeito da prega\u00e7\u00e3o. A estrat\u00e9gia de Kempe foi reivindicar para si uma autoridade maior que a do arcebispo, sem precisar negar sua atividade devocional, recusando-se ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 significativo, por\u00e9m, que sua obra tenha sido escrita em terceira pessoa, referindo-se a ela como \u201cessa criatura\u201d \u2013 ser que n\u00e3o \u00e9 marcado pelo g\u00eanero. Destacamos esse aspecto porque sua contempor\u00e2nea, Julian de Norwich, utilizou de ambas as estrat\u00e9gias para autorizar a pr\u00f3pria fala: fez uso da autoridade de Deus e do apagamento de sua identidade de g\u00eanero para fundamentar seus escritos. A obra de Julian de Norwich foi escrita em duas vers\u00f5es distintas: a primeira, uma revela\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es divinas recebidas por ela em clausura; a segunda, uma reescrita das vis\u00f5es acrescentando a elas sua interpreta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica dos ensinamentos de Deus. Na primeira vers\u00e3o, havia defendido a si mesma pela escrita: \u201cpor que sou uma mulher deveria acreditar que n\u00e3o devo contar a voc\u00eas sobre a bondade de Deus, uma vez que vi naquele momento que \u00e9 de sua vontade que isso seja conhecido?\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse caso, a vontade de Deus se sobrep\u00f5e \u00e0s proibi\u00e7\u00f5es de prega\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, especialmente em um contexto de fortalecimento lolardo. Ainda que fosse uma mulher, tinha o direito de falar sobre a palavra de Deus porque essa era a vontade dele. Na segunda vers\u00e3o da obra, a passagem foi obliterada; na primeira vers\u00e3o, segue-se \u201cEnt\u00e3o voc\u00ea deve logo me esquecer, pois eu sou insignificante (&#8230;) e deve contemplar Jesus que \u00e9 o tutor de tudo\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. O apagamento de si, sobretudo da condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, sugere que Julian de Norwich tentava, por um lado, reafirmar a possibilidade feminina de fala e, de outro, garantir a autoridade do que havia dito pelo apagamento do g\u00eanero e pela alian\u00e7a \u00e0 ortodoxia cat\u00f3lica que proibia a prega\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto Margery Kempe quanto Julian de Norwich tiveram seus pap\u00e9is de feminilidade impactados pela persegui\u00e7\u00e3o aos lolardos na \u00c2nglia Oriental e precisaram pensar em ferramentas que as permitiram tomar espa\u00e7o na fala p\u00fablica sobre Deus sem amea\u00e7ar a ortodoxia. Para isso, a condi\u00e7\u00e3o feminina precisaria ser ressignificada \u2013 autorizada pela palavra maior de Deus \u2013 ou silenciada por meio da neutralidade do g\u00eanero \u2013 seja na palavra \u201ccriatura\u201d ou na aus\u00eancia dessa marca identit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, as mulheres da fam\u00edlia Paston foram mais profundamente atingidas pelos conflitos pol\u00edticos e territoriais do per\u00edodo. Como pertencentes a uma fam\u00edlia da <em>gentry<\/em> inglesa em ascens\u00e3o, a atua\u00e7\u00e3o de Agnes e Margaret Paston esteve voltada especialmente ao fortalecimento da fam\u00edlia e de suas redes de contato e poder. Nesse sentido, a compreens\u00e3o de feminilidade constru\u00edda por elas ganhou diversas facetas e in\u00fameros pap\u00e9is, multiplicando suas possibilidades de atua\u00e7\u00e3o entre aliados e advers\u00e1rios da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agnes Paston, por exemplo, entendia que o papel de uma dama estava no trabalho \u00e1rduo: \u201cdiga a Elizabeth Paston [sua filha] que ela deve agir de modo a trabalhar duro como outras damas o fazem e de alguma forma se ajudar com isso\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. O conselho de Agnes Paston \u00e0 filha sugere a percep\u00e7\u00e3o que ela mesma tinha de como uma dama deveria agir. O texto foi escrito em 1458, catorze anos depois da viuvez de Agnes Paston e, portanto, depois de longos anos administrando por si mesma as propriedades herdadas do marido, enfrentando disputas territoriais e jur\u00eddicas, estabelecendo alian\u00e7as e tentando manter uma boa rela\u00e7\u00e3o com os demais herdeiros. O trabalho duro, portanto, era um reflexo daquilo que ela mesma havia precisado desenvolver para proteger suas terras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vi\u00fava, Agnes Paston precisou desempenhar pap\u00e9is para os quais o ideal feminino de submiss\u00e3o e silenciamento se tornariam um impedimento. A imagem do feminino em tais termos havia sido parte do discurso mis\u00f3gino no medievo, constru\u00eddo por grupos clericais que viam na mulher um reflexo dos perigos de Eva e de sua corrup\u00e7\u00e3o (Bodden, 2011). Esse entendimento, que havia encerrado as mulheres ao lugar de passividade e conten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderia ter espa\u00e7o na vida da <em>gentry<\/em> para qual a atua\u00e7\u00e3o das mulheres era fundamental. A prote\u00e7\u00e3o das terras na aus\u00eancia do marido, a constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as e o fortalecimento da posi\u00e7\u00e3o social familiar dependiam de uma concep\u00e7\u00e3o sobre o feminino muito mais atuante; no lugar do sil\u00eancio e da submiss\u00e3o, a negocia\u00e7\u00e3o e a ag\u00eancia foram fundamentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, o papel desempenhado por Margaret Paston em 1448 nos ajuda a compreender a necessidade de l\u00f3gicas de g\u00eanero muito mais fluidas e diversas. Na ocasi\u00e3o, a propriedade da fam\u00edlia Paston em Gresham havia sofrido um cerco militar de outro lorde interessado naquelas terras. Com o marido distante, Margaret Paston precisou organizar sozinha a defesa contra o cerco:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">\u201cpe\u00e7o que consiga algumas bestas e casacos de prote\u00e7\u00e3o para cobri-los e lutar; suas casas aqui s\u00e3o t\u00e3o baixas que nenhum homem pode atirar com arco longo, embora nunca tenhamos precisado tanto\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a defesa n\u00e3o tenha resistido aos ataques, a iniciativa de Margaret Paston se destaca pelo lugar que precisou ocupar. O argumento de um feminino flex\u00edvel, nesse caso, se torna ainda mais evidente quando recuperamos outra carta enviada por ela a John Paston II, seu filho, sugerindo a dificuldade de uma mulher liderar outros homens: \u201cE eu n\u00e3o posso guiar bem nem reger soldados, e tamb\u00e9m eles n\u00e3o seriam conduzidos por uma mulher da mesma forma que seriam por um homem\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Para Margaret Paston, o ideal da lideran\u00e7a militar estava em outro campo do espectro de g\u00eanero que n\u00e3o o da dama; no entanto, foi exatamente esse o papel que ela mesma ocupou em 1448 na defesa de Gresham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pap\u00e9is flex\u00edveis de g\u00eanero tamb\u00e9m poderiam ser pensados na atua\u00e7\u00e3o dessas mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos filhos. A vincula\u00e7\u00e3o dessas autoras com o papel materno foi t\u00e3o profundamente variado que n\u00e3o poder\u00edamos definir uma \u00fanica no\u00e7\u00e3o de feminilidade associado \u00e0 maternidade. Para darmos exemplos breves, Julian de Norwich tratou Jesus Cristo como uma m\u00e3e em suas revela\u00e7\u00f5es espirituais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">\u201cEm nossa m\u00e3e, Cristo, nos beneficiamos e crescemos, e em miseric\u00f3rdia ele nos reforma e nos restaura (&#8230;) Assim que nossa M\u00e3e age de forma misericordiosa em rela\u00e7\u00e3o a todos os seus filhos amados que s\u00e3o submissos e obedientes a ele\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como m\u00e3e, n\u00e3o como pai, Jesus agiria de forma misericordiosa com seus filhos. Seu papel, para a autora, seria tamb\u00e9m o do afeto, da sabedoria e do reconhecer as necessidades de seus filhos. Por aproximar-se do ideal de cuidado, Jesus Cristo estaria para os devotos como uma m\u00e3e para os filhos, mais do que o pai. \u00a0Por outro lado, o ideal de paternidade girava em torno da autoridade e do disciplinamento das crian\u00e7as, aspectos adotados tanto por Agnes quanto Margaret Paston em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios filhos. Mais do que o carinho cuidadoso, optaram por posturas de disciplinamento das crian\u00e7as e autoridade sobre elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agnes Paston, por exemplo, havia sido acusada de agredir sua filha, Elizabeth, como forma de puni\u00e7\u00e3o. Segundo o que Elizabeth Clere, amiga da fam\u00edlia, havia contado em carta: \u201cdesde a P\u00e1scoa ela [Elizabeth] tem sido, pela maior parte, agredida uma ou duas vezes na semana, em alguns momentos duas vezes no dia, e sua cabe\u00e7a foi quebrada em dois ou tr\u00eas lugares\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Margaret Paston n\u00e3o chegou ao ponto de relatar agress\u00f5es f\u00edsicas; no entanto, tamb\u00e9m adotou medidas de disciplinamento sobre Margery, filha que havia se apaixonado por um funcion\u00e1rio da fam\u00edlia e que teria efetuado o matrim\u00f4nio em segredo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">\u201cQuando ouvi falar qual havia sido seu comportamento baixo, encarreguei meus servos de que ela n\u00e3o fosse recebida em minha casa. Eu a havia avisado, ela poderia ter prestado aten\u00e7\u00e3o antes se estivesse disposta\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse caso, o refor\u00e7o da autoridade se deu por meio da expuls\u00e3o de Margery de todas as propriedades da fam\u00edlia, uma puni\u00e7\u00e3o rigorosa para um comportamento que poderia prejudicar o prest\u00edgio e o poderio econ\u00f4mico dos Pastons. Tanto Agnes quanto Margaret utilizaram recursos associados \u00e0 paternidade para orientar seus filhos, enquanto a Cristo, para Julian de Norwich, coube o papel materno do cuidado amoroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os variados exemplos que trouxemos aqui nos sugerem que a concep\u00e7\u00e3o sobre feminilidade era profundamente m\u00faltipla, flex\u00edvel e fragmentada para as mulheres na Inglaterra dos s\u00e9culos XIV e XV. De acordo com as demandas e necessidades da vida devocional ou leiga, elas estabeleceram concep\u00e7\u00f5es sobre o feminino que as permitiram agir no mundo \u2013 neutralizando o g\u00eanero, recorrendo a outras autoridades ou flexibilizando os pap\u00e9is poss\u00edveis ao feminino, reivindicaram a fala, a inser\u00e7\u00e3o social e autonomia. Mais do que um bin\u00f4mio irredut\u00edvel, g\u00eanero poderia servir como uma ferramenta para atua\u00e7\u00e3o religiosa e laica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARKER, J. <em>1381: The Year of the Peasant\u2019s Revolt. <\/em>Cambridge: Harvard University Press, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BODDEN, M. C. <em>Language as the site of revolt in medieval and Early Modern England: <\/em>speaking as a woman. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DAVIS, N. <em>The Paston Letters: <\/em>a selection in modern spelling. Oxford: Oxford University Press, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ELLIS, S. \u201cCrown, Community and Government in the English Territories, 1450-1575\u201d. In: <em>Third Conference on the Formation of the English State, abril de 1984, St Peter\u2019s College<\/em>. Comunica\u00e7\u00e3o. Oxford, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JULIAN OF NORWICH. <em>The Writings of Julian of Norwich<\/em>: A Vision Showed to a Devout Woman and A Revelation of Divine Love. Editado por Nicholas Watson e Jacqueline Jenkins. Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press, 2005<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KEMPE, Margery. <em>The Book of Margery Kempe<\/em>. Dispon\u00edvel em &lt; http:\/\/english.selu.edu\/humanitiesonline\/kempe\/showcase\/webapp.php&gt;. Acesso em 01 de abril de 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MCAVOY, Liz. <em>Authority and the female body in the writings of Julian of Norwich and Margery Kempe<\/em>. Cambridge: D. S. Brewer, 2004<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARKER, Kate. \u201cA Little Local Difficulty: Lynn and the Lancastrian usurpation\u201d In: HARPER-BILL, C (Ed.). <em>Medieval East Anglia<\/em>. Woodbridge: The Boydell Press, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WAGNER, J. <em>Encyclopedia of the Hundred Years War<\/em>. Londres: Greenwood Press, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutora pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (carol.niedermeier@gmail.com). Curr\u00edculo lattes: http:\/\/lattes.cnpq.br\/8347943431946728.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o livre de \u201c(&#8230;) \u00fee plentyuows teerys \/ \u00fet sche wept \u00fee whech made hir so febyl &amp; so weyke \/ \u00fet sche myth not endur to beheldyn \u00fee crosse \/ ne heryn owr lords passyon rehersyd \/ so sche was resoluyd in to terys of pyte \/ &amp; co\u0352passyon\u201d (MS 61823, f. 74v).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u201cI che not ser \/ I come in no pulpytt \/ I vse but comownycacyon &amp; good word &amp; \u00fet wil I do whil I leue\u201d (MS 61823<em>, <\/em>f. 60v -61r)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cso ar \u00feei blissed \u00fet heryn \u00fee word of god and kepyn it \/ \u00b7 And \u00feer for sir me thynkyth \u00fet \u00fee gospel \u021deuyth me leue to spekyn of god\u201d. Ibid, f. 60v.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u201cBotte for I am a woman shulde I therfore leve that I shulde nought telle yowe the goodenes of God, sine that I sawe in that same time that it is his wille\u00b0 that it be knawen?\u201d (Julian de Norwich, 2005, p. 75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u201cThane shalle ye sone forgette me that am a wreche (&#8230;) and behalde Jhesu that is techare of alle\u201d (Julian de Norwich, 2005, p. 75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u201cAnd sey Elyzabet Paston that che must vse hyr-selfe to werke redyly as other jentylwomen don, and sumwhat to helpe hyr-self ther-wyth\u201d. <em>Memorandum <\/em>de Agnes Paston, 28 de janeiro de 1458. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/quod.lib.umich.edu\/c\/cme\/Paston\/1:2.16?rgn=div2;view=fulltext&gt;. Acesso em 10 de setembro de 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> \u201cprey \u021dw to gete som crosse bowis, and wyndacis to bynd \u00feem wyth, and quarell, for \u021dwr hwsis here ben so low \u00feat \u00feere may non man schete owt wyth no long bowe \u00feow we hadde neuer so moche nede.\u201d Margaret Paston para John Paston I, 1448. Dispon\u00edvel em &lt; https:\/\/quod.lib.umich.edu\/c\/cme\/Paston\/1:8.7?rgn=div2;view=fulltext&gt;. Acesso em 10 de set. de 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> \u201cI can not wele gide ner rewle sodyours, and also thei set not be a woman as thei shuld set be a man\u201d. Margaret Paston para John Paston II, 11 de julho de 1467. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/quod.lib.umich.edu\/c\/cme\/Paston\/1:8.76?rgn=div2;view=fulltext&gt;. Acesso em 10 de set. de 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Julian de Norwich, 2005, p. 309.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u201cshe hath sin Eastern the most part be beaten once in the week or twice, and sometime twice on o day, and her head broken in two or three places\u201d (Davis, 1983, p. 24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> \u201cand wan I hard sey wat here demenyn [deletado no MS]g was I schargyd my seruantys \u00feat sche xuld not be reseyued in myn hows. I had \u021deuen here warnyn [deletado no MS]g, sche mythe a be ware afore yf sche had a be grasyows\u201d. Margaret Paston para John Paston II, 10 de set. de 1469. Dispon\u00edvel em &lt; https:\/\/quod.lib.umich.edu\/c\/cme\/Paston\/1:8.80?rgn=div2;view=fulltext &gt;. Acesso em 12 de setembro de 2023.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 14 de novembro de 2023.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como citar: BARREIRO, Carolina Niedermeier. O que as Mulheres Pensaram Sobre esse tal de &#8216;Ser Mulher&#8217;? (S\u00e9culos XIV-XV). In: <strong>Blog do POIEMA.\u00a0<\/strong>Pelotas 13 nov 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-o-que-as-mulheres-pensaram-sobre-esse-tal-de-ser-mulher-seculos-xiv-xv\/. 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