{"id":5727,"date":"2023-10-31T12:00:28","date_gmt":"2023-10-31T15:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=5727"},"modified":"2023-10-30T17:14:55","modified_gmt":"2023-10-30T20:14:55","slug":"blog-especial-mes-das-bruxas-o-feminino-e-as-representacoes-do-mau","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/blog-especial-mes-das-bruxas-o-feminino-e-as-representacoes-do-mau\/","title":{"rendered":"Blog Especial: M\u00eas das Bruxas &#8211; O feminino e as representa\u00e7\u00f5es do mau"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Sara Schneider-Bittencourt<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apari\u00e7\u00e3o constante de representa\u00e7\u00f5es a respeito da mulher-bruxa tem aberto discuss\u00f5es sobre as possibilidades de an\u00e1lise cultural e social relacionadas ao tema, as quais podem ser encontradas nos mais diversos espa\u00e7os, como em textos, manuscritos, produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, poemas, cinema, televis\u00e3o e arte. S\u00e3o variadas as pinturas capazes de instigar um sistema de repress\u00e3o do feminino e da mulher na condi\u00e7\u00e3o de bruxa\/feiticeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de an\u00e1lise iconogr\u00e1fica e as possibilidades identificadas nos objetos a serem estudados proporcionam a riqueza e a consci\u00eancia da dificuldade em questionar imagens relacionadas \u00e0s mulheres. Fran\u00e7ois Borin \u00e9 um dos autores que possui essa sensibilidade quanto ao entendimento hist\u00f3rico e art\u00edstico ao constatar, por exemplo, que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">Pedir a uma icon\u00f3grafa para escrever sobre as imagens \u00e9 aceitar uma outra leitura, \u00e9 sentir que um olhar enriquecido de arquivos visuais est\u00e1 apto a v\u00ea-las sob um novo \u00e2ngulo. Questionar as imagens sobre a mulher interrogar documentos tirados do seu contexto por meio de uma sele\u00e7\u00e3o necessariamente subjectiva, \u00e9 focar o olhar sobre um objeto isolado e, por isso mesmo, distorcido, \u00e9 v\u00ea-los com os olhos de hoje, porque &lt;&lt;a imagem figurativa \u00e9 fixa mas a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00f3vel. (BORIN, 1991, p. 253).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, a complexidade envolvida nas representa\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas pode ser um risco, como tamb\u00e9m um caminho de perspectivas. \u00c9 importante que haja, tamb\u00e9m, a compreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura, sociedade, pol\u00edtica e economia que fazem parte do momento em que as obras s\u00e3o desenvolvidas, pois s\u00e3o elas o produto de sua pr\u00f3pria \u00e9poca. Logo, tendo isso em mente, e considerando as imagens selecionadas aqui, com data\u00e7\u00e3o a partir do s\u00e9culo XV, constata-se determinado monop\u00f3lio masculino no processo de cria\u00e7\u00e3o das express\u00f5es visuais, sendo poucas as mulheres com acesso a tais processos art\u00edsticos em tais per\u00edodos (BORIN, 1991, p. 253). Tal elemento nos mostra que parte significativa da representa\u00e7\u00e3o feminina se dava atrav\u00e9s do olhar e imagin\u00e1rio masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E apesar das contrariedades:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">Partir das imagens \u00e9 &lt;&lt;dar&gt;&gt;- lhes um papel condutor, de guia, e as palavras seguem o percurso por elas tra\u00e7ado. H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o de constante refer\u00eancia a elas, tal como um pintor, por mais abstracto que seja, regressa sempre ao motivo e um historiador aos arquivos&#8230;Neste caso, os arquivos s\u00e3o as imagens. (BORIN, 1991, p. 254).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de tais observa\u00e7\u00f5es, vejamos algumas das figuras que trazem refer\u00eancias sobre o imagin\u00e1rio da mulher-bruxa em pinturas selecionadas dos s\u00e9culos XV a XIX.<\/p>\n<div id=\"attachment_5729\" style=\"width: 339px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem1a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5729\" class=\"wp-image-5729 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem1a.jpg\" alt=\"\" width=\"339\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem1a.jpg 339w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem1a-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5729\" class=\"wp-caption-text\">Figura 1: A \u00c1rvore da vida e da morte. (1481) Fonte: Berthold Furtmayr (1470-1501) https:\/\/br.pinterest.com\/pin\/455074737319859576\/<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na miniatura de <em>A arvore da vida e da morte<\/em>, de Berthold Furtmayr. podemos observar algumas especificidades. A Virgem Maria, ao lado esquerdo da imagem, encontra-se ao lado de um crucifixo, preso na arvore do conhecimento. Esse item aparece enquanto um ant\u00eddoto para o pecado que a \u00e1rvore representa e sua mortalidade. A Virgem, ent\u00e3o, alcan\u00e7a da \u00e1rvore, h\u00f3stias para dar aos pobres, como forma de purifica\u00e7\u00e3o, enquanto \u00e0 direita, v\u00ea-se Eva, representada (como em outras ocasi\u00f5es) totalmente nua, chamando imediatamente a aten\u00e7\u00e3o para si, repassando a alguns pobres o fruto da \u00e1rvore, o que pode ser interpretado como Eva \u201calimentando o mal\u201d. Aqui demonstra-se a dicotomia entre o bem e o mal a partir dessas duas personagens femininas da hist\u00f3ria judaico-crist\u00e3. Por outro lado, observa-se o esqueleto, \u00e0 direita de Eva, que segura uma faixa que diz \u201cDesta \u00e1rvore vem o mal da morte e o bem da vida\u201d, concretizando a compreens\u00e3o de que essa \u00e9 o elemento b\u00edblica que al\u00e7ou Eva ao pecado e retirou o casal do Jardim do \u00c9den, bem como a tenta\u00e7\u00e3o da serpente tamb\u00e9m se faz presente, enrolada no tronco (BORIN, 1991, p. 255).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguimos com <em>Eva Prima Pandora<\/em>, que foi considerada o primeiro nu do Renascimento:<\/p>\n<div id=\"attachment_5730\" style=\"width: 1709px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5730\" class=\"wp-image-5730 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa.jpg\" alt=\"\" width=\"1709\" height=\"1078\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa.jpg 1709w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa-400x252.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa-1024x646.jpg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa-768x484.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa-1536x969.jpg 1536w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem2aa-750x473.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1709px) 100vw, 1709px\" \/><p id=\"caption-attachment-5730\" class=\"wp-caption-text\">Figura 2: Eva Prima Pandora (1540) Fonte: Jean Cousin (1490-1560) Fonte: https:\/\/dieelektrischenvorspiele.wordpress.com\/2015\/11\/02\/o-arranca-coracoes-162-eva-prima-pandora\/<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quadro de Jean Cousin, que pode ser encontrado no Museu do Louvre, traz, mais uma vez o corpo nu, um misto de sensualidade e mortalidade. Consiste em direcionar a fatalidade, quando implementa elementos como o ramo, a caveira, o vaso de Pandora, a serpente, s\u00edmbolo da provoca\u00e7\u00e3o do mal em Eva \u2013 como tamb\u00e9m se faz presente quando se retratam as imagens de Cle\u00f3patra \u2013 bem como a pr\u00f3pria beleza do corpo nu da mulher enquanto a \u201cfonte de todos os males (BORIN, 1991, p. 256). A imagem feminina caracteriza-se com tra\u00e7os ousados sobre seu corpo, e elementos que referenciam a maldade do mundo, espalhada por essa, lembrando aos homens a ambiguidade que coexiste ao elemento feminino e que se mostra como parte constante da leitura de obras como o <em>Malleus Maleficarum, <\/em>um dos mais conhecidos manuais inquisitoriais do s\u00e9culo XV escrito por Heinrich Kramer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguimos com a gravura an\u00f4nima datada do s\u00e9culo XVII:<\/p>\n<div id=\"attachment_5731\" style=\"width: 699px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem3a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5731\" class=\"wp-image-5731 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem3a.jpg\" alt=\"\" width=\"699\" height=\"991\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem3a.jpg 699w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem3a-282x400.jpg 282w\" sizes=\"auto, (max-width: 699px) 100vw, 699px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5731\" class=\"wp-caption-text\">Figura 3: A verdadeira mulher Fonte: Gravura An\u00f4nima. PERROT; DUBY, 1991, p. 266<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa gravura apresenta um misto de mulher e monstro com uma cabe\u00e7a dupla que se divide entre o feminino e o demon\u00edaco. Exibe-se aqui a representa\u00e7\u00e3o, de maneira \u201cdid\u00e1tica\u201d, do imagin\u00e1rio da mulher enquanto siamesa do Diabo, serva da maldade, identificando-se enquanto \u201ca dupla e simult\u00e2nea express\u00e3o do seu ser: anjo e dem\u00f4nio\u201d (BORIN, 1991, p. 266). O significado dessa gravura pode ser reconhecido nas in\u00fameras fontes escritas sobre a imagem do feminino enquanto companheira de Sat\u00e3, e parte permanente da sensa\u00e7\u00e3o de medo que \u00e9 implantada durante os s\u00e9culos XV-XVII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebendo que parte do imagin\u00e1rio social da transi\u00e7\u00e3o do Medievo para a Renascen\u00e7a se d\u00e1 \u2013 al\u00e9m do processo sistem\u00e1tico de crises e doen\u00e7as \u2013 da implementa\u00e7\u00e3o da figura da bruxa enquanto parte concreta de um plano demon\u00edaco para espalhar o medo e tornar fraca n\u00e3o apenas a alma dos crentes, como tamb\u00e9m o poderio da Igreja. Al\u00e9m disso, fez com que n\u00e3o apenas a imagem isolada da mulher fosse comprometida, mas tamb\u00e9m a \u201creuni\u00e3o\u201d de grupos de mulheres que acabou por receber o nome de <em>Sab\u00e1<\/em>, fossem igualmente referenciadas nas obras art\u00edsticas. Parte dessas pode ser encontrada no livro de Jean-Michel Sallmann, <em>As Bruxas noivas de Sat\u00e3 <\/em>(2002), que cont\u00e9m, al\u00e9m de uma sele\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre a \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d, uma compila\u00e7\u00e3o de obras visuais sobre o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos artistas escolhidos por Sallmann possui uma cole\u00e7\u00e3o significativa de obras que retratam o imagin\u00e1rio da bruxaria: Hans Baldung Grien. Nascido nas proximidades em que o <em>Malleus Maleficarum<\/em> surgiu, no mesmo ano da bula papal que intensificou a \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d (<em>Summis Desiderantes Affectibus<\/em>), Grien cria de forma demonstrativa a imagem das bruxas nas suas prepara\u00e7\u00f5es para o <em>Sab\u00e1<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_5732\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem4a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5732\" class=\"wp-image-5732 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem4a.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"353\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5732\" class=\"wp-caption-text\">Figura 4: Sab\u00e1 de Buxas (1515) Fonte: Hans Baldung Grien (1484-1545) http:\/\/www.all-art.org\/history230-14-2.html<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos ver que uma das bruxas da imagem est\u00e1 triturando, possivelmente, algumas ervas em um pequeno caldeir\u00e3o, enquanto as outras, assim como refor\u00e7a o seu estere\u00f3tipo, voam pelas nuvens em vassouras m\u00e1gicas (SALLMANN, 2002, p. 48). Notamos novamente a nudez representando tais mulheres, bem como a companhia de certos animais, como o gato, que esteve atrelado continuamente \u00e0 imagem das feiticeiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra obra que traz uma reinterpreta\u00e7\u00e3o do <em>Sab\u00e1<\/em>, dessa vez de um per\u00edodo em que a \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d j\u00e1 havia deixado de ocorrer, por\u00e9m, sua imagem na mentalidade popular ainda se fazia (e ainda se faz) presente, foi a pintura a \u00f3leo sobre tela, de Goya.<\/p>\n<div id=\"attachment_5733\" style=\"width: 1455px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5733\" class=\"wp-image-5733 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a.jpg\" alt=\"\" width=\"1455\" height=\"458\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a.jpg 1455w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a-400x126.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a-1024x322.jpg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a-768x242.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem5a-750x236.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1455px) 100vw, 1455px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5733\" class=\"wp-caption-text\">Figura 5: O Coven (1820-1823) Fonte: Goya (1746-1828) https:\/\/www.museodelprado.es\/coleccion\/obra-de-arte\/el-aquelarre-o-el-gran-cabron\/09559184-cfeb-48fe-8acc-89b070b64d92?searchMeta=sabbat<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem introduz a reuni\u00e3o das bruxas com o Diabo, que em determinadas culturas \u00e9 representado pela figura de um grande bode, reunindo as mulheres a seu redor, caracter\u00edsticas que s\u00e3o bastante desenvolvidas nos escritos sobre o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem da bruxa, podemos voltar ao pintor e artista gr\u00e1fico, Hans Baldung Grien e sua cole\u00e7\u00e3o sobre o assunto, que exibe uma ilustra\u00e7\u00e3o caracterizada por imagin\u00e1rios que apresentam de forma clara alguns dos dispositivos discursivos que est\u00e3o constantemente ligados \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da mulher enquanto perigo constante aos homens. Segue:<\/p>\n<div id=\"attachment_5734\" style=\"width: 244px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem6a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5734\" class=\"wp-image-5734 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem6a.jpg\" alt=\"\" width=\"244\" height=\"359\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5734\" class=\"wp-caption-text\">Figura 6: Tr\u00eas Bruxas Fonte: Hans Baldung Grien (1484-1545) http:\/\/www.all-art.org\/history230-14-2.html<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>Tr\u00eas bruxas<\/em> s\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o destacada da sexualidade violenta que se encontram constantemente identificadas em obras como o <em>Malleus Maleficarum<\/em>. No caso acima, percebem-se as partes intimas expostas e posi\u00e7\u00f5es que se \u201cinclinam\u201d \u00e0 lux\u00faria e ao desejo carnal, que \u00e9 impugnado na imagina\u00e7\u00e3o daquele per\u00edodo. A vis\u00e3o da mulher como diabolicamente sexual, seduzindo os \u201chomens de bem\u201d pelo caminho demon\u00edaco, se materializa na imagem. Destacamos tamb\u00e9m os rostos desenhados, que possuem tanto a mulher nova quanto a anci\u00e3, sendo essas a dicotomia da representa\u00e7\u00e3o das \u201cservas de Sat\u00e3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por \u00faltimo, a obra destacada na capa do livro de Sallmann (2002), que inclui as lux\u00farias femininas na tentativa de seduzir Santo Ant\u00f4nio, bem como a representa\u00e7\u00e3o da bruxa como aquela de extrema feiura, se deleitando ao observar a cena. A pintura pode ser encontrada no Museu do Prado, em Madri.<\/p>\n<div id=\"attachment_5735\" style=\"width: 947px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem7a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5735\" class=\"wp-image-5735 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem7a.jpg\" alt=\"\" width=\"947\" height=\"847\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem7a.jpg 947w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem7a-400x358.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem7a-768x687.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2023\/10\/Imagem7a-750x671.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 947px) 100vw, 947px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5735\" class=\"wp-caption-text\">Figura 7: A Tenta\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio (1520-1524) Fonte: Joachim Patinir (1480-1524) e Quinten Massys (1466-1530) https:\/\/www.museodelprado.es\/coleccion\/obra-de-arte\/las-tentaciones-de-san-antonio-abad\/b93e9da4-8a77-44ae-ba29-1811cc546fd8?searchid=9447ce24-24dd-c280-7806-998bf2bacd1e<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos, pouco mais atr\u00e1s das tr\u00eas jovens sedutoras e de Santo Ant\u00f4nio, a figura de uma mulher com os tra\u00e7os que \u201ciluminaram\u201d os estere\u00f3tipos femininos por s\u00e9culos. Essa era a mulher velha, com tra\u00e7os demon\u00edacos e vi\u00fava: a \u201ct\u00edpica\u201d bruxa que \u00e9 exclu\u00edda da sociedade pelo medo que exerce sobre as comunidades. Sobre outras tr\u00eas mulheres, segundo a descri\u00e7\u00e3o da obra feita atrav\u00e9s dos respons\u00e1veis pelo site do Museu do Prado, tem-se:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">A tenta\u00e7\u00e3o que sofre Santo Ant\u00f4nio pela interven\u00e7\u00e3o de tr\u00eas jovens mulheres ricamente vestidas tentando tir\u00e1-lo do caminho da virtude, instando-o a lux\u00faria, [&#8230;]. Neste caso, de uma maneira totalmente original, uma tenta\u00e7\u00e3o carnal \u00e9 representada de maneira geral.\u00a0A ma\u00e7\u00e3 oferecida por uma das jovens &#8211; como Eva moderna &#8211; ao santo alude ao pecado original, enquanto a que est\u00e1 atr\u00e1s, acariciando seu pesco\u00e7o, j\u00e1 deixa ver sua natureza demon\u00edaca na forma da cauda de seu traje, e o macaco, s\u00edmbolo do dem\u00f4nio, puxa Santo Ant\u00f4nio, identificado como tal pelo nimbo, para faz\u00ea-lo cair no ch\u00e3o (&#8230;). (Texto extra\u00eddo do site do Museu do Prado &#8211; Tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas obras art\u00edsticas, portanto, demonstram visualmente a percep\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos diante das amea\u00e7as sofridas nas sociedades que acabaram por ser depositadas nas representa\u00e7\u00f5es da mulher-bruxa, que se fez diariamente presente durante n\u00e3o s\u00f3 os s\u00e9culos de \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d como tamb\u00e9m nos subsequentes, mesmo que tal \u201camea\u00e7a\u201d j\u00e1 n\u00e3o fosse entendida como presente no cotidiano das popula\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Express\u00f5es art\u00edsticas como essas, em geral, v\u00eam acompanhadas de narrativas que as completam. H\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o de in\u00fameros textos que carregam impress\u00f5es espec\u00edficas a respeita das mulheres, de seus corpos e de suas posi\u00e7\u00f5es sociais enquanto agentes malignas ditas como bruxas. Observamos esses imagin\u00e1rios desde a antiguidade, ao medievo como, por exemplo, o <em>Canon Episcopi<\/em>, que apresenta cren\u00e7as populares que na busca por justificar as repress\u00f5es \u201cserviu para fixar a imagem da bruxa que voa \u00e0 noite, atravessando janelas e paredes ou entrando por chamin\u00e9s para participar de <em>sab\u00e1<\/em>, escanchada em uma vassoura ou um animal\u201d (SALLMANN, 2002, p. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Narrativas que se concretizam com o <em>Malleus<\/em> Maleficarum que, utilizando-se de cita\u00e7\u00f5es de Cicero, S\u00e3o Tomas de Aquino, entre outros, torna constante a agress\u00e3o ao feminino. Utilizando-se tamb\u00e9m de Eclesi\u00e1sticos, Kramer reafirma cita\u00e7\u00f5es como \u201c\u00c9 melhor viver com um le\u00e3o ou um drag\u00e3o que morar com uma mulher maldosa.\u201d e tamb\u00e9m \u201cToda a mal\u00edcia \u00e9 leve, comparada com a mal\u00edcia de uma mulher\u201d (KRAMER; SPRENGER, 2011, p. 114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, essas imagens mentais que fundamentaram as p\u00e1ginas do manual inquisitorial de Kramer e de tantos outros escritos, materializados em representa\u00e7\u00f5es de figuras como Eva e Lilith (as \u201cmulheres-bruxas\u201d), carregam associa\u00e7\u00f5es constantes de representa\u00e7\u00f5es femininas enquanto donas de um car\u00e1ter duvidoso e amea\u00e7ador. Tal abordagem, seguida por uma s\u00e9rie de conjecturas sociais de medo e sobrenaturalidade que pairava nas comunidades, principalmente rurais, da Europa do s\u00e9culo XV, acabaram por consolidar o imagin\u00e1rio da bruxa como serva do Diabo e respons\u00e1vel por cat\u00e1strofes e amea\u00e7as \u00e0 vida daqueles que foram retratados como \u201chomens de bem\u201d, v\u00edtimas da perversidade dessas figuras malignas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conjunto, narrativas textuais e visuais foram (re)criando e (re)incorporando perspectivas e leituras que podemos acompanhar at\u00e9 os dias atuais sobre determinados comportamentos esperados ou n\u00e3o por parte das mulheres na sociedade. Essas representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o usadas com prop\u00f3sito de manipula\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica, como cr\u00edtica aprofundada das tem\u00e1ticas de g\u00eanero e sexualidade, ou ainda como componente de estudo sobre como as sociedades de diferentes per\u00edodos temporais lidavam com esse imagin\u00e1rio. Assim, \u00e9 clara a rica variedade de possibilidades das an\u00e1lises de tais conte\u00fados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bibliografia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BORIN, Fran\u00e7oise. <strong>Uma pausa para a imagem. <\/strong>In. Hist\u00f3ria das Mulheres no Ocidente. Vol. 3: Do Renascimento \u00e0 Idade Moderna. Sob a dire\u00e7\u00e3o de Arlette Farge e Natalaie Zemon Davis. Porto: Afrontamento. 1991, p. 253-293.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DELUMEAU, Jean.\u00a0 <strong>Hist\u00f3ria do medo no Ocidente: 1300 &#8211; 1800.<\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Lucia Machado. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HALL, Stuart. <strong>Cultura e representa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Rio de Janeiro: Ed.\u00a0PUC-Rio: Apicuri, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. <strong>O Martelo das Feiticeiras: <em>Malleus Maleficarum<\/em><\/strong><em>. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Fr\u00f3es. 22\u00aa ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOGUEIRA, Carlos R. F. <strong>Bruxaria e Hist\u00f3ria: as pr\u00e1ticas m\u00e1gicas no Ocidente crist\u00e3o<\/strong>. Bauru, SP: EDUSC, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PESAVENTO. Sandra Jatahy. Em busca de uma outra hist\u00f3ria: Imaginando o Imagin\u00e1rio. <strong>Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/strong>. S\u00e3o Paulo: v. 15, n. 29, p. 9-27. 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIRES, Val\u00e9ria Fabrizi. <strong>Lilith e Eva. Imagens arquet\u00edpicas da mulher na atualidade. <\/strong>SP: Ed. Summus. 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SALLMANN, Jean-Michell. <strong>As Bruxas noivas de sat\u00e3. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Luiza Dantas Borges. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Mestre em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal de Pelotas. Link do curr\u00edculo lattes: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9207511357797535\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/9207511357797535<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> O original: La tentaci\u00f3n que sufre san Antonio por la intervenci\u00f3n de tres mujeres j\u00f3venes ricamente vestidas que tratan de apartarle del camino de la virtud, incit\u00e1ndole a la lujuria [&#8230;] En este caso, de forma totalmente original, se representa una tentaci\u00f3n carnal de modo general. La manzana que le ofrece una de las j\u00f3venes -como moderna Eva- al santo alude al pecado original, mientras que la que est\u00e1 a su espalda, acarici\u00e1ndole el cuello, deja ya ver su naturaleza demon\u00edaca en la forma de la cola de su traje, y el mono, s\u00edmbolo del demonio, tira de san Antonio -identificado como tal por el nimbo- para hacerle caer al suelo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Publicado em 31 de outubro de 2023<\/p>\n<p>Como citar: SCHNEIDER-BITTENCOURT, Sara. O feminino e as representa\u00e7\u00f5es do mau. In: <strong>Blog do POIEMA<\/strong>, Pelotas 31 out 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/blog-especial-mes-das-bruxas-o-feminino-e-as-representacoes-do-mau\/ Acessado em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sara Schneider-Bittencourt[1] A apari\u00e7\u00e3o constante de representa\u00e7\u00f5es a respeito da mulher-bruxa tem aberto discuss\u00f5es sobre as possibilidades de an\u00e1lise cultural e social relacionadas ao tema, as quais podem ser encontradas nos mais diversos espa\u00e7os, como em textos, manuscritos, produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, poemas, cinema, televis\u00e3o e arte. 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