{"id":5507,"date":"2023-07-25T12:00:24","date_gmt":"2023-07-25T15:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=5507"},"modified":"2023-12-10T23:46:18","modified_gmt":"2023-12-11T02:46:18","slug":"texto-cataros-em-foco-hereges-e-heresia-na-cruzada-albigense","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-cataros-em-foco-hereges-e-heresia-na-cruzada-albigense\/","title":{"rendered":"Texto: C\u00e1taros em Foco: Hereges e heresia na Cruzada Albigense"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Magda Rita Ribeiro de Almeida Duarte<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As sementes das cren\u00e7as dualistas que originaram o Catarismo, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, foram lan\u00e7adas nos B\u00e1lc\u00e3s por um certo exarca, Bogomil e suas ramifica\u00e7\u00f5es teriam feito um caminho de Leste a Oeste alcan\u00e7ando a Pen\u00ednsula It\u00e1lica e a Occit\u00e2nia, sul da Fran\u00e7a atual. Mas se o embri\u00e3o da f\u00e9 dos c\u00e1taros \u2013 termo proveniente do grego <em>katharos<\/em>, puro \u2013, surgira entre os b\u00falgaros, n\u00e3o pretendo aqui desnovelar sua propaga\u00e7\u00e3o at\u00e9 chegar na cren\u00e7a que se espalhara entre muitos occitanos. \u00a0Na verdade, esta conversa gira em torno das persegui\u00e7\u00f5es desses grupos tidos como her\u00e9ticos no cen\u00e1rio de lan\u00e7amento e do desenrolar da Cruzada Albigense (1209 \u2013 1229), nos territ\u00f3rios meridionais da antiga G\u00e1lia. E esse contexto revela uma complexa rede conceitual que, a depender da an\u00e1lise, conduz a diversos questionamentos sobre interpreta\u00e7\u00f5es consolidadas. Entre elas, os c\u00e1taros como os hereges, alvos da cruzada, a no\u00e7\u00e3o de heresia e a pr\u00f3pria ideia de cruzada s\u00e3o pass\u00edveis de investiga\u00e7\u00e3o. Este pequeno ensaio prop\u00f5e reflex\u00f5es sobre o catarismo a partir de uma revisita a cr\u00f4nicas sobre a Cruzada Albigense e algumas das perspectivas mais recorrentes na historiografia atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal quem foram os c\u00e1taros? Buscar uma defini\u00e7\u00e3o para esses homens e mulheres apontados como hereges mostra-se uma tarefa espinhosa, j\u00e1 que o assunto \u00e9 bastante controverso, pois n\u00e3o se trata de um grupo \u00fanico e delimitado. A pol\u00eamica marca debates profusos em que muitos chegam a questionar, como lembra Antonio Sennis (2016:1), \u201ca exist\u00eancia de um fen\u00f4meno medieval o qual possamos, legitimamente, chamar de \u2018Catarismo\u2019 \u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Portanto, em raz\u00e3o da complexidade da mat\u00e9ria, a viagem aqui ser\u00e1 mais curta, como disse. Eis alguns apontamentos a partir das cr\u00f4nicas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pierre des Vaux-de-Cernay, monge cisterciense, considerado pela tradi\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica como o maior propagandista da cruzada no Languedoc, j\u00e1 no in\u00edcio da sua cr\u00f4nica <em>Historia Albigensis<\/em> justifica a guerra deflagrada no Midi em 1209. E sua apologia \u00e0 Cruzada Albigense se fundamenta justamente na constru\u00e7\u00e3o de uma repulsiva imagem dos hereges, de seus defensores e apoiadores. Sim, hereges. O termo c\u00e1taro n\u00e3o aparece. Mesmo quando faz o que considera uma minuciosa descri\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as her\u00e9ticas, n\u00e3o menciona o catarismo. Ali\u00e1s, sabe-se que o termo n\u00e3o corresponde \u00e0 \u00e9poca e que foi fruto dos debates empreendidos por polemistas cat\u00f3licos modernos. (ROQUEBERT, 2006:29). O cronista lan\u00e7a m\u00e3o de termos pr\u00f3prios ao cap\u00edtulo da heresia tamb\u00e9m presentes em outros textos contempor\u00e2neos, descrevendo a cren\u00e7a dualista em dois criadores, um Deus benigno, no Novo Testamento, e outro maligno, nos livros veterotestament\u00e1rios. Desse modo, os mais diversos aspectos do Antigo Testamento, desde a Cria\u00e7\u00e3o do mundo at\u00e9 a vinda de Cristo, seriam atravessados pelo mal. Ainda, menciona reuni\u00f5es secretas nas quais se discutiria sobre a natureza divina e a humana de Cristo. O Cristo humano seria \u201cmau\u201d, tinha Maria Madalena como sua concubina, enquanto o Cristo \u201cbom\u201d, o divino, nunca teria assumido a forma humana e vindo a esse mundo, a menos de forma espiritual, no corpo de Paulo. Segundo Pierre, com mentiras, os hereges teriam seduzido cora\u00e7\u00f5es humildes contra a Igreja espalhando \u201co veneno de sua perf\u00eddia\u201d sobre a prov\u00edncia de Narbona. Por fim, descreve o que chama de pervers\u00e3o, em vez de convers\u00e3o, quando ocorria a ren\u00fancia a toda a f\u00e9 e ao pr\u00f3prio batismo na Igreja Romana. (PVC, \u00a7\u00a75-19). Pelos seus argumentos, desde esse in\u00edcio marcado pela den\u00fancia da heresia e dos hereges, sua audi\u00eancia seria facilmente convencida de que os cruzados n\u00e3o estariam na Occit\u00e2nia por outro motivo a n\u00e3o ser o de extirpar aqueles que atuavam pela desarmonia no seio da f\u00e9 crist\u00e3. Esse \u00e9 o lugar-comum da ret\u00f3rica presente em toda a narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outra obra, a <em>Chronica<\/em>, de Guilherme de Puylaurens, certamente, inspirada na <em>Historia Albigensis<\/em>, mas com uma abrang\u00eancia temporal maior, o cronista tamb\u00e9m n\u00e3o usa o termo c\u00e1taro e mobiliza vocabul\u00e1rio relativo a heresias para se referir \u00e0 deprava\u00e7\u00e3o her\u00e9tica que, segundo ele, tinha se espalhado pelas terras do Conde de Toulouse (no Languedoc). Os hereges teriam sua cren\u00e7a baseada na supersti\u00e7\u00e3o e na exalta\u00e7\u00e3o de Satan\u00e1s. Mas h\u00e1 um excerto bastante significativo para descrever os acusados de heresia. O relato traz um di\u00e1logo entre o bispo Foulque de Toulouse e um senhor occitano, P\u00f4ncio Ademar de Roudeille, que o cronista considerava \u201cum homem s\u00e1bio\u201d. P\u00f4ncio dizia n\u00e3o acreditar que Roma tivesse tantos argumentos eficazes contra os languedocianos.\u00a0 Foi questionado pelo prelado se ele reconhecia que os perseguidos n\u00e3o tinham for\u00e7a contra as obje\u00e7\u00f5es de Roma, ao que respondeu afirmativamente. Foulque ent\u00e3o inquiriu o motivo pelo qual os senhores n\u00e3o os perseguiam e n\u00e3o os expulsavam daquelas terras, ao que P\u00f4ncio Ademar respondeu: \u201c- N\u00e3o podemos. Nascemos com eles, e h\u00e1 muitos parentes entre eles, e n\u00f3s os vemos viver honradamente\u201d. Na sequ\u00eancia Guilherme de Puylaurens lan\u00e7a sua pr\u00f3pria an\u00e1lise sobre esse ponto: \u201cE assim o erro, com a apar\u00eancia de uma vida pura, arrastava os homens n\u00e3o prevenidos com a verdade\u201d. (GP, VIII, 49-51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora no mesmo par\u00e1grafo apare\u00e7a o termo \u201cherege\u201d, utilizado pelo cronista, nas falas que s\u00e3o atribu\u00eddas ao cavaleiro, o termo usado \u00e9 gen\u00e9rico <em>homines,<\/em> que alguns tradutores vertem para \u201cpovo\u201d, mas preferimos \u201chomens\u201d, pois parece evidenciar melhor sua humanidade na sua individualidade. Ao contr\u00e1rio do que ocorre quando s\u00e3o chamados de hereges, quando deles parece ser tirado o car\u00e1ter humano, atribuindo-lhes um perfil de maldade, de pervers\u00e3o, quase que sobrenaturais. Por esse fragmento, para muitos crist\u00e3os da Occit\u00e2nia, n\u00e3o havia cren\u00e7a her\u00e9tica de nome catarismo. Havia vida virtuosa, honrada. Embora Guilherme de Puylaurens reforce que essas percep\u00e7\u00f5es fossem pr\u00f3prias de pessoas imprevidentes, o cronista oferece a an\u00e1lise de que os homens meridionais n\u00e3o enxergavam seus conterr\u00e2neos da mesma maneira que os cruzados. Mais que isso, suas pr\u00e1ticas, seus costumes, suas rela\u00e7\u00f5es com a mat\u00e9ria de f\u00e9 n\u00e3o eram vistas como atos de blasf\u00eamia ou corrup\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o em si. Tudo parecia estar incorporado ao seu cotidiano, \u00e0 sua realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00f4nica <em>La Chanson de la Croisade Albigeoise, <\/em>conhecida como <em>Canso,<\/em> do religioso Guilherme de Tudela e continuada por um an\u00f4nimo, tamb\u00e9m revela sua vers\u00e3o sobre a \u201cquest\u00e3o albigense\u201d. Embora ambos se posicionem contrariamente \u00e0 heresia, o primeiro \u00e9 a favor daquelas campanhas militares e o segundo, explicitamente, contra. A figura de Raimundo VI, de Toulouse, se destaca, assim como em outras narrativas, pois teria sido contra ele que o Papa Inoc\u00eancio III lan\u00e7ara a Cruzada. No entanto, nas narrativas, o Conde n\u00e3o era visto como um herege, mas como um cavaleiro crist\u00e3o que n\u00e3o cumprira seu dever de defender a f\u00e9 &#8211; o de endurecer com seus vassalos tidos como hereges. Embora reconhecesse que os cruzados praticassem atos muito cru\u00e9is, Guilherme de Tudela critica as cren\u00e7as her\u00e9ticas e define dois tipos de transgressores: os que praticavam a heresia e aqueles que os apoiavam. (<em>Canso<\/em>, \u00a72)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao caracterizar os crentes, Guilherme emprega termos negativos, fortes, os quais associam aquelas pessoas ao nefasto e \u00e0 insanidade. Um exemplo marcante sobre isso \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o do s\u00edtio ao Castelo de Minerva, em que muitos hereges teriam sido queimados: \u201chomens fren\u00e9ticos de um tipo maligno, e mulheres loucas que gritavam entre as chamas. N\u00e3o sobrou nada deles. Jogaram lama sobre seus corpos para que seu cheiro n\u00e3o incomodasse as tropas\u201d. (<em>Canso, <\/em>\u00a749). A malignidade e a aus\u00eancia de ju\u00edzo ou a loucura seriam atributos inextingu\u00edveis daqueles que ca\u00edam no pecado da heresia. No discurso, n\u00e3o havia sa\u00edda para aqueles que se desorientassem no caminho das pr\u00e1ticas insanas da cren\u00e7a her\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua vez, o an\u00f4nimo, que de maneira envolvente continuou a <em>Canso<\/em>, revela as crueldades dos cruzados e as amea\u00e7as que eles representaram para os homens do Sul, para suas propriedades, mas, sobretudo, contra seus valores expressos na <em>Paratge<\/em>. Se os defensores da Cruzada mobilizavam seus argumentos a partir de um prisma moral e crist\u00e3o, a <em>Paratge<\/em> era definida pela <em>Canso <\/em>do an\u00f4nimo a partir de costumes e valores muito pr\u00f3prios \u00e0 regi\u00e3o da Occit\u00e2nia, mas nem por isso pouco clerical. Fiz essa an\u00e1lise em outro texto, onde observei que a \u201cveem\u00eancia contra o inimigo; bondade para com os seus; heran\u00e7as senhoriais antigas; sofrimento de persegui\u00e7\u00e3o, tanto pela Igreja quanto pelos bar\u00f5es do Norte s\u00e3o faces dos senhores languedocianos desenhadas pela Canso\u201d. (DUARTE, 2020: 60; CANSO, \u00a7154). Outras quest\u00f5es tamb\u00e9m marcavam os valores fundantes da <em>Paratge<\/em> como as rela\u00e7\u00f5es feudais distintas do chamado feudalismo \u201ct\u00edpico\u201d, pr\u00f3prio aos cavaleiros do norte da Fran\u00e7a, os direitos de heran\u00e7a n\u00e3o exclusivos \u00e0 primogenitura. \u00c9 instigante que os fundamentos eram galvanizados por valores que guardavam semelhan\u00e7as aos do cristianismo. Mart\u00edn Alvira Cabrer assim os sintetiza:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O valor aristocr\u00e1tico mais importante era Paratge (de \u201cpar\u201d, \u201cigual\u201d, \u201cparidade\u201d), um comp\u00eandio de virtudes religiosas e morais (cristianismo, merc\u00ea, mesura), sociais (cortesia, largueza, gozo da vida) e feudais (raz\u00e3o, direito, orgulho, valor) cuja pr\u00e1tica proporcionava uma condi\u00e7\u00e3o superior. (ALVIRA CABRER, 2008:12)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importante notar que o an\u00f4nimo emprega um discurso que convence uma audi\u00eancia que possu\u00eda valores crist\u00e3os enquanto enaltece, sem qualquer censura, a a\u00e7\u00e3o dos cavaleiros meridionais em defesa das suas terra e gente. Exalta figuras como Pedro II, rei de Arag\u00e3o, que saiu em defesa do seu vassalo Raimundo VI e o pr\u00f3prio Conde de Toulouse, com lugar de honra nas linhas do cronista occitano, revelando n\u00e3o somente a sua particular defer\u00eancia quanto \u00e0 do pr\u00f3prio Papa Inoc\u00eancio III ao receb\u00ea-los na S\u00e9 Apost\u00f3lica. E os c\u00e1taros? Eles n\u00e3o aparecem nos versos da <em>Canso <\/em>do an\u00f4nimo. H\u00e1 heresia, hereges, mas n\u00e3o h\u00e1 c\u00e1taros, para al\u00e9m do voc\u00e1bulo. Ainda, os grupos que s\u00e3o considerados her\u00e9ticos n\u00e3o s\u00e3o os mesmos citados pelas outras narrativas. Os defensores como o rei aragon\u00eas, o Senhor de Toulouse, entre outros, n\u00e3o aparecem com o \u2018carimbo da heresia\u2019. Na verdade, eles respondem, bravamente, a um ataque, a uma ofensa a seus valores, a <em>Paratge, <\/em>ao seu patrim\u00f4nio, a seus la\u00e7os de fidelidade. Mesmo quando se fala em heresia e hereges, parece mais um empr\u00e9stimo tomado do discurso cruzadista ouvido pelo cronista e das obras apolog\u00e9ticas que, certamente, ele lera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por uma breve an\u00e1lise das cr\u00f4nicas, embora \u201ccat\u00e1ro\u201d seja um termo conhecido desde a Antiguidade, catarismo como conceito aparece apenas posteriormente, como dito, por obra de autores crist\u00e3os que, de modo pejorativo, descrevem seu ideal de \u201cpureza\u201d. Ora, frequentemente, a historiografia emprega l\u00e9xico que define lances hist\u00f3ricos que ocorreram muito antes de serem formulados, muitas vezes amb\u00edguos e anacr\u00f4nicos. N\u00e3o s\u00f3 c\u00e1taros, mas Idade M\u00e9dia, Fran\u00e7a, franceses, feudalismo e at\u00e9 mesmo cruzada. (ROQUEBERT, 2006:29; FRANCO JUNIOR, 2018:7-9). Mas o problema em quest\u00e3o s\u00e3o os c\u00e1taros, independentemente da terminologia utilizada. Pelas narrativas, a pr\u00f3pria exist\u00eancia das pr\u00e1ticas her\u00e9ticas parece discut\u00edvel. E a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ao longo do tempo mostra que as interpreta\u00e7\u00f5es sobre a heresia c\u00e1tara tamb\u00e9m s\u00e3o muito pol\u00eamicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historiografia do catarismo e da Cruzada Albigense \u00e9 ampla e repleta de nuances. As interpreta\u00e7\u00f5es v\u00e3o desde as constru\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria nacional francesa e o compromisso da monarquia da Fran\u00e7a com o catolicismo, marginalizando a hist\u00f3ria da dissid\u00eancia religiosa ocorrida no s\u00e9culo XIII; passa pela disputa entre cat\u00f3licos e protestantes no ambiente reformista do s\u00e9culo XVI, quando os c\u00e1taros foram vistos como uma esp\u00e9cie de protestantismo primitivo ou, ao menos, um princ\u00edpio inspirador para os protestantes; atravessa toda a formula\u00e7\u00e3o nacional oitocentista; abarca discuss\u00f5es de cunho marxista ao longo do s\u00e9culo XX; alcan\u00e7a vers\u00f5es regionais que d\u00e3o voz a estudiosos occitanos a contrapelo da hist\u00f3ria consolidada pelo norte franc\u00eas e, por, fim chega ao s\u00e9culo XXI, ainda como um campo imensamente rico para investiga\u00e7\u00f5es dos historiadores da atualidade. (MACEDO, 2000:43-63).<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, h\u00e1 quem associe, de modo categ\u00f3rico, o catarismo a uma constru\u00e7\u00e3o oitocentista. Esse \u00e9 o caso, por exemplo, de Mark Gregory Pegg para quem n\u00e3o se poderia caracterizar tais ocorr\u00eancias como heresia, tampouco como um evento da Idade M\u00e9dia. Teria sido uma inven\u00e7\u00e3o de historiadores e especialistas em religi\u00e3o do final do s\u00e9culo XIX, assim como o pr\u00f3prio nome \u201cc\u00e1taro\u201d, segundo o autor, muito poucos hereges foram assim denominados no medievo. (PEGG <em>In: <\/em>SENNIS, 2016:21-28; SENNIS, 2016:4)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a heresia no Languedoc corresponde a um arcabou\u00e7o de argumentos anticlericais. Uma concep\u00e7\u00e3o desenvolvida por Julien Th\u00e9ry-Astruc, evidenciando que o problema maior n\u00e3o se restringia \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas tidas como desviantes, discordantes da Igreja. Com efeito, tratava-se de uma manifesta\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica ao controle clerical. Antonio Sennis observa que essa interpreta\u00e7\u00e3o de Th\u00e9ry-Astruc resulta na formula\u00e7\u00e3o de heresia como um ato de resist\u00eancia. Assinala ainda, nesse sentido, duas quest\u00f5es importantes: primeiro, que \u201cheresia sempre cont\u00e9m inst\u00e2ncias de descontentamento e protesto social\u201d e, segundo, \u201ca apropria\u00e7\u00e3o alternativa e cr\u00edtica da mensagem evang\u00e9lica como uma estrat\u00e9gia de resist\u00eancia e oposi\u00e7\u00e3o a ideias de grupos dominantes \u00e9 uma constante numa religi\u00e3o popular\u201d. (SENNIS, 2016:4)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos pesquisadores, o catarismo teria sido uma inven\u00e7\u00e3o \u201cdos poderes eclesi\u00e1sticos e mon\u00e1rquicos para se refor\u00e7ar gra\u00e7as \u00e0 figura do outro taxado de perigoso e demon\u00edaco\u201d, de acordo com Hil\u00e1rio Franco J\u00fanior (2018:7). Para esse autor, h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es diversas para se caracterizar a heresia c\u00e1tara considerando as v\u00e1rias regi\u00f5es em que ela ter-se-ia manifestado e as diferen\u00e7as que se acentuaram entre os distintos grupos que, posteriormente, foram compreendidos com identidades semelhantes, como um s\u00f3. Mas, embora o nome tenha sido uma \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d, o fen\u00f4meno n\u00e3o o teria sido, especialmente no Languedoc e em outras regi\u00f5es mais espec\u00edficas. (FRANCO J\u00daNIOR, 2018:7-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao estudar a Cruzada Albigense pelas cr\u00f4nicas e para al\u00e9m delas em outro trabalho (DUARTE, 2020), notei alguns aspectos que julgo importantes anotar aqui nesta breve conversa. Confrontei as narrativas, o epistol\u00e1rio de Inoc\u00eancio III \u2013 papa que lan\u00e7ou a suposta cruzada contra os hereges \u2013, cartul\u00e1rios, armoriais, genealogias, entre outros documentos e sustento que o catarismo, a heresia e seus crentes foram o que menos importou durante todas aquelas campanhas que ocorreram no Languedoc, entre 1209 e 1229, para a cruzada e para os cruzados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, porque a cruzada n\u00e3o foi lan\u00e7ada contra a heresia c\u00e1tara, mas contra a aristocracia laica regional, nomeadamente, o Conde de Toulouse, Raimundo VI, que confrontava os legados pontif\u00edcios provenientes do clero local \u2013 o interesse pelo conflito n\u00e3o nasce em Roma, mas na \u00e1rea em que se estabelecem os campos de batalha. O pretexto do lan\u00e7amento, sim, foi atrelado \u00e0 linguagem caracter\u00edstica \u00e0 quest\u00e3o da heresia; era o apoio e a neglig\u00eancia do Conde em rela\u00e7\u00e3o ao avan\u00e7o das pr\u00e1ticas her\u00e9ticas em seus territ\u00f3rios. Portanto, n\u00e3o defendo que tenha havido uma \u201cinven\u00e7\u00e3o da heresia\u201d c\u00e1tara como parte de um programa de centraliza\u00e7\u00e3o da Igreja Romana, a servi\u00e7o de um governo pontif\u00edcio teocr\u00e1tico a que, frequentemente, a tradi\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica faz refer\u00eancia. A quest\u00e3o n\u00e3o estava em Roma e sim no Midi. As pr\u00f3prias campanhas a que chamaram de Cruzada resultaram de interesses e de disputas de senhores laicos e eclesi\u00e1sticos que se enfrentavam naquele palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sequ\u00eancia, romantizados ou n\u00e3o, encontram-se vest\u00edgios do fen\u00f4meno religioso do catarismo e seus seguidores \u2013 crentes e cl\u00e9rigos \u2013 na documenta\u00e7\u00e3o, mesmo sendo ela de origem cat\u00f3lica. E embora os escritores cat\u00f3licos tenham buscado construir argumentos justificadores da cruzada a partir do catarismo, h\u00e1, nessas mesmas fontes hist\u00f3ricas uma quest\u00e3o singular: evid\u00eancias de que o herege poderia ser tamb\u00e9m aquele que n\u00e3o negociava na l\u00f3gica da <em>rerum convenientia<\/em>, qual seja a harmoniza\u00e7\u00e3o de interesses. Isso ocorreu, por exemplo, no caso de persegui\u00e7\u00f5es, deposi\u00e7\u00f5es e suspens\u00f5es de bispos, n\u00e3o alinhados \u00e0 nova elite eclesi\u00e1stica que se impunha no Midi no cen\u00e1rio da Cruzada Albigense. Interpretada dessa maneira, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de Cruzada pode ser questionada ou precisa se ajustar a uma elabora\u00e7\u00e3o muito mais ampla, complexa e at\u00e9 mais flex\u00edvel. Pelo que se sabe at\u00e9 ent\u00e3o e diante das in\u00fameras controv\u00e9rsias, a quest\u00e3o dos c\u00e1taros ainda render\u00e1 muitas discuss\u00f5es e definir sua exist\u00eancia ou inexist\u00eancia, sua inven\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, n\u00e3o fecha o assunto. H\u00e1 muitas indaga\u00e7\u00f5es que ficar\u00e3o a cargo de outros trabalhos, especialmente para aqueles que quiserem, na esteira de Revel (2000), conhecer a hist\u00f3ria \u201cao r\u00e9s-do-ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Edi\u00e7\u00f5es de Fontes Medievais Impressas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUILLAUME DE PUYLAURENS. <strong>Chronica Magistri Guillelmi de Podio Laurentii.<\/strong> DUVERNOY, Jean (Ed. e Trad.). Paris: Centre National de la Recherche Scientifique, 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUILHERME DE TUDELA E AN\u00d4NIMO. <strong>La Chanson de la Croisade Albigeoise.<\/strong> Por MARTIN-CHABOT, Eug\u00e8ne (Ed. e Trad.). 3 Volumes. Paris: \u201cLes Belles Lettres\u201d, 1976, 1972 e 1961.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUILHERME DE TUDELA E AN\u00d4NIMO. SHIRLEY, Janet (Ed. E Trad.). <strong>The song of the cathars wars:<\/strong> a history of Albigensian Crusade.William of Tudela and an Anonymous Successor. Ashgate Publishing Company, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIERRE DES VAUX-DE-CERNAY. Historia Albigensis. SIBLY, W. A.; SIBLY, M. D. (Ed. e Trad.). <strong>The History of the Albigensian Crusade. Peter of les Vaux-de-Cernay\u2019s Historia Albigensis.<\/strong> Woodbridge: The Boydell Press, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALVIRA CABRER, Mart\u00edn. <strong>Muret 1213<\/strong>: la batalla decisiva de la cruzada contra los c\u00e1taros. Barcelona: Ariel, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cathares en Languedoc. Toulouse: \u00c9ditions Privat, 1968. 334 p. (<em>Cahiers de Fanjeaux<\/em>, 3). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.persee.fr\/issue\/cafan_0575-061x_1968_act_3_1\">https:\/\/www.persee.fr\/issue\/cafan_0575-061x_1968_act_3_1<\/a>. Acesso em 03 Mai 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUARTE, Magda Rita Ribeiro de. <strong>Negociando com o Papa:<\/strong> uma hist\u00f3ria da Cruzada Albigense. Curitiba: Editora Appris, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCO JUNIOR, Hil\u00e1rio. Catarismo, uma manifesta\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica medieval. <strong>Topoi<\/strong>. Rio de Janeiro, v. 19, n. 38, p. 6-34, mai.\/ago. 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/topoi\/a\/CL7StZ55GTw39zBZnKycrxC\/?lang=pt#. Acesso em 26 Abr 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historiographie du catharisme. Toulouse: \u00c9ditions Privat, 1979. 454 p. (<em>Cahiers de Fanjeaux<\/em>, 14). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.persee.fr\/issue\/cafan_0575-061x_1979_act_14_1\">https:\/\/www.persee.fr\/issue\/cafan_0575-061x_1979_act_14_1<\/a>. Acesso em 03 Mai 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MACEDO, Jos\u00e9 Rivair. <strong>Heresia, cruzada e inquisi\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a medieval.<\/strong> Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REVEL, Jacques. A hist\u00f3ria ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o. In: LEVI, Giovanni. <strong>Heran\u00e7a imaterial<\/strong>: trajet\u00f3ria de um exorcista no Piemonte do s\u00e9culo XVII. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000, p. 7 \u2013 37.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ROQUEBERT, Michel. <strong>L\u2019\u00e9pop\u00e9e cathare. <\/strong>I. L\u2019invasion 1198 \u2013 1212. Paris: Privat et Perrin, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SENNIS, Antonio. <strong>Cathars in Question.<\/strong>The University of York, York Medieval Press, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutora em Hist\u00f3ria pela Universidade de Bras\u00edlia. <a href=\"mailto:magdarita@iftm.edu.br\">magdarita@iftm.edu.br<\/a>. http:\/\/lattes.cnpq.br\/8447542137204348<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Todas as tradu\u00e7\u00f5es feitas neste trabalho foram realizadas, livremente, por mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Jos\u00e9 Rivair Macedo fez um competente levantamento da historiografia do catarismo em sua obra <em>Heresia, cruzada e inquisi\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a Medieval<\/em>. Tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel para livre acesso na internet as excelentes colet\u00e2neas \u201cCathares en Languedoc\u201d e \u201cHistoriographie du Catharisme\u201d, da revista <em>Cahiers de Fanjeaux, <\/em>dispon\u00edveis no <a href=\"http:\/\/www.persee.fr\">www.persee.fr<\/a>, conforme indicado nas refer\u00eancias.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 25 de julho de 2023.<\/em><\/p>\n<p>Como citar: DUARTE, Magda Rita Ribeiro de Almeida. C\u00e1taros em Foco: Hereges e heresia na Cruzada Albigense. Blog do POIEMA. Pelotas 25 jul 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-cataros-em-foco-hereges-e-heresia-na-cruzada-albigense\/. Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CURTIU O TEXTO? VOC\u00ca TAMB\u00c9M PODER\u00c1 GOSTAR DE:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-historiografia-do-catarismo-a-querela-desconstrucionista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4345 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12-200x200.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12-200x200.png 200w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12-400x400.png 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12-1024x1024.png 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12-768x768.png 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12-750x750.png 750w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/files\/2022\/08\/Artes-dos-Textos-12.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magda Rita Ribeiro de Almeida Duarte[1] As sementes das cren\u00e7as dualistas que originaram o Catarismo, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, foram lan\u00e7adas nos B\u00e1lc\u00e3s por um certo exarca, Bogomil e suas ramifica\u00e7\u00f5es teriam feito um caminho de Leste a Oeste alcan\u00e7ando a Pen\u00ednsula It\u00e1lica e a Occit\u00e2nia, sul da Fran\u00e7a atual. 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