{"id":5222,"date":"2023-05-02T12:00:52","date_gmt":"2023-05-02T15:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=5222"},"modified":"2023-10-16T16:39:10","modified_gmt":"2023-10-16T19:39:10","slug":"um-tema-para-medievalistas-os-genios-no-isla","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/um-tema-para-medievalistas-os-genios-no-isla\/","title":{"rendered":"Texto: Um Tema para Medievalistas: Os g\u00eanios no Isl\u00e3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Celia Daniele Moreira de Souza<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Presentes no imagin\u00e1rio ocidental, os g\u00eanios possuem boa reputa\u00e7\u00e3o para aqueles que os associam ao que a Disney retratou em <em>Aladdin<\/em>, uma releitura contempor\u00e2nea da hist\u00f3ria contada no \u00e9pico ab\u00e1ssida <em>As Mil e Uma Noites<\/em> (s\u00e9cs. IX\/XV). Entretanto, para a religiosidade isl\u00e2mica ortodoxa e tamb\u00e9m para aqueles que tiveram contato com produ\u00e7\u00f5es audiovisuais \u00e1rabes, como a s\u00e9rie <em>Jinn<\/em>, dispon\u00edvel na Netflix, os g\u00eanios podem ter outras naturezas que v\u00e3o al\u00e9m da fanfarronice e da magia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno dos g\u00eanios, \u00e0 primeira vista, \u00e9 concernente \u00e0 cultura \u00e1rabe, mais propriamente \u00e0 era pr\u00e9-isl\u00e2mica (<em>Ja\u1e25iliya<\/em>), em que o mundo espiritual era compreendido e com o qual o homem podia interagir por meio da inspira\u00e7\u00e3o desses seres espirituais. Todavia, parece que a cren\u00e7a em g\u00eanios \u00e9 algo que se expande para al\u00e9m do pr\u00f3prio arcabou\u00e7o cultural \u00e1rabe. Isso porque ela se remete \u00e0 religiosidade animista da Antiguidade, tanto pela sua similitude com os seres m\u00e1gicos deste per\u00edodo que habitam o incognosc\u00edvel (como os <em>daimon<\/em>), como tamb\u00e9m pela possibilidade de o termo ter sido \u201cemprestado\u201d do latim \u201c<em>genius<\/em>\u201d (MA\u00cdLLO SALGADO, 2019, 620). Compartilhados ou n\u00e3o com as cren\u00e7as animistas antigas, o conceito e a cren\u00e7a religiosa em g\u00eanios hoje se fazem presente por meio do Isl\u00e3, religi\u00e3o nascida na Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica no s\u00e9c. VIII; e \u00e9 por meio desta apropria\u00e7\u00e3o que compreendemos e relemos a figura dos g\u00eanios no per\u00edodo medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes do advento do Isl\u00e3, a espiritualidade \u00e1rabe era marcada por um polite\u00edsmo aut\u00f3ctone, ainda que houvesse muitos sincretismos com outras religi\u00f5es pag\u00e3s, como com o pante\u00e3o greco-romano, sobretudo na regi\u00e3o Norte (SOURDEL, 2014, 19). O que nos foi legado da experi\u00eancia cultural e religiosa dessa \u00e9poca \u00e9 apreendido pelos relatos trazidos no pr\u00f3prio Alcor\u00e3o e na <em>Sunna<\/em>, esta assentada nos <em>a\u1e25\u0101d\u012b\u1e6f<\/em>, a chamada \u201cTradi\u00e7\u00e3o\u201d (G\u00d3MEZ GARC\u00cdA, 2009, 309); e pela antologia de sete poesias remanescentes do per\u00edodo pr\u00e9-isl\u00e2mico, as <em>Muallaqat<\/em> (MUSSA, 2006, 9-10). Ao mesmo tempo, muito deste passado \u00e9 reconstru\u00eddo por meio da Arqueologia e tamb\u00e9m no estudo comparativo entre sociedades pr\u00f3ximas que trocaram profundamente com a Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica, como a et\u00edope e a romana (SOURDEL, 2014, 11-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No estudo da era pr\u00e9-isl\u00e2mica, notamos que os g\u00eanios possu\u00edam uma atua\u00e7\u00e3o flu\u00edda, ora sendo agentes independentes do mundo invis\u00edvel, ora se confundindo com os esp\u00edritos dos ancestrais (MOREMAN, 2016, 5). Essa percep\u00e7\u00e3o muda com o surgimento do Isl\u00e3, o qual vai definir uma categoria pr\u00f3pria para eles, assim como tamb\u00e9m vai us\u00e1-los para explicar tanto aspectos da espiritualidade do pr\u00f3prio povo \u00e1rabe como tamb\u00e9m de povos estrangeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a f\u00e9 isl\u00e2mica, Deus teria criado apenas tr\u00eas seres intelig\u00edveis: os anjos, os g\u00eanios e os homens. Os anjos, criados da luz, t\u00eam sua cria\u00e7\u00e3o mencionada na <em>Sunna<\/em> (SAHIH MUSLIM, 2996). E os homens e os g\u00eanios t\u00eam sua cria\u00e7\u00e3o citada no Alcor\u00e3o: os homens teriam sido criados do \u201cbarro mold\u00e1vel\u201d e do \u201cs\u00eamen divino\u201d (ALCOR\u00c3O, 55:14, 15:26 e 76:2); e os g\u00eanios foram criados do \u201cfogo puro\u201d e do \u201cfogo sem fuma\u00e7a\u201d (ALCOR\u00c3O 15:27 e 55:15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a defini\u00e7\u00e3o de sua natureza, os g\u00eanios n\u00e3o poderiam mais ser confundidos com esp\u00edritos de homens e tampouco com os anjos. Percebe-se que a primeira associa\u00e7\u00e3o foi duramente combatida, j\u00e1 que a cria\u00e7\u00e3o dos g\u00eanios e dos homens aparece diferenciada de forma conjunta, o que evidencia a cren\u00e7a pr\u00e9-isl\u00e2mica em relacionar os g\u00eanios aos ancestrais. J\u00e1 a segunda associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava presente no imagin\u00e1rio \u00e1rabe, e sim na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, da qual o Isl\u00e3 se erige como herdeiro e reformador. Aqui entra uma fus\u00e3o curiosa de ambas as culturas: a figura de L\u00facifer relida como o g\u00eanio Iblis. Enquanto para judeus e crist\u00e3os, L\u00facifer \u00e9 um anjo ca\u00eddo, para os mu\u00e7ulmanos, anjos n\u00e3o poderiam \u201ccair\u201d porque seguem incontestadamente a vontade de Deus (ALCOR\u00c3O 66:6) e n\u00e3o possuem livre arb\u00edtrio como os homens e os g\u00eanios (ALCOR\u00c3O 7:179 e: 17:15). Dessa forma, anjos n\u00e3o poderiam trair a Deus, e L\u00facifer\/Iblis \u00e9 considerado um g\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o conta que Iblis era um g\u00eanio t\u00e3o estimado por Deus, que subiu aos c\u00e9us para viver ao lado dos anjos (AL-ASHQAR, 2003, 40). Mas isso mudou: ao criar o primeiro homem, Ad\u00e3o, Deus ordenou que todos os anjos e Iblis se prostrassem diante de sua nova criatura, e Iblis n\u00e3o teria acatado tal ordem por soberba (ALCOR\u00c3O 18:50). Esta revolta o levou a ser expulso do para\u00edso e a ser considerado o primeiro dem\u00f4nio ou <em>shaytan<\/em>, Satan\u00e1s. Aqui vemos a primeira rela\u00e7\u00e3o entre g\u00eanios e dem\u00f4nios, mas ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples: ainda que o primeiro dem\u00f4nio tenha sido um g\u00eanio por sua desobedi\u00eancia a Deus, os g\u00eanios n\u00e3o s\u00e3o todos dem\u00f4nios. Segundo a f\u00e9 isl\u00e2mica, apenas aqueles que escolhem o \u201ccaminho do mal\u201d, isto \u00e9, se desviam da vontade de Deus, s\u00e3o dem\u00f4nios. No Isl\u00e3, os <em>shaytan<\/em>, liderados por Iblis, t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de afastar a humanidade dos des\u00edgnios divinos (AL-ASHQAR, 2003, 104).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas e os demais g\u00eanios? Bom, para os mu\u00e7ulmanos, os g\u00eanios est\u00e3o entre n\u00f3s como em um mundo paralelo, invis\u00edvel aos olhos humanos, com cidades, sociedades e estruturas pr\u00f3prias (EL-ZEIN, 2009, 15-16).<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Diferentemente dos humanos, os g\u00eanios podem nos ver e podem se aproximar de n\u00f3s se quiserem. Al\u00e9m disso, os g\u00eanios s\u00e3o dotados de poderes que os assemelham muito ao que conhecemos na cultura pop como \u201csuper-her\u00f3is\u201d, sendo capazes de realizar feitos not\u00e1veis, como: percorrer milhares de quil\u00f4metros em poucos segundos (teletransporte); voar; se metamorfosear em animais e em humanos (inclusive casar com humanos); viver por centenas de anos; fazer magia; ler mentes, etc. Por causa destas altas habilidades, segundo o Isl\u00e3, muitas pessoas passaram a adorar aos g\u00eanios em vez de a Deus, por isso \u00e9 altamente recomendado n\u00e3o entrar em contato com eles. Outrossim, para os mu\u00e7ulmanos, apenas a um homem foi dada permiss\u00e3o de lidar e dominar os g\u00eanios: Salom\u00e3o. Esta figura, por sinal, tamb\u00e9m pertencente \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, ganha ares espetaculares na tradi\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana: no Alcor\u00e3o, se menciona que ele possu\u00eda a capacidade de se comunicar com g\u00eanios e com p\u00e1ssaros, possuindo ex\u00e9rcitos de ambos; podia controlar o vento e submeter os g\u00eanios com a permiss\u00e3o de Deus (ALCOR\u00c3O, 27:16-17 e 34:12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerar que apenas Salom\u00e3o teve \u201cautoriza\u00e7\u00e3o\u201d para subjugar os g\u00eanios faz todo sentido na \u00f3tica isl\u00e2mica para desencorajar aqueles que queiram os favores de um g\u00eanio. Isso porque os g\u00eanios n\u00e3o teriam nenhuma obriga\u00e7\u00e3o para com o homem que lhes invocassem, podendo atender aos caprichos humanos tamb\u00e9m por vaidade. Como comentamos, os g\u00eanios possuem livre-arb\u00edtrio, assim, eles poderiam se corromper, tornando-se dem\u00f4nios se buscassem atender ao seu ego e afastar o homem da f\u00e9 isl\u00e2mica (ALCOR\u00c3O, 6:128-130). Evitar essas colabora\u00e7\u00f5es \u00e9 uma maneira de garantir a salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 dos humanos, mas tamb\u00e9m dos g\u00eanios, pois ambos podem ir tanto para o c\u00e9u como para o inferno ap\u00f3s a sua morte (EL-ZEIN, 2009, 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa condi\u00e7\u00e3o de que tanto os homens como os g\u00eanios podem ser salvos ou condenados \u00e9 um aspecto muito interessante da religiosidade isl\u00e2mica, pois, ineditamente na linha da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, a mensagem divina n\u00e3o se dirigiria somente \u00e0 humanidade. H\u00e1 um cap\u00edtulo no Alcor\u00e3o intitulado \u201cOs G\u00eanios\u201d, que fala diretamente com eles e trata justamente da submiss\u00e3o ao Isl\u00e3 (ALCOR\u00c3O, 72). A conjuga\u00e7\u00e3o em \u00e1rabe neste cap\u00edtulo atende ao modo dual, isto \u00e9, suas preceptivas se dirigem a dois seres: homens e g\u00eanios, para que se arrependessem e se islamizassem (EL-ZEIN, 2009, 13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa semelhan\u00e7a entre homens e g\u00eanios \u00e9 o que torna sua rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3xima no imagin\u00e1rio \u00e1rabe. E, para os mu\u00e7ulmanos, os g\u00eanios n\u00e3o seriam indiferentes \u00e0s atividades humanas, tendo convivido por muitos s\u00e9culos em apoio m\u00fatuo (EL-ZEIN, 2009, XV). A ajuda de um g\u00eanio n\u00e3o o tornaria automaticamente um \u201cdem\u00f4nio\u201d, h\u00e1 passagens na tradi\u00e7\u00e3o que narram sobre bons g\u00eanios que ajudaram pessoas, como no caso de Salom\u00e3o e tamb\u00e9m em <em>a\u1e25\u0101d\u012b\u1e6f<\/em> que contam de g\u00eanios admoestando polite\u00edstas a favor do Isl\u00e3 (AL-ASHQAR, 2003, 96-97).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que h\u00e1 na literatura \u00e1rabe tantos exemplos de rela\u00e7\u00f5es entre g\u00eanios e humanos, como em <em>As Mil e Uma Noites<\/em>, e tamb\u00e9m em relatos sufis, em que os bons g\u00eanios t\u00eam sua generosidade atribu\u00edda a Deus (EL-ZEIN, 2009, 30). Na Idade M\u00e9dia \u00e9 quando se v\u00ea uma alta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e religiosa sobre os g\u00eanios, o que demonstra como a sua express\u00e3o cultural extrapolou o territ\u00f3rio \u00e1rabe e se arraigou ao mundo isl\u00e2mico como um todo, compondo novas percep\u00e7\u00f5es e ressignifica\u00e7\u00f5es. \u00c9 interessante, ainda, constatar que na literatura medieval, os g\u00eanios s\u00e3o muito semelhantes aos homens n\u00e3o s\u00f3 quanto \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m quanto a suas paix\u00f5es, quest\u00f5es e interesses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os contos das <em>Mil e Uma Noites<\/em> s\u00e3o excelentes exemplos para analisar o imagin\u00e1rio medieval (cl\u00e1ssico e p\u00f3s-cl\u00e1ssico<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>) sobre os g\u00eanios, os quais aparecem tanto como bons ou maus \u2013 ou ainda, amb\u00edguos, tal qual o ser humano. A t\u00e3o famosa aventura de Aladdin mencionada aqui no in\u00edcio de nosso artigo, considera-se ter sido inserida no comp\u00eandio de hist\u00f3rias das <em>Mil e Uma Noites<\/em> por volta do s\u00e9c. XV e originalmente se tratava de um relato bem distinto daquele apresentado nas produ\u00e7\u00f5es de Hollywood (JAROUCHE, 2012, 499). O enredo teria sido adaptado de um conto sobre uma l\u00e2mpada m\u00e1gica, onde habitava um g\u00eanio, o qual concede seus servi\u00e7os a um jovem alfaiate para conquistar o amor de uma princesa. Tal relato n\u00e3o possui qualquer reproche quanto \u00e0 ajuda do g\u00eanio, e este apenas auxilia o jovem porque sua l\u00e2mpada foi bem cuidada por ele, diferentemente de usu\u00e1rios humanos anteriores, os quais foram implacavelmente degolados pelo g\u00eanio (AN\u00d4NIMO, 2012, 505).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na colet\u00e2nea, tamb\u00e9m aparecem relatos de g\u00eanias, sendo digno de men\u00e7\u00e3o um de uma g\u00eania que sequestrou um beb\u00ea para cria-lo como seu filho (AN\u00d4NIMO, 2007, 129). A <em>Sunna<\/em> alerta sobre redobrar a aten\u00e7\u00e3o no cuidado de crian\u00e7as, sobretudo \u00e0 noite, pelo perigo dos g\u00eanios as roubarem (SAHIH AL-BUKHARI, 3316). Entretanto, na trama medieval, o sequestro do beb\u00ea humano leva a ele a crescer como um adulto extremamente rico e sempre cuidado por sua \u201cm\u00e3e\u201d ou \u201csenhora\u201d g\u00eania, o que garante seu casamento e o de seu filho com poderosas princesas (AN\u00d4NIMO, 2007, 130-134).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, h\u00e1 contos em que os g\u00eanios n\u00e3o realizam nenhuma benesse aos seres humanos. \u00c9 o que podemos encontrar na hist\u00f3ria que motiva o rei Shahriyar a assassinar a cada noite uma esposa para n\u00e3o ser tra\u00eddo, at\u00e9 a chegada de Sherazade com fant\u00e1sticas narrativas encadeadas que durar\u00e3o mil e uma noites. Neste relato, o rei Shahriyar est\u00e1 vagando sem rumo, ap\u00f3s ter sido tra\u00eddo por sua primeira esposa, at\u00e9 se deparar com um g\u00eanio gigante saindo do mar. Curiosamente, tal g\u00eanio havia sequestrado e mantido cativa uma jovem mulher dentro de um ba\u00fa, e ela, para se vingar dele por seu destino, aproveitava-se quando ele dormia para o trair com todo homem que encontrava em seu caminho. Por presenciar tal fato \u2013 um ser t\u00e3o amedrontador e poderoso como um <em>ifrit<\/em> sendo enganado \u2013 o rei Shahriyar considerou que nenhuma mulher era digna de confian\u00e7a (AN\u00d4NIMO, 2005, 46-49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que, tanto esta hist\u00f3ria, como a que mencionaremos a seguir, demonstram que n\u00e3o \u00e9 uma \u201csordidez\u201d das mulheres que enganaria at\u00e9 \u201cpoderosos g\u00eanios\u201d, mas a presen\u00e7a de uma certa limita\u00e7\u00e3o cognitiva deles. Segundo Sherazade, havia um pescador muito pobre que lan\u00e7ava sua rede exatamente quatro vezes no mar para encontrar seu sustento. No entanto, certa vez acabou \u201cpescando\u201d um vaso de cobre lacrado com chumbo. Ao abri-lo, o pescador acaba libertando um g\u00eanio do mar (<em>ifrit<\/em>), que havia sido aprisionado por Salom\u00e3o; mas diferentemente do g\u00eanio da l\u00e2mpada, este n\u00e3o deseja ajudar seu libertador, sen\u00e3o mat\u00e1-lo. Como gesto de \u201cgenerosidade\u201d, o g\u00eanio n\u00e3o o mata imediatamente, oferecendo-lhe a condi\u00e7\u00e3o de escolher como ser\u00e1 a sua morte. O pescador, contudo, argumenta engenhosamente com o g\u00eanio, lan\u00e7ando d\u00favidas se havia mesmo o libertado, j\u00e1 que o g\u00eanio seria \u201cgrande demais\u201d para caber no vaso. Para comprovar que havia sa\u00eddo do vaso, o g\u00eanio entra de novo nele, o que d\u00e1 a chance para o pescador fechar a sa\u00edda, aprisionando-o mais uma vez (AN\u00d4NIMO, 2005, 71-77). Essa esp\u00e9cie de \u201cestupidez\u201d dos g\u00eanios seria justificada por sua incapacidade de imagina\u00e7\u00e3o, uma faculdade apenas presente nos humanos (EL-ZEIN, 2009, 24). Assim, vemos, que nos relatos liter\u00e1rios medievais (cl\u00e1ssicos e p\u00f3s-cl\u00e1ssicos), os g\u00eanios ajudam por sua pr\u00f3pria vontade e interesse, n\u00e3o havendo de antem\u00e3o uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 isl\u00e2mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os relatos sufis medievais tamb\u00e9m aportam curiosas interpreta\u00e7\u00f5es sobre o mundo dos g\u00eanios. Por exemplo, v\u00e1rios sufis cl\u00e1ssicos como Al-Hallaj (858-922), \u2018Ayn al-Qu\u1e0d\u0101t Hamad\u0101n\u012b (1098-1031) e Faridudin (1145-1221) defendiam que Iblis, na verdade, era o servo mais fiel de Deus e a sua n\u00e3o-prostra\u00e7\u00e3o diante de Ad\u00e3o era o s\u00edmbolo de seu \u201cmonote\u00edsmo puro\u201d (RUSTOM, 2020, 68-89). Todavia, essa vis\u00e3o n\u00e3o era compartilhada por todos os sufis. O famoso Rumi (1207-1273) viria a comentar tal teoria na sua importante obra <em>Masnavi<\/em>, expondo inclusive a ideia em voga de que Iblis fora um \u201canjo\u201d e n\u00e3o um \u201cg\u00eanio\u201d (RUMI, 2007, 153). No entanto, a instrumentaliza\u00e7\u00e3o deste tema em Rumi sugere mais uma resposta \u00e0s alega\u00e7\u00f5es sufis de sua \u00e9poca, e n\u00e3o a sua concord\u00e2ncia, uma vez que seu poema acaba por considerar essa defesa mais uma \u201csedu\u00e7\u00e3o sat\u00e2nica\u201d que uma verdade religiosa (RUSTOM, 2020, 68).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o com Iblis, os sufis tamb\u00e9m se detiveram em compreender o mundo metaf\u00edsico, onde vivem os g\u00eanios. Isto porque o sufismo valoriza profundamente o \u201coculto\u201d, considerando que a mensagem divina se reveste de uma teosofia herm\u00e9tica, a qual \u00e9 acessada por meio da ilumina\u00e7\u00e3o (\u2018<em>irfan<\/em>) (MAHFOUD e GEOFFROY, 1999, 17). Dessa forma, um sufi para alcan\u00e7ar a \u201cverdade\u201d (<em>haqiqa<\/em>) deve se voltar para dentro de si mesmo, havendo in\u00fameros rituais e h\u00e1bitos que o permitem tal tarefa, como o ascetismo \u2013 o abandono da vida em sociedade, e a entrega a experi\u00eancias de \u00eaxtase (K\u00dcHNER, 2023, 235-236). Assim, ao fazer tal \u201cviagem\u201d ao mundo \u201coculto\u201d, fatalmente o sufi ter\u00e1 de lidar com os seres que a\u00ed habitam, havendo a preocupa\u00e7\u00e3o em saber distinguir o mundo extrassensorial da pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o (EL-ZEIN, 2009, 8). Ibn \u2018Arabi (1165-1240) foi um sufi que se dedicou a esta quest\u00e3o, pois para ele, a vis\u00e3o do homem n\u00e3o estava apenas nos olhos, podendo provir tamb\u00e9m do cora\u00e7\u00e3o e da f\u00e9. Ele dizia que podia ver os g\u00eanios por meio do cora\u00e7\u00e3o, possuindo a\u00ed um canal de uma comunica\u00e7\u00e3o com eles (EL-ZEIN, 2009, 23). Al\u00e9m disso, Ibn \u2018Arabi dissertou sobre o mundo dos g\u00eanios, narrando suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas e sociais, e analisando sua rela\u00e7\u00e3o com o homem em sua obra-prima <em>Fut\u016bh\u0101t al-Makkiyya<\/em> (<em>As Revela\u00e7\u00f5es Mequenses<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, vemos que h\u00e1 muito material para que os medievalistas possam se debru\u00e7ar para compreender as leituras e interpreta\u00e7\u00f5es que os mu\u00e7ulmanos fizeram da cren\u00e7a nos g\u00eanios. \u00c9 importante reiterar que a express\u00e3o da religiosidade isl\u00e2mica \u00e9 bem diversa, e as compreens\u00f5es de mundo variam conforme o grupo a que nos referimos. \u00c9 por isso que vemos no Isl\u00e3 Ortodoxo, mais influente no mundo \u00e1rabe atualmente, apenas a vis\u00e3o de g\u00eanios maus quando em contato com o ser humano, algo que difere das vis\u00f5es folcl\u00f3ricas e m\u00edsticas, as quais eram mais destacadas nos per\u00edodos cl\u00e1ssico e p\u00f3s-cl\u00e1ssico. Ainda assim, todas estas vers\u00f5es s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es genu\u00ednas da f\u00e9 mu\u00e7ulmana, que est\u00e3o submetidas a contextos, \u00e9pocas, pol\u00edticas e escolas teol\u00f3gicas pr\u00f3prias, que as moldam em discursos diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medievalista deve ter aten\u00e7\u00e3o e cuidado ao lidar com essas vari\u00e1veis, que, ao final, enriquecem profundamente seu trabalho. Por exemplo, analisar como os g\u00eanios possuem rela\u00e7\u00f5es distintas com a humanidade, de acordo com o grupo religioso que os retrata; ou ainda como a vis\u00e3o dos g\u00eanios \u00e9 instrumentalizada hoje em dia em filmes de terror \u00e1rabes, algo que para o imagin\u00e1rio ocidental surpreende, mas que tem fundamento na tradi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica compilada dos s\u00e9cs. VII, VIII e IX. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel comparar a narrativa cor\u00e2nica com a representa\u00e7\u00e3o dos g\u00eanios na literatura \u00e1rabe cl\u00e1ssica; e at\u00e9 mesmo estabelecer compara\u00e7\u00f5es transculturais \u2013 ainda que cautelosas, pelo risco do anacronismo \u2013 entre g\u00eanios e religiosidades que n\u00e3o sejam mu\u00e7ulmanas. De toda forma, o campo \u00e9 amplo para analisar os g\u00eanios, um grupo t\u00e3o importante no imagin\u00e1rio e na religi\u00e3o isl\u00e2mica no per\u00edodo medieval.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AL-ASHQAR, Omar Sulaiman. <strong>El Mundo de los genios y los demonios a luz del Cor\u00e1n y la Sunnah<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Muhammad Isa Garc\u00eda. Riad: International Islamic Publishing House, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALCOR\u00c3O SAGRADO. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.arresala.org.br\/alcorao-sagrado\">https:\/\/www.arresala.org.br\/alcorao-sagrado<\/a> Acessado em 26 Mar\u00e7o 2023<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EL-ZEIN, Amira. <strong>Islam, Arabs and the Intelligent World of the Jinn<\/strong>. Nova Iorque: Syracuse University Press, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00d3MEZ GARC\u00cdA, Luz. <strong>Diccionario de islam e islamismo<\/strong>. Madrid: Espasa Calpe, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">K\u00dcHNER, Alinde Gadelha. Uma introdu\u00e7\u00e3o ao sufismo. In: BORGONGINO, Bruno Uchoa (org.). <strong>Para al\u00e9m do Ocidente Crist\u00e3o<\/strong>. Outras Idades M\u00e9dias? Recife: Ed. UFPE, 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAHFOUD, A e GEOFFROY, M. Apresenta\u00e7\u00e3o. In: AL-JABRI, M. <strong>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da Raz\u00e3o \u00c1rabe<\/strong>. S\u00e3o Paulo: UNESP, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MA\u00cdLLO SALGADO, Felipe. Los genios (\u0177inn) en la tradici\u00f3n \u00e1rabo-isl\u00e1mica. In: YILDIZ, Efrem (org.). <strong>Et Amicorum<\/strong>. Estudios en honor al Profesor Carlos Carrete Parrondo. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MOREMAN, C. Rehabilitating the Spirituality of Pre-Islamic Arabic: One the of the K\u0101hin, the Jinn, and the Tribal Ancestral Cult. <strong>Journal of Religious History<\/strong>, n. 41, p. 1-21. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/1467-9809.12383\">https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/1467-9809.12383<\/a> Acessado em 26 Mar\u00e7o 2023.<\/p>\n<p><strong>OS POEMAS SUSPENSOS<\/strong>: Al-Muallaqat. Tradu\u00e7\u00e3o de Alberto Mussa. Rio de Janeiro: Record, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUMI. <strong>Masnavi<\/strong>. Livro II. Tradu\u00e7\u00e3o de Jawid Mojaddedi. Nova York: Oxford University Press, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUSTOM, Mohammed. Devil\u2019s Advocate: \u02bfAyn al-Qu\u1e0d\u0101t\u2019s Defence of Iblis in Context. <strong>Studia Islamica<\/strong>, n\u00ba 115, 2020, pp. 65-100<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAHIH AL-BUKHARI. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/sunnah.com\/bukhari\">https:\/\/sunnah.com\/bukhari<\/a> Acessado em 27 Mar\u00e7o 2023<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAHIH MUSLIM. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/sunnah.com\/muslim\">https:\/\/sunnah.com\/muslim<\/a> Acessado em 26 Mar\u00e7o 2023<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOURDEL, Dominique. <strong>Hist\u00f3ria do Povo \u00c1rabe<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de C\u00e2ndida Leite Georgepoulos. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2014.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Doutora em Hist\u00f3ria Social pela UFRJ (<a href=\"mailto:celia.daniele@yahoo.com.br\">celia.daniele@yahoo.com.br<\/a>). <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0478642590325452\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/0478642590325452<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Os dem\u00f4nios tamb\u00e9m podem habitar os corpos humanos, \u201c<em>percorrendo suas veias como sangue<\/em>\u201d (AL-ASHQAR, 2003, 67).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A temporalidade no mundo \u00e1rabe \u00e9 dividida entre: Ja\u1e25iliya ou \u201cEra da Ignor\u00e2ncia\u201d (At\u00e9 a H\u00e9gira em 622); Per\u00edodo Cl\u00e1ssico (622 \u2013 1258), Per\u00edodo P\u00f3s-Cl\u00e1ssico (1258 \u2013 1798) e Per\u00edodo Moderno (1798 at\u00e9 hoje).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 02 de maio de 2023.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> SOUZA, C\u00e9lia Daniele Moreira de. Um Tema para Medievalistas: Os g\u00eanios no Isl\u00e3. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas 02 mai 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/um-tema-para-medievalistas-os-genios-no-isla\/ Acessado em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celia Daniele Moreira de Souza[1] &nbsp; Presentes no imagin\u00e1rio ocidental, os g\u00eanios possuem boa reputa\u00e7\u00e3o para aqueles que os associam ao que a Disney retratou em Aladdin, uma releitura contempor\u00e2nea da hist\u00f3ria contada no \u00e9pico ab\u00e1ssida As Mil e Uma Noites (s\u00e9cs. IX\/XV). 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