{"id":4925,"date":"2023-03-21T12:34:07","date_gmt":"2023-03-21T15:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=4925"},"modified":"2023-04-03T23:15:27","modified_gmt":"2023-04-04T02:15:27","slug":"texto-cifras-tintas-invisiveis-e-anjos-planetarios-por-uma-historia-do-segredo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-cifras-tintas-invisiveis-e-anjos-planetarios-por-uma-historia-do-segredo\/","title":{"rendered":"Texto Cifras, Tintas Invis\u00edveis e Anjos Planet\u00e1rios: Por uma Hist\u00f3ria do Segredo\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Francisco de Paula Souza de Mendon\u00e7a J\u00fanior<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos em uma \u00e9poca de superexposi\u00e7\u00e3o: seja de ideias, seja de a\u00e7\u00f5es ou de imagens. As redes sociais tendem a criar um estado de aparente superpubliciza\u00e7\u00e3o social. Existe uma sensa\u00e7\u00e3o de que aquilo que n\u00e3o \u00e9 exposto n\u00e3o foi de fato vivenciado. \u00c9 preciso que se saiba o que e como comemos, aonde e com quem fomos, compartilhar nossos momentos e pensamentos mais \u00edntimos. Reativamente, a intimidade \u00e9 igualmente supervalorizada. Estamos cercados por muralhas de senhas e <em>firewalls<\/em>, sempre temerosos que a publiciza\u00e7\u00e3o de nossas vidas saia de nosso controle. Contudo, n\u00e3o vivemos algo necessariamente novo, mas uma superlativiza\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o social t\u00e3o poderosa quanto antiga: as dan\u00e7as entre segredo e sigilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao defendermos uma hist\u00f3ria do segredo, n\u00e3o podemos deixar de apontar que se trata da hist\u00f3ria de um fracasso. Como j\u00e1 discuti anteriormente em outros trabalhos (MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, 2014; MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, 2017), s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel tomarmos o segredo como objeto de estudo pois ele fracassou em seu intento original, isto \u00e9, manter-se fora do nosso alcance. Isso pode ser resultado de falha t\u00e9cnica, ou seja, o emprego equivocado de t\u00e9cnicas de sigilo; contudo, pode haver uma dimens\u00e3o de intencionalidade. O segredo pode ter sido tornado p\u00fablico por uma trai\u00e7\u00e3o daqueles a quem foi confiado ou vitimado pelas imprevis\u00edveis a\u00e7\u00f5es de seus maiores inimigos: a Fortuna e a \u00e2nsia por gl\u00f3ria. De toda forma, que n\u00e3o desapare\u00e7a das vistas de quem se interessar em pesquisar a dimens\u00e3o social do segredo que estar\u00e1 \u00e0s voltas com um fracasso e suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma preocupa\u00e7\u00e3o igualmente central ao investigar tal tem\u00e1tica lida diretamente com uma quest\u00e3o tamb\u00e9m presente em outras searas da pesquisa hist\u00f3rica, ou seja, como empregar o vocabul\u00e1rio enquanto ferramenta de an\u00e1lise. A maior parte da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre o tema ainda tem como l\u00edngua de trabalho o ingl\u00eas. Isso possibilita a tais investigadores adotar uma terminologia com o mesmo radical: <em>secret<\/em>, <em>secrecy<\/em> e <em>secretiveness<\/em>. Pode-se entender que <em>secret<\/em> \u00e9 aquilo que se deseja manter secreto, <em>secrecy<\/em> como as a\u00e7\u00f5es para manter isso secreto e <em>secretiveness<\/em> como a qualidade de algo ou algu\u00e9m em manifestar ou exercer <em>secrecy<\/em>. Quando temos como l\u00edngua de trabalho o portugu\u00eas, se ausenta a possibilidade de adotar termos com um mesmo radical origin\u00e1rio. Assim sendo, a solu\u00e7\u00e3o que utilizamos e propomos \u00e9 empregar um conjunto de voc\u00e1bulos que partilhem a mesma fam\u00edlia etimol\u00f3gica. Portanto, para <em>secret<\/em> ter\u00edamos Segredo, para <em>secrecy<\/em> sigilo e para <em>secretiveness<\/em> adotar\u00edamos secretismo (MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, 2017). \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e que se mostrou \u00fatil; contudo, isso n\u00e3o implica que n\u00e3o se possa buscar por alternativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultrapassada, momentaneamente, a quest\u00e3o t\u00e9cnica do ferramental l\u00e9xico, a pr\u00f3xima reflex\u00e3o deve centrar-se sobre o motivo de segredo e sigilo poderem ser lidos como objetos de investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica. Entendemos que isso \u00e9 poss\u00edvel porque tanto segredo e sigilo s\u00e3o for\u00e7as capazes de colocar a vida social em movimento e, al\u00e9m disso, de criar rela\u00e7\u00f5es hierarquizantes de poder. Dialogando com o basilar trabalho de Georg Simmel sobre o segredo, Kippenberg e Stroumsa (1995, p. xiv) apontam que o segredo s\u00f3 existe na forma de rela\u00e7\u00e3o, sendo que essa se daria entre pelo menos tr\u00eas sujeitos. Eles seriam os dois que compartilham o segredo e um terceiro ao qual se nega acesso ao mesmo por meio de pr\u00e1ticas de sigilo. Assim, o poder do segredo reside justamente na tens\u00e3o de ser conhecido e desconhecido, posto de outra forma, que se saiba que ele existe, mas n\u00e3o do que se trata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Karma Lochrie (1999), dialogando com Michel de Certeau, aponta que o segredo \u00e9 um ato social e como tal geraria uma divis\u00e3o dos indiv\u00edduos entre \u201caqueles que sabem\u201d e \u201caqueles que n\u00e3o sabem\u201d. A quest\u00e3o \u00e9 que se o segredo tiver sucesso, ou seja, permanecer desconhecido daqueles a quem \u00e9 proibido sab\u00ea-lo, o mesmo n\u00e3o tem valor. Quando \u201caqueles que n\u00e3o sabem\u201d se tornam cientes de que h\u00e1 algo a ser conhecido, \u201caqueles que sabem\u201d podem tornar seu conhecimento at\u00e9 ent\u00e3o exclusivo em elemento gerador de poder. O segredo \u00e9 fonte de poder e de hierarquiza\u00e7\u00e3o social enquanto consegue manter a tens\u00e3o entre conhecimento e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo pode esclarecer o entendimento do segredo enquanto motor de din\u00e2micas hist\u00f3ricas. Para tal recorreremos \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre mestre e disc\u00edpulo. Pensamos tais categorias a partir do esfor\u00e7o de Antoine Faivre (1994) em apontar caracter\u00edsticas que poderiam indicar ou n\u00e3o se um fen\u00f4meno seria esot\u00e9rico. Para tal autor haveria quatro intr\u00ednsecas (Correspond\u00eancia, Natureza Viva, Imagina\u00e7\u00e3o e Media\u00e7\u00f5es, Transmuta\u00e7\u00e3o) e duas relativas (Pr\u00e1tica da Concord\u00e2ncia e Transmiss\u00e3o). Essa \u00faltima seria a necessidade e import\u00e2ncia da transmiss\u00e3o desse saber esot\u00e9rico entre um iniciado e um n\u00e3o-iniciado, ou seja, entre mestre e disc\u00edpulo. Isto posto, para recorrer a categorias j\u00e1 apresentadas, podemos alocar o mestre entre \u201caqueles que sabem\u201d e o disc\u00edpulo em meio \u201caqueles que n\u00e3o sabem\u201d. Essa rela\u00e7\u00e3o surge e \u00e9 pautada n\u00e3o apenas pela tens\u00e3o entre ignor\u00e2ncia e conhecimento, mas tamb\u00e9m pela promessa de transi\u00e7\u00e3o entre os grupos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mestre depende de reconhecimento social para o s\u00ea-lo, ou seja, deve ser sabido que ele sabe algo que os outros desconhecem. Se a sua posse de um dado conhecimento for absolutamente secreta, n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o social para que seja percebido como mestre. Dito de outra forma, sem disc\u00edpulo n\u00e3o h\u00e1 mestre. A rela\u00e7\u00e3o entre ambos \u00e9 hierarquizada por pr\u00e1ticas de sigilo em torno de um dado segredo. Ao mestre compete ensinar e testar o disc\u00edpulo a fim de que se possa aferir se este \u00e9 merecedor de ver al\u00e9m dos v\u00e9us do secretismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o social gerada pelo segredo deve ser compreendida como uma rela\u00e7\u00e3o de poder nos moldes foucaltianos. Assim, n\u00e3o existe um polo absoluto de for\u00e7a. O poder do mestre sobre o disc\u00edpulo reside justamente naquilo que ser\u00e1 a ru\u00edna dessa hierarquia: a promessa de que o bom disc\u00edpulo se tornar\u00e1 mestre um dia. Sem a certeza de que atingir esse objetivo \u00e9 uma possibilidade concreta, a autoridade do mestre sobre o disc\u00edpulo se esvazia. Essa rela\u00e7\u00e3o, portanto, se pauta em delicado equil\u00edbrio entre desafio e promessa, aonde o mestre pode complexificar a trajet\u00f3ria que separa o seu disc\u00edpulo de igualar-lhe, mas n\u00e3o pode criar impedimentos. Os v\u00e9us de sigilo que o mestre lan\u00e7a sobre o segredo podem apenas turvar a vis\u00e3o do disc\u00edpulo, o vulto que se v\u00ea atrav\u00e9s deles \u00e9 a base dessa rela\u00e7\u00e3o social de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenhamos com clareza que o segredo n\u00e3o \u00e9 um dado natural, sendo assim uma cria\u00e7\u00e3o, o que lhe d\u00e1 historicidade. Portanto, as rela\u00e7\u00f5es hierarquizantes de poder oriundas das intera\u00e7\u00f5es entre segredo e sigilo s\u00f3 s\u00e3o adequadamente compreens\u00edveis ao serem situadas no tempo e no espa\u00e7o. N\u00e3o basta, no entanto, apontar que o segredo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cultural, h\u00e1 de se pensar que tipo de produto \u00e9 esse.\u00a0Algo \u00e9 tornado secreto atrav\u00e9s de discursos que assim o qualificam, conjuntamente com pr\u00e1ticas de sigilo que buscam envolve-lo em secretismo. Um bom exemplo disso foi o <em>Secretum Secretorum<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um livro muito popular no medievo, como apontam os mais de seiscentos manuscritos dispon\u00edveis, traduzidos em v\u00e1rias l\u00ednguas (LOCHRIE, 1999). Popular nas cortes papal e imperial do s\u00e9culo XIII, tendo como um dos seus principais comentadores Roger Bacon (1214-1294), o <em>Secretum Secretorum<\/em>, o Segredo dos Segredos, em uma tradu\u00e7\u00e3o livre, era entendido como uma compila\u00e7\u00e3o de conhecimentos secretos transmitidos por meio de um di\u00e1logo entre Arist\u00f3teles e Alexandre, o Grande. A promessa \u00e9 de que ele fornecia as ferramentas tidas como fundamentais para o bom governo, portanto conferindo poder a quem lhe fosse bom disc\u00edpulo. Contudo, os assuntos tratados pela obra eram, de forma geral, de conhecimento de um n\u00famero consider\u00e1vel de pessoas. Ele tratava de temas relativos a pr\u00e1ticas de cura, conselhos pol\u00edticos sobre realeza, justi\u00e7a e o bom governo, al\u00e9m de alquimia, fisiognomia, magia e astrologia. Assim, como acontece diversas vezes com o segredo, o que o torna fonte de poder \u00e9 muito menos a mat\u00e9ria que o constitui e muito mais a promessa constru\u00edda a partir dele. Como motor social, importa muito menos o que \u00e9 de fato o segredo e muito mais sua capacidade de separar os indiv\u00edduos entre \u201caqueles que sabem\u201d e \u201caqueles que n\u00e3o sabem\u201d (MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conjuntamente com sua dimens\u00e3o discursiva, segredo e sigilo incitam diversas pr\u00e1ticas ao redor de si. Desde a Antiguidade foram desenvolvidas variadas t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o secreta, como apontou o humanista napolitano Giambattista della Porta (<em>c.<\/em>1535-1615) em seu <em>De Furtivis Literarum Notis vulgo De Ziferis \u2013 Libri III<\/em>, publicado em 1563. Dedicado a Felipe II (1527-1598), essa obra aprofundaria uma tem\u00e1tica que j\u00e1 havia aparecido em um trabalho anterior de della Porta, o <em>Magia Naturalis<\/em> (1562): a comunica\u00e7\u00e3o secreta. Se na primeira obra a quest\u00e3o resumiu-se a tintas especiais, por exemplo aquelas vis\u00edveis apenas atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o do calor, agora a discuss\u00e3o se pretendia mais sofisticada. No <em>De Ziferis<\/em>, della Porta tratou de distintas t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o cifrada: m\u00e9todos substitutivos, cria\u00e7\u00e3o de alfabetos cifrados, uso de discos criptogr\u00e1ficos e mais. Della Porta tamb\u00e9m apresenta algumas justificativas para empregar tais artif\u00edcios de sigilo. Pode-se pensar em termos m\u00e1gicos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">os <em>Magi <\/em>inventaram e moldaram certos caracteres para salvar seu conhecimento do uso ou da leitura da ral\u00e9, como qualquer leitor pode ver por si mesmo em Hon\u00f3rio Tebano e outros\u00a0(Giambattista DELLA PORTA, 1563, p. 3-4, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tamb\u00e9m para o palco da pol\u00edtica. Conforme della Porta (1563, p. 2, tradu\u00e7\u00e3o nossa), se vivia \u201cem tempos quando a mais completa licen\u00e7a prevalece, e quando ningu\u00e9m ousa proibir crimes\u201d. Portanto,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">\u00c9 claro a partir desses exemplos que isto \u00e9 de grande vantagem para o escritor, e tamb\u00e9m para a pessoa a quem ele est\u00e1 escrevendo, que os segredos seriam confiados para a escrita com as devidas salvaguardas, pois v\u00e1rias chances e aberra\u00e7\u00f5es da fortuna s\u00e3o prov\u00e1veis que aconte\u00e7am por meio das quais planos secretos talvez caiam nas m\u00e3os dos inimigos, e nesse caminho n\u00e3o apenas fazer os projetos falhar do resultado desejado, mas os autores n\u00e3o escapam impunes. [&#8230;] Mas tomaria muito tempo recapitular toda a lista de exemplos espalhados atrav\u00e9s das incont\u00e1veis p\u00e1ginas da hist\u00f3ria, que claramente anunciam quanto dano cartas escritas sem ast\u00facia tem feito para os escritores e, por outro lado, quanto isto tem beneficiado pelas cartas [que] t\u00eam sido escondidas. N\u00f3s, tamb\u00e9m, que escrevemos estas linhas, temos com frequ\u00eancia feito a boa fortuna em fazer um servi\u00e7o aceit\u00e1vel para amigos neste particular. Ao interceptar e interpretar missivas trai\u00e7oeiras deste tipo, n\u00f3s temos salvado nossos amigos de atos de trai\u00e7\u00e3o, os quais foram preparados, e nos quais eles teriam de outro modo facilmente ca\u00eddo (Giambattista DELLA PORTA, 1563, p. 3-4, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O napolitano tamb\u00e9m recapitulou as t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o cifrada apresentadas por Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (1486-1535) em seu <em>De Occulta Philosophia Libri III<\/em> e pelo abade alem\u00e3o Johannes Trithemius (1462-1512). O religioso beneditino merece aten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johannes Trithemius construiu longa e importante carreira como abade na Ordem de S\u00e3o Bento, al\u00e9m de ocupar relevante papel no movimento humanista germ\u00e2nico. Para al\u00e9m de exortador da reforma mon\u00e1stica, defensor dos livros \u2013 acima de tudo aqueles fruto do <em>scriptorium<\/em> \u2013, o abade ficou conhecido pelo envolvimento com duas tem\u00e1ticas: a magia e as cifras. Sua primeira obra que interconectava esses dois campos foi a <em>Steganographie: Ars per occultam Scripturam animi sui voluntatem absentibus aperiendi certu<\/em>, escrita por volta de 1499 e publicada posteriormente, a qual ele definiu como<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">todos os m\u00e9todos, maneiras, diferen\u00e7as, qualidades e m\u00e9todos desta nossa arte, \u00e0 qual chamamos <em>steganographia<\/em>, (contendo segredos, enigmas mist\u00e9rios completamente claros para nenhum homem mortal, por mais erudito ou s\u00e1bio) que nunca pode ser completamente descoberta (Johannes TRITHEMIUS, 1621, p. 6, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Steganographia<\/em> misturava t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o cifrada por substitui\u00e7\u00e3o e magia cerimonial, dialogando com o hermetismo e a tradi\u00e7\u00e3o salom\u00f4nica, como fica expl\u00edcito a partir de seu segundo livro. O abade assim construiu pr\u00e1ticas de sigilo envolvendo cifras, anjos planet\u00e1rios e magia cerimonial com o intuito de ofertar aos pr\u00edncipes palatinos e ao pr\u00f3prio imperador Maximiliano I (1459-1459) meios de proteger seus segredos dos olhares \u201cdaqueles que n\u00e3o podem saber\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Steganographia<\/em> de Trithemius \u00e9 um bom exemplo de como a <em>Fortuna<\/em> e a sede de <em>Fama<\/em> s\u00e3o inimigas do segredo. Ainda que afirmasse escrever apenas para os olhos \u201cdaqueles que podem saber\u201d, Trithemius n\u00e3o perdeu a chance de publicizar ser um mestre de segredos. Enviou uma carta a um amigo carmelita para se gabar de sua obra, contudo a mesma acabou caindo nas m\u00e3os do prior de seu destinat\u00e1rio, dado que esse havia falecido. Ao receber o franc\u00eas Carolus Bovillus (c<em>.<\/em>1470-c<em>.<\/em>1553) em sua abadia em Sponheim, n\u00e3o exitou de apresentar-lhe a obra e vangloriar-se da mesma. O resultado de ambos os casos foi o mesmo: acusa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de que o abade estava envolvido com demonomagia, que apenas conseguiram ferir o orgulho de Trithemius. Contudo, mesmo quando escreveu sua resposta a tais acusa\u00e7\u00f5es, a <em>Polygraphia<\/em>, obra de comunica\u00e7\u00e3o cifrada que o abade beneditino definiu como \u201clivre dos erros da supersti\u00e7\u00e3o\u201d, ele recorreu a ideias oriundas da cabala pr\u00e1tica e mesmo alfabetos m\u00e1gicos, como o atribu\u00eddo a Hon\u00f3rio de Tebas (MENDON\u00c7A JUNIOR, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Assim como della Porta, Trithemius viu um fim pol\u00edtico no instrumento de sigilo que oferecia. Em um mundo que o abade via como profundamente perigoso, o segredo se tornaria arma fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">Porque outrora, n\u00e3o obstante, muitos reis, tiranos e pr\u00edncipes antigos inventaram para si um modo comum entre eles [para] o que deve ser escrito, a suspeita dos outros tratando [de] pouca coisa, de modo [a] n\u00e3o ser percebido o que desejavam permanecer secreto (Johannes TRITHEMIUS, 1518, p. 488, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trouxemos Giambattista della porta e Johannes Trithemius como forma, n\u00e3o apenas de historicizar a presente reflex\u00e3o, mas tamb\u00e9m de demonstrar como as rela\u00e7\u00f5es entre segredo e sigilo v\u00e3o al\u00e9m da dimens\u00e3o discursiva, desdobrando-se em pr\u00e1ticas que afetaram a vida dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esperamos ter demonstrado que as rela\u00e7\u00f5es entre segredo e sigilo s\u00e3o elementos importantes da experi\u00eancia humana em sociedade. O pr\u00f3prio Estado moderno tem nessas dimens\u00f5es da vida um dos seus pilares fundamentais, basta que lembremos as discuss\u00f5es de Nicolau Maquiavel sobre a import\u00e2ncia de o pr\u00edncipe saber dissimular o que \u00e9 e simular o que n\u00e3o \u00e9. Vivemos em tempos em que o sigilo lan\u00e7ado em uma carteira de vacina\u00e7\u00e3o pode se tornar centro de acaloradas disputas pol\u00edticas. Entendemos que h\u00e1 muito que se discutir sobre sigilo, segredo e secretismo tanto para o medievo quanto para a primeira modernidade, ainda mais a partir de olhares latino-americanos, mais isentos dos compromissos nacionalistas de outras paragens, por exemplo. Encerramos com o conselho que um envelhecido Trithemius deu a um jovem Agrippa, quando este pediu a opini\u00e3o do abade sobre seu <em>De Occulta Philosophia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 200px;\">Ainda eu aconselho que voc\u00ea observe esta regra, que voc\u00ea comunique segredos vulgares para amigos vulgares, mas segredos importantes apenas para amigos importantes. D\u00ea feno ao boi, e a\u00e7\u00facar para um papagaio apenas (Heinrich Cornelius AGRIPPA VON NETTESHEIM, 1550, n\u00e3o paginado, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Giambattista DELLA PORTA. <em>De Furtivis Literarum Notis vulgo De Ziferis \u2013 Libri III<\/em>. Neapoli: Apud Ioa Mariam Scotum, 1563.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Heinrich Cornelius AGRIPPA VON NETTESHEIM. <em>De occulta philosphia, Libri III<\/em>. Lugduni: apud Godefridum &amp; Marcellu, fratres, 1550<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johannes TRITHEMIUS. <em>Polygraphiae libri sex, Ioannis Trithemii Abbatis Peapolitani, quondam Spanheimensis, ad Maximilianum Caesarem<\/em>. Oppenheim: Haselberg, 1518.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johannes TRITHEMIUS. <em>Steganographie: Ars per occultam Scripturam animi sui voluntatem absentibus aperiendi certu<\/em>, 4to, Darmst. 1621<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FAIVRE, A . <em>O Esoterismo<\/em>. Campinas: Papirus, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JUCKER, M. <em>Secrets and politics: methodological and communicational aspects of late medieval diplomacy<\/em>. Micrologus: Natura, Scienze e Societ\u00e0 Medievali. Floren\u00e7a, SISMEL &#8211; Del Galluzo, 2006, n\u00ba XIV.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KIPPENGER, H. G. e STROUMSA, G. G. Introduction. Secrecy and its benefits, In: <em>Secrecy and concealment<\/em>: studies in the history of Mediterranean and Near Eastern religions. Leiden &#8211; New York &#8211; K\u00f6ln: Brill, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LOCHRIE, K. <em>Covert operations: medieval uses of secrecy<\/em>. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MENDON\u00c7A JUNIOR, F. de P. S. Secretum Secretorum: o lugar do esoterismo nas cortes papal e imperial no medievo. <em>Hist\u00f3ria Revista<\/em>, Goi\u00e2nia, v. 22, n. 1, p. 4\u201318, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, Francisco de Paula. <em>A Arte do Segredo<\/em>: esoterismo, segredo, sigilo e dissimula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos s\u00e9culos XV e XVI. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas; UFMG, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, Francisco de Paula. Esoterismo, sigilo e segredo: Algumas reflex\u00f5es metodol\u00f3gicas. In\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 : BUBELLO, Juan Pablo; CHAVES, Jos\u00e9 Ricardo; MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, Francisco de Paula. <em>Estudios sobre la historia del esoterismo occidental en Am\u00e9rica Latina<\/em>: enfoques, aportes, problemas y debates. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Editorial de la Facultad de Filosof\u00eda y Letras Universidad de Buenos Aires, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutor em Hist\u00f3ria e Culturas Pol\u00edticas pela UFMG. Email: <a href=\"mailto:kirijy@gmail.com\">kirijy@gmail.com<\/a>. Lattes: http:\/\/lattes.cnpq.br\/6177272366272480<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 21 de mar\u00e7o de 2023.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> MENDON\u00c7A J\u00daNIOR, Francisco de Paula Souza de. Cifras, Tintas Invis\u00edveis e Anjos Planet\u00e1rios: Por uma Hist\u00f3ria do Segredo. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 21 mar. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-cifras-tintas-invisiveis-e-anjos-planetarios-por-uma-historia-do-segredo\/. Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco de Paula Souza de Mendon\u00e7a J\u00fanior[1] &nbsp; Vivemos em uma \u00e9poca de superexposi\u00e7\u00e3o: seja de ideias, seja de a\u00e7\u00f5es ou de imagens. As redes sociais tendem a criar um estado de aparente superpubliciza\u00e7\u00e3o social. Existe uma sensa\u00e7\u00e3o de que aquilo que n\u00e3o \u00e9 exposto n\u00e3o foi de fato vivenciado. \u00c9 preciso que se saiba &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-cifras-tintas-invisiveis-e-anjos-planetarios-por-uma-historia-do-segredo\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1170,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"template-onecolumn.php","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-4925","page","type-page","status-publish","hentry","nodate","item-wrap"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.7 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Texto Cifras, Tintas Invis\u00edveis e Anjos Planet\u00e1rios: Por uma Hist\u00f3ria do Segredo\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 - POIEMA<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-cifras-tintas-invisiveis-e-anjos-planetarios-por-uma-historia-do-segredo\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Texto Cifras, Tintas Invis\u00edveis e Anjos Planet\u00e1rios: Por uma Hist\u00f3ria do Segredo\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 - POIEMA\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Francisco de Paula Souza de Mendon\u00e7a J\u00fanior[1] &nbsp; Vivemos em uma \u00e9poca de superexposi\u00e7\u00e3o: seja de ideias, seja de a\u00e7\u00f5es ou de imagens. 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