{"id":4650,"date":"2022-10-13T12:00:11","date_gmt":"2022-10-13T15:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=4650"},"modified":"2023-04-03T23:39:44","modified_gmt":"2023-04-04T02:39:44","slug":"texto-liber-pontificalis-e-a-invencao-do-papado-o-caso-de-leao-de-roma-ca-536","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-liber-pontificalis-e-a-invencao-do-papado-o-caso-de-leao-de-roma-ca-536\/","title":{"rendered":"Texto: O Liber Pontificalis e a \u201cInven\u00e7\u00e3o\u201d do Papado:  O Caso de Le\u00e3o de Roma (Ca. 536)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Paulo Duarte Silva<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde meados do s\u00e9culo XIX, nota-se o crescente interesse acad\u00eamico e editorial nas \u201cHist\u00f3rias\u201d da Igreja e, em espec\u00edfico, do papado medieval. No \u00e2mbito do Debate P\u00fablico, a progressiva relev\u00e2ncia desse tema pode ser parcialmente justificada pelo entendimento geral do medievo como a \u201cIdade da F\u00e9\u201d e a Igreja, sobretudo a romana, como sua principal express\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, pelo menos at\u00e9 meados do s\u00e9culo passado, muitos estudiosos consideravam o \u201cmil\u00eanio medieval\u201d como o momento em que teria ocorrido a problem\u00e1tica conflu\u00eancia entre religi\u00e3o e pol\u00edtica, a assombrar desde ent\u00e3o o Ocidente e a pr\u00f3pria modernidade. Por outro lado, a intelectualidade cat\u00f3lica exaltava, em tom nost\u00e1lgico, o medievo como a \u201c\u00e9poca da f\u00e9\u201d, em meio \u00e0s sens\u00edveis mudan\u00e7as pol\u00edticas e sociais vividas pela Igreja Apost\u00f3lica Romana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, tais estudos foram muito influenciados pela refer\u00eancia do bispado romano, tomado como indicador para se avaliar o grau de desenvolvimento lit\u00fargico, teol\u00f3gico e mesmo institucional de outras sedes ocidentais \u2013 em especial, se os pares episcopais tivessem mais ou menos proximidade e vincula\u00e7\u00e3o com a Santa S\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora essas perspectivas antag\u00f4nicas ainda possam ser consideradas predominantes, nas \u00faltimas d\u00e9cadas elas passaram a conviver com interpreta\u00e7\u00f5es alternativas da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e papal e de seus l\u00edderes, situadas para al\u00e9m do filtro confessional ou moderno, dedicadas tanto aos prim\u00f3rdios medievais quanto aos s\u00e9culos ditos \u201cfeudais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m \u00e9 seguro afirmar que, no campo dos estudos alto-medievais, est\u00e3o consolidadas as reflex\u00f5es atentas \u00e0s especificidades e aos desafios clericais em contextos t\u00e3o variados como os das G\u00e1lias, da Hisp\u00e2nia, da Brit\u00e2nia ou de \u00c1frica, por exemplo. Dessa forma, o filtro \u201cromano\u201d, ou seja, a valoriza\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia romana junto \u00e0s demais igrejas, parece menos decisivo nas pesquisas hist\u00f3ricas, que passaram a enfatizar as dimens\u00f5es regionais dos cristianismos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, recentemente, mesmo considerando a import\u00e2ncia da sede romana nos assuntos eclesi\u00e1sticos ocidentais, diversas pesquisas colocaram em perspectiva sua lideran\u00e7a \u201cpapal\u201d, avaliada como inconteste, un\u00edvoca, destinada, tijolo por tijolo, ao triunfo apost\u00f3lico romano na Idade M\u00e9dia Central.\u00a0 Para citar apenas tr\u00eas destacados livros produzidos na d\u00e9cada passada a respeito, Sessa (2012), Demacopoulos (2013) e Dunn (2015), lembramos que foram saudados como parte de uma literatura que vem buscando \u201cdesmantelar uma hist\u00f3ria ordeira da ascens\u00e3o do poder papal\u201d (HILNER, 2016, p. 373, tradu\u00e7\u00e3o nossa), ao conclu\u00edrem que esta n\u00e3o foi \u201ctranquila, uniforme, ou inevit\u00e1vel\u201d (CLARK, 2016, p. 386, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta revis\u00e3o se deu, a princ\u00edpio, pela reavalia\u00e7\u00e3o dos governos daqueles considerados como os primeiros \u201cpapas\u201d, como Le\u00e3o (440-461) e Gel\u00e1sio (492-496) ou pelo exame de outros bispos romanos, menos ilustres, como Z\u00f3zimo (417-418). Revela-se, assim, uma lideran\u00e7a eclesi\u00e1stica <em>em constru\u00e7\u00e3o<\/em>, sujeita a conting\u00eancias, reviravoltas e dificuldades muito variadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Outra mudan\u00e7a decisiva se deu com a reconsidera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do <em>Liber Pontificalis <\/em>(LP), obra que, hoje se sabe, teve import\u00e2ncia crucial na constru\u00e7\u00e3o da ideia de \u201cpapado\u201d desde o s\u00e9culo VI, quando da publica\u00e7\u00e3o de sua primeira vers\u00e3o. At\u00e9 recentemente, o LP era tido como um testemunho seguro e isento de informa\u00e7\u00f5es e evid\u00eancias a respeito da organiza\u00e7\u00e3o da igreja romana, das crises, desastres e mesmo da topografia da cidade. Contudo, cada vez mais se destaca o empenho institucional dos pr\u00f3prios bispos romanos e seus correligion\u00e1rios em \u2018fabricar\u2019 mem\u00f3rias a respeito da cristianiza\u00e7\u00e3o da cidade e, por extens\u00e3o, do Imp\u00e9rio: segundo McKitterick (2020, p. 1), foi, portanto, pe\u00e7a-chave na \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d do papado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00c9 a respeito do LP que discorremos no texto. Assim, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o geral deste documento e de como a historiografia o tem revisitado, analisamos como este registro demarcou e perpetuou a <em>trajet\u00f3ria<\/em> de um de seus bispos, Le\u00e3o. Assinalamos que tal interesse se associa ao fato de que seus serm\u00f5es foram tema de nossas investiga\u00e7\u00f5es no doutorado e em projetos de investiga\u00e7\u00e3o junto a \u00f3rg\u00e3os de fomento, constituindo-se, desse modo, como objeto de pesquisa de particular afinidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, afinal, do que se trata? Trata-se de uma colet\u00e2nea de sucessivas biografias dos bispos romanos, a partir de Pedro. A cole\u00e7\u00e3o teve sua primeira vers\u00e3o publicada na primeira metade do s\u00e9culo VI. At\u00e9 891, teve ao menos seis etapas de produ\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o, e continuou a passar por recens\u00f5es at\u00e9 o s\u00e9culo XV. Por muito tempo, sua autoria foi atribu\u00edda a Jer\u00f4nimo, que o teria redigido por encomenda do bispo D\u00e2maso (366-384), como consta em texto ap\u00f3crifo que prefacia o compilado. Hoje, no entanto, avalia-se que os prov\u00e1veis autores teriam sido funcion\u00e1rios da administra\u00e7\u00e3o papal, com acesso aos arquivos e \u00e0s finan\u00e7as, sob orienta\u00e7\u00e3o direta ou indireta dos pont\u00edfices.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No decorrer da Alta Idade M\u00e9dia, a colet\u00e2nea alcan\u00e7ou grande circula\u00e7\u00e3o, mesmo fora da It\u00e1lia e antes da conhecida associa\u00e7\u00e3o entre o Imp\u00e9rio Carol\u00edngio e o bispado romano; era intitulada, ent\u00e3o, <em>Liber episcopalis<\/em> e <em>acta <\/em>(ou <em>gesta<\/em>)<em> pontificium urbis Romae<\/em>. O nome <em>Liber Pontificalis<\/em> foi alcunhado por Giovanni Vignolli em meados do s\u00e9culo XVIII, mas s\u00f3 veio a ser reconhecido em definitivo pela historiografia por conta dos estudos de Louis Duschene (m. 1922).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversos escritos romanos e crist\u00e3os influenciaram a reda\u00e7\u00e3o do LP. Dentre outros, pode-se destacar <em>A Republica <\/em>ciceroneana e sua percep\u00e7\u00e3o de uma cidade constru\u00edda de forma gradativa, as biografias imperiais de Suet\u00f4nio e outros autores romanos, bem como seu correlato crist\u00e3o por Jer\u00f4nimo (<em>De viris illustribus<\/em>), as listas cronogr\u00e1ficas e os relatos cron\u00edsticos e hist\u00f3ricos (do pr\u00f3prio Jer\u00f4nimo), as narrativas de mart\u00edrios da cidade e o dossi\u00ea de cartas e escritos papais <em>De Avellana<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer modo, nenhuma dessas contribui\u00e7\u00f5es foi recebida de forma passiva. De fato, estiveram sujeitas a um projeto intelectual criativo, que resultou em um tipo de escrito in\u00e9dito, de perfil bastante diferente dos documentos produzidos pela sede romana. Ao contr\u00e1rio de outros \u201celoquentes\u201d documentos ent\u00e3o preservados nos <em>scriptoria<\/em> locais, como ep\u00edstolas, tratados e serm\u00f5es, o LP era lac\u00f4nico e formulaico, permeado de omiss\u00f5es e silenciamentos preenchidos, de modo parcial, pelo cotejo com os outros escritos. Ademais, inovou ao reformular por completo o g\u00eanero biogr\u00e1fico imperial e colocar os bispos romanos, e os n\u00e3o imperadores, como protagonistas da longa hist\u00f3ria de cristianiza\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, no LP cada bispo romano \u00e9 apresentado, em geral, na seguinte ordem: <em>nome e origem<\/em>; <em>carreira pr\u00e9via \u00e0 elei\u00e7\u00e3o<\/em>; <em>elei\u00e7\u00e3o, incluindo eventuais disputas<\/em>; <em>carreira papal<\/em>, <em>incluindo eventuais atritos com outras autoridades (em particular, imperadores) e a\u00e7\u00f5es legislativas,<\/em> <em>edil\u00edcias, de patronato e de observ\u00e2ncia religiosa; morte e sepultamento<\/em>; <em>dura\u00e7\u00e3o do bispado<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, o LP n\u00e3o testemunha o primeiro empenho do bispado romano em sistematizar seus escritos em um contexto de crise: este processo j\u00e1 remontava, por exemplo, \u00e0s cole\u00e7\u00f5es produzidas por conta de controv\u00e9rsias precedentes, como o \u2018cisma acaciano\u2019. Contudo, diferente destes, a colet\u00e2nea possu\u00eda uma narrativa espec\u00edfica, e teve uma circula\u00e7\u00e3o bem maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado por volta de 536, o LP teve sua produ\u00e7\u00e3o associada ao recrudescimento das campanhas militares bizantinas e godas que ent\u00e3o assolavam a pen\u00ednsula it\u00e1lica, e que amea\u00e7avam subjugar a relativa autonomia pontif\u00edcia aos soberanos \u201cb\u00e1rbaros\u201d ou, o que parecia ainda pior, de Constantinopla. Assim, seu projeto intelectual e pol\u00edtico deve ser visto como uma \u201cresposta papal e romana \u00e0 crise pol\u00edtica envolvendo toda a It\u00e1lia, com a s\u00fabita invas\u00e3o de um ex\u00e9rcito hostil desafiando o regime que tinha governado pacificamente a It\u00e1lia por duas gera\u00e7\u00f5es\u201d (MCKITTERICK, 2020, p. 32, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, reconhecendo que, em suas origens, o LP esteve diretamente articulado a um reclame do bispado por autoridade e legitimidade em um contexto problem\u00e1tico \u2013 e que, ao que parece, teve as outras etapas de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m articuladas a crises de maior ou menor relevo \u2013, cabe examinarmos como um dos mais conhecidos bispos foi retratado. Passemos, assim, ao caso de Le\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quadrag\u00e9simo s\u00e9timo bispo na sucess\u00e3o petrina, Le\u00e3o \u00e9 louvado, de in\u00edcio, como campe\u00e3o da ortodoxia, por ter descoberto as heresias de Eutiques e de Nest\u00f3rio, isto \u00e9, o monofisismo e o nestorianismo. O combate aos hereges se deu sobretudo, pelo apoio do \u201cpr\u00edncipe cat\u00f3lico\u201d (LP.47.2, tradu\u00e7\u00e3o nossa) Marciano e de sua esposa, a Imperatriz Pulqu\u00e9ria, pela coleta de assinaturas e pelo envio de delega\u00e7\u00f5es de centenas de correligion\u00e1rios para a participa\u00e7\u00e3o no conc\u00edlio de Calced\u00f4nia (451). Este s\u00ednodo teria apoiado a declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 redigida pela s\u00e9 romana, ent\u00e3o conhecida como \u2018Tomo Flaviano\u2019 (LP.47.2-3). O sucesso de Le\u00e3o seria confirmado por uma s\u00e9rie de ep\u00edstolas trocadas com Marciano (LP.46.4), com Flaviano de Constantinopla e outros bispos orientais, ocasi\u00f5es em que era reafirmada a declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 de Calced\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, destaca-se um conjunto de medidas edil\u00edcias, destinadas \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o ou constru\u00e7\u00e3o de bas\u00edlicas, como as de Constantino, S\u00e3o Pedro, S\u00e3o Paulo e S\u00e3o Corn\u00e9lio e \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o de vasos sagrados das igrejas menores (LP.47.6), incluindo-se a constru\u00e7\u00e3o de um mosteiro anexo \u00e0 bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro e o estabelecimento de uma guarda para prote\u00e7\u00e3o da tumba dos ap\u00f3stolos (LP.47.7). A seguir, e de modo lac\u00f4nico, destaca-se sua atua\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica perante \u00c1tila que, \u201cpelo bem do nome romano\u201d (LP.47.6, tradu\u00e7\u00e3o nossa), teria levado a embaixada de Le\u00e3o a libertar toda a It\u00e1lia do perigo inimigo. Por fim, registra-se uma determina\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e uma disciplinar (LP.47.8), a soma de cl\u00e9rigos ordenados em seu governo (LP.47.9), o local e data de seu enterro e o tempo de vac\u00e2ncia, de uma semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao nos ampararmos nas pesquisas mais recentes sobre o bispado de Le\u00e3o e no pr\u00f3prio exame de sua documenta\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, nos seus serm\u00f5es e, sobretudo, sua correspond\u00eancia, fica n\u00edtido o empenho dos autores em construir uma certa imagem de seu governo, a come\u00e7ar real\u00e7ando seu legado ortodoxo e conciliar. Tal esfor\u00e7o se fez tanto, a princ\u00edpio, pela men\u00e7\u00e3o a Marciano, Pulqu\u00e9ria e Le\u00e3o, embora o bispo tenha trocado cartas com outros governantes, como Teod\u00f3sio II. Da mesma maneira, a intensa troca de cartas relacionadas \u00e0s \u201cheresias\u201d \u00e9 mencionada de modo bastante abreviado, omitindo o contato direto com o \u201cheresiarca\u201d Eutiques e outros protagonistas, como os arquimandritas de Constantinopla e Di\u00f3scoro, bispo de Alexandria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o surpreende tamb\u00e9m que o LP silencie a participa\u00e7\u00e3o da sede romana no desastroso II conc\u00edlio de \u00c9feso (449), repudiado por sua presumida viol\u00eancia excessiva, anos depois, no s\u00ednodo de 451 \u2013 em que, vale dizer, Le\u00e3o n\u00e3o esteve presente, por refutar um dos c\u00e2nones em debate. Constr\u00f3i-se, assim, a imagem de um campe\u00e3o da f\u00e9 <em>a partir<\/em> do conc\u00edlio de Calced\u00f4nia, deixando de lado a intensa negocia\u00e7\u00e3o e as s\u00fabitas reviravoltas eclesi\u00e1sticas ocorridas antes do s\u00ednodo, e o pr\u00f3prio fato de que seu resultado n\u00e3o foi t\u00e3o duradouro. Ademais, tendo sido parcialmente recenseados pelo pr\u00f3prio bispo, seus serm\u00f5es revelam mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o e hesita\u00e7\u00e3o no momento de expressar suas posi\u00e7\u00f5es acerca da natureza de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Outro ponto a destacar \u00e9 o constrangimento com que os autores lidaram ao tratar dos \u201cb\u00e1rbaros\u201d hunos e v\u00e2ndalos: se, no caso dos primeiros, ao menos se menciona a embaixada, o infame saque de 455 \u00e0 cidade \u00e9 citado t\u00e3o somente como \u201cdesastre v\u00e2ndalo\u201d (LP.47.6, tradu\u00e7\u00e3o nossa), no bojo da refer\u00eancia \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o dos vasos sagrados. Nada aqui nos remete a Le\u00e3o alcunhado \u201cMagno\u201d ao menos desde os bispados de S\u00e9rgio (688) e de Nicolas de Roma (865), e caracterizado como defensor da cidade e dos seus muros. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 alus\u00e3o ao amparo dos ap\u00f3stolos, tal como perpetuado nas imagens medievais e, sobretudo, pelo afresco de Raffaelo Sanzio (1514), ou na escultura hom\u00f4nima de m\u00e1rmore de Alessandro Algardi (1643-1653).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerado por McKitterick como um \u201cnot\u00e1vel exemplo de autorrepresenta\u00e7\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na forma de uma narrativa hist\u00f3rica\u201d (2020, p. 1, tradu\u00e7\u00e3o nossa), o LP \u00e9 um documento cuja an\u00e1lise \u00e9, de fato, desafiadora. Pelo exame espec\u00edfico de um bispado afortunadamente bem documentado por outros meios, \u00e9 poss\u00edvel realizar uma leitura a contrapelo, que exp\u00f5e algumas das escolhas e omiss\u00f5es que envolveram a caracteriza\u00e7\u00e3o de um dos seus mais relevantes predecessores na sede romana. Fica o convite \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d de outros \u201cpapas\u201d, obscuros ou not\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>The Book of Pontiffs<\/em> (<em>Liber Pontificalis<\/em>): The Ancient Biographies of First Ninety Roman Bishops to AD 715. Ed. Raymond Davis. Liverpool: Liverpool University, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CLARK, Gillian. The bishop of Rome in late antiquity. Edited by Geoffrey D. Dunn. <em>Journal of Ecclesiastical History<\/em>, v. 76, n. 2, p. 384-386, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEMACOPOULOS, George. <em>The invention of Peter<\/em>: Apostolic discourse and Papal authority in Late Antiquity. Filad\u00e9lfia: University of Pennsylvania, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUNN, Geoffrey (Ed.). <em>The bishop of Rome in late antiquity<\/em>. Farnham-Burlington: Ashgate, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HILLNER, Julia. G. E. Demacopoulos, The Invention of Peter: Apostolic Discourse and Papal Authority in Late Antiquity. <em>The Journal of Roman Studies<\/em>, v. 106, p. 373-4, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MCKITTERICK, Rosamond. <em>Rome and the Invention of the Papacy:<\/em> the <em>Liber Pontificalis<\/em>. Cambridge: Cambridge University, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUST, Leandro. O Cristianismo Primitivo, Constantino e a utopia do p\u00fablico. In: ______. <em>Mitos Papais<\/em>: Pol\u00edtica e Imagina\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria. Petr\u00f3polis: Vozes, 2015. p. 75-110.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SESSA, Kristina. <em>The Formation of Papal Authority in Late Antique Italy<\/em>: Roman Bishops and the Domestic Sphere. Nova York: Cambridge University, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Figura 1: O encontro de Le\u00e3o I e \u00c1tila. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.wga.hu\/frames%20e.html?\/html\/a\/algardi\/3\/meeting.html\"><u>https:\/\/www.wga.hu\/frames e.html?\/html\/a\/algardi\/3\/meeting.html<\/u><\/a>. Acesso 23 ago. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Doutor (PPGHC-UFRJ). Professor Adjunto de Hist\u00f3ria Medieval da UFRJ (<a href=\"mailto:pauloduartexxi@hotmail.com\">pauloduartexxi@hotmail.com<\/a>). Curr\u00edculo Lattes: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5454374839045818\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/5454374839045818<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado em 13 de Outubro de 2022.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> SILVA, Paulo Duarte. O Liber Pontificalis e a \u201cInven\u00e7\u00e3o\u201d do Papado: O Caso de Le\u00e3o de Roma (Ca. 536). <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 13 out. 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-liber-pontificalis-e-a-invencao-do-papado-o-caso-de-leao-de-roma-ca-536\/. Acessado em: data em que voc\u00ea acessou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Duarte Silva[1] Desde meados do s\u00e9culo XIX, nota-se o crescente interesse acad\u00eamico e editorial nas \u201cHist\u00f3rias\u201d da Igreja e, em espec\u00edfico, do papado medieval. No \u00e2mbito do Debate P\u00fablico, a progressiva relev\u00e2ncia desse tema pode ser parcialmente justificada pelo entendimento geral do medievo como a \u201cIdade da F\u00e9\u201d e a Igreja, sobretudo a romana, &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-liber-pontificalis-e-a-invencao-do-papado-o-caso-de-leao-de-roma-ca-536\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1170,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"template-onecolumn.php","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-4650","page","type-page","status-publish","hentry","nodate","item-wrap"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Texto: O Liber Pontificalis e a \u201cInven\u00e7\u00e3o\u201d do Papado: O Caso de Le\u00e3o de Roma (Ca. 536) - POIEMA<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-liber-pontificalis-e-a-invencao-do-papado-o-caso-de-leao-de-roma-ca-536\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Texto: O Liber Pontificalis e a \u201cInven\u00e7\u00e3o\u201d do Papado: O Caso de Le\u00e3o de Roma (Ca. 536) - POIEMA\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Paulo Duarte Silva[1] Desde meados do s\u00e9culo XIX, nota-se o crescente interesse acad\u00eamico e editorial nas \u201cHist\u00f3rias\u201d da Igreja e, em espec\u00edfico, do papado medieval. 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