{"id":4519,"date":"2022-09-15T12:00:11","date_gmt":"2022-09-15T15:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=4519"},"modified":"2023-04-03T23:43:59","modified_gmt":"2023-04-04T02:43:59","slug":"texto-a-sacralizacao-simbolica-da-peninsula-iberica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-a-sacralizacao-simbolica-da-peninsula-iberica\/","title":{"rendered":"Texto: A Sacraliza\u00e7\u00e3o Simb\u00f3lica da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica[1]"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Renata Cristina de Sousa Nascimento<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dos vest\u00edgios considerados sagrados perpassa toda a hist\u00f3ria do cristianismo. Objetos de culto e de prest\u00edgio a posse das rel\u00edquias dos santos, mesmo por meio de pequenos fragmentos, garantia ao crente a perpetua\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria viva. Em <em>De laude sanctorum<\/em>, Vitr\u00edcio de Ru\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> exaltou a for\u00e7a dos santos vest\u00edgios: \u201cN\u00e3o devemos lamentar-nos da pequenez destas rel\u00edquias&#8230; afirmamos que o que \u00e9 divino n\u00e3o pode ser diminu\u00eddo&#8230; e onde est\u00e1 uma parte, seja de que maneira for, est\u00e1 o todo.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0 A aquisi\u00e7\u00e3o e exalta\u00e7\u00e3o destes sagrados despojos foram fundamentais na elabora\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico na organiza\u00e7\u00e3o do culto. Este principiou-se junto ao t\u00famulo do morto. A pr\u00f3pria origem da devo\u00e7\u00e3o \u00e0s rel\u00edquias est\u00e1 ligada aos jazigos dos mortos considerados especiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A reuni\u00e3o de crist\u00e3os ao redor da tumba dos m\u00e1rtires tinha por objetivo rememorar a presen\u00e7a viva do falecido, buscando sinais da virtude divina, que emanava de seus restos mortais. A atribui\u00e7\u00e3o de poderes sobrenaturais aos fragmentos corporais de personagens \u201cespeciais\u201d e a objetos foi fundamental para a constitui\u00e7\u00e3o de lugares sagrados. A redistribui\u00e7\u00e3o dos despojos e vest\u00edgios conduziu a um enorme mercado de sacralidades. De Jerusal\u00e9m, Constantinopla e especialmente de Roma proliferaram fragmentos sacros de toda esp\u00e9cie. Os de maior prest\u00edgio eram os corpos santos e objetos ligados \u00e0 vida de Cristo, como peda\u00e7os do Santo Lenho, sud\u00e1rios, coroa de espinhos, t\u00fanicas, pregos da cruz, frascos do sangue sagrado, al\u00e9m da multiplica\u00e7\u00e3o dos c\u00e1lices da \u00faltima ceia, entre outros. Prociss\u00f5es solenes eram organizadas e faziam parte dos diversos rituais que englobavam a venera\u00e7\u00e3o destes fragmentos. A Igreja tamb\u00e9m fomentou o culto, determinando que fosse preciso conservar a antiga tradi\u00e7\u00e3o de guardar, sob o altar fixo, rel\u00edquias de personagens santos. Descobertos supostamente atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es miraculosas como vis\u00f5es e sonhos, muitos vest\u00edgios sagrados serviram para sacralizar batalhas e legitimar dinastias. (NASCIMENTO, 2019). A cristianiza\u00e7\u00e3o da topografia urbana fortaleceu-se grandemente ap\u00f3s o s\u00e9culo V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica a presen\u00e7a das rel\u00edquias dos santos e de vest\u00edgios ligados a hist\u00f3ria de Cristo, contribuiu para a sacraliza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica desta regi\u00e3o. \u201cImpulsionados por interesses amplos a exalta\u00e7\u00e3o de santidades territoriais de origem hisp\u00e2nica e\/ou portuguesa, colaboraram na inven\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca moderna as rivalidades entre Espanha e Portugal, e entre estes e o restante da Europa, tamb\u00e9m foram permeadas por disputas pela posse, qualidade e quantidade de santos.\u201d (NASCIMENTO, 2019). Neste sentido pode-se citar duas fontes que tiveram a inten\u00e7\u00e3o de mapear o patrim\u00f4nio sacro ib\u00e9rico: O relato da viagem realizada por Ambr\u00f3sio de Morales<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> em 1572, \u00e0 servi\u00e7o do rei Felipe II e o chamado <em>Mappa de Portugal Antigo, e Moderno de <\/em>Jo\u00e3o Bautista de Castro, uma fonte do s\u00e9culo XVIII que nos oferece um panorama da distribui\u00e7\u00e3o de rel\u00edquias pelo territ\u00f3rio portugu\u00eas<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. A tentativa de forjar um passado sublime, atrav\u00e9s de corpos e objetos considerados sagrados, serviu para legitimar a narrativa pol\u00edtica, criando uma identidade particular para esta regi\u00e3o. Ao ostentar um ilustre passado atrav\u00e9s da presen\u00e7a de rel\u00edquias o status regional se mitificou. Elaboradas em contextos diferentes estas duas fontes tiveram por objetivo fazer um levantamento do patrim\u00f4nio sacro regional, dando visibilidade a um projeto pol\u00edtico- identit\u00e1rio para os reinos ib\u00e9ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Locais s\u00e3o portadores de mem\u00f3ria: \u201cE n\u00e3o apenas porque solidificam e validam a recorda\u00e7\u00e3o, na medida em que a ancoram no ch\u00e3o, mas tamb\u00e9m por corporificarem uma continuidade da dura\u00e7\u00e3o que supera a simples recorda\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d (ASSMANN, 2011, p. 318) Com a afirma\u00e7\u00e3o do cristianismo especialmente ap\u00f3s o s\u00e9culo IV, os espa\u00e7os onde se reuniam os fi\u00e9is foram sendo sacralizados atrav\u00e9s de rituais de consagra\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00f5es. A Igreja crist\u00e3 validou ainda nos s\u00e9culos VI e VII a necessidade de rel\u00edquias nos altares, e o costume da consagra\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios destinados como locais de culto. A valora\u00e7\u00e3o espacial transportou-se para cidades consideradas santas, tendo por modelo Jerusal\u00e9m e Roma ber\u00e7o de rel\u00edquias. A posse destes fragmentos garantia o status religioso, da\u00ed a prolifera\u00e7\u00e3o de objetos, muitos conseguidos atrav\u00e9s de compras, roubos e falsifica\u00e7\u00f5es. Na Idade M\u00e9dia o aumento das peregrina\u00e7\u00f5es acelerou a busca por santu\u00e1rios de prest\u00edgio, que tinham em seu interior rel\u00edquias ilustres. Este fen\u00f4meno contribuiu para um processo de espacializa\u00e7\u00e3o do sagrado.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h4>Refer\u00eancias:<\/h4>\n<p>ASSMANN, Aleida. <em>Espa\u00e7os da Recorda\u00e7\u00e3o. Formas e Transforma\u00e7\u00f5es da Mem\u00f3ria Cultural. <\/em>Campinas\u00a0: Editora da Unicamp, 2011.<\/p>\n<p>\u00c1LVAREZ, Maria Raquel A. &amp; NASCIMENTO, Renata Cristina de S. <em>A Sacraliza\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Ib\u00e9rico: Viv\u00eancias Religiosas na Idade M\u00e9dia.<\/em> Curitiba: CRV, 2020.<\/p>\n<p>BASCHET, J\u00e9r\u00f4me. <em>Corpos e almas. Uma hist\u00f3ria da pessoa na Idade M\u00e9dia<\/em>. S\u00e3o Leopoldo: Editora Unisinos, 2019.<\/p>\n<p>CORDEIRO. Jos\u00e9 de Le\u00e3o (Org). <em>Antologia Lit\u00fargica: Textos Lit\u00fargicos, Patr\u00edsticos e Can\u00f4nicos do Primeiro Mil\u00eanio.<\/em> F\u00e1tima (PT), Secretariado Nacional de Liturgia, 2015<\/p>\n<p>FERNANDES, F\u00e1tima Regina &amp; Zlatic. Carlos Eduardo (Org.). <em>Os Herdeiros Pol\u00edticos e Suas Potencialidades na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica Medieval<\/em>. Curitiba: CRV, 2020.<\/p>\n<p>NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa<em>. <\/em><em>Rel\u00edquias e Peregrina\u00e7\u00f5es na Idade M\u00e9dia<\/em><em>. In <\/em><em>NASCIMENTO, Renata C.S &amp; SILVA, Paulo Duarte (Orgs).\u00a0<\/em><strong><em>Ensaios de Hist\u00f3ria Medieval<\/em><\/strong><em><strong>.<\/strong><\/em> <em>Temas que se renovam. <\/em><em>Curitiba: CRV, 2019. p.73-86<\/em><\/p>\n<p>NASCIMENTO, Renata Cristina de S. &amp; COSTA, Paula P.\u00a0<em>A Visibilidade do Sagrado: Rel\u00edquias Crist\u00e3s na Idade M\u00e9dia.<\/em>\u00a0Curitiba: Appris, 2021<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Parte deste texto foi publicado em \u00c1LVAREZ, Maria Raquel A. &amp; NASCIMENTO, Renata Cristina de S. <em>A Sacraliza\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Ib\u00e9rico: Viv\u00eancias Religiosas na Idade M\u00e9dia.<\/em> Curitiba: CRV, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Doutora em Hist\u00f3ria (UFPR- 2005). Docente na Universidade Federal de Goi\u00e1s (Regional- Jata\u00ed), Universidade Estadual de Goi\u00e1s e na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-Go). Participante\/ pesquisadora do N\u00facleo de Estudos Mediterr\u00e2nicos (NEMED). Coordenadora do Grupo de Pesquisa <em>Sacralidades Medievais<\/em>. Email renatacristinanasc@gmail.com Lattes: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5151454949796711\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/5151454949796711<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> S\u00e3o Vitr\u00edcio nasceu por volta de 340. Foi bispo de Ru\u00e3o a partir de 385.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> In CORDEIRO. Jos\u00e9 de Le\u00e3o (Org). <em>Antologia Lit\u00fargica: Textos Lit\u00fargicos, Patr\u00edsticos e Can\u00f4nicos do Primeiro Mil\u00eanio.<\/em> F\u00e1tima (PT), Secretariado Nacional de Liturgia, 2015. p 756<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Viagem de Ambrosio de Morales Por Orden Del Rey D. Phelipe II. A Los Reynos de Leon, Y Galicia, Y Principado De Asturias. Para reconhecer Las Reliquias de Santos, Sepulcros Reales, Y Libros manufcritos de las Cathedrales, Y Monafterios.<\/em> Madrid: Antonio Marin, A\u00f1o de 1765.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> CASTRO, Jo\u00e3o Bautista de Castro. <em>Mappa de Portugal Antigo, e Moderno<\/em><strong>.<\/strong> Lisboa: Officina Patriarcal de Francifco Luiz Ameno. Tomo II. Parte III e IV, LXIII.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>15 de Setembro de 2022<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa. A Sacraliza\u00e7\u00e3o Simb\u00f3lica da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 15 set. 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-a-sacralizacao-simbolica-da-peninsula-iberica\/. Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renata Cristina de Sousa Nascimento[2] \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dos vest\u00edgios considerados sagrados perpassa toda a hist\u00f3ria do cristianismo. Objetos de culto e de prest\u00edgio a posse das rel\u00edquias dos santos, mesmo por meio de pequenos fragmentos, garantia ao crente a perpetua\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria viva. 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