{"id":4252,"date":"2022-06-20T12:00:09","date_gmt":"2022-06-20T15:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/?page_id=4252"},"modified":"2023-04-04T00:11:39","modified_gmt":"2023-04-04T03:11:39","slug":"texto-brasil-neomedieval-idiossincrasias-de-um-uso-do-passado","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-brasil-neomedieval-idiossincrasias-de-um-uso-do-passado\/","title":{"rendered":"Texto: Brasil (Neo)Medieval: Idiossincrasias de um uso do passado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Felipe Augusto Ribeiro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Recentemente, ao longo dos debates sobre a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), historiadores brasileiros opinaram que a \u201cIdade M\u00e9dia\u201d \u00e9 uma temporalidade estrangeira, que n\u00e3o pertence \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Conquanto alguns estudiosos aleguem que os portugueses trouxeram para o nosso pa\u00eds ideias, mentalidades, costumes, institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas medievais<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, ainda parece haver uma opini\u00e3o generalizada de que o Medievo n\u00e3o deve ser ensinado ou pesquisado em solo nacional, com recursos brasileiros, porque isso seria desperdi\u00e7ar tempo e dinheiro investindo num patrim\u00f4nio, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria alheia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Que \u201cIdade M\u00e9dia\u201d e \u201cHist\u00f3ria Medieval\u201d s\u00e3o categorias heur\u00edsticas eurocentradas, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Este campo da Hist\u00f3ria, de fato, foi criado, emergiu e se consolidou como uma \u00e1rea de estudos sobre a Europa. At\u00e9 hoje discutimos a validade desses r\u00f3tulos historiogr\u00e1ficos para pensar as hist\u00f3rias de outros continentes; ainda nos perguntamos: \u00c1sia, \u00c1frica, Oceania e Am\u00e9ricas experimentaram uma Idade M\u00e9dia que possamos estudar empregando o instrumental epist\u00eamico, te\u00f3rico, metodol\u00f3gico e t\u00e9cnico que comp\u00f5e a Hist\u00f3ria Medieval<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Por\u00e9m, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel observar que, mesmo sem pertencer, prioritariamente, \u00e0 nossa hist\u00f3ria nacional, a Idade M\u00e9dia est\u00e1 presente no Brasil, em v\u00e1rios lugares, de v\u00e1rios modos. Numerosos analistas t\u00eam destacado o emprego de imagens e ideias vinculadas \u00e0 Idade M\u00e9dia na constitui\u00e7\u00e3o de \u201ccomunidades de sentido [ou de linguagem]\u201d no Brasil, muitas delas com conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c0 guisa de ilustra\u00e7\u00e3o, evoco algumas imagens que se tornaram bastante conhecidas recentemente: em protestos que tomaram as ruas do pa\u00eds nos \u00faltimos anos, diversos homens t\u00eam comparecido trajando fantasias que remetem \u00e0s supostas indument\u00e1rias dos cavaleiros medievais; tem sido recorrente a associa\u00e7\u00e3o dos embates pol\u00edticos brasileiros com o ide\u00e1rio das cruzadas crist\u00e3s realizadas nos s\u00e9culos XII e XIII, no Oriente M\u00e9dio. Outro exemplo \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o de valores considerados \u201cgeneticamente medievais\u201d, como fam\u00edlia e cristianismo, por movimentos conservadores como o Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade (TFP)<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Em suma, conte\u00fados da Idade M\u00e9dia, ainda que ela seja uma \u201chist\u00f3ria do outro\u201d, est\u00e3o t\u00e3o presentes no nosso pa\u00eds que s\u00e3o capazes de influenciar as nossas elei\u00e7\u00f5es, pautar nossa agenda pol\u00edtica e orientar as nossas a\u00e7\u00f5es de governo.<\/p>\n<div style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tnh1.com.br\/fileadmin\/_processed_\/0\/d\/csm_templarios-pi-twitter_c38997ac6d.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.tnh1.com.br\/fileadmin\/_processed_\/0\/d\/csm_templarios-pi-twitter_c38997ac6d.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"315\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 1 \u2013 jovem vestido de cavaleiro hospital\u00e1rio invade manifesta\u00e7\u00e3o feminista no Piau\u00ed, com o objetivo de tumultu\u00e1-la, por considerar que as pautas feministas atentam contra um Brasil que deve se conservar crist\u00e3o. https:\/\/www.tnh1.com.br\/fileadmin\/_processed_\/0\/d\/csm_templarios-pi-twitter_c38997ac6d.jpg].<\/p><\/div><div style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/external-preview.redd.it\/TY53dHCHUHr_PgdwLiizBSccdSPGC8W1WtHDAj9XjkE.jpg?auto=webp&amp;s=aab19e220e1d2c9abbc112d63d46dfc383868642\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/external-preview.redd.it\/TY53dHCHUHr_PgdwLiizBSccdSPGC8W1WtHDAj9XjkE.jpg?auto=webp&amp;s=aab19e220e1d2c9abbc112d63d46dfc383868642\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"1061\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 2 \u2013 outro indiv\u00edduo, trajando uma fantasia de cavaleiro templ\u00e1rio (curiosamente misturada com elementos atuais \u2013 o chap\u00e9u militar, a bandeira brasileira, o \u00f3culos escuros), participa de manifesta\u00e7\u00e3o na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo. https:\/\/external-preview.redd.it\/TY53dHCHUHr_PgdwLiizBSccdSPGC8W1WtHDAj9XjkE.jpg?auto=webp&amp;s=aab19e220e1d2c9abbc112d63d46dfc383868642]<\/p><\/div><div style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/JTQMu4TzoG4\/maxresdefault.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/JTQMu4TzoG4\/maxresdefault.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 3 \u2013 homem vestido do que imagina ser um cavaleiro medieval convoca os brasileiros para uma manifesta\u00e7\u00e3o organizada pela Luz Brasil. https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/JTQMu4TzoG4\/maxresdefault.jpg]<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0A not\u00edcia de brasileiros vestindo emula\u00e7\u00f5es de indument\u00e1rias medievais europeias, enquanto hasteiam a bandeira verde-e-amarela e lutam por pautas candentes na pol\u00edtica nacional, funde aquilo que, nos debates acad\u00eamicos, n\u00f3s separamos: a Idade M\u00e9dia e a hist\u00f3ria do Brasil. E n\u00e3o se trata de mera roupagem: o que est\u00e1 em jogo, nas ilustra\u00e7\u00f5es acima, \u00e9 a instrumentaliza\u00e7\u00e3o de valores considerados medievais para a atua\u00e7\u00e3o na realidade brasileira contempor\u00e2nea. Enquanto os acad\u00eamicos parecem desacreditar que a Hist\u00f3ria Medieval n\u00e3o nos diz respeito, os brasileiros efetivamente a trazem para o Brasil <em>hodierno<\/em> e a aplicam nas quest\u00f5es mais pragm\u00e1ticas do nosso dia a dia. A Idade M\u00e9dia n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 concretamente entre n\u00f3s como \u00e9, por vezes, convidada a interferir na nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<div style=\"width: 483px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/istoeimagens\/imagens\/mi_785075371262030.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/istoe.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/istoeimagens\/imagens\/mi_785075371262030.jpg\" alt=\"\" width=\"483\" height=\"303\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 4 \u2013 os trajes cerimoniais dos Arautos do Evangelho, grupo oriundo da TFP, tamb\u00e9m emulam uma imagin\u00e1ria est\u00e9tica cavaleiresca medieval. https:\/\/istoe.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/istoeimagens\/imagens\/mi_785075371262030.jpg]<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0As imagens da medievalidade n\u00e3o t\u00eam aparecido nos debates p\u00fablicos brasileiros vinculados apenas a movimentos que se identificam como conservadores. Interlocutores de outros agrupamentos pol\u00edticos tamb\u00e9m mobilizam ideias e representa\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas \u00e0 Idade M\u00e9dia; contudo, eles o fazem com outra conota\u00e7\u00e3o, o tom cr\u00edtico: evocam, ainda, um velho imagin\u00e1rio da \u201cIdade das Trevas\u201d, como se observa numa famosa s\u00e9rie de tirinhas publicadas pelo chargista Dahmer.<\/p>\n<div style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E737alUXoAYoOSg.jpg:large\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E737alUXoAYoOSg.jpg:large\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"651\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 5 \u2013 tirinha de Dahmer, retratando o que ele chama de \u201cBrasil Medieval\u201d: um pa\u00eds atrasado que n\u00e3o entende nada de arte, mas a odeia (talvez por n\u00e3o entend\u00ea-la). https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E737alUXoAYoOSg.jpg:large]<\/p><\/div><div style=\"width: 2463px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E737tJrXoAoAnAM?format=jpg&amp;name=4096x4096\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E737tJrXoAoAnAM?format=jpg&amp;name=4096x4096\" alt=\"\" width=\"2463\" height=\"783\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 6 \u2013 obra do cartunista que vincula a trabalha a intoler\u00e2ncia religiosa como uma caracter\u00edstica tipicamente medieval que est\u00e1 sendo vivenciada no Brasil. https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E737tJrXoAoAnAM?format=jpg&amp;name=4096&#215;4096]<\/p><\/div><div style=\"width: 591px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/DLszEEsVYAAsYhW.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/DLszEEsVYAAsYhW.jpg\" alt=\"\" width=\"591\" height=\"188\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">[Imagem 7 \u2013 mais uma tirinha do autor, atrelando, desta vez, os comportamentos coletivos de \u00f3dio \u00e0 mentalidade medieval (ainda que esse \u00f3dio esteja sendo praticado na internet). https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/DLszEEsVYAAsYhW.jpg]<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Para entender essa s\u00e9rie de apropria\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso perguntar: o que os brasileiros julgam ter sido a Idade M\u00e9dia? Quais s\u00e3o esses valores que eles reputam como tipicamente medievais? Se a Hist\u00f3ria Medieval \u00e9 a \u201chist\u00f3ria do outro\u201d, por que os brasileiros se apegam tanto a ela? E como eles operam tal apropria\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de que ve\u00edculos e mecanismos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Felizmente, v\u00e1rios pesquisadores brasileiros t\u00eam atentado para o fen\u00f4meno e feito investiga\u00e7\u00f5es sobre ele<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Analisando os discursos de quem empunha, com atos ou palavras, \u201cvalores medievais\u201d no Brasil, percebem-se alguns padr\u00f5es. Os valores evocados est\u00e3o articulados em torno de quatro grandes eixos: para os brasileiros, a Idade M\u00e9dia teria sido um per\u00edodo beligerante e violento; crist\u00e3o e, portanto, avesso a qualquer outra forma de religiosidade; de hegemonia racial branca; de domina\u00e7\u00e3o masculina, viril, mis\u00f3gina e heteronormativa. Assim se torna poss\u00edvel compreender a recorr\u00eancia do estere\u00f3tipo de \u201ccavaleiro medieval\u201d, apontado acima: ele encarna todos os tra\u00e7os supracitados numa figura s\u00f3. Por isso o cavaleiro se configura como uma das imagens centrais para se lembrar a Idade M\u00e9dia, seja de forma laudat\u00f3ria, como no caso da Lux Brasil, seja de forma cr\u00edtica, como nas tirinhas de Dahmer<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Existem, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, vias te\u00f3ricas bastante consolidadas para o estudo das recep\u00e7\u00f5es e usos do passado pelas sociedades modernas e contempor\u00e2neas. Gostaria de destacar uma delas: a via dos (neo)medievalismos. Trata-se de um conceito cuja defini\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 sendo discutida (MAYER, 2010), mas, grosso modo, pode-se dizer que o medievalismo \u00e9 um fen\u00f4meno que consiste na pr\u00e1tica p\u00f3s-medieval da investiga\u00e7\u00e3o, recupera\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de variados aspectos das diversas culturas medievais (como a trovadoresca, a cortes\u00e3, a cavaleiresca, a viking etc.); ele n\u00e3o est\u00e1 necessariamente restrito ao \u00e2mbito acad\u00eamico e pode congregar leigos, curiosos e admiradores das \u201cmedievalidades\u201d. Mesmo assim, os praticantes dos medievalismos costumam almejar algum n\u00edvel de autenticidade hist\u00f3rica e buscam lastrear suas experi\u00eancias nas publica\u00e7\u00f5es trazidas \u00e0 luz pelos medievalistas acad\u00eamicos (KAUFMAN, 2010). J\u00e1 o neomedievalismo n\u00e3o se preocupa com a veracidade hist\u00f3rica, pois compreende que ela \u00e9 constru\u00edda no pr\u00f3prio ato de narrar o passado (TOSWELL, 2010; KLINE, 2016); ele est\u00e1, hoje, intimamente ligado \u00e0s m\u00eddias digitais, que permitem uma amplifica\u00e7\u00e3o, uma dissemina\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de suas pr\u00e1ticas (COOTE, 2010; MOBERLY &amp; MOBERLY, 2010). Em suma, se o medievalismo procura reconstruir, de alguma maneira, o passado medieval, o neomedievalismo se contenta em se apropriar dele, de forma livre e criativa, para dar significado \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es no presente mais imediato. Todavia, tais pr\u00e1ticas t\u00eam sido avaliadas como perigosas, pois t\u00eam municiado a elabora\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio (falas e atos de racismo e xenofobia, de misoginia, homofobia, transfobia e afins) e de ideologias supremacistas que rejeitam sujeitos marginalizados nas sociedades atuais (WALTER, 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Como se pode notar, muitos autores que se debru\u00e7am sobre o tema o fazem h\u00e1, pelo menos, uma d\u00e9cada, e, escrevendo para um p\u00fablico angl\u00f3fono, discutem-no com os olhos voltados para um panorama que \u00e9 global. N\u00e3o obstante eu esteja, neste brev\u00edssimo ensaio, enfocando o quadro brasileiro, o fato \u00e9 que os (neo)medievalismos comp\u00f5em um fen\u00f4meno planet\u00e1rio. Eles sugerem que o debate sobre a quem concerne e pertence a Hist\u00f3ria Medieval \u2013 se apenas aos europeus ou a todos os povos que com eles, em algum momento de suas trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas, tiveram contato \u2013 n\u00e3o aflige apenas n\u00f3s, brasileiros, mas tamb\u00e9m os estadunidenses e latino-americanos. Imagin\u00e1rios e representa\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> s\u00e3o, afinal, <em>commodities<\/em> export\u00e1veis que, num mundo globalizado, n\u00e3o respeitam fronteiras nacionais nem est\u00e3o preocupados com coer\u00eancia hist\u00f3rica ou ideol\u00f3gica. Onde quer que seja poss\u00edvel \u2013 e toda vez que for poss\u00edvel \u2013 identificar problemas que possam ser encarados \u00e0 luz do que se imagina ter sido a Idade M\u00e9dia, l\u00e1 estar\u00e1 ela, pronta para ser empunhada, na qualidade de cr\u00edtica mordaz, ou na condi\u00e7\u00e3o de bandeira gloriosa. Em uma mesma sociedade podem-se encontrar, em franca disputa, aqueles que amam e aqueles que odeiam a Idade M\u00e9dia \u2013 ou, mais precisamente, o que imaginam (ou pensam saber) dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Usar a Hist\u00f3ria Medieval n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de conhecimento, mas de postura: para am\u00e1-la ou odi\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 preciso saber mais ou menos sobre ela; basta, t\u00e3o-somente, ser capaz de imputar a ela o que se deseja. Assim, n\u00e3o \u00e9 uma melhora educacional \u2013 um aperfei\u00e7oamento do Ensino de Hist\u00f3ria \u2013 que ir\u00e1 impedir essas apropria\u00e7\u00f5es; elas s\u00e3o, ali\u00e1s, parte inerente do saber hist\u00f3rico. Imaginar, representar, apropriar, interpretar, ressignificar: a hist\u00f3ria \u00e9 feita de tudo isso. A quest\u00e3o, enfim, \u00e9 compreender o que est\u00e1 por tr\u00e1s de cada ato de manipula\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, e foi exatamente esse singelo exerc\u00edcio que tentei fazer aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Mesmo que as pesquisas ainda estejam em andamento, algumas conclus\u00f5es parciais j\u00e1 s\u00e3o poss\u00edveis. Note-se: independente dos conte\u00fados e formas como \u00e9 percebido e trabalhado, o Medievo tem sido uma das principais chaves de leitura da realidade atual, sobretudo quando se trata de interpretar os seus problemas. H\u00e1 dois pontos em comum entre os setores sociais e pol\u00edticos ditos progressistas e aqueles identificados como conservadores: em primeiro lugar, em ambos h\u00e1 o sentimento de que h\u00e1 uma crise no mundo contempor\u00e2neo da qual o Brasil, \u00e9 claro, faz parte; em segundo lugar, ambos sustentam a postura de recorrer \u00e0 Idade M\u00e9dia como contraprova explicativa que permite entender essa crise e agir contra ela. O que muda entre os dois espectros \u00e9 a sensibilidade acerca desse objeto espelhado que \u00e9 o Medievo: para cr\u00edticos como Dahmer os problemas que configuram a crise s\u00e3o o obscurantismo e a viol\u00eancia, aspectos que ele reconhece na Idade M\u00e9dia, por isso chama o Brasil de \u201cmedieval\u201d; j\u00e1 para os jovens que protestam vestidos de cavaleiros, o problema da atualidade \u00e9 o esquecimento de uma moral que se pode remontar ao mesmo per\u00edodo. De um lado, pois, temos uma valora\u00e7\u00e3o negativa da temporalidade, ainda entendida como \u201cIdade das Trevas\u201d; de outro, temos uma valora\u00e7\u00e3o positiva, que entende tal Idade como uma \u00e9poca rom\u00e2ntica e pura \u2013 aos menos para os valores pelos quais se preza: o Cristianismo, a masculinidade, a bravura e a branquitude.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">ANSART, Pierre. <strong>Ideologias, conflitos e poder<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BACZKO, Bronislaw. Imagina\u00e7\u00e3o social. In: LEACH, Edmund &amp; ALL. Anthropos-homem. <strong>Enciclop\u00e9dia Einaudi<\/strong>, v. 5. Lisboa: Imprensa Nacional\/Casa da Moeda, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BIRRO, Renan Marques. Ensino de Hist\u00f3ria Medieval, eurocentrismo e BNCC (2015-2018): um debate recente? In: BUENO, Andr\u00e9; BIRRO, Renan &amp; BOY, Renato (orgs.). <strong>Ensino de Hist\u00f3ria Medieval e hist\u00f3ria P\u00fablica<\/strong>. Rio de Janeiro: SobreOntens\/UERJ, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/43267428\/Ensino_de_Hist%C3%B3ria_Medieval_e_Hist%C3%B3ria_P%C3%BAblica\">https:\/\/www.academia.edu\/43267428\/Ensino_de_Hist%C3%B3ria_Medieval_e_Hist%C3%B3ria_P%C3%BAblica<\/a>. Acesso em: 6 jun. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COOTE, Lesley. A Short Essay about Neomedievalism. In: FUGELSO, Karl (ed.). <strong>Studies in Medievalism XIX<\/strong>: Defining Neomedievalism(s). Cambridge: D. S. Brewer, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FALCON, Francisco J. Calazans. Hist\u00f3ria e representa\u00e7\u00e3o. In: CARDOSO, Ciro Flamarion &amp; MALERBA, Jurandir (orgs.). <strong>Representa\u00e7\u00f5es<\/strong>: contribui\u00e7\u00e3o a um debate disciplinar. Campinas: Papirus, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FALCONIERI, Tommaso di Carpegna. <strong>The Militant Middle Ages<\/strong>: Contemporary Politics between New Barbarians and Modern Crusaders. Leiden; Boston: Brill, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GINZBURG, Carlo. Representa\u00e7\u00e3o: a palavra, a ideia, a coisa. In: <strong>Olhos de madeira<\/strong>: nove reflex\u00f5es sobre a dist\u00e2ncia. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUERRA, Luiz Felipe Anchieta. The Internet Crusade Against Communism: Political Neomedievalism in 21st Century Brazil. In: MCLELLAN, Rory (org.). <strong>The Modern Memory of the Military-Religious Orders Engaging the Crusades<\/strong>, v. 7. London: Routledge, 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Neomedievalismo pol\u00edtico no Brasil contempor\u00e2neo. In: BERTARELLI, Maria Eug\u00eania; BIRRO, Renan Marques &amp; PORTO JUNIOR, Jo\u00e3o Batista da Silva (orgs.). <strong>Medievalismos em olhares e constru\u00e7\u00f5es narrativas<\/strong>, v. 1. Ananindeua (Par\u00e1): Itaca\u00fanas, 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KAUFMAN, Amy. Muscular medievalism. <strong>The Year&#8217;s Work in Medievalism<\/strong>, 31, 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/30719135\/Muscular_Medievalism\">https:\/\/www.academia.edu\/30719135\/Muscular_Medievalism<\/a>. Acesso em: 9 set 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KLINE, Daniel T. Participatory Medievalism, Role-Playing, and Digital Gaming. In: D\u2019ARCENS, Louise (ed.). <strong>The Cambridge Companion to Medievalism<\/strong>. Cambridge: University Press, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LANZIERI J\u00daNIOR, Carlile. <strong>Cavaleiros de cola, papel e pl\u00e1stico<\/strong>: sobre os usos do passado medieval na contemporaneidade. Campinas: D7 Editora, 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LAPLANTINE, Fran\u00e7ois &amp; TRINDADE, Liana Salvia. <strong>O que \u00e9 imagin\u00e1rio<\/strong>. Cole\u00e7\u00e3o Primeiros Passos. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIMA, Douglas Mota Xavier de. Uma hist\u00f3ria contestada: a Hist\u00f3ria Medieval na Base Nacional Comum Curricular (2015-2017). <strong>Anos 90<\/strong>, v. 26, 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/anos90\/article\/view\/87750\">https:\/\/seer.ufrgs.br\/anos90\/article\/view\/87750<\/a>. Acesso em: 6 jun. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAYER, Lauryn S. Dark Matters and Slippery Words: Grappling with Neomedievalism(s). In: FUGELSO, Karl (ed.). <strong>Studies in Medievalism XIX<\/strong>: Defining Neomedievalism(s). Cambridge: D. S. Brewer, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MOBERLY, Brent &amp; MOBERLY, Kevin. Neomedievalism, Hyperrealism, and Simulation. In: FUGELSO, Karl (ed.). <strong>Studies in Medievalism XIX<\/strong>: Defining Neomedievalism(s). Cambridge: D. S. Brewer, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PINTO, Ot\u00e1vio Luiz Vieira. Connecting worlds, connecting narratives: global history, periodisation and the year 751 CE. <strong>Esbo\u00e7os<\/strong>, v. 36, n. 42, 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/esbocos\/article\/view\/2175-7976.2019v26n42p255\">https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/esbocos\/article\/view\/2175-7976.2019v26n42p255<\/a>. Acesso em: 6 jun. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RANGEL, Jo\u00e3o Guilherme Lisb\u00f4a. Pol\u00edtica, religi\u00e3o e neomedievalismo: as diferentes Idade M\u00e9dia da Tradi\u00e7\u00e3o Fam\u00edlia e Propriedade (TFP) e os Arautos do Evangelho. <strong>Signum<\/strong>, v. 22, n. 1, 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.abrem.org.br\/revistas\/index.php\/signum\/article\/view\/585\">http:\/\/www.abrem.org.br\/revistas\/index.php\/signum\/article\/view\/585<\/a>. Acesso em: 6 jun. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEIXEIRA, Igor Salom\u00e3o &amp; PEREIRA, Nilton Mullet. A Idade M\u00e9dia nos curr\u00edculos escolares: as controv\u00e9rsias nos debates sobre a BNCC. <strong>Di\u00e1logos<\/strong>, v. 20, n. 3, 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.uem.br\/ojs\/index.php\/Dialogos\/article\/view\/33538\">https:\/\/periodicos.uem.br\/ojs\/index.php\/Dialogos\/article\/view\/33538<\/a>. Acesso em: 6 jun 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TOSWELL, M. J. The Simulacrum of Neomedievalism. In: FUGELSO, Karl (ed.). <strong>Studies in Medievalism XIX<\/strong>: Defining Neomedievalism(s). Cambridge: D. S. Brewer, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WALTER, Katherine Clark. What Should We Do with Hateful Medieval Monuments? <strong>The Public Medievalist<\/strong>, 25 nov 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.publicmedievalist.com\/category\/past-present\/race-class-religion\/race-racism-and-the-middle-ages\/\">https:\/\/www.publicmedievalist.com\/category\/past-present\/race-class-religion\/race-racism-and-the-middle-ages\/<\/a>. Acesso em: 21 fev 2021.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0 Doutor em Hist\u00f3ria e Culturas Pol\u00edticas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor adjunto do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Coordenador do Laborat\u00f3rio de Estudos Medievais (LEME), n\u00facleo UFPE. Curr\u00edculo: <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5461158925668835\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/5461158925668835<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u00a0\u00a0 Tais debates ficaram registrados, entre os medievalistas, em alguns artigos, como os de Igor Salom\u00e3o Teixeira (2016), Douglas Mota Xavier de Lima (2019) e Renan Marques Birro (2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u00a0\u00a0 Essa vis\u00e3o sobre uma \u201cmedievalidade residual\u201d presente no Brasil se faz ver, sobremaneira, em algumas an\u00e1lises acerca do funcionamento da monarquia portuguesa que colonizou nosso pa\u00eds. Corrupta, essa monarquia ainda funcionaria, conforme a leitura de alguns autores, como um \u201cAntigo Regime\u201d, isto \u00e9, uma compreens\u00e3o feudalizante do mundo. Para tanto, ver, entre outros, BORGES, Eduardo Jos\u00e9 Santos. <strong>O Antigo Regime no Brasil Colonial<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u00a0\u00a0 Um exemplo dessa reflex\u00e3o \u00e9 o artigo de Ot\u00e1vio Luiz Vieira Pinto (2019), cujo trabalho tem consistido em interrogar a validade desse r\u00f3tulo historiogr\u00e1fico para as sociedades do continente africano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u00a0\u00a0 Para uma do neomedievalismo praticado pela TFP, ver Jo\u00e3o Guilherm Lisb\u00f4a Rangel (2021).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u00a0\u00a0 S\u00f3 para citar um exemplo: Luiz Felipe Anchieta Guerra (2021; 2022).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u00a0\u00a0 A centralidade da figura cavaleiresca tamb\u00e9m tem sido alvo de muitas an\u00e1lises minuciosas, como a de Carlile Lanzier Junior (2021) e, no exterior, Tommaso di Carpegna Falconieri (2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> \u00a0\u00a0 Para n\u00e3o deixar o leitor em d\u00favida, ofere\u00e7o uma curta defini\u00e7\u00e3o do que entendo por imagin\u00e1rio e por representa\u00e7\u00e3o. Imagin\u00e1rio \u00e9 um conjunto de imagens que funciona como um sistema de coordenadas cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 permitir aos indiv\u00edduos situarem-se no mundo (BACZKO, 1985). Ele se aproxima da ideologia, entendida como \u201co conjunto das linguagens pol\u00edticas de uma sociedade, isto \u00e9, o conjunto das posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que se organizam numa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica concreta em dado momento de sua hist\u00f3ria e que esbo\u00e7am a totalidade das possibilidades e sua finitude\u201d (ANSART, 1978: 16). Com efeito, o imagin\u00e1rio, ao contr\u00e1rio do que se convencionou pensar, nunca est\u00e1 apartado da realidade emp\u00edrica da vida humana: ele estabelece com a concretude do mundo vivido uma rela\u00e7\u00e3o de intensas e rec\u00edprocas trocas (LAPLANTINE &amp; TRINDADE, 1996: 28). Por fim, podemos considerar que as imagens e ideias s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, recursos lingu\u00edsticos que presentificam ou trazem \u00e0 tona objetos, sentimentos e valores ausentes, distantes, estabelecendo (ou restabelecendo) a coisa ausente e o seu signo\/s\u00edmbolo, permitindo que seu significado volte a ter efeito na realidade presente (GINZBURG, 2001; FALCON, 2000).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\">Publicado em 20 de Junho de 2022.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como citar:<\/strong> RIBEIRO. Felipe Augusto. Brasil (Neo)Medieval: Idiossincrasias de um uso do passado. <strong>Blog do POIEMA<\/strong>. Pelotas: 20 jun. 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-brasil-neomedieval-idiossincrasias-de-um-uso-do-passado\/. Acesso em: data em que voc\u00ea acessou o artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Felipe Augusto Ribeiro[1] &nbsp; \u00a0 \u00a0Recentemente, ao longo dos debates sobre a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), historiadores brasileiros opinaram que a \u201cIdade M\u00e9dia\u201d \u00e9 uma temporalidade estrangeira, que n\u00e3o pertence \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil[2]. Conquanto alguns estudiosos aleguem que os portugueses trouxeram para o nosso pa\u00eds ideias, mentalidades, costumes, institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas medievais[3], &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-brasil-neomedieval-idiossincrasias-de-um-uso-do-passado\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1170,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"template-onecolumn.php","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"class_list":["post-4252","page","type-page","status-publish","hentry","nodate","item-wrap"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Texto: Brasil (Neo)Medieval: Idiossincrasias de um uso do passado - POIEMA<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/poiema\/texto-brasil-neomedieval-idiossincrasias-de-um-uso-do-passado\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Texto: Brasil (Neo)Medieval: Idiossincrasias de um uso do passado - POIEMA\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Felipe Augusto Ribeiro[1] &nbsp; \u00a0 \u00a0Recentemente, ao longo dos debates sobre a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), historiadores brasileiros opinaram que a \u201cIdade M\u00e9dia\u201d \u00e9 uma temporalidade estrangeira, que n\u00e3o pertence \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil[2]. 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