AS RUAS TAMBÉM ARQUIVAM

Nas palavras de Januário Garcia,

Este e-book é um desdobramento da instalação urbana composta por 20 lambe-lambes distribuídos no espaço público da cidade de Pelotas/RS, fixados no tapume da obra pública do antigo Grande Hotel. A intervenção se configura como uma ação gráfica de caráter político e poético, resultante do Trabalho de Conclusão de Curso em Design Gráfico de Maria Eduarda de Souza Costa, estudante bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Fronteiras: Saberes e Práticas Populares, da Universidade Federal de Pelotas, tutoriado pela Profa. Dra. Denise Marcos Bussoletti. Intitulada “As ruas também arquivam: o lambe-lambe como manifesto gráfico de reparação simbólica do epistemicídio negro e de retomada do direito à cidade”, a pesquisa foi desenvolvida sob orientação da Profa. Dra. Chris de Azevedo Ramil.

A instalação e o e-book apresentam 20 personalidades negras, abordando aspectos de relevância de suas trajetórias, produções e formas de representação no imaginário coletivo. Ao evidenciar essas figuras no espaço urbano e no suporte digital, o trabalho propõe uma reflexão crítica sobre memória, pertencimento e visibilidade negra em uma cidade pós-colonial como Pelotas, cuja formação histórica está profundamente marcada pelo passado escravocrata vinculado ao ciclo das charqueadas.

O projeto investiga o lambe-lambe interativo como ferramenta política de comunicação visual, resistência cultural e reparação simbólica, articulando referenciais do design social, do design ativista e as reflexões de Frantz Fanon acerca do racismo estrutural e da desumanização do sujeito negro nas sociedades coloniais e pós-coloniais. A conexão entre o espaço físico da cidade e o ambiente digital, por meio deste e-book, busca instaurar um processo de reparação simbólica frente ao apagamento histórico e estrutural de artistas e intelectuais negros, promovendo o reconhecimento, a circulação e a valorização de seus saberes.

Metodologicamente, a pesquisa articula investigação teórica e documental sobre o papel histórico do lambe-lambe em contextos de resistência, aliada a uma pesquisa de campo de caráter participativo junto à população pelotense, com o objetivo de compreender os níveis de visibilidade, reconhecimento e circulação atribuídos às produções culturais negras no território urbano. Ao operar entre arte, design e educação popular, a intervenção transforma o espaço da rua em lugar de disputa simbólica, memória e pertencimento.

Nesse sentido, os lambe-lambes interativos se configuram como atos de reexistência: tensionam o olhar cotidiano, desestabilizam a hegemonia da branquitude nos regimes de visibilidade da cidade e reafirmam o direito à cidade como direito à imagem, à memória e à representatividade.

Publicado em Ebook.