{"id":6476,"date":"2026-05-22T16:59:33","date_gmt":"2026-05-22T19:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/pelotasmun\/?p=6476"},"modified":"2026-05-22T17:29:31","modified_gmt":"2026-05-22T20:29:31","slug":"movimentos-nas-redes-sociais-e-o-aumento-de-violencia-de-genero-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/pelotasmun\/2026\/05\/22\/movimentos-nas-redes-sociais-e-o-aumento-de-violencia-de-genero-no-brasil\/","title":{"rendered":"Movimentos nas redes sociais e o aumento de viol\u00eancia de g\u00eanero no Brasil\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">As redes sociais transformaram a maneira que discursos sociais e pol\u00edticos circulam na contemporaneidade. Plataformas digitais deixaram de ser um espa\u00e7o somente para o entretenimento e se tornaram espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o de identidade e dissemina\u00e7\u00e3o de cultura. Nesse sentido, movimentos digitais como o \u201cred pill\u201d ganharam visibilidade nos \u00faltimos anos e passaram a influenciar especialmente p\u00fablicos jovens. Mesmo que muitas vezes sejam apresentados como simples \u201cestilos de vida\u201d ou \u201cconselhos\u201d, esses discursos refor\u00e7am desigualdades de g\u00eanero, colaboram e refor\u00e7am a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O movimento \u201cred pill\u201d surgiu em f\u00f3runs online masculinos e se popularizou nas redes sociais por meio de influenciadores que defendem uma suposta \u201cverdade escondida\u201d sobre as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres. O termo faz refer\u00eancia ao filme The Matrix, em que a \u201cp\u00edlula vermelha\u201d representa o despertar para a realidade. Dentro desses grupos, entretanto, a ideia \u00e9 utilizada para justificar discursos de superioridade masculina, desvaloriza\u00e7\u00e3o feminina e rejei\u00e7\u00e3o ao feminismo. Mulheres s\u00e3o frequentemente retratadas como manipuladoras, interesseiras ou respons\u00e1veis pela \u201ccrise da masculinidade\u201d, enquanto homens s\u00e3o incentivados a adotar comportamentos dominadores e agressivos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ao lado disso, para o algoritmo feminino, a tend\u00eancia \u201ctrad wife\u201d (\u201cesposa tradicional\u201d) tamb\u00e9m ganhou for\u00e7a em plataformas digitais. Influenciadoras desse movimento promovem um ideal feminino baseado na submiss\u00e3o ao marido, dedica\u00e7\u00e3o integral ao trabalho dom\u00e9stico e valoriza\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es conservadores de fam\u00edlia. Embora a escolha individual pela vida dom\u00e9stica n\u00e3o seja um problema, a quest\u00e3o central est\u00e1 na romantiza\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is de g\u00eanero historicamente desiguais. Muitas produ\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 est\u00e9tica \u201ctrad wife\u201d apresentam o feminismo como respons\u00e1vel pela infelicidade feminina e defendem um retorno a modelos sociais em que mulheres possu\u00edam menos autonomia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma sociedade marcada pela conex\u00e3o digital, identidades s\u00e3o constantemente moldadas pelas narrativas consumidas online. Jovens usu\u00e1rios passam a construir suas percep\u00e7\u00f5es sobre masculinidade e feminilidade a partir de conte\u00fados que refor\u00e7am padr\u00f5es r\u00edgidos de comportamento. Os algoritmos das plataformas intensificam esse processo ao recomendar conte\u00fados semelhantes de forma cont\u00ednua, criando bolhas digitais que naturalizam discursos mis\u00f3ginos e conservadores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O problema se torna ainda mais grave quando esses discursos ultrapassam o ambiente virtual e impactam a realidade social. O crescimento de conte\u00fados mis\u00f3ginos nas redes ocorre paralelamente ao aumento dos casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, feminic\u00eddio e viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra mulheres no Brasil. Ao normalizar ideias de submiss\u00e3o feminina, controle masculino e hostilidade ao feminismo, movimentos digitais contribuem para a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero. A misoginia online deixa de ser apenas discurso e passa a influenciar pr\u00e1ticas sociais concretas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6480\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/pelotasmun\/files\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-22-at-16.46.38.jpeg\" alt=\"\" width=\"827\" height=\"372\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/pelotasmun\/files\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-22-at-16.46.38.jpeg 827w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/pelotasmun\/files\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-22-at-16.46.38-400x180.jpeg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/pelotasmun\/files\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-22-at-16.46.38-768x345.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 827px) 100vw, 827px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400; font-size: 10pt;\">Fonte: Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica; F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2026.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400; font-size: 10pt;\">Legenda: Gr\u00e1fico de feminic\u00eddios no Brasil de 2015 a 2025.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A repeti\u00e7\u00e3o constante de conte\u00fados que associam masculinidade ao controle, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o e \u00e0 superioridade sobre as mulheres contribui para a legitima\u00e7\u00e3o de atitudes abusivas dentro das rela\u00e7\u00f5es afetivas e sociais. Muitos desses discursos incentivam a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, a objetifica\u00e7\u00e3o feminina e a ideia de que homens estariam \u201cperdendo espa\u00e7o\u201d na sociedade contempor\u00e2nea. Como consequ\u00eancia, pr\u00e1ticas de controle emocional, viol\u00eancia psicol\u00f3gica e comportamentos possessivos passam a ser percebidos por alguns usu\u00e1rios como atitudes aceit\u00e1veis ou at\u00e9 mesmo justific\u00e1veis.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em ambientes marcados por bolhas algor\u00edtmicas, usu\u00e1rios passam a consumir conte\u00fados cada vez mais extremos, fortalecendo vis\u00f5es conservadoras e hostis ao feminismo. Influenciadores e comunidades online frequentemente utilizam humor, memes e linguagem informal para disseminar misoginia de maneira aparentemente inofensiva, o que facilita a normaliza\u00e7\u00e3o desses discursos entre os jovens. Dessa forma, a viol\u00eancia simb\u00f3lica presente nas redes sociais pode se transformar em viol\u00eancia concreta, reproduzida em relacionamentos, ambientes escolares, espa\u00e7os de trabalho e at\u00e9 mesmo em casos extremos de agress\u00e3o f\u00edsica e feminic\u00eddio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mais do que tend\u00eancias passageiras da internet, esses movimentos refletem disputas culturais e ideol\u00f3gicas profundas sobre o papel da mulher na sociedade contempor\u00e2nea. Em um cen\u00e1rio de crescente viol\u00eancia de g\u00eanero no Brasil, \u00e9 necess\u00e1rio combater a naturaliza\u00e7\u00e3o da misoginia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Bruna Palharini,<\/strong> <em>Assistente de Press<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. <\/span><b>Retrato dos feminic\u00eddios no Brasil.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> S\u00e3o Paulo: F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2026. Dispon\u00edvel em:<\/span><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf\"> <span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> Acesso em: 21 maio 2026.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">VILAS BOAS, Julia Cristina Marques. <\/span><b>Red pill e machosfera: viol\u00eancia neomachista e extrema direita em uma an\u00e1lise de discurso<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Pelotas: Universidade Cat\u00f3lica de Pelotas, 2024. Acesso em: 20 de maio de 2026.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">HALL, Stuart. <\/span><b>A Identidade Cultural na P\u00f3s-Modernidade. <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Open University Press, 1992. Acesso em 21 de maio de 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As redes sociais transformaram a maneira que discursos sociais e pol\u00edticos circulam na contemporaneidade. Plataformas digitais deixaram de ser um espa\u00e7o somente para o entretenimento e se tornaram espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o de identidade e dissemina\u00e7\u00e3o de cultura. 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