{"id":1344,"date":"2017-03-08T11:50:02","date_gmt":"2017-03-08T14:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/observatoriosocial\/?p=1344"},"modified":"2017-03-08T16:42:26","modified_gmt":"2017-03-08T19:42:26","slug":"mercado-de-trabalho-desigualdades-e-observacao-da-realidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/observatoriosocial\/2017\/03\/08\/mercado-de-trabalho-desigualdades-e-observacao-da-realidade-social\/","title":{"rendered":"Mercado de trabalho, desigualdades e observa\u00e7\u00e3o da realidade social"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em>Artigo publicado pelo professor Francisco E. B. Vargas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o de mercados de trabalho \u00e9 uma importante ferramenta de conhecimento sobre a realidade social. Isto porque o trabalho e o emprego se apresentam como mecanismos decisivos de participa\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o \u00e0 vida social. Al\u00e9m de serem fontes de rendimento e sustenta\u00e7\u00e3o material das pessoas e de seus grupos familiares, essas atividades s\u00e3o, igualmente, ve\u00edculos de acesso a direitos e prote\u00e7\u00f5es sociais, al\u00e9m de serem importantes fontes de reconhecimento e constru\u00e7\u00e3o de identidades sociais, particularmente as identidades profissionais.<\/p>\n<p>Nas sociedades modernas, constru\u00eddas em torno de valores e ideais igualit\u00e1rios, ainda que de maneira tensa em rela\u00e7\u00e3o a valores ligados \u00e0 defesa da liberdade econ\u00f4mica, existem fortes processos de diferencia\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o social, as chamadas desigualdades sociais (de classe, de g\u00eanero, de gera\u00e7\u00e3o, de ra\u00e7a ou etnia, etc.) ligadas \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no trabalho e no mercado de trabalho. Portanto, a observa\u00e7\u00e3o de mercados de trabalho e de seus indicadores pode nos dar uma boa medida dos n\u00edveis de desigualdade social, frequentemente ileg\u00edtimos, bem como de importantes mecanismos de exclus\u00e3o e vulnerabilidade de parcelas expressivas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria din\u00e2mica econ\u00f4mica de uma sociedade ou regi\u00e3o pode ser apreendida, ainda que parcialmente, a partir da observa\u00e7\u00e3o dos mercados de trabalho, pois eles refletem o modo como as atividades econ\u00f4micas est\u00e3o organizadas, o n\u00edvel de estrutura\u00e7\u00e3o das empresas e empreendimentos econ\u00f4micos. Historicamente, as economias capitalistas geraram, e geram at\u00e9 hoje, potentes mecanismos de eleva\u00e7\u00e3o da produtividade do trabalho, de cria\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de setores, atividades econ\u00f4micas e empregos, al\u00e9m de produzirem desigualdades sociais profundas. As pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es de trabalho, mais ou menos reguladas e mediadas pelo Estado e suas institui\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m podem constituir um importante foco de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o dos mercados de trabalho permite certa leitura e aproxima\u00e7\u00e3o, ainda que limitadas, desses fen\u00f4menos, abrindo caminho, do mesmo modo, para que pol\u00edticas p\u00fablicas possam ser definidas, planejadas e debatidas na sociedade. O Observat\u00f3rio Social do Trabalho da UFPel, projeto ligado ao Instituto de Filosofia, Sociologia e Pol\u00edtica, tem procurado seguir essa trilha de amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento da realidade local atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho e do mercado de trabalho. As limita\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o dessa empreitada s\u00e3o significativas, na medida em que o sistema estat\u00edstico brasileiro n\u00e3o permite um acompanhamento do conjunto desses mercados de trabalho em n\u00edvel municipal, devido \u00e0 inexist\u00eancia de amplas pesquisas conjunturais. Dados dos censos demogr\u00e1ficos do IBGE, bem como do Minist\u00e9rio do Trabalho, dentre outras fontes dispon\u00edveis, por\u00e9m, permitem a realiza\u00e7\u00e3o de leituras e estudos interessantes que podem contribuir para o enriquecimento do debate p\u00fablico e para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Dados do \u00faltimo censo demogr\u00e1fico do IBGE, por exemplo, ainda que defasados, revelam que 33,6% do total de quase 150 mil pessoas ocupadas de Pelotas, em 2010, n\u00e3o assinavam a carteira de trabalho ou n\u00e3o tinham nenhum tipo de contribui\u00e7\u00e3o para a previd\u00eancia social, estando \u00e0 margem do sistema de prote\u00e7\u00e3o social e trabalhista. Este contingente de pessoas somado aos mais de 12 mil desempregados (a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o era de 7,6%, em 2010) totalizava mais de 62 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de risco e vulnerabilidade no mercado de trabalho, o que representava, naquele ano, 38,6% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa de Pelotas. Eis uma faceta importante das desigualdades sociais em Pelotas.<\/p>\n<p>Dados da Rela\u00e7\u00e3o Anual de Informa\u00e7\u00f5es Sociais (RAIS), do Minist\u00e9rio do Trabalho, revelam tamb\u00e9m que houve um forte crescimento do emprego formal em Pelotas ao longo dos anos 2000, com o \u00e1pice no ano de 2014. Segundo a RAIS, o n\u00famero total de v\u00ednculos ativos de emprego, em 31 de dezembro de cada ano, passou de 46.523 v\u00ednculos, em 2000, para 69.643, em 2010, e para 79.601, em 2014. Nesse per\u00edodo, o emprego protegido cresceu mais que o total da ocupa\u00e7\u00e3o, reduzindo a precariedade no mercado de trabalho. Por\u00e9m, com a crise econ\u00f4mica recente, observa-se uma redu\u00e7\u00e3o dos empregos formais e uma retomada da precariedade. Os dados da RAIS de 2015, \u00faltimo ano dispon\u00edvel, revelam que houve uma perda de 2.995 v\u00ednculos naquele ano, o estoque reduzindo-se para 76.606 v\u00ednculos. Essa tend\u00eancia continuou no ano de 2016, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Minist\u00e9rio do Trabalho, com uma perda 1.774 v\u00ednculos neste \u00faltimo ano.<\/p>\n<p>Outras facetas das desigualdades no mercado de trabalho de Pelotas s\u00e3o igualmente identific\u00e1veis. Em 2010, as taxas de desocupa\u00e7\u00e3o eram de 5,6% para os homens e de 9,8% para as mulheres, eram de 13,3% para os jovens de 18 a 29 anos de idade e de 6,3% para os adultos de 30 a 39 anos de idade. Naquele mesmo ano, segundo o IBGE, o rendimento m\u00e9dio da popula\u00e7\u00e3o ocupada era de R$ 1.651,64 para os homens e de R$ 1.095,86 para as mulheres. Isto \u00e9, as mulheres ganhavam, em m\u00e9dia, apenas 66,3% do que ganhavam os homens. Dados mais recentes da RAIS de 2015, abrangendo apenas os empregos formais, mostram que as mulheres receberam, em m\u00e9dia, 88,9% do rendimento masculino. Trata-se de um dado menos desalentador. No entanto, quando se desagrega esses dados por escolaridade, observa-se desigualdade mais acentuada entre os trabalhadores com n\u00edvel superior completo, por exemplo. Nessa categoria, as mulheres receberam, em m\u00e9dia, 63,6% do rendimento masculino. Constata-se, pois, que as desigualdades de g\u00eanero, com frequ\u00eancia, s\u00e3o maiores nas posi\u00e7\u00f5es que se encontram no topo da hierarquia do trabalho. Trata-se de um dado importante na compreens\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, particularmente das desigualdades de g\u00eanero, especialmente nesta semana de debates sobre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres na sociedade. A observa\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho pode ser de grande valor, portanto, na compreens\u00e3o da realidade social, no est\u00edmulo ao debate p\u00fablico e no enfrentamento dos dilemas de uma sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pelotas, 08 de mar\u00e7o de 2017.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Professor do Instituto de Filosofia, Sociologia e Pol\u00edtica da Universidade Federal de Pelotas, Coordenador do Observat\u00f3rio Social do Trabalho, doutor e mestre em sociologia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado pelo professor Francisco E. B. Vargas[1] &nbsp; &nbsp; A observa\u00e7\u00e3o de mercados de trabalho \u00e9 uma importante ferramenta de conhecimento sobre a realidade social. Isto porque o trabalho e o emprego se apresentam como mecanismos decisivos de participa\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o \u00e0 vida social. 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