{"id":809,"date":"2023-02-05T14:56:06","date_gmt":"2023-02-05T17:56:06","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/?p=809"},"modified":"2023-02-05T14:56:06","modified_gmt":"2023-02-05T17:56:06","slug":"incendio-e-incendiaria-divagacoes-sobre-internet-e-trauma-na-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/2023\/02\/05\/incendio-e-incendiaria-divagacoes-sobre-internet-e-trauma-na-infancia\/","title":{"rendered":"&#8220;INC\u00caNDIO E INCENDI\u00c1RIA: Divaga\u00e7\u00f5es sobre INTERNET e TRAUMA na inf\u00e2ncia&#8221;"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Escrito por ALMA GUERRA<\/span><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Para o N\u00daCLEO DE G\u00caNERO E DIVERSIDADE (NUGEN) da UFPEL<\/span><\/h5>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 noite.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ligo meu notebook, sentada na cama, como sempre fa\u00e7o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Abro meu navegador. Entro no Pinterest para ver imagens bonitas, memes bobos e dicas para projetos art\u00edsticos, algo que tamb\u00e9m fa\u00e7o bastante, nesse caso um pouco mais do que gostaria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Doomscrolling<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Hiperinforma\u00e7\u00e3o. Aliena\u00e7\u00e3o mental.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Garantia de serotonina quase instant\u00e2nea pra uma adolescente que est\u00e1 cada vez mais pr\u00f3xima daquela esquina que se cruza aos dezenove anos de idade, aquela na qual nos espera a vida adulta, esta j\u00e1 pronta com suas armas e ferramentas de ora moldar indiv\u00edduos para um mundo mecanizado \u00e0 favor do exerc\u00edcio de maximizar lucro pra classe burguesa, ora de moer e devorar todo indiv\u00edduo que tiver a aud\u00e1cia de desafiar as normas impostas por tal elite. Quando se cruza essa esquina, diz-se que normalmente n\u00e3o se volta mais. A inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia se tornam mem\u00f3rias, meros fragmentos de um passado cada vez mais distante, que n\u00e3o vai mais voltar sen\u00e3o no mundo intang\u00edvel e sem limites da nossa consci\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Olhando para a tela do computador, j\u00e1 sinto o pesar do sono no meu corpo. Mas sigo descendo a timeline. Entre diferentes imagens que observo nesse espa\u00e7o virtual cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 agregar m\u00eddias visuais de outros websites, para assim, de maneira padronizada e algor\u00edtmica, me manter acessando seu dom\u00ednio, muito provavelmente em benef\u00edcio do lucro de acionistas ao redor do planeta, uma imagem, ou melhor, um print de uma postagem de outra rede social chama minha aten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa postagem, algu\u00e9m que desconhe\u00e7o colocou em simples palavras um saber que h\u00e1 muito eu precisava ter no\u00e7\u00e3o sobre. N\u00e3o lembro com exatid\u00e3o o texto na \u00edntegra, mas basta, aqui, citar a frase que define o ponto central do que \u00e9 dito: \u201cN\u00e3o se pode curar um trauma que ainda est\u00e1 acontecendo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Muito se fala e teoriza dos diferentes aspectos e recortes que modelam a juventude enquanto experi\u00eancia no mundo de hoje, compondo um di\u00e1logo que busca compreender como ela \u2013 a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia que ocorreu nos anos 2010 e ocorre na d\u00e9cada atual \u2013 difere da inf\u00e2ncia de quem cresceu nas d\u00e9cadas anteriores. Estes di\u00e1logos seguem em um estado incessante de constru\u00e7\u00e3o na medida em que os nascidos entre o final dos anos noventa at\u00e9 meados dos anos 2000 tomam em suas m\u00e3os os mais diferentes meios e modos de abordar sua hist\u00f3ria, suas viv\u00eancias e as preocupa\u00e7\u00f5es de sua era.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Partindo da minha perspectiva, busco utilizar deste artigo para retratar certas partes pouco elaboradas, pelo menos por grandes espa\u00e7os midi\u00e1ticos, da experi\u00eancia de minha gera\u00e7\u00e3o com a internet, que acaba por se tornar, mais e mais, um espa\u00e7o familiar ao nosso imagin\u00e1rio, individual ou coletivo, desde os primeiros anos de vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Saliento, antes de tudo, que n\u00e3o posso falar por ningu\u00e9m al\u00e9m de mim mesma, e que tudo aqui remete n\u00e3o a algum tipo de conceito de universalidade, mas sim \u00e0 minha pr\u00f3pria experi\u00eancia enquanto travesti, enquanto pessoa branca, enquanto algu\u00e9m que nasceu em 2003 e cresceu no meio art\u00edstico, morando na periferia de uma cidade do Rio Grande do Sul.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Existem diferentes maneiras de imaginar o trauma de uma crian\u00e7a como algo material, tang\u00edvel, que podemos ver, tocar, cheirar, sentir e contemplar, associando as dores de uma ou de m\u00faltiplas experi\u00eancias traum\u00e1ticas \u00e0 algo que existe no mundo f\u00edsico em que existimos. Podemos dizer que o trauma \u00e9 como uma facada, que penetra nosso tecido humano e cria uma hemorragia, criando-se numerosas op\u00e7\u00f5es de como lidar com o ferimento. Se formos destacar as op\u00e7\u00f5es mais l\u00f3gicas, obviamente s\u00e3o apenas duas: podemos deixar a faca onde ela est\u00e1, mantendo nosso sangue (e a hemorragia) no lado de dentro, ou podemos simplesmente arranc\u00e1-la, deix\u00e1-la sangrar e buscar tratar o vazamento de acordo com a necessidade daquele corte desferido em nossa carne. Independente de qual dessas duas op\u00e7\u00f5es voc\u00ea escolher, sempre existir\u00e3o consequ\u00eancias. O fio e o restante da estrutura met\u00e1lica de uma faca pode at\u00e9 segurar o sangue dentro de voc\u00ea e evitar que ele bagunce e manche de vermelho o que est\u00e1 em sua volta, mas \u00e9 dif\u00edcil negar que apenas ao retirarmos cada cent\u00edmetro desse objeto cortante do nosso corpo poderemos sanar essa ferida de modo eficaz. O que complica a hist\u00f3ria \u00e9 que, nessa alegoria metaf\u00edsica, a faca n\u00e3o est\u00e1 cravada em nosso corpo, atravessando nossos nervos e fazendo incis\u00f5es em nosso tecido muscular por segundos ou minutos. Geralmente ela fica ali por anos de uma vida, ao ponto em que ela se torna uma parte de n\u00f3s, um novo membro do nosso sistema, com suas sensibilidades, seus tiques e suas pr\u00f3prias sensa\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">No meu caso, eu elaboraria minhas experi\u00eancias traum\u00e1ticas como algo diferente. Pra mim, o que se instalou em minha mente, no meu psicol\u00f3gico e imagin\u00e1rio \u00e9 como um inc\u00eandio. Um algoz que fere, se alastra expansivamente e destr\u00f3i aquilo que toca. Um problema que quanto maior fica, mais dif\u00edcil se torna sua solu\u00e7\u00e3o. Nisso, demorou anos pra eu ter a no\u00e7\u00e3o e a possibilidade de reconhecer que, mesmo parecendo que eu fosse, eu jamais fui a incendi\u00e1ria respons\u00e1vel por toda essa dor que me levou, de fato, a extremos muito perigosos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu tinha nove anos de idade, come\u00e7amos a ter conex\u00e3o de internet em minha casa. Foi um momento marcante da minha inf\u00e2ncia, que em poucos anos se tornaria pr\u00e9-adolesc\u00eancia. Finalmente, eu poderia assistir v\u00eddeos no Youtube, criar uma conta no Facebook e acessar websites com jogos no formato Adobe Flash Player, tudo isso sem me deslocar at\u00e9 uma Lan House!\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Dentro do pr\u00f3ximo ano, as coisas ficaram estranhas. Possuir uma conta no Facebook em seu famigerado apogeu (l\u00e1 por 2013), tendo apenas dez anos de idade faz coisas com sua forma de perceber o mundo e de assimilar o que lhe rodeia. Come\u00e7o a ficar curiosa sobre meu corpo. Come\u00e7o a ficar curiosa sobre o corpo de outras pessoas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A configura\u00e7\u00e3o de sociedade ocidental na qual vivemos propicia modelos de m\u00eddia e cultura <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">mainstream <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">que abordam sexo cisheteronormativo de maneira muitas vezes gratuita, mas deixa toda responsabilidade da educa\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes para seus respons\u00e1veis, que por uma gama de raz\u00f5es podem acabar negligenciando esse enorme e importante aspecto da vida humana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Uma das minhas maiores curiosidades era sobre como o sexo acontecia, qual era o formato de uma vulva, e obviamente, o que diabos significava essa palavra esquisita, esse tal de orgasmo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o tinha ideia de que era poss\u00edvel perguntar para os meus pais sobre essas coisas, por causa de poss\u00edveis constrangimentos e humilha\u00e7\u00f5es que poderiam acontecer. E estudando na rede p\u00fablica, levar essas quest\u00f5es para a escola n\u00e3o passava nem perto da minha cabe\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o comecei a pesquisar fotos de mulheres nuas no Google Imagens.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em pouco tempo, descobri a masturba\u00e7\u00e3o, e em consequ\u00eancia, o orgasmo. Dois anos depois, aos mais ou menos doze anos de idade, eu j\u00e1 estava acostumada com o ritual e me masturbava quase diariamente. Muitas vezes, mesmo sem sequer tendo vontade, e em muitas outras me sentindo confusa e entristecida ap\u00f3s a pr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o entendia minhas emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o entendia quem eu era, o que queria, e muito menos meus pr\u00f3prios limites. Desde muito cedo na inf\u00e2ncia j\u00e1 mostrava sinais de depress\u00e3o e transtorno obsessivo-compulsivo, estes ignorados pelos meus pais e pela minha fam\u00edlia em geral, e lembro nitidamente de experienciar idea\u00e7\u00f5es suicidas desde os oito anos de idade. Obviamente, eu n\u00e3o estava pronta, em hip\u00f3tese alguma, para vislumbrar e acessar um mundo de conte\u00fados gr\u00e1ficos de sexo, a grande maioria produzidos por uma ind\u00fastria pornogr\u00e1fica capitalista, mis\u00f3gina, racista e LGBTf\u00f3bica que explora e abusa dos corpos de pessoas reais e que acumula seu lucro proliferando os ideais de uma cultura de estupro que \u00e9 fortemente alicer\u00e7ada no estigma atrelado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual democr\u00e1tica e na falta de pensamento cr\u00edtico relacionado \u00e0 maneira de como sistemas de opress\u00e3o se perpetuam utilizando do corpo socialmente marginalizado como objeto de fetiche.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">E como eu n\u00e3o tinha uma no\u00e7\u00e3o concreta do significado material que embasava as coisas que eu facilmente acessava com tr\u00eas a cinco cliques de mouse, entre os dez e treze anos de idade me tornei suscet\u00edvel \u00e0 ser exposta ao que mais me traumatizou: pornografia infantil. N\u00e3o existem muitas palavras que possa usar para descrever os impactos que isso teve sobre minha concep\u00e7\u00e3o de sexo no in\u00edcio da minha adolesc\u00eancia, pois talvez essas palavras sequer existam.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O que possibilitou esse trauma foi, em meio a todos esses elementos e fatores, a falta de supervis\u00e3o sobre os conte\u00fados que eu navegava <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">online<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> por parte de meus pais somada com a falta absoluta que se cria num pa\u00eds em que educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas de rede p\u00fablica \u00e9 tratada como uma atrocidade pelos representantes conservadores do meio pol\u00edtico. Nisso, a porta de entrada a esses conte\u00fados se tornou f\u00e1cil, afinal ela jamais esteve trancada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aos quatorze e quinze anos passei a ter contato com diferentes espa\u00e7os virtuais, diferentes filmes e livros, diferentes correntes de pensamento, muitas vezes de cerne esquerdista criados por pessoas LGBTQIA+ e por comunidades antirracistas pautadas na luta de classes, e meus olhos foram se abrindo dia ap\u00f3s dia. Eu finalmente tinha no\u00e7\u00e3o de que tive contato com coisas terr\u00edveis, que me machucaram profundamente; finalmente pude abordar isso na terapia, consultando no CAPSi, mas um novo est\u00e1gio se aprochegou, que foi o de me entender como algu\u00e9m que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">foi exposta<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> a conte\u00fados criminosos em uma situa\u00e7\u00e3o de falta de supervis\u00e3o, n\u00e3o algu\u00e9m que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">se exp\u00f4s<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> a esses conte\u00fados. Por muito tempo, senti culpa. Mas mais do que isso, senti medo de me descobrir uma pessoa que praticaria essas viol\u00eancias contra outras pessoas, especialmente crian\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um ano atr\u00e1s, aos dezoito anos de idade, j\u00e1 me sentia mais tranquila, em espec\u00edfico pelo conhecimento que obtive no exerc\u00edcio de conhecer a mim mesma e de definir meus limites de forma mais honesta. N\u00e3o cogito a possibilidade de machucar outras pessoas. N\u00e3o cogito a possibilidade de ferir crian\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">De fato, \u00e9 importante afirmar aqui que recentemente tive a compreens\u00e3o de que eu jamais cogitei cometer tamanhas atrocidades contra qualquer outro indiv\u00edduo, e que o que me consumia estava muito mais ligado ao medo, \u00e0s inseguran\u00e7as e aos estigmas de experienciar um trauma t\u00e3o cru num pa\u00eds que se importa t\u00e3o pouco com estrat\u00e9gias para educar crian\u00e7as sobre seus corpos e sobre os diferentes aspectos que dizem respeito \u00e0 tem\u00e1tica da sexualidade, para assim prevenir viol\u00eancias e abusos que possam sofrer, sem mencionar doen\u00e7as que possam contrair ou a possibilidade de uma gravidez indesejada, algo que nos leva a outro assunto de enorme complexidade e que tamb\u00e9m sequer \u00e9 debatido, novamente por causa de uma violenta representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que rejeita pautas projetadas pelo feminismo, como direitos reprodutivos e a possibilidade do aborto acess\u00edvel e seguro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje em dia, n\u00e3o posso dizer que superei esse trauma. Arrisco dizer que ele ainda acontece, de uma forma diferente, enquanto vivo outro est\u00e1gio na minha busca por me conhecer e aprender como viver com poss\u00edveis sintomas do Transtorno de Estresse P\u00f3s-Traum\u00e1tico (TEPT) que, suspeito fortemente, assim como profissionais de sa\u00fade mental que me atenderam recentemente, ter em certas ocasi\u00f5es. A diferen\u00e7a \u00e9 que, hoje em dia, j\u00e1 distante do consumo desses conte\u00fados, minhas inseguran\u00e7as residem na necessidade de falar sobre o que aconteceu comigo, n\u00e3o apenas pelo bem da minha sa\u00fade mental e pela possibilidade de saber lidar com esses sintomas de TEPT de forma mais eficaz, mas tamb\u00e9m pela pot\u00eancia que percebo na ideia de, ao longo de minha trajet\u00f3ria, contribuir na conscientiza\u00e7\u00e3o da necessidade da educa\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o tive quando era pequena, algo que facilmente entra em choque com a falta de espa\u00e7o reservado \u00e0 narrativas complexas de trauma infantil ligadas \u00e0s tecnologias modernas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Grande parte desse medo vem do fato de eu ser uma travesti. Meu processo de transi\u00e7\u00e3o, em minha opini\u00e3o, ocorreu desde muito cedo na minha maneira de ver o mundo e questionar o que me foi imposto desde crian\u00e7a. No entanto, s\u00f3 tive oportunidades de explorar minha express\u00e3o de g\u00eanero de forma satisfat\u00f3ria nos \u00faltimos tr\u00eas anos, desde meus dezesseis, ap\u00f3s muitos anos de pesquisa, de l\u00e1grimas e sorrisos ao me ver no espelho e de conhecer pessoas como eu, e ver que existimos h\u00e1 eras, em todo o planeta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Infelizmente, a realidade no nosso pa\u00eds \u00e9 que a nossa mera exist\u00eancia \u00e9 estigmatizada e demonizada aos extremos, e que se torna cada vez mais f\u00e1cil observar ao redor do mundo um projeto pol\u00edtico por parte do patriarcado cisheteronormativo de estabelecer e fincar, no imagin\u00e1rio coletivo, a ideia de que n\u00f3s somos pessoas intrinsecamente violentas, abusivas e que representam um perigo, muitas vezes associado ao estupro, \u00e0 mulheres cisg\u00eanero e crian\u00e7as em geral.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Se olharmos de perto, \u00e9 curioso observar o quanto a percep\u00e7\u00e3o estigmatizada sobre sexo \u00e9 contradit\u00f3ria, e como os impactos dessas contradi\u00e7\u00f5es tem consequ\u00eancias reais e \u00e0s vezes fatais na nossa vida e psique. Os mesmos grupos que dedicam suas pr\u00e1ticas pol\u00edticas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do sexo como tabu e que inviabilizam qualquer probabilidade de crian\u00e7as e adolescentes receberem a educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para estarem conscientes de conceitos como sexo, consentimento, orienta\u00e7\u00e3o sexual, identidade de g\u00eanero, etc., negligenciam as diferentes camadas dessa tem\u00e1tica, como o fato \u00f3bvio de que se uma crian\u00e7a n\u00e3o aprende algo t\u00e3o implantado na nossa sociedade e no regime capitalista de corpo, reprodu\u00e7\u00e3o e trabalho pelos meios certos, muito provavelmente vai aprender sobre tais coisas pelos meios mais tortos e problem\u00e1ticos que o espa\u00e7o cibern\u00e9tico poder\u00e1 disponibilizar. Simultaneamente, o di\u00e1logo acerca da exist\u00eancia LGBTQIA+ \u00e9 brutal em seu tratamento com diferentes comunidades que est\u00e3o sob nossos \u201ctermos guarda-chuva\u201d, e n\u00e3o contemplam a complexidade dos nossos traumas, sejam eles de natureza individual ou coletiva. A disputa entre diferentes narrativas acerca de quem somos, o que sentimos e o que \u00e9 aquilo que desejamos enquanto pessoas transg\u00eanero machuca quem sofre de um trauma t\u00e3o raramente abordado. Afinal, como podemos n\u00e3o s\u00f3 imaginar, mas tamb\u00e9m perceber, em diferentes sentidos, a constru\u00e7\u00e3o de um futuro melhor para n\u00f3s mesmas se estamos constantemente enfrentando a ideia de que existe algo de intrinsecamente errado conosco?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ofere\u00e7o mais questionamentos. Quem fala de travestis que, como eu, foram expostas a esse tipo de viol\u00eancia? Ou que, diferente de mim, sofreram na pele a realidade do abuso sexual, algo constantemente relatado na nossa comunidade, especialmente entre as que foram submetidas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s serem expulsas de sua casa em sua inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quem fala de travestis feridas psicologicamente pelo imagin\u00e1rio coletivo que nos relega \u00e0 posi\u00e7\u00e3o predestinada de ser, ou uma v\u00edtima fatal da viol\u00eancia cisheteropatriarcal, ou uma abusadora em potencial na imagina\u00e7\u00e3o cisg\u00eanera?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O que sobra pra n\u00f3s, afinal?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em conversas com pessoas da minha idade que tive ao longo dos anos, nas quais me senti segura o suficiente para compartilhar minhas experi\u00eancias mais traum\u00e1ticas, passei a perceber que n\u00e3o estou, de maneira alguma, sozinha. Conhe\u00e7o mulheres e homens na minha faixa de idade que tamb\u00e9m cresceram no meio cibern\u00e9tico e foram expostos a conte\u00fados criminosos, e que, assim como eu, tem muito a dizer sobre como isso fere e distorce nossa no\u00e7\u00e3o coletiva sobre aspectos da vida que n\u00e3o aprendemos nada sobre na escola ou em casa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Neste momento, n\u00e3o sei com certeza absoluta qual \u00e9 o pr\u00f3ximo passo, al\u00e9m de viver um dia de cada vez, fazer terapia e procurar me compreender enquanto um ser humano que passou por eventos traum\u00e1ticos que, em geral, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o abordados \u2013 provavelmente em decorr\u00eancia da nossa compreens\u00e3o sobre a internet, e como ela molda experi\u00eancias e sequelas para pessoas de diferentes idades e recortes sociais, estar andando \u00e0 passos curtos, num mundo que se torna, cada vez mais, excessivamente veloz.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o que posso dizer \u00e9 que, ap\u00f3s tudo que vivi, eu acredito nas pot\u00eancias expressadas pela possibilidade de educar a juventude sobre assuntos que s\u00e3o socialmente estigmatizados ao mesmo tempo que naturalizados nas diferentes camadas da sociedade. Acredito na ideia de um mundo onde crian\u00e7as n\u00e3o precisem passar pelo que eu passei.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Acredito que \u00e9 poss\u00edvel nosso imagin\u00e1rio coletivo reservar amor, afeto e acolhimento para travestis e pessoas trans que sofrem de diferentes traumas em sua vida, e n\u00e3o o oposto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em suma, eu acredito no ideal de que autonomia, no seu est\u00e1gio mais fundamental, que creio ser o de ter a oportunidade de se conhecer e de aprender de maneira moderada, segura e saud\u00e1vel sobre o mundo \u00e0 sua volta e como ele funciona, n\u00e3o \u00e9 algo que deva ser conquistado atrav\u00e9s do sofrimento ou do acaso, mas sim um direito garantido a todos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por ALMA GUERRA Para o N\u00daCLEO DE G\u00caNERO E DIVERSIDADE (NUGEN) da UFPEL \u00c9 noite.\u00a0 Ligo meu notebook, sentada na cama, como sempre fa\u00e7o.\u00a0 Abro meu navegador. Entro no Pinterest para ver imagens bonitas, memes bobos e dicas para&#8230; <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/2023\/02\/05\/incendio-e-incendiaria-divagacoes-sobre-internet-e-trauma-na-infancia\/\">Continue lendo &rarr;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":801,"featured_media":810,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,14,12],"tags":[],"class_list":["post-809","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-denuncia","category-reflexao","category-relato","post_format-post-format-image"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/files\/2023\/02\/INCENDIO-E-INCENDIARIA.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/users\/801"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=809"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":817,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/809\/revisions\/817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/media\/810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/nugen\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}