{"id":123,"date":"2025-11-06T22:48:08","date_gmt":"2025-11-07T01:48:08","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/?p=123"},"modified":"2025-11-07T00:24:04","modified_gmt":"2025-11-07T03:24:04","slug":"o-cenario-das-pessoas-em-situacao-de-rua-na-cidade-de-pelotas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/2025\/11\/06\/o-cenario-das-pessoas-em-situacao-de-rua-na-cidade-de-pelotas\/","title":{"rendered":"O cen\u00e1rio das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na cidade de Pelotas"},"content":{"rendered":"<p>Hist\u00f3rias de vulnerabilidade e de iniciativas que transformam realidades para al\u00e9m das ruas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Por Andrine Teixeira, Isadora Alcantara e Larissa Rodrigues<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pelas ruas do centro de Pelotas, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar a presen\u00e7a de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua dormindo em cal\u00e7adas, pedindo ajuda nos sem\u00e1foros ou procurando restos de comida no lixo. Ainda assim, o que salta aos olhos de quem passa parece n\u00e3o provocar rea\u00e7\u00f5es duradouras do poder p\u00fablico. Todos os dias, a cidade convive com a vulnerabilidade \u00e0 c\u00e9u aberto, mas responde a ela com sil\u00eancios, preconceitos e a\u00e7\u00f5es pontuais que destacam ainda mais o que j\u00e1 existe.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto faltam pol\u00edticas permanentes de acolhimento, sobram discursos que reduzem o problema a quest\u00f5es como \u201cfalta de vontade de trabalhar\u201d, \u201cvagabundos\u201d ou \u201cfalta de vergonha na cara\u201d, mas o que falta s\u00e3o oportunidades para essas pessoas. Essa vis\u00e3o simplista ignora a complexidade social, econ\u00f4mica e de sa\u00fade mental que empurra pessoas para as ruas e as mant\u00e9m nelas. O resultado \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o invisibilizada, que sobrevive entre a indiferen\u00e7a e o esfor\u00e7o de projetos volunt\u00e1rios que tentam preencher, sozinhos, o vazio deixado pelas autoridades.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O in\u00edcio de tudo<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As trajet\u00f3rias de quem vive nas ruas de Pelotas s\u00e3o t\u00e3o diversas quanto dolorosas. Segundo os profissionais que atuam diretamente com essa popula\u00e7\u00e3o, como as equipes do Centro Pop (Centro de Refer\u00eancia Especializado para Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Rua) e da Casa de Passagem, h\u00e1 um conjunto de fatores que se entrela\u00e7am e empurram essas pessoas para fora do conv\u00edvio social: conflitos familiares, uso abusivo de subst\u00e2ncias, perda de v\u00ednculos afetivos, doen\u00e7as mentais e a desorganiza\u00e7\u00e3o da vida ap\u00f3s crises pessoais ou financeiras.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para os mais jovens, geralmente na faixa dos vinte anos, a ruptura costuma come\u00e7ar dentro de casa. Pequenas brigas com os pais, o uso de drogas, tanto as l\u00edcitas quanto il\u00edcitas, ou a simples falta de di\u00e1logo acabam se transformando em expuls\u00f5es. E muitos n\u00e3o encontram outra alternativa, sen\u00e3o viver nas ruas ap\u00f3s sa\u00edrem de casa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 entre os homens mais velhos, com mais de trinta e cinco anos, \u00e9 comum que o ponto de virada seja uma separa\u00e7\u00e3o conjugal. A perda da parceira, da casa e da estrutura familiar gera um vazio que, somado \u00e0 falta de apoio emocional, empurra para a vulnerabilidade extrema. Em quase todos os casos, os v\u00ednculos familiares se encontram rompidos ou gravemente fragilizados e quando n\u00e3o h\u00e1 mais quem ofere\u00e7a ajuda, a rua se torna o \u00fanico espa\u00e7o a ser ocupado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-134\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-scaled.jpeg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1920\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-400x300.jpeg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-768x576.jpeg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1-2048x1536.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Mais de 80% das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o homens \/ Foto: <em>Larissa Rodrigues<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre outros fatores que fazem com que essas pessoas estejam nas ruas est\u00e3o perda de renda e habita\u00e7\u00e3o. A desorganiza\u00e7\u00e3o financeira vem acompanhada do des\u00e2nimo, e muitas vezes, de transtornos emocionais que impedem que essas pessoas sigam firmes e fortes na busca por se reerguer. Sem endere\u00e7os fixo e documentos atualizados, se torna invi\u00e1vel retornar ao mercado de trabalho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O uso abusivo de subst\u00e2ncias \u00e9 outro ponto central que leva essas pessoas \u00e0s ruas. A maioria dos usu\u00e1rios se autodeclara dependente, os profissionais que atuam na Casa de Passagem destacam que o \u00e1lcool, muitas vezes, \u00e9 mais nocivo que drogas il\u00edcitas. Ele \u00e9 visto como o in\u00edcio de uma cadeia que leva a outras subst\u00e2ncias e seu uso constante faz com que muitos percam o controle da pr\u00f3pria rotina.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E estar nas ruas \u00e9 mais do que lidar com fome ou frio: \u00e9 enfrentar diariamente o preconceito enraizado na sociedade. Para muitos, a viol\u00eancia simb\u00f3lica pesa mais do que a f\u00edsica. A sociedade tende a associar a figura do morador de rua a estigmas danosos. Os \u201cinvis\u00edveis vis\u00edveis\u201d s\u00e3o vistos apenas quando despertam desconforto, aparecem em manchetes ou interferem na rotina urbana. Suas exist\u00eancias complexas s\u00e3o reduzidas a caricaturas sociais e esse \u00e9 o primeiro muro que precisa ser derrubado para que exista a verdadeira inclus\u00e3o e dignidade que esses indiv\u00edduos t\u00eam por direito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Hist\u00f3rias por tr\u00e1s da exclus\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Almir Bastos frequenta a Casa de Passagem e o Centro Pop h\u00e1 um longo per\u00edodo, desde a sua funda\u00e7\u00e3o, em 31 de mar\u00e7o de 2012. \u201c\u00c9 tempo, n\u00e9? \u00c9 muito tempo\u201d, afirmou. No antigo modelo, n\u00e3o era permitida a perman\u00eancia das pessoas na institui\u00e7\u00e3o, sendo necess\u00e1rio achar um outro local para dormir ap\u00f3s tr\u00eas noites, independente da temperatura e situa\u00e7\u00e3o. \u201cAqui \u00e9 uma maravilha. Para quem est\u00e1 nessa situa\u00e7\u00e3o de rua, n\u00e3o tem nada melhor. Alimenta\u00e7\u00e3o, uma boa cama para dormir, banho, at\u00e9 roupas eles nos d\u00e3o aqui. O tratamento, os funcion\u00e1rios, \u00e9 tudo 100%\u201d, compartilhou Almir.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aos 13 anos de idade, Lav\u00ednia Pereira, hoje com 27, pegou um \u00f4nibus na cidade de Arroio Grande com destino a Pelotas. O objetivo era apenas um: sair de casa. Ap\u00f3s se assumir uma mulher travesti, a fam\u00edlia n\u00e3o foi capaz de reconhecer Lav\u00ednia enquanto mulher, gerando conflitos e o rompimento do v\u00ednculo familiar. Ao chegar em Pelotas, a amiga que havia ficado de receb\u00ea-la n\u00e3o apareceu, nem no dia seguinte, nem no pr\u00f3ximo. Ap\u00f3s tr\u00eas dias dormindo na rodovi\u00e1ria, ela come\u00e7ou a caminhar sem rumo, em dire\u00e7\u00e3o ao centro, foi quando encontrou uma outra travesti que a acolheu. \u201cFoi a\u00ed que conheci a rua, conheci a droga. \u00c9 a minha primeira vez em uma casa de passagem. Eu sempre consegui fazer por mim, s\u00f3 que eu comecei a usar e o pouco que eu tinha a droga come\u00e7ou a me tirar. Eu queria droga, eu n\u00e3o queria correr atr\u00e1s de nada\u201d, destacou Lav\u00ednia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela compartilha o qu\u00e3o dif\u00edcil foi aceitar a situa\u00e7\u00e3o e procurar suporte no Centro Pop, \u201cDeus que eu me perdoe, eu n\u00e3o sou morador de rua, ent\u00e3o n\u00e3o preciso\u201d, dizia.\u00a0 A partir de algumas refei\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o, passou a frequentar a casa de passagem, e afirma que isso a ajudou a diminuir o consumo de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. \u201cEu continuo sendo usu\u00e1ria, mas aqui dentro eu consigo manter um foco maior na minha vida, tendo a oportunidade de fazer todas as minhas refei\u00e7\u00f5es. Antes, a droga tirava a minha fome\u201d, relatou.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-136\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11.jpeg\" alt=\"\" width=\"1698\" height=\"1242\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11.jpeg 1698w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-400x293.jpeg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1024x749.jpeg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-768x562.jpeg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.11-1536x1124.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1698px) 100vw, 1698px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O Centro Pop \u00e9 um dos servi\u00e7os oferecidos \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na cidade \/ Foto: <em>Larissa Rodrigues<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lia Maria Hepp, natural de Arroio Grande e com 29 anos, \u00e9 uma mulher trans que carrega uma trajet\u00f3ria marcada por vulnerabilidade desde a inf\u00e2ncia. Na adolesc\u00eancia, se reconheceu enquanto mulher trans e come\u00e7ou sua transi\u00e7\u00e3o muito cedo, aos 13 anos. \u201cEu me assumi com 13 anos, quando entendi quem eu era de verdade\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A falta de acolhimento dentro de casa dificultou esse processo. Lia relata que, aos 16 anos, acabou se afastando da fam\u00edlia e entrando em contato com drogas, o que se tornou uma tentativa de lidar com dores profundas: \u201cEu me enganei nas drogas achando que era um jeito de vencer a vida, de disfar\u00e7ar a dor\u201d. Ela explica que n\u00e3o percebeu o quanto sua vida estava se desestruturando: \u201cA gente n\u00e3o v\u00ea o castelo desmoronando. \u00c9 como construir um muro, uma hora cai\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o tempo, Lia chegou a situa\u00e7\u00e3o de rua. L\u00e1, enfrentou riscos constantes, instabilidade e perdas, mas destaca que foi nesse per\u00edodo dif\u00edcil que tamb\u00e9m despertou sua for\u00e7a e resist\u00eancia: \u201cCair na rua me fez uma guerreira. Hoje eu agrade\u00e7o a Deus porque eu t\u00f4 viva\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O acesso ao Centro Pop e \u00e0 Casa de Passagem marcou um ponto de virada, no qual ela encontrou acolhimento, orienta\u00e7\u00e3o e a chance de reconstru\u00e7\u00e3o. \u201cAqui eu posso respirar. Aqui eu encontrei gente que quer ajudar\u201d, diz Lia reconhecendo a import\u00e2ncia do servi\u00e7o na sua caminhada de retomada: \u201cEu agrade\u00e7o o trabalho deles. Tem muita gente mobilizada para ajudar. Muita gente boa.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com os animais, ela construiu uma nova fam\u00edlia, encontrando o v\u00ednculo afetivo. \u201cMeus cachorros s\u00e3o uma ben\u00e7\u00e3o, porque eu s\u00f3 tenho eles. Eu gosto de estar na paz, na solid\u00e3o, e eles me fazem companhia. N\u00e3o vejo a hora de ir embora pra ficar com eles\u201d, conta. Hoje, ela tenta se manter longe das drogas, projeta um futuro com mais estabilidade e acredita no seu pr\u00f3prio recome\u00e7o: \u201cEu t\u00f4 viva, ent\u00e3o ainda posso florescer\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Sa\u00fade mental: um desafio nas sombras<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De acordo com o relat\u00f3rio \u201cDepress\u00e3o e outros transtornos mentais\u201d, publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 2022, o Brasil tem a maior preval\u00eancia de pessoas com depress\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Os dados apontam que 5,8% da popula\u00e7\u00e3o, cerca de 11,7 milh\u00f5es de brasileiros, sofrem da doen\u00e7a. A n\u00edvel continental, o pa\u00eds est\u00e1 apenas atr\u00e1s dos Estados Unidos, em que 5,9% da popula\u00e7\u00e3o sofre com depress\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 primeira vista, essa informa\u00e7\u00e3o parece generalista. Quem s\u00e3o esses brasileiros? A que locais pertencem? S\u00e3o trabalhadores ou estudantes? Diversos questionamentos podem ser feitos acerca desse ponto, mas essa mesma generaliza\u00e7\u00e3o permite compreender que qualquer brasileiro pode ser abrangido neste grupo. Inclusive, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s as entrevistas realizadas no Centro Pop, busc\u00e1vamos uma figura espec\u00edfica: algum psic\u00f3logo respons\u00e1vel por realizar atendimentos com os usu\u00e1rios do servi\u00e7o. Afinal, escutando relatos de 3 indiv\u00edduos em situa\u00e7\u00e3o de rua, precis\u00e1vamos entender, um pouco, o lado psicopatol\u00f3gico dos entrevistados. No fim da nossa visita \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, encontramos Edmundo Moraes Bitencourt, psic\u00f3logo na Prefeitura do munic\u00edpio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A conversa ocorreu em uma troca de mensagens que, apesar de breve, foi uma forma esclarecedora de compreender a realidade da sa\u00fade mental das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Como mencionado anteriormente, o abuso de subst\u00e2ncias \u00e9 uma das principais doen\u00e7as entre esse grupo. Contudo, \u00e9 v\u00e1lido apontar que doen\u00e7as infecto contagiosas, transtornos mentais e defici\u00eancias f\u00edsicas s\u00e3o apresentadas em maior quantidade na popula\u00e7\u00e3o de rua do que na popula\u00e7\u00e3o geral.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todas as condi\u00e7\u00f5es citadas &#8211; especialmente as de natureza ps\u00edquica &#8211; causam impacto na vida destes indiv\u00edduos, estejam eles conscientes disso ou n\u00e3o. \u201cO cotidiano de sofrimento comunit\u00e1rio mascara muito da condi\u00e7\u00e3o mental nas popula\u00e7\u00f5es em geral. Como reclamar da situa\u00e7\u00e3o de rua para outra pessoa que est\u00e1 na mesma condi\u00e7\u00e3o?\u201d, pondera Edmundo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa normaliza\u00e7\u00e3o da dor foi observada nos relatos coletados: vidas que percorreram caminhos infelizes e hist\u00f3rias narradas como se fizessem parte de uma conversa casual. Indiv\u00edduos que, uma vez submetidos \u00e0s adversidades extremas, precisam lidar com estresse, agressividade e desespero \u00e0 flor da pele, sem talvez entender a dimens\u00e3o do que sentem e enfrentam. A observa\u00e7\u00e3o \u00e9 reiterada pelo psic\u00f3logo \u201cO impacto \u00e9 \u00f3bvio, mas como em uma favela ou campo de concentra\u00e7\u00e3o, \u00e9 naturalizado entre eles\u201d, finaliza.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo que a sa\u00fade mental n\u00e3o seja colocada entre os problemas de maior relev\u00e2ncia para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, quando comparada ao frio e \u00e0 viol\u00eancia, ela n\u00e3o \u00e9 completamente esquecida. Os assistentes sociais entrevistados contam que, em momentos de exposi\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade, como rodas de conversas entre o grupo, as pessoas compartilham, timidamente, pensamentos e sentimentos sobre a situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e3o. Esses indiv\u00edduos n\u00e3o devem ser restringidos dos debates sobre sa\u00fade menta. Afinal, est\u00e3o entre as popula\u00e7\u00f5es que mais necessitam dos servi\u00e7os terap\u00eauticos oferecidos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Redes de acolhimento do servi\u00e7o p\u00fablico<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pelotas mant\u00e9m uma rede permanente de acolhimento voltada \u00e0 garantia de direitos, acesso a servi\u00e7os e reconstru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos sociais. O trabalho \u00e9 coordenado pela Secretaria de Assist\u00eancia Social (SAS).\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">O Centro de Refer\u00eancia Especializado para a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, o Centro Pop, funciona de segunda a sexta-feira, das 8h \u00e0s 17h, e oferece alimenta\u00e7\u00e3o, banho, lavanderia, espa\u00e7o de descanso, escuta qualificada e encaminhamentos para outros servi\u00e7os. No local, as pessoas t\u00eam acesso a atendimento psicol\u00f3gico e social, participam de oficinas de conviv\u00eancia e podem receber aux\u00edlio para emiss\u00e3o de documentos, inscri\u00e7\u00e3o em programas de renda e cursos de qualifica\u00e7\u00e3o. O objetivo \u00e9 fortalecer v\u00ednculos e promover a reinser\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica dos usu\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 a Casa de Passagem funciona \u00e0 noite, abre \u00e0s 17h e permite entrada at\u00e9 \u00e0s 23h, oferecendo acolhimento tempor\u00e1rio para at\u00e9 100 pessoas, um n\u00famero que pode ser ampliado em per\u00edodos de frio. O espa\u00e7o disp\u00f5e de refei\u00e7\u00f5es, chuveiros, lavanderia, dormit\u00f3rios e roupas de cama, contando com educadores e assistentes sociais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-129\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-scaled.jpeg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1920\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-400x300.jpeg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-768x576.jpeg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/noticiasdoporto\/files\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-05-at-19.40.13-2048x1536.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pr\u00e9dio que acolhe o Centro Pop e a Casa de Passagem em Pelotas \/ Foto: <em>Larissa Rodrigues<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, uma equipe atua diariamente nas ruas com buscas ativas e encaminhamentos de pessoas em vulnerabilidade para o Centro Pop e a Casa de Passagem. O servi\u00e7o identifica demandas urgentes, como situa\u00e7\u00f5es de risco, doen\u00e7as, depend\u00eancia qu\u00edmica ou rompimento de v\u00ednculos familiares, garantindo atendimento e acolhimento adequado. \u201cOs profissionais oferecem o servi\u00e7o p\u00fablico de acolhimento; entretanto, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua t\u00eam livre arb\u00edtrio como qualquer ser humano, cabendo a elas decidir se ir\u00e3o ou n\u00e3o acessar o espa\u00e7o\u201d, afirma a coordenadora do Centro Pop, Ta\u00eds Mendes. Os servi\u00e7os s\u00e3o gratuitos e podem ser acessados diretamente na rua Senador Mendon\u00e7a, 269.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3rias de vulnerabilidade e de iniciativas que transformam realidades para al\u00e9m das ruas &nbsp; Por Andrine Teixeira, Isadora Alcantara e Larissa Rodrigues &nbsp; Pelas ruas do centro de Pelotas, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar a presen\u00e7a de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua dormindo em cal\u00e7adas, pedindo ajuda nos sem\u00e1foros ou procurando restos de comida no lixo. 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