{"id":1418,"date":"2017-12-13T16:20:57","date_gmt":"2017-12-13T18:20:57","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ndh\/?p=1418"},"modified":"2017-12-13T16:20:57","modified_gmt":"2017-12-13T18:20:57","slug":"dra-fernanda-oliveira-da-silva-fala-sobre-a-obra-de-beatriz-loner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/ndh\/2017\/12\/13\/dra-fernanda-oliveira-da-silva-fala-sobre-a-obra-de-beatriz-loner\/","title":{"rendered":"Dra. Fernanda Oliveira da Silva fala sobre a obra de Beatriz Loner"},"content":{"rendered":"<p>Em sess\u00e3o de di\u00e1logo sobre a obra de Beatriz Ana Loner, a Coordenadora do <em>GT &#8211; Emancipa\u00e7\u00f5es e P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o<\/em>, da ANPUH-RS, Dra. Fernanda Oliveira da Silva, exalta a obra de sua ex-orientadora de gradua\u00e7\u00e3o e bolsa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Confira abaixo!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O ano, 2004, o local, N\u00facleo de Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica da UFPel. Ao adentrar no N\u00facleo em uma t\u00f3rrida tarde de outono pelotense, aquelas tardes repletas de umidade que s\u00f3 Pelotas \u00e9 capaz de oferecer, em frente a porta de entrada, me deparei com a mesa de dona Ivoni Motta. Era ali que qualquer pessoa que fosse pela 1\u00ba vez ao NDH era apresentada ao espa\u00e7o, e todas as suas fun\u00e7\u00f5es. Eu j\u00e1 havia estado no N\u00facleo quando do tour das mais novas e novos alunos do Curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria, mas fui no per\u00edodo da noite em um dia que nem mais dona Ivoni e tampouco as professoras estavam ali. Aquele lugar, de toda a forma, me encantou&#8230;ali falou-se sobre trabalho e escravid\u00e3o&#8230;sim, aquilo definitivamente me interessava aprender. Bem, de volta a t\u00f3rrida tarde de outono, falei que tinha interesse em pesquisar hist\u00f3ria dos negros, mas n\u00e3o tanto a escravid\u00e3o. Falei tamb\u00e9m que havia visto um aviso, no mural do Instituto de Ci\u00eancias Humanas, de reuni\u00e3o do projeto Clubes Carnavalescos negros de Pelotas, meus olhos brilharam. Eis que no canto esquerdo da sala, e \u00e9 bom que se frise, \u00e0 esquerda, uma mulher alta, sentada em uma cadeira preta, bastante imponente, que aparentemente lia algo, levantou levemente a cabe\u00e7a em minha dire\u00e7\u00e3o, baixou seus \u00f3culos e com o olhar direto disse-me, esse projeto est\u00e1 acontecendo, a reuni\u00e3o ser\u00e1 essa semana, podes vir? Imediatamente eu disse que sim, ela me disse ent\u00e3o para procurar por D\u00e9bora Clasen, aluna do curso e bolsista do projeto, ela me passaria as orienta\u00e7\u00f5es. Desde ent\u00e3o, as nossas trajet\u00f3rias nunca mais se separaram. Beatriz inseriu-me no campo do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. Naquele momento, ainda mais conhecido como um recorte cronol\u00f3gico do que como um problema hist\u00f3rico, no entanto, seu texto, o cap\u00edtulo 5 de Constru\u00e7\u00e3o de Classe, As associa\u00e7\u00f5es negras, era bastante assertivo e perspicaz em afirmar que o negro fora o oper\u00e1rio por excel\u00eancia em Pelotas. Mas, que as sociabilidades desses sujeitos n\u00e3o foram estabelecidas em parceria com os demais oper\u00e1rios que n\u00e3o compartilhavam o forte preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o. Ao tra\u00e7ar uma trajet\u00f3ria que vinha desde a exist\u00eancia da escravid\u00e3o e atenta aos la\u00e7os entre trabalhadores negros escravizados, libertos e livres, Beatriz j\u00e1 delineava aquilo que no ano seguinte era o fio condutor do texto central para os estudos da p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, a saber \u201cO p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o como problema hist\u00f3rico\u201d, de Hebe Mattos e Ana Lug\u00e3o Rios. Por meio, especialmente, das fontes peri\u00f3dicas, Beatriz Ana Loner problematizou a hist\u00f3ria do trabalho no que tange a cor da classe, e dos negros no que tange ao ser oper\u00e1rio e suas estrat\u00e9gias pol\u00edticas que aliavam ra\u00e7a e classe. Fora assim, por dentre os meandros dos Mundos do Trabalho, desenvolvendo grupos de estudos sobre hist\u00f3ria social com seus alunos e alunas, e mantendo a pesquisa sempre a todo g\u00e1s, que Beatriz teceu aquela que pra n\u00f3s hoje \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o das mais felizes, muito embora ainda n\u00e3o encaradas por todas e todos pesquisadores: os mundos dos trabalhos est\u00e3o intrinsecamente relacionados, ou interseccionados (para usar uma das tantas novas terminologias) por quest\u00f5es que fundamentam a exist\u00eancia do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o enquanto campo de estudos. A trajet\u00f3ria acad\u00eamica de Beatriz Ana Loner, que inclui discuss\u00f5es acerca dos trabalhadores, desde sua forma\u00e7\u00e3o enquanto classe, mas tamb\u00e9m desde suas divis\u00f5es internas, informa desde pelo menos a publica\u00e7\u00e3o de Constru\u00e7\u00e3o da Classe em 2001, fruto de sua tese de doutorado defendida na Sociologia da UFRGS em 1999, uma agenda de pesquisa investigada empiricamente que abriu portas para que pesquisadoras como eu e tantas outras e outros imerg\u00edssemos no campo do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o e d\u00e9ssemos sequ\u00eancia aquela agenda. Por\u00e9m, n\u00e3o fomos s\u00f3 n\u00f3s, muito pelo contr\u00e1rio! A produ\u00e7\u00e3o de Beatriz segue a pleno vapor, afinal, nunca esquecerei da alegria que foi encontrar Rodolfo Xavier e Antonio Baobad nos livros de registro da Santa Casa de Pelotas, no \u00e2mbito do escopo com o qual Beatriz nos lega \u201cAntonio: de Oliveira a Baobad\u201d, problematizando esse ser africano, negro, que ajuda na idealiza\u00e7\u00e3o do jornal A Alvorada, que obt\u00e9m as primeiras letras e depois na companhia de seu irm\u00e3o, Rodolfo, aprofunda seus conhecimentos nas aulas noturnas da Biblioteca P\u00fablica Pelotense. Trajet\u00f3ria por meio da qual tece uma discuss\u00e3o sobre trabalhadores negros, alguns deles ex-escravos, no per\u00edodo final da aboli\u00e7\u00e3o e na \u00e9poca seguinte, a Primeira Rep\u00fablica, destacando, dentre tantos outros elementos as evid\u00eancias de que a cor e a identidade racial estiveram sempre bastante vis\u00edveis e demarcadas naqueles pagos do extremo sul do Rio Grande. Foi assim, refletindo sobre as Ligas oper\u00e1rias e as fontes para hist\u00f3ria do trabalho, cujo N\u00facleo de Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica \u00e9 o maior exemplo de esfor\u00e7o coletivo com protagonismo de Loner para a constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o para guarda e disponibiliza\u00e7\u00e3o desse material, que a autora homenageada aqui, auxiliou naquilo que pra mim, enquanto membro dessa nova gera\u00e7\u00e3o de historiadoras e historiadores, \u00e9 um esfor\u00e7o coletivo para colocar no centro do debate tanto as vis\u00f5es da \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de escravos brasileiros sobre seus destinos, ap\u00f3s o 13 de maio, frase que d\u00e1 in\u00edcio ao texto j\u00e1 referido aqui, de Hebe Mattos e Ana Lug\u00e3o, quanto o entendimento desses sujeitos e suas e seus descendentes, dentre os quais felizmente me encontro, como sujeitos hist\u00f3ricos: GT Nacional Emancipa\u00e7\u00f5es e P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o. Esse esfor\u00e7o materializou-se em 2013, cuja sess\u00e3o regional coordeno na parceria de Melina Kleinert Perussatto, e a dire\u00e7\u00e3o nacional j\u00e1 pode contar com a presen\u00e7a de Beatriz Ana Loner. \u00c9 assim, por entre tr\u00e2nsito t\u00e3o bem articulado entre os GTs Mundos do Trabalho e Emancipa\u00e7\u00f5es e P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o, que Beatriz Ana Loner \u00e9 a express\u00e3o de uma intelectual atenta \u00e0s realidades hist\u00f3ricas, sobretudo, atenta as intersec\u00e7\u00f5es e outros recortes que tamb\u00e9m informam a classe, a saber, a ra\u00e7a. Loner costura trajet\u00f3rias, n\u00e3o aleatoriamente, mas atenta aos ensinamentos do marxista brit\u00e2nico E. P. Thompson, observando os sujeitos hist\u00f3ricos, sujeitos estes que embora sempre dentro de estruturas bastante cerceadoras, cujas experi\u00eancias s\u00e3o bem mais complexas do que a afamada tese dos \u201clargados a pr\u00f3pria sorte\u201d, teceram suas estrat\u00e9gias pol\u00edticas em prol de uma integra\u00e7\u00e3o social e racial efetiva. Obrigada Beatriz Ana Loner e todas as pessoas que s\u00e3o tuas parceiras no front acad\u00eamico, um front que sempre foi tamb\u00e9m pol\u00edtico. Bia, nunca esque\u00e7o do primeiro convite e da tua disposi\u00e7\u00e3o em junto de Martha Abreu, acompanhar o coletivo de historiadoras e historiadores negros na pen\u00faltima ANPUH nacional, em Florian\u00f3polis, 2015, e pleitear a aprova\u00e7\u00e3o da Mo\u00e7\u00e3o em favor das cotas raciais nos programas de p\u00f3sgradua\u00e7\u00e3o. Pessoas como tu, que aliam pesquisa acad\u00eamica engajada e disposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para os enfrentamentos di\u00e1rios, s\u00e3o cada vez mais raras, sobretudo atualmente, nesses tempos Temerosos. Todas n\u00f3s e todos n\u00f3s, e aqui tenho certeza que falo por muitas D\u00e9boras, Aristeus, Jocelems, Paulos, Micaeles, Angelas, Kates, Francieles, Anas, Cl\u00e1udias, Josephs, Carlas, Vanessas, C\u00e1ssias, N\u00e1dias, Lorenas, M\u00e1rios, Marilucis, Marceles, Vivianes e tantos outros nomes, daquelas pessoas que tiveram a honra de ser formadas por ti, contar com a tua orienta\u00e7\u00e3o e atualmente contar com uma parceira que nos l\u00ea, dialoga e est\u00e1 sempre a nos instigar \u00e9 simplesmente a melhor coisa que se espera de uma professora que sabe como ningu\u00e9m ser orientadora! Com carinho e admira\u00e7\u00e3o!<\/em><\/p>\n<p><em>Fernanda Oliveira da Silva <\/em><\/p>\n<p><em>Porto Alegre, 17 de novembro de 2017<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sess\u00e3o de di\u00e1logo sobre a obra de Beatriz Ana Loner, a Coordenadora do GT &#8211; Emancipa\u00e7\u00f5es e P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o, da ANPUH-RS, Dra. Fernanda Oliveira da Silva, exalta a obra de sua ex-orientadora de gradua\u00e7\u00e3o e bolsa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Confira abaixo! &nbsp; O ano, 2004, o local, N\u00facleo de Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica da UFPel. 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