{"id":1573,"date":"2021-10-29T11:55:02","date_gmt":"2021-10-29T14:55:02","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/museudodoce\/?page_id=1573"},"modified":"2021-10-29T15:09:14","modified_gmt":"2021-10-29T18:09:14","slug":"igansi","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/museudodoce\/igansi\/","title":{"rendered":"Igansi (Entrevista)"},"content":{"rendered":"<div id=\"pl-1573\"  class=\"panel-layout\" ><div id=\"pg-1573-0\"  class=\"panel-grid panel-no-style\" ><div id=\"pgc-1573-0-0\"  class=\"panel-grid-cell\" ><div id=\"panel-1573-0-0-0\" class=\"so-panel widget widget_headline-widget panel-first-child\" data-index=\"0\" >\t\t<h1>ENTREVISTA COM JOAO FERNANDO IGANSI NUNES <\/h1>\n\t\t<div class=\"decoration\"><div class=\"decoration-inside\"><\/div><\/div>\n\t\t<h3>Ind\u00fastria gr\u00e1fica no contexto das tradi\u00e7\u00f5es doceiras locais.<\/h3>\n\t\t<\/div><div id=\"panel-1573-0-0-1\" class=\"so-panel widget widget_sow-headline\" data-index=\"1\" ><div\n\t\t\t\n\t\t\tclass=\"so-widget-sow-headline so-widget-sow-headline-default-b8757f901c83-1573\"\n\t\t\t\n\t\t><div class=\"sow-headline-container \">\n\t<\/div>\n<\/div><\/div><div id=\"panel-1573-0-0-2\" class=\"so-panel widget widget_sow-editor panel-last-child\" data-index=\"2\" ><div\n\t\t\t\n\t\t\tclass=\"so-widget-sow-editor so-widget-sow-editor-base\"\n\t\t\t\n\t\t>\n<div class=\"siteorigin-widget-tinymce textwidget\">\n\t<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 10pt\"><em>Nessa entrevista, o Professor Jo\u00e3o Fernando Igansi Nunes relata sua atua\u00e7\u00e3o como pesquisador no campo da Mem\u00f3ria Gr\u00e1fica e suas contribui\u00e7\u00f5es na investiga\u00e7\u00e3o a respeito da ind\u00fastria gr\u00e1fica de rotulagem de Pelotas-RS, com foco no setor conserveiro. Igansi nos fornece elementos importantes para compreendermos aspectos culturais, industriais e comerciais que participam da constitui\u00e7\u00e3o da cultura visual que abrange o g\u00eanero da rotulagem. A leitura da entrevista trar\u00e1 elementos para que possamos identificar m\u00faltiplas influ\u00eancias na concep\u00e7\u00e3o visual desse material, bem como aponta aspectos que o configuram como elemento da express\u00e3o cultural e sua import\u00e2ncia no contexto das tradi\u00e7\u00f5es doceiras locais.<\/em><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 10pt\"><em>Por Daniella Mano<\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong style=\"text-align: justify\">Como se d\u00e1 a inser\u00e7\u00e3o do campo da mem\u00f3ria gr\u00e1fica na sua atua\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A mem\u00f3ria gr\u00e1fica como campo interdisciplinar, enquanto express\u00e3o de uma cultura visual (patrim\u00f4nio material e imaterial), est\u00e1 inserida na minha atua\u00e7\u00e3o profissional como docente respons\u00e1vel pela disciplina de Tipografia (Cursos de Design, Centro de Artes), no que tange \u00e0s abordagens trabalhadas acerca da transcri\u00e7\u00e3o da cultura oral \u00e0 cultura escrita, refletindo sobre as refer\u00eancias adotadas para a constru\u00e7\u00e3o dos signos alfab\u00e9ticos, c\u00f3digos verbais bem como pela decorrente rela\u00e7\u00e3o entre os pares <em>escrita<\/em> e <em>leitura<\/em> na cultura visual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como objeto de investiga\u00e7\u00e3o, o que chamamos de mem\u00f3ria gr\u00e1fica se insere no meu campo de atua\u00e7\u00e3o a partir do projeto de pesquisa \u201cMem\u00f3ria Gr\u00e1fica de Pelotas: um s\u00e9culo de design\u201d, do qual participei, sob a condi\u00e7\u00e3o de coordenador, no per\u00edodo de 2008 a 2017, investigando sujeitos autores (artistas gr\u00e1ficos\/designers) e seus processos criativos; organizando acervos de peri\u00f3dicos e identificando espa\u00e7os de trabalho (ateli\u00eas de gravura, oficinas e ind\u00fastrias gr\u00e1ficas, de pequeno e m\u00e9dio porte); e, por integrar a \u201crede\" de investiga\u00e7\u00e3o que se gerou durante a trajet\u00f3ria do semin\u00e1rio internacional Design, Tradi\u00e7\u00e3o e Sociedade, ativo desde 2009, que re\u00fane pesquisadores nacionais e internacionais (especialmente da Am\u00e9rica Latina) para refletir o Design Gr\u00e1fico na esteira conceitual da mem\u00f3ria social, sua sistem\u00e1tica preserva\u00e7\u00e3o e, consequentemente, auxiliar na promo\u00e7\u00e3o dos valores culturais plasmados em artefatos gr\u00e1ficos, os quais exploro na minha pr\u00e1tica docente como m\u00e9todo interdisciplinar para o ensino e pesquisa: orienta\u00e7\u00f5es de disserta\u00e7\u00f5es e teses no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social e Patrim\u00f4nio Cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A cidade de Pelotas est\u00e1 no centro de uma regi\u00e3o doceira que surgiu entrela\u00e7ada ao desenvolvimento da sociedade local. A fabrica\u00e7\u00e3o de doces na regi\u00e3o, proporcionou ao longo dos anos a produ\u00e7\u00e3o de uma variedade de material gr\u00e1fico, que se verifica no acervo de r\u00f3tulos da ind\u00fastria conserveira de Pelotas. Qual a relev\u00e2ncia para o estudo da mem\u00f3ria gr\u00e1fica local, pensando-se nas particularidades da elabora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o desses r\u00f3tulos do setor conserveiro da cidade?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A origem da pr\u00e1tica de rotulagem remonta a meados de 1880, no continente europeu, P\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Somente na d\u00e9cada de 1930, a partir dos esfor\u00e7os do empres\u00e1rio norte americano Ray Stanton Avery, \u00e9 que os r\u00f3tulos passaram a ter caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas industriais, como etiquetas autoadesivas que conhecemos. Muitas foram as transforma\u00e7\u00f5es sociais e t\u00e9cnicas que consolidaram seus usos e fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A utiliza\u00e7\u00e3o dessas \u201cetiquetas\u201d, que atravessaram gera\u00e7\u00f5es, tornou-se indispens\u00e1vel na sociedade contempor\u00e2nea em virtude da produ\u00e7\u00e3o em larga escala de produtos que necessitam de uma devida e eficaz identifica\u00e7\u00e3o e, assim, diferencia\u00e7\u00e3o. Como registrou o fil\u00f3sofo e semioticista Charles Sanders Peirce (1839-1914), o significado est\u00e1 na diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O r\u00f3tulo \u00e9 um elemento fundamental na comunica\u00e7\u00e3o de massa, existe num contexto intrinsicamente relacionado \u00e0s atividades comerciais. Quanto maior o valor agregado, maior o consumo, maior a produ\u00e7\u00e3o e aquisi\u00e7\u00e3o de renda. Os conte\u00fados visuais gr\u00e1ficos dos r\u00f3tulos s\u00e3o signos do contexto<strong> cultural - industrial - comercial <\/strong>do produto que ele representa, identifica e informa. Pelotas viveu e beneficiou-se amplamente desse contexto at\u00e9, aproximadamente, segunda metade do s\u00e9c. XX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como resultado de uma produ\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, os r\u00f3tulos s\u00e3o artefatos classificados por muitos profissionais da \u00e1rea como impressos ef\u00eameros (assim como as embalagens, card\u00e1pios, filipetas, santinhos, papel timbrado, cart\u00f5es de visita etc.). S\u00e3o matrizes [documentos] de pesquisa com narrativas visuais de uma \u00e9poca, de estilos de vida retratados, de temporalidades representadas por meio de um sistema l\u00f3gico de linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como artefatos de um patrim\u00f4nio cultural material e imaterial, os r\u00f3tulos da ind\u00fastria doceira em Pelotas permitem identificar modos de fazer (processos criativos), t\u00e9cnicas e linguagens operadas de um cen\u00e1rio t\u00edpico de desenvolvimento industrial. Al\u00e9m do ensino institucionalizado, a mem\u00f3ria gr\u00e1fica abrange e interage com o \u201ccomum\u201d, com o ordin\u00e1rio,\u00a0 que apresenta [em pot\u00eancia] um valor est\u00e9tico singular, muitas vezes identificado nas solu\u00e7\u00f5es visuais que se registram com seus padr\u00f5es formais, crom\u00e1ticos, tipogr\u00e1ficos: exemplo dos recorrentes usos de tons de rosa, verde e azul nas publicidades no peri\u00f3dico \u201cAlmanach de Pelotas\u201d (de 1913 a 1935) conforme observa-se nos exemplares publicados pelo grupo de pesquisa Mem\u00f3ria Gr\u00e1fica: Design, Tradi\u00e7\u00e3o e Sociedade, hiperlink <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/memoriagraficadepelotas\/almanaques\/\">https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/memoriagraficadepelotas\/almanaques\/<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o de r\u00f3tulos no setor conserveiro de Pelotas se estende desde o final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 os dias de hoje. O que as modifica\u00e7\u00f5es visuais que podem ser percebidas nesses r\u00f3tulos, durante esse per\u00edodo, podem nos informar sobre as transforma\u00e7\u00f5es na sociedade local?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A sociedade industrializada transformou sua maneira de \u201cescrever\", o resultado disso trouxe solu\u00e7\u00f5es singulares em virtude das intr\u00ednsecas transforma\u00e7\u00f5es no seu modo de \u201cler\u201d e vice-versa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O desenvolvimento t\u00e9cnico, os estilos est\u00e9ticos oriundos da linotipia e da gravura e os resultados visuais das artes gr\u00e1ficas sofreram impacto com essas novas formas de escrever e ver\/ler o mundo. Por exemplo, o aumento da presen\u00e7a da fotografia substituindo as ilustra\u00e7\u00f5es nas pe\u00e7as gr\u00e1ficas ou, na educa\u00e7\u00e3o, pela valoriza\u00e7\u00e3o da imagem para o processo do aprendizado (m\u00e9todo did\u00e1tico), resultaram em solu\u00e7\u00f5es de formas e composi\u00e7\u00f5es completamente distintas do pr\u00e9-fotogr\u00e1fico. Essas transforma\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m implicaram na altera\u00e7\u00e3o significativa da figura do sujeito artes\u00e3o\/impressor\/trabalhador\/autor do projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Necess\u00e1rio compreender que, geralmente, as solu\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas est\u00e3o condicionadas aos materiais e ferramentas dispon\u00edveis (clich\u00eas, tintas, papeis, tipografias etc.) e n\u00e3o s\u00e3o resultados dados por uma decis\u00e3o apenas do autor, do \u201cdesigner\u201d. Conforme o parque gr\u00e1fico em Pelotas se desenvolvia com a disponibilidade de materiais e t\u00e9cnicas, seus processos de cria\u00e7\u00e3o se adequavam gerando outros resultados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essas transforma\u00e7\u00f5es est\u00e3o diretamente associadas \u00e0 cultura gr\u00e1fica que se constr\u00f3i a partir de tr\u00eas dimens\u00f5es complementares: <strong>processo criativo <\/strong>(mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o, cultura do saber [estilo] fazer), <strong>o t\u00e9cnico<\/strong> (ferramentas e equipamentos) e <strong>o social<\/strong> (principalmente no que tange as diretrizes da economia e da pol\u00edtica). Por algumas das vezes, essas dimens\u00f5es est\u00e3o atravessadas por valores externos (importados) e, noutras, por refer\u00eancias internas, pela vontade de buscar uma rela\u00e7\u00e3o mais identit\u00e1ria com o local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda nessa esteira, pode-se observar que, mesmo com a vasta e rica trajet\u00f3ria da ind\u00fastria gr\u00e1fica em Pelotas, atrav\u00e9s da qualidade dos r\u00f3tulos das ind\u00fastrias conserveiras, o valor atribu\u00eddo a esse material \u00e9 ainda o de mero artefato de identifica\u00e7\u00e3o, sem um significativo valor cultural agregado como de fato \u00e9. O r\u00f3tulo, em pot\u00eancia, \u00e9 uma express\u00e3o cultural que identifica n\u00e3o s\u00f3 seu produto, mas sua origem, com um sentido pr\u00f3prio de lugar a partir das narrativas visuais que veiculam e, dessa maneira, comunicam e funcionam como substrato de mem\u00f3ria [gr\u00e1fica], mem\u00f3ria do seu patrim\u00f4nio alimentar e mem\u00f3ria dos seus sujeitos: agentes autores, produtores e consumidores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Considerando os conceitos da antropologia simb\u00f3lica do antrop\u00f3logo norte-americano Clifford Geertz, influenciado pela hermen\u00eautica de Paul Ricoeur, devemos tratar os r\u00f3tulos como uma ferramenta de compreens\u00e3o coletiva das a\u00e7\u00f5es, dos discursos, dos s\u00edmbolos de uma paisagem industrial, das institui\u00e7\u00f5es e da pr\u00f3pria comunidade, constituindo sua cultura visual a partir do seu pr\u00f3prio sistema de sinais para a sua consequente interpreta\u00e7\u00e3o, estabelecendo uma comunica\u00e7\u00e3o que extrai, divulga e consolida o objeto como verdadeiro extrato de mem\u00f3ria e reconhecimento de um bem, no caso em pauta, patrimonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Em fins do s\u00e9culo XIX come\u00e7am a se constituir diferentes movimentos da arte moderna ap\u00f3s o advento do Impressionismo. Em rela\u00e7\u00e3o aos r\u00f3tulos de doce produzidos em Pelotas, compreendendo o final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 os dias de hoje, \u00e9 poss\u00edvel identificar a influ\u00eancia de correntes est\u00e9ticas da arte moderna ou de outros per\u00edodos na concep\u00e7\u00e3o visual desse material?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Especificamente, o modernismo na ind\u00fastria gr\u00e1fica em Pelotas foi muito tardio. Mesmo quando se identifica o uso de tipografias sem serifa, sem contraste e ditas mecanizadas, suas ocorr\u00eancias s\u00e3o atribu\u00eddas pelas suas disponibilidades e n\u00e3o como uma real influ\u00eancia ou tomada de decis\u00e3o pautada por um objetivo de resultado esperado. Oportuno ampliar estudos aprofundados sobre essas poss\u00edveis influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De outra maneira, os criadores gr\u00e1ficos em Pelotas, com suas solu\u00e7\u00f5es, consolidaram um perfil espec\u00edfico e capacitado ao of\u00edcio, atribuindo-lhe tratamento conceitual condicionado ao seu estado de desenvolvimento processual e t\u00e9cnico, com usos de ferramentas e materiais pr\u00f3prios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tipografias e arranjos gr\u00e1ficos assim\u00e9tricos nos r\u00f3tulos de conservas de doces em Pelotas, entre o final do s\u00e9c. XIX e a primeira metade s\u00e9c. XX, em sua maioria, apresentam um estilo decorativo em plena \u201cidade de ouro\u201d de uma chamada <em>Belle E\u0301poque<\/em>, com composi\u00e7\u00e3o e tratamento visual influenciados pelo <em>art nouveau<\/em> que, gradativamente, vai fortalecendo os princ\u00edpios irrevog\u00e1veis do modernismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Ainda no sentido do que orientou a produ\u00e7\u00e3o desse material, \u00e9 poss\u00edvel identificar aspectos singulares na produ\u00e7\u00e3o local, ou ainda, \u00e9 poss\u00edvel dizer que os r\u00f3tulos seguem tend\u00eancias nacionais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o sei se nacionais ou internacionais. Pelotas est\u00e1 muito mais pr\u00f3xima do Uruguai e da Argentina do que de S\u00e3o Paulo\/SP ou do Rio de Janeiro\/ RJ. Penso que, pela pr\u00e1tica e pelos recursos e usos dados a esse tipo de comunica\u00e7\u00e3o de massa, acaba por resultar como singular conforme verifica-se nas recorr\u00eancias compositivas que apresentam: repetidos enquadramentos, variedade de tipografias, diferen\u00e7as nas qualidades de impress\u00e3o e\/ou demais recursos gr\u00e1ficos (planilha crom\u00e1tica e\/ou layout, por exemplo) reconhec\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A proximidade com o Porto Internacional de Rio Grande contribuiu significativamente ao desenvolvimento da ind\u00fastria gr\u00e1fica em Pelotas. Atrav\u00e9s dele, o acesso a Europa era, talvez, muito maior do que a SP ou RJ. Nesse sentido, al\u00e9m das refer\u00eancias est\u00e9ticas que se tinha e se praticava (Artes Pl\u00e1sticas, Literatura, Cinema, Fotografia), muitos insumos (tintas e\/ou papeis especiais) e materiais (clich\u00eas, ferramentas e\/ou maquin\u00e1rios) tinham como principal origem os pa\u00edses de Portugal, Fran\u00e7a, Inglaterra e Alemanha gra\u00e7as a esse facilitado acesso [importa\u00e7\u00e3o] mar\u00edtimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O uso estabelecido de padr\u00f5es gera uma perman\u00eancia dos mesmos e os fortalece. Como no caso da typeface Helv\u00e9tica: quanto mais \u00e9 utilizada, mais funciona, mais \u00e9 utilizada, mais funciona\u2026 no mais puro estado de um <em>ritornello<\/em>. Alicer\u00e7ado pelo marco te\u00f3rico p\u00f3s-estruturalista de Felix Guattari, considero esse processo como uma met\u00e1fora de m\u00e1quina. Seu funcionamento \u00e9 o estado de fluxo dessa repeti\u00e7\u00e3o de valores, de modelos, perman\u00eancia de uma cultura visual que surge, sempre, num contexto cultural, t\u00e9cnico e econ\u00f4mico espec\u00edfico e permanece enquanto n\u00e3o surge uma ruptura nesse <em>continuum<\/em>. A pandemia da covid-19 configura uma ruptura real e atual, impactando diretamente na gram\u00e1tica visual: novos signos para novos comportamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Verificando-se a relev\u00e2ncia do entorno material como resultado da produ\u00e7\u00e3o de embalagens, jornais, cartazes e bilhetes, de que forma os r\u00f3tulos seguem tend\u00eancias que se conectam com a produ\u00e7\u00e3o de outros meios de veicula\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es visuais?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim, em virtude das t\u00e9cnicas de impress\u00e3o (desenvolvimento e aprimoramentos do parque gr\u00e1fico), dos materiais utilizados e da cultura visual praticada, pr\u00f3pria de uma tradi\u00e7\u00e3o doceira, conserveira, \u00e9tnica e socialmente situada, as concep\u00e7\u00f5es visuais foram geradas em outras especialidades da cultura da p\u00e1gina impressa, a exemplo dos peri\u00f3dicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mantendo a integridade das rela\u00e7\u00f5es entre os s\u00edmbolos contidos na visualidade plasmada nos r\u00f3tulos de doce e as representa\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas da paisagem cultural do territ\u00f3rio de Pelotas e entorno, podemos considerar a mem\u00f3ria gr\u00e1fica um campo sist\u00eamico, constitu\u00eddo tamb\u00e9m pelas suas extens\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas. Os interc\u00e2mbios de experi\u00eancias advindos de m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o em meios diversos, de fato, veiculam concep\u00e7\u00f5es visuais interconectadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como exemplo de uma linguagem pict\u00f3rica voltada \u00e0 mem\u00f3ria e identidade de um territ\u00f3rio, com uma ind\u00fastria gr\u00e1fica com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, pode-se observar os \u00a0r\u00f3tulos do patrimonializado vinho de Jerez, Andaluzia - Espanha, de certifica\u00e7\u00e3o de origem controlada desde 1933, que apresentam exemplares de representa\u00e7\u00e3o significativa do desenvolvimento de seu territ\u00f3rio, conforme verifica-se na exposi\u00e7\u00e3o de etiquetas de vinhos (1870-1930) (<a href=\"http:\/\/www.losvinosdecadiz.es\/2014\/02\/exposicion-de-etiquetas-de-vinos-1870.html\">http:\/\/www.losvinosdecadiz.es\/2014\/02\/exposicion-de-etiquetas-de-vinos-1870.html<\/a>), organizada e coordenada pela professora e pesquisadora Carmen Borrego Pl\u00e1. Ou ainda, pelo trabalho investigativo de Alberto Ramos Santana apresentado, parcialmente, no robusto artigo intitulado <em>Iconograf\u00eda de etiquetas antiguas del vino del Marco del Jerez, X\u00e9r\u00e8s, Sherry<\/em>\u00a0 (<a href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/journal\/4695\/469554838024\/html\/\">https:\/\/www.redalyc.org\/journal\/4695\/469554838024\/html\/<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Muitos marcos hist\u00f3ricos proporcionaram uma transforma\u00e7\u00e3o nos m\u00e9todos de impress\u00e3o, que no s\u00e9culo XV se resumiam a impress\u00e3o tipogr\u00e1fica. De que forma os m\u00e9todos tradicionais ou contempor\u00e2neos de impress\u00e3o se relacionam \u00e0s concep\u00e7\u00f5es visuais referentes a cada per\u00edodo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A ind\u00fastria gr\u00e1fica em Pelotas passou por diversas t\u00e9cnicas de impress\u00e3o: tipografia, artes gr\u00e1ficas (ateli\u00eas de gravura), offset\u2026 constituindo seu legado conforme as especificidades de cada uma delas. Estou de acordo com a senten\u00e7a de que a t\u00e9cnica sempre influenciar\u00e1 o resultado est\u00e9tico\/formal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pensamento gr\u00e1fico est\u00e1 diretamente associado ao m\u00e9todo\/ferramenta\/t\u00e9cnica de cria\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o que, consequentemente, interage no processo criativo. Desenhar \u00e0 m\u00e3o livre imp\u00f5e um racioc\u00ednio diferente de desenhar no <em>illustrator<\/em>, de algum modo a ferramenta coopera no processo criativo, como cocria\u00e7\u00e3o; produzir em gravura, serigrafia e\/ou offset altera, significativamente, o processo de cria\u00e7\u00e3o e, dessa maneira, interfere nos seus resultados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A cria\u00e7\u00e3o com linguagens computacionais opera tecnicas que Lev Manovich chama de meta-ferramentas: simula\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina impressa, da m\u00e1quina de escrever, da fotografia, do r\u00e1dio, televis\u00e3o\u2026 simula\u00e7\u00e3o de fresa, de ret\u00edcula, de carv\u00e3o, de afresco, aquarela etc. Identifica-se, em muitos per\u00edodos da hist\u00f3ria, uma recorr\u00eancia de solu\u00e7\u00f5es visuais oriundas das est\u00e9ticas resultantes de t\u00e9cnicas que lhes antecederam. Ou seja, em tese, o contexto cultural, t\u00e9cnico e est\u00e9tico operado define a cultura visual que se instaura porque \u00e9 praticado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, podemos assumir que Pelotas possui, plasmada em seus r\u00f3tulos de doce, uma cultura visual gr\u00e1fica pr\u00f3pria do seu hist\u00f3rico: \"Do todo a parte, da cole\u00e7\u00e3o ao exemplar, da s\u00e9rie ao modelo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Ao longo dos anos que sucederam a produ\u00e7\u00e3o, houve um enorme desenvolvimento na \u00e1rea aliment\u00edcia que despertou a necessidade de determinar legisla\u00e7\u00f5es que estabelecem crit\u00e9rios de qualidade, compreendendo todas as etapas de produ\u00e7\u00e3o. Qual impacto a regulamenta\u00e7\u00e3o do setor no \u00e2mbito da rotulagem tem sobre a linguagem gr\u00e1fica na produ\u00e7\u00e3o dos r\u00f3tulos doceiros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O impacto \u00e9 apenas aos r\u00f3tulos\/etiquetas\/materiais que est\u00e3o em contato com o alimento. As informa\u00e7\u00f5es regulamentativas para a confec\u00e7\u00e3o de um r\u00f3tulo segue as recomenda\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (ANVISA - <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/anvisa\/pt-br\/assuntos\/alimentos\/rotulagem\/arquivos\/4701json-file-1\">https:\/\/www.gov.br\/anvisa\/pt-br\/assuntos\/alimentos\/rotulagem\/arquivos\/4701json-file-1<\/a>). O r\u00f3tulos deixaram de apresentar apenas as marcas das empresas e identifica\u00e7\u00e3o [visual] dos produtos. Atualmente, informa\u00e7\u00f5es sobre os ingredientes, lote e prazo de validade, quantidade\/peso, produtores e origem s\u00e3o alguns dos itens obrigat\u00f3rios. A partir de 2015, a ANVISA passou a exigir a inclus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es destacadas para alimentos que cont\u00eam alerg\u00eanicos. Essas regulamenta\u00e7\u00f5es, ao alterarem o conte\u00fado necess\u00e1rio para apresentar o produto no r\u00f3tulo (tudo que est\u00e1 gravado, seja descritivamente ou graficamente, sobre a embalagem), interferem no campo compositivo alterando o <em>layout <\/em>da pe\u00e7a e, assim, sua visualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Qual a import\u00e2ncia da identifica\u00e7\u00e3o desses aspectos hist\u00f3ricos de rotulagem no setor conserveiro, em rela\u00e7\u00e3o as possibilidades projetuais a partir da utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos tradicionais em projetos contempor\u00e2neos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A cultura visual \u00e9 ferramenta para compreender os valores sociais. O desenvolvimento projetual de r\u00f3tulos est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 cultura visual, seja ela tradicional ou contempor\u00e2nea, local e\/ou global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Identificar os aspectos hist\u00f3ricos da ind\u00fastria de rotulagem de conservas [doces, principalmente] permite compreender minimamente a sociedade no seu passado e, assim, possibilita pens\u00e1-la no presente e impulsion\u00e1-la \u00e0 um futuro, mais promissor, desenvolvido e sustent\u00e1vel a partir de solu\u00e7\u00f5es apropriadas ao seu contexto <strong>cultural - industrial - comercial<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Jo\u00e3o Fernando Igansi Nunes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica, PUC\/SP com a Tese Design Computacional: comunica\u00e7\u00e3o do in-vis\u00edvel, 2008. Membro do Grupo de Pesquisa NetArt perspectivas cr\u00edticas e criativas (FAPESP) e do grupo de pesquisas Software Studies do Brasil (FILE Lab SP \/ UCSD - EuA), 2008. Pesquisador, bolsista CNPq, no Laboratoire Paragraphe da Universidade Paris 8, Fran\u00e7a, 2007. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002. Pesquisador na Biblioteca Nacional de Madri, atrav\u00e9s de bolsa de estudos da Universidade Complutense de Madri - Espanha, 1999. Graduado em Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pelotas, 1997. Professor do Magist\u00e9rio Superior Associado. Docente permanente nos Cursos de Bacharelado em Design, Centro de Artes, UFPel e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social e Patrim\u00f4nio Cultural, ICH\/UFPEL. Coordenador Adjunto do Projeto para implanta\u00e7\u00e3o do Polo Morro Redondo da C\u00e1tedra UNESCO-IPT. Dedica-se ao desenvolvimento de pesquisas em Design e Desenvolvimento Territorial. \u00c1reas de interesse e atua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o, Semi\u00f3tica, Artes, Design, Interfaces Computacionais, Mem\u00f3ria Social e Patrim\u00f4nio Cultural.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><div id=\"pg-1573-1\"  class=\"panel-grid panel-no-style\" ><div id=\"pgc-1573-1-0\"  class=\"panel-grid-cell\" ><div id=\"panel-1573-1-0-0\" class=\"so-panel widget widget_sow-headline panel-first-child panel-last-child\" data-index=\"3\" ><div\n\t\t\t\n\t\t\tclass=\"so-widget-sow-headline so-widget-sow-headline-default-6b8f69dbe452-1573\"\n\t\t\t\n\t\t><div class=\"sow-headline-container \">\n\t<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa entrevista, o Professor Jo\u00e3o Fernando Igansi Nunes relata sua atua\u00e7\u00e3o como pesquisador no campo da Mem\u00f3ria Gr\u00e1fica e suas contribui\u00e7\u00f5es na investiga\u00e7\u00e3o a respeito da ind\u00fastria gr\u00e1fica de rotulagem de Pelotas-RS, com foco no setor conserveiro. 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