{"id":645,"date":"2026-10-07T12:44:12","date_gmt":"2026-10-07T15:44:12","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=645"},"modified":"2026-10-07T12:46:36","modified_gmt":"2026-10-07T15:46:36","slug":"mais-7-livros-para-pensar-e-compreender-o-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2026\/10\/07\/mais-7-livros-para-pensar-e-compreender-o-suicidio\/","title":{"rendered":"Mais 7 livros para pensar e compreender o suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-649\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/mais-7-livros-lysis.jpg?resize=616%2C323&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"616\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/mais-7-livros-lysis.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/mais-7-livros-lysis.jpg?resize=768%2C403&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/mais-7-livros-lysis.jpg?resize=816%2C428&amp;ssl=1 816w\" sizes=\"auto, (max-width: 616px) 100vw, 616px\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo, publiquei no site do LYSIS uma lista com cinco livros que considero fundamentais para pensar o suic\u00eddio. Foram escolhidos <em>O mito de S\u00edsifo<\/em>, de Albert Camus; <em>Levantar a m\u00e3o sobre si mesmo<\/em>, de Jean Am\u00e9ry; <em>Suic\u00eddio e alma<\/em>, de James Hillman; <em>Suic\u00eddio: estudos sobre o desespero humano<\/em>, de Karl Menninger; e <em>O suic\u00eddio<\/em>, de \u00c9mile Durkheim.<\/p>\n<p>Aquela lista, evidentemente, n\u00e3o pretendia constituir um c\u00e2none. Nenhuma sele\u00e7\u00e3o desse tipo poderia faz\u00ea-lo. O suic\u00eddio atravessa muitos campos: a filosofia, a literatura, a hist\u00f3ria, a sociologia, a medicina, a psicologia, a religi\u00e3o, o direito e as artes. Cada livro ilumina uma regi\u00e3o do problema, mas deixa outras na sombra. Talvez seja essa, ali\u00e1s, a condi\u00e7\u00e3o de toda leitura s\u00e9ria sobre o tema: oferecer alguma luz sem alimentar a ilus\u00e3o de que finalmente compreendemos tudo.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um enigma que possa ser resolvido pela descoberta de uma causa. Uma vida n\u00e3o termina por uma \u00fanica raz\u00e3o. Mesmo quando encontramos uma doen\u00e7a, uma perda, uma humilha\u00e7\u00e3o, um conflito ou uma experi\u00eancia de abandono, ainda n\u00e3o encontramos a totalidade daquela vida. Encontramos apenas uma parte de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por isso, compreender n\u00e3o pode significar classificar rapidamente. Significa demorar-se diante daquilo que n\u00e3o se deixa reduzir. Significa escutar sem transformar imediatamente a palavra do outro em sintoma, pecado, crime, fraqueza ou diagn\u00f3stico. Os sete livros reunidos nesta segunda lista percorrem caminhos diferentes. Alguns investigam historicamente a morte volunt\u00e1ria; outros procuram descrev\u00ea-la clinicamente; outros entram no territ\u00f3rio do romance, da mem\u00f3ria e da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o oferecem uma vis\u00e3o \u00fanica. Felizmente. E isto \u00e9, segundo penso, o que precisamos.<\/p>\n<h2>1. <em>O Deus Selvagem: um estudo do suic\u00eddio<\/em>, de A. Alvarez<\/h2>\n<p>Publicado originalmente em 1971, <em>O Deus Selvagem<\/em> permanece como uma das obras mais inquietantes sobre as rela\u00e7\u00f5es entre suic\u00eddio, literatura e imagina\u00e7\u00e3o. A. Alvarez n\u00e3o escreve como algu\u00e9m protegido pela dist\u00e2ncia acad\u00eamica. Sua reflex\u00e3o nasce do conv\u00edvio com poetas, de sua proximidade com Sylvia Plath e tamb\u00e9m de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de sofrimento e tentativa de morte. A posi\u00e7\u00e3o a partir da qual escreve \u00e9, portanto, inst\u00e1vel: ele \u00e9 cr\u00edtico liter\u00e1rio, testemunha, sobrevivente e personagem de parte da hist\u00f3ria que procura compreender.<\/p>\n<p>Essa instabilidade constitui a for\u00e7a do livro. Tamb\u00e9m constitui seu perigo.<\/p>\n<p>Alvarez percorre uma longa tradi\u00e7\u00e3o cultural. Passa pelas condena\u00e7\u00f5es religiosas, pelas puni\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas impostas aos corpos dos mortos, pelo <em>Biathanatos<\/em> de John Donne, por Chatterton, pela agonia rom\u00e2ntica, pelo dada\u00edsmo e por Cesare Pavese. Seu fio condutor \u00e9 a presen\u00e7a crescente da morte volunt\u00e1ria na imagina\u00e7\u00e3o ocidental. O suic\u00eddio deixa de ser apenas pecado ou crime e passa, sobretudo entre os modernos, a ser apresentado como revela\u00e7\u00e3o extrema da interioridade: o gesto que provaria a seriedade de uma dor, a autenticidade de uma obra ou a recusa radical do mundo.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o merece aten\u00e7\u00e3o. Quando a morte passa a funcionar como certificado de autenticidade, o artista que morreu voluntariamente corre o risco de receber uma esp\u00e9cie de consagra\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma. Seus escritos anteriores s\u00e3o reorganizados pelo \u00faltimo gesto. Poemas tornam-se press\u00e1gios; imagens tornam-se sintomas; hesita\u00e7\u00f5es tornam-se an\u00fancios. A obra inteira come\u00e7a a ser lida de tr\u00e1s para frente, como se o desfecho estivesse secretamente contido em cada p\u00e1gina.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente isso que torna a presen\u00e7a de Sylvia Plath t\u00e3o importante e t\u00e3o problem\u00e1tica. Alvarez a conheceu, publicou seus poemas e acompanhou de perto parte de seus \u00faltimos anos. Seu testemunho oferece uma proximidade que nenhum arquivo poderia substituir. Ao mesmo tempo, essa proximidade n\u00e3o elimina a incerteza. Alvarez procura interpretar inten\u00e7\u00f5es, distinguir desejo de morrer, pedido de socorro, risco calculado e acidente. Mas at\u00e9 que ponto algu\u00e9m pode reconstruir, depois da morte, o grau exato de uma inten\u00e7\u00e3o? Quando a testemunha se transforma em int\u00e9rprete, aquilo que viu mistura-se inevitavelmente \u00e0quilo que acredita ter compreendido.<\/p>\n<p>O livro ensina, assim, uma primeira cautela a quem deseja estudar o suic\u00eddio: proximidade n\u00e3o significa transpar\u00eancia. Podemos conhecer algu\u00e9m, ler seus cadernos, recordar suas conversas e ainda assim n\u00e3o possuir a chave de seu \u00faltimo gesto. A intimidade fornece elementos indispens\u00e1veis, mas n\u00e3o concede soberania sobre o sentido de uma morte.<\/p>\n<p>Seu problema \u00e9 tamb\u00e9m propriamente liter\u00e1rio. Por que a morte volunt\u00e1ria exerceu tamanho fasc\u00ednio sobre escritores e artistas? O que acontece quando o sofrimento se transforma em poema? A arte consegue aproximar-nos da dor alheia ou corre o risco de conferir beleza, coer\u00eancia e grandeza ao que, na experi\u00eancia vivida, talvez tenha sido desordem, medo e solid\u00e3o? Como escrever sobre o suic\u00eddio sem silenci\u00e1-lo e, ao mesmo tempo, sem transform\u00e1-lo em espet\u00e1culo?<\/p>\n<p>Alvarez n\u00e3o aceita que uma exist\u00eancia seja encerrada inteiramente num diagn\u00f3stico. Entretanto, tampouco apresenta a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica como prote\u00e7\u00e3o segura. A capacidade de produzir linguagem para o sofrimento n\u00e3o significa necessariamente domin\u00e1-lo. Escrever pode organizar a experi\u00eancia, mas tamb\u00e9m pode aproximar o autor repetidamente das imagens que o ferem. O poema n\u00e3o \u00e9 sintoma cl\u00ednico nem salva\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. Entre a obra e a morte permanece uma dist\u00e2ncia que nenhuma interpreta\u00e7\u00e3o deveria apagar.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outro aspecto importante: Alvarez inclui sua pr\u00f3pria tentativa no campo de an\u00e1lise. Com isso, desfaz a divis\u00e3o confort\u00e1vel entre o observador e aqueles que observa. O cr\u00edtico que interpreta os mortos descobre que tamb\u00e9m pertence \u00e0 regi\u00e3o que procura descrever. Essa inclus\u00e3o n\u00e3o transforma sua experi\u00eancia em medida universal. Ao contr\u00e1rio, mostra como duas pessoas podem aproximar-se da morte por caminhos distintos, mesmo quando compartilham vocabul\u00e1rios, leituras e ambientes semelhantes.<\/p>\n<p>Talvez essa seja uma das li\u00e7\u00f5es mais duradouras de <em>O Deus Selvagem<\/em>. A maneira como algu\u00e9m morreu n\u00e3o deveria possuir retrospectivamente toda a sua vida. Quando permitimos que isso aconte\u00e7a, Sylvia Plath deixa de ser autora de uma obra e se transforma na mulher que estava destinada a morrer. Todos os poemas se tornam bilhetes de despedida; toda ang\u00fastia, prepara\u00e7\u00e3o; toda imagem obscura, prova. A morte sequestra a exist\u00eancia e passa a explicar aquilo que, antes dela, permanecia m\u00faltiplo e aberto.<\/p>\n<p>O livro deve, por isso, ser lido tamb\u00e9m contra algumas de suas pr\u00f3prias tenta\u00e7\u00f5es. Sua linguagem \u00e9 poderosa e, em certos momentos, aproxima perigosamente cria\u00e7\u00e3o, coragem e autodestrui\u00e7\u00e3o. O leitor precisa conservar a pergunta: estamos compreendendo a atra\u00e7\u00e3o exercida pela morte ou participando de sua constru\u00e7\u00e3o est\u00e9tica? A fronteira nem sempre \u00e9 n\u00edtida.<\/p>\n<p><em>O Deus Selvagem<\/em> \u00e9 uma leitura desconfort\u00e1vel. E deve ser. Seu m\u00e9rito n\u00e3o est\u00e1 em resolver as rela\u00e7\u00f5es entre arte e suic\u00eddio, mas em mostrar que escrever sobre elas exige responsabilidade. A literatura pode aproximar-nos da experi\u00eancia alheia, desde que n\u00e3o confundamos compreens\u00e3o com fasc\u00ednio, intensidade com verdade e beleza com reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 edi\u00e7\u00e3o brasileira publicada pela Companhia das Letras, com tradu\u00e7\u00e3o de Sonia Moreira.<\/p>\n<h2>2. <em>Quando a noite cai: entendendo a depress\u00e3o e o suic\u00eddio<\/em>, de Kay Redfield Jamison<\/h2>\n<p>Kay Redfield Jamison conhece a experi\u00eancia do sofrimento ps\u00edquico por duas vias que raramente se encontram com tamanha for\u00e7a na mesma pessoa: como pesquisadora dos transtornos do humor e como algu\u00e9m que viveu epis\u00f3dios graves de mania, depress\u00e3o e aproxima\u00e7\u00e3o da morte. Essa dupla posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina a dist\u00e2ncia entre a experi\u00eancia e a ci\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, torna essa dist\u00e2ncia mais vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Em <em>Quando a noite cai<\/em>, Jamison realiza uma das s\u00ednteses cl\u00ednicas mais ambiciosas sobre o suic\u00eddio publicadas no final do s\u00e9culo XX. O livro percorre a hist\u00f3ria das atitudes diante da morte volunt\u00e1ria, os problemas de defini\u00e7\u00e3o e mensura\u00e7\u00e3o, as diferen\u00e7as entre tentativa e morte, a psicologia do ato, os transtornos psiqui\u00e1tricos, os m\u00e9todos empregados, as hip\u00f3teses gen\u00e9ticas e neurobiol\u00f3gicas e as possibilidades de preven\u00e7\u00e3o. Casos individuais aparecem ao lado de pesquisas epidemiol\u00f3gicas, cartas, hist\u00f3rias familiares e dados m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Esse movimento entre n\u00fameros e vidas \u00e9 importante. Sem estat\u00edsticas, n\u00e3o perceber\u00edamos regularidades, diferen\u00e7as entre grupos, altera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas ou o impacto de determinadas pol\u00edticas p\u00fablicas. Entretanto, toda regularidade cobra um pre\u00e7o: para que os casos possam ser comparados, parte de suas diferen\u00e7as precisa ser abandonada. Uma taxa torna vis\u00edvel a dimens\u00e3o coletiva do problema, mas n\u00e3o nos diz quem era aquela pessoa, o que ela perdeu, quais palavras lhe faltaram ou por que o futuro deixou de parecer habit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Jamison insiste na forte rela\u00e7\u00e3o entre suic\u00eddio e transtornos mentais, especialmente os transtornos do humor. Essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser desprezada. A depress\u00e3o grave, a mania, os estados mistos, as psicoses, o uso problem\u00e1tico de subst\u00e2ncias e outras formas de sofrimento ps\u00edquico podem alterar profundamente a percep\u00e7\u00e3o, reduzir o campo das possibilidades e transformar a morte na \u00fanica interrup\u00e7\u00e3o imagin\u00e1vel. Recusar toda contribui\u00e7\u00e3o da psiquiatria seria abandonar conhecimentos e recursos que efetivamente preservam vidas.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que precisemos aceitar sem reservas todas as premissas do livro.<\/p>\n<p>Uma leitura cr\u00edtica deve perguntar como se estabelece, depois de uma morte, a presen\u00e7a de uma doen\u00e7a mental. Muitas conclus\u00f5es dependem de prontu\u00e1rios, entrevistas com familiares e reconstru\u00e7\u00f5es retrospectivas. S\u00e3o procedimentos necess\u00e1rios, mas n\u00e3o infal\u00edveis. Depois do acontecimento, toda tristeza pode parecer sinal, toda frase obscura pode adquirir a apar\u00eancia de an\u00fancio e toda dificuldade anterior pode ser reorganizada como etapa de um processo inevit\u00e1vel. A investiga\u00e7\u00e3o corre o risco de encontrar no passado exatamente aquilo que j\u00e1 sabe ter ocorrido no final.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m precisamos perguntar se uma associa\u00e7\u00e3o frequente pode ser transformada numa explica\u00e7\u00e3o universal. Quando afirmamos que todo suic\u00eddio \u00e9 consequ\u00eancia de doen\u00e7a mental, talvez consigamos afastar parte da antiga culpa moral. A pessoa deixa de ser pecadora ou criminosa para ser considerada doente. H\u00e1 nisso uma mudan\u00e7a importante e, em muitos contextos, humanizadora. Mas a substitui\u00e7\u00e3o de uma gram\u00e1tica por outra n\u00e3o dissolve todos os problemas. O julgamento pode ceder lugar \u00e0 tutela, e a condena\u00e7\u00e3o pode reaparecer como incapacidade presumida.<\/p>\n<p>A linguagem da doen\u00e7a produz ainda outro tipo de sil\u00eancio. Uma pessoa que fala sobre a pr\u00f3pria morte pode descobrir que suas palavras j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o recebidas como reflex\u00e3o, conflito ou pedido. Tudo o que disser ser\u00e1 interpretado antecipadamente como sintoma. Quanto mais articulada for sua cr\u00edtica \u00e0 vida, maior poder\u00e1 parecer a prova de que n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de falar por si. Forma-se ent\u00e3o um c\u00edrculo dif\u00edcil de romper: a palavra \u00e9 considerada doente porque fala da morte, e fala da morte porque \u00e9 considerada doente.<\/p>\n<p>O livro de Jamison n\u00e3o se reduz, contudo, a essa opera\u00e7\u00e3o. Sua escrita conserva aten\u00e7\u00e3o \u00e0s hist\u00f3rias singulares e \u00e0 ambival\u00eancia que frequentemente atravessa a experi\u00eancia suicida. Desejar morrer n\u00e3o significa necessariamente desejar todas as consequ\u00eancias da morte. H\u00e1 momentos em que a pessoa quer interromper uma dor, silenciar uma consci\u00eancia, escapar de uma situa\u00e7\u00e3o ou suspender um tempo que se tornou insuport\u00e1vel. A palavra \u201cmorte\u201d re\u00fane essas experi\u00eancias, mas n\u00e3o as torna id\u00eanticas.<\/p>\n<p>Para quem deseja estudar o suic\u00eddio, <em>Quando a noite cai<\/em> oferece tamb\u00e9m uma li\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica. A preven\u00e7\u00e3o necessita de conhecimento cl\u00ednico, observa\u00e7\u00e3o cuidadosa, tratamento acess\u00edvel, redu\u00e7\u00e3o do acesso imediato a meios letais e prote\u00e7\u00e3o nos momentos de maior vulnerabilidade. Por\u00e9m, esses recursos n\u00e3o substituem a pergunta pelo mundo em que o sofrimento se formou. Uma medica\u00e7\u00e3o pode modificar um estado de humor; n\u00e3o pode, sozinha, eliminar uma d\u00edvida, interromper uma viol\u00eancia, reconstruir um v\u00ednculo ou devolver a algu\u00e9m um lugar numa comunidade.<\/p>\n<p>O ponto decisivo talvez seja evitar duas simplifica\u00e7\u00f5es opostas. A primeira consiste em reduzir toda morte volunt\u00e1ria a uma doen\u00e7a. A segunda, em rejeitar a psiquiatria de maneira t\u00e3o completa que j\u00e1 n\u00e3o consigamos reconhecer doen\u00e7as reais, sofrimentos extremos e tratamentos capazes de ajudar. Entre a medicaliza\u00e7\u00e3o absoluta e a recusa abstrata da medicina existe um trabalho mais dif\u00edcil: discernir, em cada caso, de que cuidado aquela pessoa necessita e como oferec\u00ea-lo sem apagar sua voz.<\/p>\n<p>O valor de <em>Quando a noite cai<\/em> est\u00e1 tamb\u00e9m nessa tens\u00e3o. Ele nos permite conhecer uma interpreta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica poderosa e, ao mesmo tempo, interrogar seus limites. Um bom livro n\u00e3o precisa confirmar integralmente nossas posi\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes, sua import\u00e2ncia est\u00e1 justamente em obrigar-nos a pensar contra ele, ao lado dele e para al\u00e9m dele.<\/p>\n<p>A obra possui edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas publicada pela Gryphus.<\/p>\n<h2>3. <em>A redoma de vidro<\/em>, de Sylvia Plath<\/h2>\n<p><em>A redoma de vidro<\/em> n\u00e3o \u00e9 um tratado sobre o suic\u00eddio. \u00c9 um romance. Essa advert\u00eancia \u00e9 necess\u00e1ria porque a morte de Sylvia Plath frequentemente captura a leitura de tudo o que ela escreveu. Seus poemas e sua prosa passam a ser lidos como se contivessem, desde a primeira linha, uma decis\u00e3o j\u00e1 tomada.<\/p>\n<p>Mas um romance n\u00e3o \u00e9 uma certid\u00e3o de \u00f3bito antecipada. Esther Greenwood n\u00e3o deve ser tratada como simples transcri\u00e7\u00e3o de Sylvia Plath, nem sua trajet\u00f3ria como explica\u00e7\u00e3o retrospectiva da morte da autora. A proximidade biogr\u00e1fica existe, mas a fic\u00e7\u00e3o reorganiza, desloca e transforma a experi\u00eancia. Quando confundimos imediatamente autora e personagem, retiramos do romance justamente aquilo que ele tem de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esther \u00e9 uma jovem talentosa diante de um futuro que, visto de fora, parece aberto. Recebe reconhecimento, chega a Nova York, circula por ambientes aos quais muitas mulheres n\u00e3o tinham acesso e possui condi\u00e7\u00f5es de imaginar uma carreira intelectual. Entretanto, as possibilidades que lhe s\u00e3o oferecidas revelam-se progressivamente estreitas. Trabalho, casamento, maternidade, sexualidade, independ\u00eancia e sucesso n\u00e3o aparecem como caminhos que possam ser livremente combinados, mas como destinos que exigem ren\u00fancias irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>A imagem da figueira permite compreender esse conflito. Cada fruto parece conter uma vida poss\u00edvel: tornar-se escritora, formar uma fam\u00edlia, viajar, amar, estudar, experimentar o mundo. Esther deseja todas essas vidas, mas lhe dizem que escolher uma significa perder as demais. Enquanto hesita, os frutos come\u00e7am a apodrecer. O sofrimento n\u00e3o nasce, portanto, apenas da aus\u00eancia de possibilidades. Pode nascer tamb\u00e9m de possibilidades apresentadas de modo excludente, como se a constru\u00e7\u00e3o de uma vida exigisse o assassinato de todas as outras vidas imaginadas.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o \u00e9 importante para pensar o suic\u00eddio. \u00c0s vezes, a pessoa n\u00e3o v\u00ea diante de si um vazio, mas um conjunto de futuros nos quais n\u00e3o consegue reconhecer-se. H\u00e1 portas, mas todas parecem conduzir \u00e0 perda de alguma parte essencial de si. A multiplicidade que deveria produzir liberdade transforma-se em paralisia.<\/p>\n<p>A imagem da redoma \u00e9 igualmente poderosa porque n\u00e3o descreve apenas uma tristeza interior. A redoma altera o ar, o espa\u00e7o e a rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Esther continua vendo as outras pessoas, mas j\u00e1 n\u00e3o respira como elas. Continua cercada por vozes, conselhos e expectativas, mas experimenta uma solid\u00e3o que nenhuma ordem para reagir consegue desfazer. A redoma pode acompanh\u00e1-la a qualquer lugar. N\u00e3o est\u00e1 simplesmente dentro dela nem inteiramente no mundo: forma-se na rela\u00e7\u00e3o entre uma consci\u00eancia e o ambiente que a sufoca.<\/p>\n<p>Isso impede uma separa\u00e7\u00e3o demasiado simples entre doen\u00e7a e sociedade. H\u00e1 sofrimento ps\u00edquico real, com altera\u00e7\u00f5es do sono, da percep\u00e7\u00e3o, da linguagem e da capacidade de agir. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um mundo que distribui de maneira desigual as possibilidades de exist\u00eancia, especialmente para as mulheres. O romance n\u00e3o nos permite escolher confortavelmente entre \u201ca doen\u00e7a estava em Esther\u201d e \u201ca sociedade produziu tudo\u201d. As duas dimens\u00f5es atravessam-se.<\/p>\n<p>O tratamento m\u00e9dico ocupa, por isso, um lugar decisivo. Esther encontra institui\u00e7\u00f5es e profissionais diferentes. A primeira experi\u00eancia de eletroconvulsoterapia \u00e9 marcada pelo medo, pela aus\u00eancia de explica\u00e7\u00e3o e pela viol\u00eancia de um procedimento realizado sem que se tenha constru\u00eddo confian\u00e7a. Mais tarde, sob os cuidados da doutora Nolan, um tratamento semelhante adquire outro sentido porque h\u00e1 prepara\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a e compromisso. O romance n\u00e3o oferece uma resposta simplista contra ou a favor da medicina. Mostra que a t\u00e9cnica nunca existe sozinha: o mesmo procedimento pode ser vivido como puni\u00e7\u00e3o ou cuidado, conforme a rela\u00e7\u00e3o em que se inscreve.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel para a preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. N\u00e3o basta perguntar se determinada interven\u00e7\u00e3o \u00e9 clinicamente indicada. \u00c9 preciso perguntar como ela \u00e9 apresentada, se a pessoa compreende o que lhe acontece, se participa das decis\u00f5es e se encontra algu\u00e9m capaz de permanecer ao seu lado. Um cuidado que retira toda voz do paciente pode preservar biologicamente uma vida e, ao mesmo tempo, aprofundar a experi\u00eancia de n\u00e3o pertencimento a si mesmo.<\/p>\n<p>O romance tamb\u00e9m evita representar a recupera\u00e7\u00e3o como vit\u00f3ria definitiva. A redoma pode levantar-se, mas sua possibilidade n\u00e3o desaparece para sempre. Esther n\u00e3o recebe uma garantia contra o futuro. Essa incerteza torna a narrativa mais honesta. Sobreviver a uma crise n\u00e3o transforma algu\u00e9m numa pessoa definitivamente salva, assim como uma tentativa n\u00e3o condena ningu\u00e9m a repetir o gesto. A vida permanece aberta \u2014 inclusive aos riscos, \u00e0s reca\u00eddas e \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ler <em>A redoma de vidro<\/em> apenas para procurar sinais da morte futura de Sylvia Plath seria repetir uma viol\u00eancia contra sua literatura. Seria permitir que a biografia fechasse aquilo que o romance mant\u00e9m aberto. O livro merece ser lido porque d\u00e1 forma a uma experi\u00eancia que frequentemente permanece sem linguagem: a sensa\u00e7\u00e3o de que todos os caminhos existem, mas nenhum parece verdadeiramente dispon\u00edvel; de que o mundo continua vis\u00edvel, por\u00e9m o ar necess\u00e1rio para habit\u00e1-lo se tornou escasso.<\/p>\n<p>Para quem deseja compreender o suic\u00eddio, o romance ensina que tornar uma vida habit\u00e1vel n\u00e3o significa apenas retirar uma pessoa do perigo imediato. Significa tamb\u00e9m ampliar os futuros que ela consegue imaginar e permitir que sua exist\u00eancia n\u00e3o seja reduzida \u00e0s alternativas estreitas que lhe foram oferecidas.<\/p>\n<p>H\u00e1 diferentes tradu\u00e7\u00f5es brasileiras. Entre elas, a edi\u00e7\u00e3o da Biblioteca Azul, traduzida por Chico Mattoso, e uma edi\u00e7\u00e3o ilustrada mais recente, traduzida por Ana Guadalupe.<\/p>\n<h2>4. <em>Perto das trevas<\/em>, de William Styron<\/h2>\n<p>H\u00e1 sofrimentos que parecem destruir a pr\u00f3pria possibilidade de narrar. A pessoa deseja explicar o que acontece, mas as palavras dispon\u00edveis \u2014 tristeza, des\u00e2nimo, ang\u00fastia, cansa\u00e7o \u2014 parecem pequenas demais. William Styron escreveu <em>Perto das trevas<\/em> a partir dessa insufici\u00eancia.<\/p>\n<p>O texto nasceu depois que Styron se incomodou com os julgamentos dirigidos a pessoas que morreram voluntariamente, entre elas Primo Levi. Havia, mesmo entre leitores cultos, a suspeita de que o suic\u00eddio desmentiria a coragem anterior de algu\u00e9m ou revelaria uma falha de car\u00e1ter. Styron percebeu que esse julgamento dependia do desconhecimento da dor depressiva. Decidiu, ent\u00e3o, tornar p\u00fablica uma experi\u00eancia que at\u00e9 aquele momento pertencia \u00e0 sua intimidade.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 curto, mas n\u00e3o \u00e9 uma leitura leve. Styron tenta descrever a altera\u00e7\u00e3o do tempo, do corpo, do pensamento e da percep\u00e7\u00e3o do futuro produzida por uma depress\u00e3o grave. O sofrimento n\u00e3o aparece simplesmente como tristeza muito intensa. Ele modifica o mundo inteiro. As atividades perdem o v\u00ednculo com o prazer, as decis\u00f5es mais simples exigem esfor\u00e7o desmedido, a noite adquire uma dura\u00e7\u00e3o hostil e o pr\u00f3prio pensamento parece perder suas conex\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dos m\u00e9ritos do relato est\u00e1 em resistir \u00e0 linguagem sentimental. Styron procura met\u00e1foras porque a palavra \u201cdepress\u00e3o\u201d lhe parece fraca para designar a viol\u00eancia da experi\u00eancia. Compara a mente a uma antiga central telef\u00f4nica inundada: pouco a pouco, os circuitos deixam de funcionar. A imagem \u00e9 valiosa porque mostra que n\u00e3o se trata apenas de pensamentos tristes. Faculdades que pareciam naturais \u2014 concentrar-se, desejar, esperar, decidir e reconhecer-se \u2014 tornam-se progressivamente inacess\u00edveis.<\/p>\n<p>A dor depressiva possui ainda uma caracter\u00edstica dif\u00edcil de comunicar: pode ser sentida quase fisicamente sem que exista um lugar preciso do corpo ao qual apontar. Isso explica parte da solid\u00e3o de quem sofre. Uma ferida vis\u00edvel convoca cuidado; uma dor sem localiza\u00e7\u00e3o corre o risco de ser interpretada como exagero, fraqueza ou falta de vontade.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas mais terr\u00edveis do desespero \u00e9 apresentar-se como conhecimento. A pessoa n\u00e3o sente apenas que o sofrimento continuar\u00e1; ela acredita saber que continuar\u00e1. O futuro deixa de ser uma regi\u00e3o aberta e passa a repetir indefinidamente o presente. A morte pode ent\u00e3o aparecer n\u00e3o como um desejo simples, mas como a \u00fanica interrup\u00e7\u00e3o imagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Styron nos ajuda a compreender por que frases como \u201cisso vai passar\u201d nem sempre alcan\u00e7am quem sofre. Para aquele que as pronuncia, o futuro permanece aberto. Para quem est\u00e1 dentro da experi\u00eancia depressiva, a pr\u00f3pria capacidade de imaginar outro futuro pode ter desaparecido. A frase pode ser verdadeira e, ainda assim, n\u00e3o encontrar um lugar ps\u00edquico onde possa ser recebida.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que nada possa ser feito. Um momento decisivo do relato ocorre quando a m\u00fasica restabelece inesperadamente uma liga\u00e7\u00e3o com a vida e permite que Styron reconhe\u00e7a a gravidade do risco. Esse instante n\u00e3o o cura. Oferece-lhe, contudo, o intervalo necess\u00e1rio para pedir ajuda e aceitar a hospitaliza\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 fundamental: aquilo que interrompe a marcha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte n\u00e3o precisa resolver toda a vida. \u00c0s vezes, basta criar tempo para que o cuidado possa come\u00e7ar.<\/p>\n<p>O hospital aparece como abrigo, embora Styron n\u00e3o o idealize. H\u00e1 monotonia, perda de autonomia e conviv\u00eancia com outras pessoas em extremo sofrimento. Ainda assim, naquele momento, a institui\u00e7\u00e3o oferece prote\u00e7\u00e3o contra uma consci\u00eancia que se tornara perigosa para si mesma. Essa experi\u00eancia precisa ser lida com cautela. Nem todos encontram institui\u00e7\u00f5es acolhedoras, nem toda interna\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ou ben\u00e9fica, e o pr\u00f3prio acesso de Styron a bons cuidados revela uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para todos.<\/p>\n<p>Seu relato tamb\u00e9m mostra que a preven\u00e7\u00e3o n\u00e3o se reduz ao instante heroico em que algu\u00e9m impede um gesto. Ela depende de uma rede: a presen\u00e7a persistente da esposa, a possibilidade de reconhecer o risco, a exist\u00eancia de atendimento, a aceita\u00e7\u00e3o da ajuda e o tempo protegido at\u00e9 que a intensidade da crise diminua. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O livro possui limites, e \u00e9 importante reconhec\u00ea-los. Ele descreve uma forma de aproxima\u00e7\u00e3o da morte, n\u00e3o todas. Nem todo desejo de morrer nasce da depress\u00e3o, assim como nem toda pessoa deprimida deseja morrer. Nem todos experimentar\u00e3o a recupera\u00e7\u00e3o de Styron ou responder\u00e3o aos mesmos cuidados. Transformar um testemunho particular em explica\u00e7\u00e3o universal seria trair justamente aquilo que h\u00e1 de mais valioso no livro: a tentativa de falar a partir de uma experi\u00eancia concreta.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m devemos evitar que a ideia de doen\u00e7a encerre novamente o problema. A depress\u00e3o de Styron envolve hist\u00f3ria familiar, luto, corpo, medicamentos, \u00e1lcool, envelhecimento, cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e rela\u00e7\u00f5es afetivas. N\u00e3o h\u00e1 uma causa \u00fanica. Seu testemunho \u00e9 forte porque mant\u00e9m esses elementos pr\u00f3ximos sem fingir que conseguiu organiz\u00e1-los numa explica\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p><em>Perto das trevas<\/em> n\u00e3o romantiza o sofrimento nem oferece uma f\u00f3rmula de salva\u00e7\u00e3o. Seu gesto principal \u00e9 construir uma linguagem para aquilo que, durante muito tempo, permaneceu quase indiz\u00edvel. Para quem deseja estudar o suic\u00eddio, essa linguagem possui um valor pr\u00f3prio: recorda que antes de interpretar, diagnosticar ou aconselhar \u00e9 necess\u00e1rio tentar compreender a forma assumida pela dor para aquela pessoa.<\/p>\n<h2>5. <em>Di\u00e1rio de um escritor<\/em>, de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski<\/h2>\n<p>Dostoi\u00e9vski n\u00e3o tratou o suic\u00eddio apenas em seus romances. Em <em>Di\u00e1rio de um escritor<\/em>, reuniu coment\u00e1rios pol\u00edticos, not\u00edcias, reflex\u00f5es religiosas, mem\u00f3rias, narrativas breves e an\u00e1lises da sociedade russa. O livro n\u00e3o obedece \u00e0s fronteiras que hoje costumamos estabelecer entre literatura, filosofia e jornalismo. Essa forma h\u00edbrida permitia-lhe partir de um pequeno acontecimento publicado na imprensa e transform\u00e1-lo numa pergunta sobre seu tempo.<\/p>\n<p>Entre os fatos que despertaram sua aten\u00e7\u00e3o estavam as numerosas mortes volunt\u00e1rias noticiadas pelos jornais. Dostoi\u00e9vski n\u00e3o recebia essas not\u00edcias como dados isolados. Perguntava o que elas revelavam sobre a R\u00fassia, sobre a pobreza, sobre a desagrega\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos, sobre a f\u00e9 e sobre a incapacidade de uma sociedade reconhecer o sofrimento que se formava em seu interior.<\/p>\n<p>Um dos textos mais perturbadores desse conjunto \u00e9 \u201cDois suic\u00eddios\u201d, publicado em outubro de 1876. Dostoi\u00e9vski aproxima as mortes de duas jovens provenientes de mundos sociais e culturais profundamente diferentes.<\/p>\n<p>A primeira, uma jovem cosmopolita criada fora da R\u00fassia, morre depois de deixar um bilhete em franc\u00eas, marcado por ironia e por uma refer\u00eancia quase mundana ao champanhe. Dostoi\u00e9vski percebe na palavra <em>chic<\/em> uma mistura de revolta, t\u00e9dio e desprezo. A morte parece envolvida por uma consci\u00eancia que j\u00e1 n\u00e3o encontra no cotidiano algo capaz de justificar sua submiss\u00e3o \u00e0 vida.<\/p>\n<p>A segunda jovem \u00e9 uma costureira pobre. Sem conseguir trabalho, lan\u00e7a-se de uma janela. Quando encontram seu corpo, ela ainda segura uma imagem religiosa. Aqui n\u00e3o h\u00e1 eleg\u00e2ncia, provoca\u00e7\u00e3o ou elabora\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Segundo Dostoi\u00e9vski, viver simplesmente se tornara imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>As duas mortes poderiam receber o mesmo nome e ocupar a mesma coluna estat\u00edstica. No entanto, quase nada nelas \u00e9 igual. Uma parece nascer da asfixia diante de um mundo considerado banal; a outra, da impossibilidade material de continuar existindo. Uma deixa um bilhete ir\u00f4nico; a outra conserva nas m\u00e3os um objeto de f\u00e9. Uma morte convida \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica; a outra denuncia a fome, o desemprego e o abandono.<\/p>\n<p>Dostoi\u00e9vski pergunta qual das duas teria sofrido mais. Logo reconhece que a pr\u00f3pria pergunta pode ser impiedosa. Como medir sofrimentos? Que instrumento permitiria comparar duas solid\u00f5es? O sofrimento da jovem pobre seria maior porque sua vida foi destru\u00edda pela necessidade? Ou a aus\u00eancia de uma causa vis\u00edvel tornaria mais profundo o desespero da primeira? A tentativa de estabelecer uma hierarquia revela rapidamente sua viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa impossibilidade que torna \u201cDois suic\u00eddios\u201d t\u00e3o relevante. Dostoi\u00e9vski percebe que uma categoria comum pode ocultar diferen\u00e7as essenciais. Dizer que ambas \u201cse suicidaram\u201d informa alguma coisa sobre a maneira como morreram, mas quase nada sobre os mundos que tornaram suas mortes poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O texto mostra ainda que o julgamento social n\u00e3o se distribui igualmente. Algumas mortes s\u00e3o interpretadas como trag\u00e9dias espirituais; outras, como consequ\u00eancia quase natural da pobreza. Algumas despertam longas reflex\u00f5es; outras desaparecem depois de uma pequena nota. O espa\u00e7o concedido pelos jornais, a linguagem empregada e as hip\u00f3teses apresentadas revelam o valor que uma sociedade atribu\u00eda \u00e0quela vida antes mesmo de sua morte.<\/p>\n<p>Essa observa\u00e7\u00e3o permanece atual. Quando uma pessoa conhecida morre, procuram-se cartas, entrevistas, diagn\u00f3sticos e acontecimentos capazes de explicar o gesto. Quando morre algu\u00e9m socialmente invis\u00edvel, a explica\u00e7\u00e3o pode reduzir-se a uma palavra: d\u00edvida, desemprego, droga, separa\u00e7\u00e3o. A desigualdade continua depois da morte. Algumas exist\u00eancias recebem biografias; outras recebem apenas causas.<\/p>\n<p>Em outros textos do <em>Di\u00e1rio<\/em>, Dostoi\u00e9vski relaciona o crescimento das mortes volunt\u00e1rias \u00e0 perda de uma ideia superior da exist\u00eancia e \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o espiritual da sociedade russa. Sua resposta \u00e9 profundamente crist\u00e3 e pode n\u00e3o convencer o leitor contempor\u00e2neo. H\u00e1 momentos em que a f\u00e9 aparece como fundamento necess\u00e1rio sem que se investiguem suficientemente as formas pelas quais as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es religiosas produziram culpa, condena\u00e7\u00e3o e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ainda assim, a pergunta permanece: uma pessoa consegue viver sem experimentar algum v\u00ednculo com algo que ultrapasse a repeti\u00e7\u00e3o imediata dos dias? Esse \u201calgo\u201d n\u00e3o precisa ser necessariamente Deus. Pode ser outra pessoa, uma comunidade, uma obra, uma responsabilidade, uma lembran\u00e7a, uma causa ou a expectativa ainda fr\u00e1gil de que o mundo n\u00e3o terminou de se transformar.<\/p>\n<p>O mais importante talvez seja perceber que Dostoi\u00e9vski n\u00e3o separa inteiramente a pergunta individual da pergunta social. Diante da morte da costureira, ele escreve como se a not\u00edcia produzisse uma forma de responsabilidade compartilhada. N\u00e3o conhecia a jovem, n\u00e3o poderia ter impedido diretamente sua morte e, mesmo assim, sente que aquele acontecimento tamb\u00e9m diz respeito a ele. A sociedade n\u00e3o \u00e9 culpada de maneira simples por toda morte ocorrida em seu interior; mas uma sociedade que nada pergunta sobre essas mortes renuncia a compreender a si mesma.<\/p>\n<p>Para quem deseja estudar o suic\u00eddio, \u201cDois suic\u00eddios\u201d ensina a desconfiar da semelhan\u00e7a criada pelo nome. Duas pessoas podem morrer por um gesto aparentemente compar\u00e1vel e, ainda assim, suas mortes pertencerem a gram\u00e1ticas inteiramente diferentes. A tarefa n\u00e3o consiste em descobrir rapidamente o elemento comum, mas em preservar as diferen\u00e7as que a classifica\u00e7\u00e3o amea\u00e7a apagar.<\/p>\n<p>Ler Dostoi\u00e9vski \u00e9 entrar numa discuss\u00e3o em que n\u00e3o precisamos concordar com todas as respostas. Basta perceber que ele nunca trata o suic\u00eddio como um acontecimento simples. Cada morte abre um processo \u2014 n\u00e3o apenas contra aquele que morreu, mas contra a sociedade que testemunhou sua vida sem perceber que ela se tornava imposs\u00edvel.<\/p>\n<h2>6. <em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio<\/em>, de Alexandre H. Reis<\/h2>\n<p>Os dois \u00faltimos livros desta lista s\u00e3o de minha autoria. Inclu\u00ed-los exige uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o os apresento com a pretens\u00e3o de julg\u00e1-los \u00e0 mesma dist\u00e2ncia empregada nos coment\u00e1rios anteriores. H\u00e1, confesso, alguma vergonha \u2014 ou talvez alguma mod\u00e9stia \u2014 em coloc\u00e1-los ao lado dos demais. Eles est\u00e3o aqui porque nasceram precisamente das perguntas que orientam este percurso e animam as atividades do LYSIS. Se os outros livros entram nesta lista por escolha, estes entram tamb\u00e9m por intimidade.<\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/editora.ufabc.edu.br\/downloads\/download\/5-livros-em-pdf\/77-genealogia-dos-nossos-preconceitos-morais-e-critica-da-psiquiatria\"><em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio<\/em><\/a>, investigo uma quest\u00e3o aparentemente simples: a ideia de suic\u00eddio sempre existiu?<\/p>\n<p>Naturalmente, os seres humanos provocavam a pr\u00f3pria morte muito antes do aparecimento da palavra e da forma\u00e7\u00e3o do conceito. Encontramos mortes volunt\u00e1rias nos poemas antigos, nas trag\u00e9dias gregas, nas narrativas romanas, nos textos b\u00edblicos e nas hist\u00f3rias dos m\u00e1rtires. Essas mortes, entretanto, n\u00e3o eram necessariamente compreendidas como manifesta\u00e7\u00f5es de um \u00fanico fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>\u00c1jax, Lucr\u00e9cia, Cat\u00e3o, Judas, as virgens crist\u00e3s, os m\u00e1rtires e os guerreiros derrotados n\u00e3o acreditavam pertencer \u00e0 mesma categoria. Suas mortes eram interpretadas segundo diferentes gram\u00e1ticas: honra, vergonha, sacrif\u00edcio, testemunho, fuga, liberdade, fidelidade, desespero ou crime. Reuni-las imediatamente sob a palavra \u201csuic\u00eddio\u201d pode facilitar a compara\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m projeta sobre o passado uma unidade que seus protagonistas n\u00e3o conheciam.<\/p>\n<p>O aparecimento e a consolida\u00e7\u00e3o da palavra \u201csuic\u00eddio\u201d permitiram reunir experi\u00eancias profundamente distintas sob uma \u00fanica denomina\u00e7\u00e3o. Essa reuni\u00e3o n\u00e3o foi neutra. Muito antes da cria\u00e7\u00e3o do termo, Agostinho j\u00e1 havia aproximado determinadas mortes volunt\u00e1rias do homic\u00eddio de si. Aquele que morria pelas pr\u00f3prias m\u00e3os podia ser transformado, simultaneamente, em v\u00edtima e assassino. A palavra moderna herdaria parte dessa longa constru\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Perguntar pela inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio n\u00e3o significa afirmar que as mortes anteriores eram irreais. Significa distinguir o acontecimento do nome que lhe foi atribu\u00eddo. Pessoas morreram voluntariamente em diferentes \u00e9pocas; mas a ideia de que todas essas mortes expressam um mesmo fen\u00f4meno moral, psicol\u00f3gico ou m\u00e9dico possui uma hist\u00f3ria. O livro investiga essa hist\u00f3ria porque nossos conceitos n\u00e3o s\u00e3o apenas instrumentos neutros de descri\u00e7\u00e3o. Eles selecionam semelhan\u00e7as, escondem diferen\u00e7as e orientam as respostas que consideramos leg\u00edtimas.<\/p>\n<p>Este \u00e9, contudo, antes de tudo, um livro sobre o nosso tempo. Sua genealogia n\u00e3o pretende simplesmente reconstituir uma hist\u00f3ria cronol\u00f3gica do suic\u00eddio \u2014 tarefa muito mais extensa, \u00e0 qual reservei outro projeto \u2014, mas investigar a origem das categorias com as quais ainda hoje julgamos, explicamos e procuramos impedir a morte volunt\u00e1ria. O passado \u00e9 convocado porque continua agindo em nossa linguagem, mesmo quando j\u00e1 n\u00e3o reconhecemos sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o, S\u00f3crates, S\u00f3focles, Arist\u00f3teles, Agostinho, Montaigne, Kant, Nietzsche, Viktor Frankl, Esquirol, William James e muitos outros autores s\u00e3o convocados n\u00e3o como pe\u00e7as de um museu filos\u00f3fico, mas como interlocutores necess\u00e1rios \u00e0 compreens\u00e3o dos conflitos do presente. Cada um permite examinar uma regi\u00e3o do problema: a proibi\u00e7\u00e3o e suas exce\u00e7\u00f5es, a liberdade diante da morte, o sofrimento, a dignidade, o pertencimento, a loucura, o cuidado, a autonomia e os limites do poder exercido sobre a vida alheia.<\/p>\n<p>Agostinho ocupa um lugar decisivo nesse percurso. Ao interpretar determinadas mortes volunt\u00e1rias como formas de homic\u00eddio, ele fornece uma gram\u00e1tica capaz de atravessar o cristianismo, o direito e a filosofia moral. Aquele que morre voluntariamente j\u00e1 n\u00e3o aparece apenas como algu\u00e9m que realizou um gesto proibido. Passa a ocupar, ao mesmo tempo, os lugares de autor, v\u00edtima e criminoso. A express\u00e3o <em>homicidium sui<\/em> prepara uma compreens\u00e3o na qual o sujeito volta contra si a viol\u00eancia do assassino.<\/p>\n<p>Essa gram\u00e1tica n\u00e3o desaparece quando a condena\u00e7\u00e3o religiosa perde for\u00e7a. Parte de sua estrutura permanece na pr\u00f3pria palavra \u201csuic\u00eddio\u201d, formada \u00e0 semelhan\u00e7a de homic\u00eddio, parric\u00eddio e fratric\u00eddio. A morte continua inscrita no campo do crime, ainda que o culpado seja declarado doente em vez de pecador. A mudan\u00e7a hist\u00f3rica \u00e9 real, mas n\u00e3o necessariamente completa.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, os alienistas oferecem outra explica\u00e7\u00e3o. A morte volunt\u00e1ria passa a ser associada de maneira crescente \u00e0 loucura. Esquirol desempenha papel fundamental nesse processo ao sustentar que o suic\u00eddio, embora n\u00e3o constitua uma doen\u00e7a aut\u00f4noma, manifesta alguma forma de aliena\u00e7\u00e3o mental. Essa formula\u00e7\u00e3o possui uma consequ\u00eancia ambivalente. De um lado, permite contestar puni\u00e7\u00f5es morais e jur\u00eddicas impostas ao morto e \u00e0 sua fam\u00edlia. De outro, amplia o dom\u00ednio da medicina sobre uma experi\u00eancia que passa a ser interpretada antecipadamente como incapacidade.<\/p>\n<p>O pecador torna-se doente; o sacerdote cede lugar ao m\u00e9dico; a proibi\u00e7\u00e3o religiosa converte-se em necessidade terap\u00eautica. N\u00e3o se trata de afirmar que nada mudou. A psiquiatria desenvolveu conhecimentos e tratamentos importantes, e numerosas pessoas se beneficiaram deles. A genealogia procura mostrar, contudo, que uma nova linguagem pode conservar elementos da anterior. A autoridade que antes salvava a alma pode reaparecer como autoridade encarregada de salvar a vida, mesmo contra tudo o que a pessoa consegue dizer sobre si.<\/p>\n<p>O problema chega at\u00e9 o presente na associa\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica entre suic\u00eddio e doen\u00e7a mental. Em muitos casos, h\u00e1 efetivamente depress\u00e3o, psicose, transtorno bipolar, uso problem\u00e1tico de subst\u00e2ncias ou outras formas graves de sofrimento ps\u00edquico. Reconhec\u00ea-las pode ser indispens\u00e1vel ao cuidado. A quest\u00e3o come\u00e7a quando uma rela\u00e7\u00e3o frequente \u00e9 convertida numa identidade necess\u00e1ria e universal: se algu\u00e9m deseja morrer, ent\u00e3o est\u00e1 doente; se nega estar doente, essa nega\u00e7\u00e3o torna-se prova adicional de que n\u00e3o possui consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Forma-se assim uma estrutura dif\u00edcil de contestar. A pessoa pode falar, mas sua palavra j\u00e1 chega desautorizada. Pode apresentar raz\u00f5es, por\u00e9m essas raz\u00f5es ser\u00e3o tratadas como sintomas. Pode pedir escuta, mas receber apenas avalia\u00e7\u00e3o. O livro n\u00e3o pretende resolver abstratamente todos esses conflitos. Procura mostrar que uma preven\u00e7\u00e3o incapaz de ouvir corre o risco de proteger a vida biol\u00f3gica ao pre\u00e7o de retirar da pessoa qualquer participa\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o da pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a cr\u00edtica da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, das campanhas p\u00fablicas e da ideia contempor\u00e2nea de tabu se torna necess\u00e1ria. Repetimos frequentemente que \u00e9 preciso \u201cfalar sobre suic\u00eddio\u201d. Mas falar como, com quem e sob quais condi\u00e7\u00f5es? Nem toda fala rompe o sil\u00eancio. Uma campanha pode multiplicar mensagens e, ao mesmo tempo, impedir que algu\u00e9m formule aquilo que realmente sente. Podemos convidar a pessoa a falar desde que ela aceite previamente o vocabul\u00e1rio que preparamos: doen\u00e7a, risco, sinal, encaminhamento, tratamento.<\/p>\n<p>O conceito de tabu tamb\u00e9m merece ser interrogado. Dizer que o suic\u00eddio \u00e9 tabu parece evidente, mas a sociedade fala continuamente sobre ele \u2014 em not\u00edcias, estat\u00edsticas, campanhas, protocolos, filmes e redes sociais. Talvez o problema n\u00e3o seja uma aus\u00eancia absoluta de discurso. Talvez existam formas autorizadas e formas proibidas de falar. Podemos falar para condenar, diagnosticar e prevenir; temos mais dificuldade para escutar perguntas sobre liberdade, autonomia, cansa\u00e7o, direito de morrer ou recusa de determinadas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>O livro discute, por isso, quest\u00f5es que ultrapassam a hist\u00f3ria do conceito: a preven\u00e7\u00e3o, o luto, a bio\u00e9tica, a eutan\u00e1sia, o direito de morrer, a liberdade e o pertencimento. Esses temas n\u00e3o aparecem como problemas independentes. Perguntar quem pode decidir sobre a morte exige perguntar tamb\u00e9m quem teve condi\u00e7\u00f5es de participar das decis\u00f5es sobre a pr\u00f3pria vida. A autonomia n\u00e3o existe fora dos v\u00ednculos, assim como o pertencimento n\u00e3o deveria transformar-se em argumento para aprisionar algu\u00e9m numa exist\u00eancia insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Viktor Frankl permite examinar a busca de sentido, mas tamb\u00e9m seus riscos. A afirma\u00e7\u00e3o de que a vida conserva sentido em todas as circunst\u00e2ncias pode oferecer for\u00e7a a muitas pessoas. Entretanto, quando transformada em exig\u00eancia, pode acrescentar culpa ao sofrimento: al\u00e9m de n\u00e3o conseguir viver, a pessoa passa a sentir que fracassou em descobrir o sentido que todos afirmam existir. William James, por outra via, ajuda a pensar a possibilidade de permanecer sem possuir uma demonstra\u00e7\u00e3o definitiva de que a vida vale a pena. Entre a certeza do sentido e a certeza do nada talvez exista o espa\u00e7o fr\u00e1gil de uma aposta.<\/p>\n<p>A obra foi escrita entre 2018 e 2021, quando eu ainda morava no Nordeste, para orientar minhas aulas na disciplina <em>Prele\u00e7\u00f5es sobre o Suic\u00eddio<\/em>. Ao longo de 2022 e 2023, realizei uma leitura lenta do material e uma revis\u00e3o das fontes. O texto continuou amadurecendo antes de ser entregue aos pareceristas da Editora UFABC. Essa origem ajuda a explicar sua forma: os cap\u00edtulos conservam algo da aula, do ensaio e da discuss\u00e3o coletiva. Foram escritos n\u00e3o apenas para apresentar respostas, mas para oferecer problemas que pudessem permanecer em debate.<\/p>\n<p>Criticar as categorias de suic\u00eddio, doen\u00e7a mental e preven\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa negar o sofrimento nem renunciar ao cuidado. Significa perguntar que esp\u00e9cie de cuidado estamos oferecendo. A cr\u00edtica n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 preven\u00e7\u00e3o aut\u00eantica; procura libert\u00e1-la de seus automatismos. Se uma pr\u00e1tica de preven\u00e7\u00e3o transforma toda palavra em sintoma, toda recusa em incapacidade e toda diferen\u00e7a em risco, talvez preserve protocolos enquanto perde a pessoa que pretendia alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>A pergunta final do livro n\u00e3o \u00e9 se devemos salvar vidas. \u00c9 mais exigente: que vida estamos dispostos a ajudar a construir depois que o perigo imediato passa? N\u00e3o basta impedir uma morte e devolver algu\u00e9m \u00e0s mesmas condi\u00e7\u00f5es que tornaram sua exist\u00eancia insuport\u00e1vel. \u00c9 preciso criar v\u00ednculos, comunidades e condi\u00e7\u00f5es concretas capazes de tornar aquela vida novamente habit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Publicada em 2026 pela Editora UFABC, a obra est\u00e1 dispon\u00edvel gratuitamente em formato digital: <a href=\"https:\/\/editora.ufabc.edu.br\/filosofia-artes-e-humanidades\/135-a-invencao-do-suicidio\"><em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio: genealogia dos nossos preconceitos morais e cr\u00edtica da psiquiatria<\/em><\/a>. A edi\u00e7\u00e3o f\u00edsica permanece prometida pela editora para o final de 2026.<\/p>\n<h2>7. <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV \u2014 O sorriso de Heg\u00e9sias<\/em>, de Alexandre H. Reis<\/h2>\n<p>Se <em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio<\/em> interroga as categorias com as quais pensamos a morte volunt\u00e1ria, <em><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Fil%C3%B3sofo-Rua-XV-Sorriso-Heg%C3%A9sias\/dp\/6550796792\">O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/a><\/em> procura descobrir o que acontece quando essas categorias s\u00e3o impostas a uma pessoa. O romance n\u00e3o apenas transp\u00f5e para a fic\u00e7\u00e3o alguns problemas filos\u00f3ficos. Ele permite compreender algo que dificilmente poderia ser aprendido em um tratado: a dist\u00e2ncia entre aquilo que uma pessoa vive, aquilo que consegue dizer sobre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e a hist\u00f3ria que os outros constroem a seu respeito.<\/p>\n<p>\u00c9 por essa raz\u00e3o que o incluo nesta lista. Quem deseja estudar o suic\u00eddio encontrar\u00e1 no romance problemas que n\u00e3o aparecem da mesma maneira nas pesquisas hist\u00f3ricas, nas classifica\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas ou nas estat\u00edsticas. N\u00e3o porque a literatura possua uma verdade superior, mas porque consegue manter juntas experi\u00eancias que nossas teorias costumam separar: o desejo de morrer e o desejo de permanecer; a liberdade e o pertencimento; a lucidez e a hesita\u00e7\u00e3o; a decis\u00e3o \u00edntima e o julgamento p\u00fablico; a morte escolhida e a morte imposta.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sei se <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em> deve ser chamado de romance de ideias. Gabriela Weisman, numa cr\u00edtica generosa e rigorosa, aproxima-o dessa tradi\u00e7\u00e3o e mostra como o livro corre o risco de transformar personagens em porta-vozes filos\u00f3ficos, mas consegue escapar dele. N\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de discutir sua classifica\u00e7\u00e3o com a dist\u00e2ncia necess\u00e1ria. Estou pr\u00f3ximo demais da obra e talvez ainda n\u00e3o tenha sa\u00eddo completamente de suas ruas. Permanece, contudo, minha hesita\u00e7\u00e3o. Espero que o romance n\u00e3o tenha sido escrito para demonstrar uma tese. Se h\u00e1 nele algum ensinamento, ele n\u00e3o est\u00e1 inteiramente nas ideias defendidas pelas personagens, mas no que acontece quando essas ideias s\u00e3o expostas \u00e0s circunst\u00e2ncias da vida.<\/p>\n<p>O protagonista chega a Pelotas com uma decis\u00e3o cuidadosamente meditada. N\u00e3o age num momento de desespero, n\u00e3o desconhece a hist\u00f3ria da filosofia e n\u00e3o ignora os argumentos habitualmente empregados em favor da vida. Ao contr\u00e1rio, conhece-os talvez bem demais. Durante anos, ajudou pessoas que desejavam morrer. Escutou estudantes, acolheu desconhecidos e chegou a impedir que um homem endividado se lan\u00e7asse de uma ponte. Entretanto, agora \u00e9 ele quem pretende atravessar a fronteira sul em busca da pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>H\u00e1 nisso uma primeira dificuldade para quem estuda o suic\u00eddio: aquele que deseja morrer n\u00e3o constitui uma identidade humana separada. N\u00e3o existe, de um lado, o especialista capaz de compreender e prevenir; de outro, o \u201csuicida\u201d, convertido em objeto de avalia\u00e7\u00e3o. A mesma pessoa pode oferecer raz\u00f5es para que algu\u00e9m permane\u00e7a e, em outro momento, n\u00e3o encontrar essas raz\u00f5es para si. Pode conhecer os fatores de risco, os argumentos filos\u00f3ficos e as t\u00e9cnicas de preven\u00e7\u00e3o e, ainda assim, desejar morrer. O saber n\u00e3o nos coloca fora da condi\u00e7\u00e3o que pretendemos conhecer.<\/p>\n<p>O romance permite tamb\u00e9m acompanhar algo que uma categoria diagn\u00f3stica dificilmente registra: o desejo de morrer possui tempo. Ele pode persistir, recuar, transformar-se ou reaparecer. N\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia alojada no interior de algu\u00e9m, nem uma ess\u00eancia que permita definir definitivamente quem aquela pessoa \u00e9. O Fil\u00f3sofo chega \u00e0 cidade com um plano; entretanto, entre a decis\u00e3o e sua poss\u00edvel realiza\u00e7\u00e3o, interp\u00f5e-se o mundo. Um caf\u00e9, uma conversa, um livro que precisa ser devolvido, uma crian\u00e7a, dois c\u00e3es, uma mulher, uma pra\u00e7a, um gesto de confian\u00e7a. Nada disso constitui, isoladamente, um argumento suficiente contra a morte. Ainda assim, cada encontro introduz uma demora, e cada demora cont\u00e9m uma possibilidade que antes n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>Talvez uma das li\u00e7\u00f5es mais discretas do romance esteja precisamente a\u00ed: \u00e0s vezes, prevenir n\u00e3o significa vencer uma discuss\u00e3o, demonstrar o valor abstrato da vida ou retirar de algu\u00e9m toda possibilidade de decidir. Significa sustentar o tempo. Criar um intervalo entre o sofrimento e o movimento irrevers\u00edvel. Fazer existir alguma coisa que precise ser devolvida amanh\u00e3, alguma pessoa que ainda espere uma resposta, algum lugar ao qual seja poss\u00edvel retornar.<\/p>\n<p>Heg\u00e9sias n\u00e3o \u00e9 simplesmente refutado ao longo da narrativa. O protagonista n\u00e3o encontra uma demonstra\u00e7\u00e3o de que a vida possui um sentido universal, nem se converte facilmente \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o moral de viver. O que o romance coloca em quest\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre liberdade e pertencimento. Pode algu\u00e9m que j\u00e1 se observa como se tivesse deixado o mundo voltar a participar dele? Pode uma presen\u00e7a alcan\u00e7ar quem j\u00e1 organizou racionalmente sua despedida? E, caso isso aconte\u00e7a, ser\u00e1 por for\u00e7a de um argumento ou por alguma experi\u00eancia para a qual nenhum argumento seria suficiente?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que Pelotas seja apresentada como uma comunidade simplesmente acolhedora. O romance distingue duas cidades. H\u00e1 uma cidade feita de encontros fr\u00e1geis, movimentos de cuidado, crian\u00e7as, animais, amizades e reconhecimentos. E h\u00e1 a Cidade com letra mai\u00fascula: o organismo coletivo que vigia, interpreta, espalha rumores, produz diagn\u00f3sticos e transforma suspeitas em senten\u00e7as. Uma pode tornar a vida habit\u00e1vel; a outra pode tornar uma pessoa prisioneira da identidade que lhe atribuiu.<\/p>\n<p>A Cidade decide que o protagonista \u00e9 \u201co suicida\u201d antes de escut\u00e1-lo. Depois passa a consider\u00e1-lo tamb\u00e9m perigoso: algu\u00e9m capaz de contaminar os outros com suas ideias. Desse momento em diante, seus escritos, suas tradu\u00e7\u00f5es, seu sil\u00eancio, sua passagem por Pelotas e sua inten\u00e7\u00e3o de cruzar a fronteira deixam de ser acontecimentos distintos e passam a compor uma \u00fanica narrativa. Ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que pensa sobre a morte ou que, em determinado momento, desejou morrer. Torna-se o Fil\u00f3sofo Suicida, como se essa palavra pudesse esgotar tudo o que ele foi, \u00e9 ou ainda poderia ser.<\/p>\n<p>Em determinado momento, uma morte por envenenamento altera a rela\u00e7\u00e3o da Cidade com o Fil\u00f3sofo e com o manuscrito atribu\u00eddo a Heg\u00e9sias. Antes mesmo que os fatos possam ser esclarecidos, vers\u00f5es come\u00e7am a circular. A hip\u00f3tese do suic\u00eddio revela-se especialmente atraente: \u00e9 mais f\u00e1cil de narrar, desperta curiosidade e permite imaginar uma alma corrompida, um livro perigoso e um fil\u00f3sofo capaz de envenenar consci\u00eancias. A morte deixa de ser apenas um acontecimento a investigar e se transforma numa hist\u00f3ria que diferentes pessoas desejam controlar.<\/p>\n<p>Aqui o romance toca num problema decisivo para qualquer estudo do suic\u00eddio: uma morte n\u00e3o chega at\u00e9 n\u00f3s sem interpreta\u00e7\u00e3o. Antes de se tornar estat\u00edstica, prontu\u00e1rio, not\u00edcia ou exemplo de campanha, ela foi nomeada. Algu\u00e9m reuniu determinados ind\u00edcios, desprezou outros e atribuiu ao morto uma inten\u00e7\u00e3o que ele j\u00e1 n\u00e3o pode confirmar nem recusar.<\/p>\n<p>Perguntar se uma morte foi volunt\u00e1ria n\u00e3o significa apenas examinar um corpo ou identificar uma subst\u00e2ncia num laudo. Significa reconstruir uma a\u00e7\u00e3o humana sem poder interrogar aquele que agiu. Significa distinguir, muitas vezes retrospectivamente, acidente, coer\u00e7\u00e3o, homic\u00eddio e vontade. H\u00e1 nessa opera\u00e7\u00e3o uma incerteza que frequentemente escondemos sob a aparente seguran\u00e7a das classifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O manuscrito atribu\u00eddo a Heg\u00e9sias acrescenta outra camada. A Cidade come\u00e7a a imaginar que um livro pode matar e que aquele que traduz ideias sobre a morte poderia ser responsabilizado pelo que os outros fazem com elas. O romance n\u00e3o responde simplesmente que as palavras s\u00e3o inocentes. Elas podem ferir, transformar, persuadir e produzir consequ\u00eancias. Mas entre uma palavra e um gesto existe uma pessoa, com sua hist\u00f3ria, suas circunst\u00e2ncias e sua maneira singular de interpretar aquilo que l\u00ea.<\/p>\n<p>Atribuir a um livro uma causalidade direta permite \u00e0 sociedade evitar perguntas mais dif\u00edceis. Em vez de investigar abandono, sofrimento, viol\u00eancia, d\u00edvida, solid\u00e3o e aus\u00eancia de pertencimento, procura-se um texto perigoso e algu\u00e9m a quem culpar. A complexidade de uma morte \u00e9 substitu\u00edda pela simplicidade de uma acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Pra\u00e7a dos Enforcados alarga ainda mais essa reflex\u00e3o. Diante da mem\u00f3ria dos escravizados, dos corpos submetidos \u00e0 fome, ao trabalho, \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia, torna-se imposs\u00edvel falar de morte volunt\u00e1ria sem perguntar pelas condi\u00e7\u00f5es nas quais uma vontade se forma. At\u00e9 que ponto uma morte pode ser chamada de escolha quando a exist\u00eancia foi cercada pela mis\u00e9ria, pelo medo ou pela perda de toda soberania sobre o pr\u00f3prio corpo? O romance aproxima a morte f\u00edsica da morte social e recorda que algumas pessoas come\u00e7am a morrer muito antes de seus corpos cessarem.<\/p>\n<p>Talvez esteja a\u00ed aquilo que a fic\u00e7\u00e3o pode ensinar de modo insubstitu\u00edvel. Um estudo conceitual pode demonstrar que o termo \u201csuic\u00eddio\u201d re\u00fane experi\u00eancias diferentes. O romance, por\u00e9m, obriga o leitor a conviver com essas diferen\u00e7as sem resolv\u00ea-las rapidamente. Faz com que acompanhe uma pessoa que deseja morrer, que ajudou outras a viver, que recusa ser chamada de suicida e que, no entanto, passa a ser aprisionada pela hist\u00f3ria que a Cidade escreve para ela.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o decisiva do livro n\u00e3o \u00e9, portanto, simplesmente se a vida possui valor. \u00c9 mais dif\u00edcil: em que momento uma vida pode voltar a ser sentida como pr\u00f3pria? Uma vida pode ser escolhida sem que essa escolha resulte do medo, da culpa ou da obriga\u00e7\u00e3o? O pertencimento pode oferecer raz\u00f5es para permanecer sem transformar-se em argumento para impedir toda liberdade?<\/p>\n<p>O romance mant\u00e9m essas perguntas abertas. N\u00e3o oferece ao leitor a seguran\u00e7a de uma campanha em favor da vida abstrata, tampouco a facilidade de uma defesa da morte. Investiga as condi\u00e7\u00f5es nas quais algu\u00e9m poderia voltar a experimentar o mundo como um lugar ao qual ainda pertence \u2014 e o perigo de uma sociedade que, mesmo quando pretende julgar ou proteger, retira dessa pessoa o direito de dizer quem \u00e9.<\/p>\n<p>Quem pretende compreender o suic\u00eddio talvez precise aprender justamente isso: n\u00e3o basta perguntar por que algu\u00e9m deseja morrer. \u00c9 preciso perguntar que rela\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es, palavras e formas de vida tornam poss\u00edvel esse desejo; quais delas o agravam; e quais poderiam abrir, no interior de uma decis\u00e3o aparentemente conclu\u00edda, algum futuro ainda n\u00e3o imaginado.<\/p>\n<p>Publicado pela Editora Liter\u00edssima em 2026, <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV \u2014 O sorriso de Heg\u00e9sias<\/em> conduz a reflex\u00e3o sobre o suic\u00eddio at\u00e9 um ponto em que a filosofia, a psiquiatria e as pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o precisam reconhecer seus limites. Ali, compreender j\u00e1 n\u00e3o significa apenas explicar uma morte. Significa perguntar pela comunidade que constru\u00edmos ao redor daquele que j\u00e1 n\u00e3o encontra nela um lugar onde possa permanecer ou habitar.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m a cr\u00edtica de Gabriela Weisman: <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2026\/10\/05\/639\/\"><em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV: um romance de ideias e os perigos do g\u00eanero<\/em><\/a>.<\/p>\n<h2>Depois da \u00faltima p\u00e1gina<\/h2>\n<p>Esses sete livros discordam entre si sobre quase tudo.<\/p>\n<p>Alvarez aproxima literatura, cultura e experi\u00eancia pessoal. Jamison investiga a rela\u00e7\u00e3o entre sofrimento ps\u00edquico e suic\u00eddio. Sylvia Plath transforma a asfixia de uma exist\u00eancia em romance. Styron tenta encontrar palavras para a depress\u00e3o. Dostoi\u00e9vski interroga as diferen\u00e7as sociais e espirituais entre mortes aparentemente semelhantes. <em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio<\/em> pergunta pela hist\u00f3ria do conceito. <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em> transporta essas quest\u00f5es para o interior de uma vida ficcional.<\/p>\n<p>O leitor talvez termine esse percurso com menos certezas do que tinha no in\u00edcio. Isso n\u00e3o seria um fracasso.<\/p>\n<p>Em temas como esse, a certeza r\u00e1pida costuma ser uma forma de viol\u00eancia. Ela nos permite deixar de escutar porque acreditamos j\u00e1 saber o que aconteceu. Dizemos que foi doen\u00e7a, fraqueza, ego\u00edsmo, falta de f\u00e9, impulso ou consequ\u00eancia de determinada circunst\u00e2ncia. A palavra encerra aquilo que deveria abrir.<\/p>\n<p>Compreender o suic\u00eddio n\u00e3o significa justific\u00e1-lo, conden\u00e1-lo ou encontrar para ele uma explica\u00e7\u00e3o definitiva. Significa sustentar a pergunta durante tempo suficiente para que uma vida n\u00e3o desapare\u00e7a atr\u00e1s do nome dado \u00e0 sua morte.<\/p>\n<p>Talvez os livros possam ajudar porque ampliam nossa linguagem. E, quando o sofrimento encontra linguagem, surge tamb\u00e9m a possibilidade de compartilh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Resta, contudo, a pergunta mais dif\u00edcil: somos capazes de construir uma comunidade na qual algu\u00e9m possa dizer que deseja morrer sem ser abandonado, julgado ou imediatamente reduzido a uma doen\u00e7a? Somos capazes de escutar essa palavra e, ao mesmo tempo, participar da cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es que tornem aquela vida novamente habit\u00e1vel?<\/p>\n<p>Nenhum livro poder\u00e1 responder sozinho.<\/p>\n<p>Mas talvez uma leitura compartilhada seja uma das maneiras de come\u00e7armos.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Nota de cuidado:<\/strong> se voc\u00ea chegou a este texto n\u00e3o apenas por interesse intelectual, mas porque a morte lhe parece pr\u00f3xima ou a vida se tornou dif\u00edcil de suportar, procure algu\u00e9m com quem possa permanecer e conversar agora. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone <strong>188<\/strong>, durante 24 horas, e tamb\u00e9m pelo site <a href=\"https:\/\/cvv.org.br\/\">cvv.org.br<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algum tempo, publiquei no site do LYSIS uma lista com cinco livros que considero fundamentais para pensar o suic\u00eddio. 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