{"id":639,"date":"2026-10-05T01:39:40","date_gmt":"2026-10-05T04:39:40","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=639"},"modified":"2026-10-05T01:42:51","modified_gmt":"2026-10-05T04:42:51","slug":"639","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2026\/10\/05\/639\/","title":{"rendered":"O Fil\u00f3sofo da Rua XV: um romance de ideias e os perigos do g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<h2><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-642\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/capa-do-filosofo.png?resize=616%2C854&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"616\" height=\"854\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/capa-do-filosofo.png?w=1065&amp;ssl=1 1065w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/capa-do-filosofo.png?resize=768%2C1065&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/10\/capa-do-filosofo.png?resize=816%2C1132&amp;ssl=1 816w\" sizes=\"auto, (max-width: 616px) 100vw, 616px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<p style=\"text-align: right;\">por Gabriela Weisman (ensa\u00edsta e tradutora, UFMG)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Romances filos\u00f3ficos s\u00e3o raros; bons romances filos\u00f3ficos, rar\u00edssimos. A raz\u00e3o \u00e9 simples. A filosofia disp\u00f5e de conceitos, argumentos e sistemas; o romance disp\u00f5e de homens, mulheres, crian\u00e7as, animais, ruas, caf\u00e9s, equ\u00edvocos, desejos. Quando o romancista esquece essa diferen\u00e7a, as personagens come\u00e7am a falar como tratados e a fic\u00e7\u00e3o morre, embora as ideias talvez continuem respirando. O <em>roman \u00e0 th\u00e8se<\/em> oferece numerosos exemplos dessa morte prematura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em>, de Alexandre H. Reis, aproxima-se deliberadamente desse perigo. N\u00e3o lhe faltam fil\u00f3sofos: Heg\u00e9sias, C\u00edcero, Agostinho, Montaigne, Pascal, Schopenhauer, Nietzsche. H\u00e1 manuscritos, tradu\u00e7\u00f5es, bibliotecas, um dicion\u00e1rio de grego, discuss\u00f5es sobre a morte volunt\u00e1ria e um protagonista que fez da filosofia n\u00e3o apenas uma profiss\u00e3o (em suas mem\u00f3rias, fora professor), mas uma esp\u00e9cie de destino. Material suficiente para produzir um ensaio disfar\u00e7ado de romance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro, entretanto, escapa sempre dessa armadilha. E escapa por uma raz\u00e3o que conv\u00e9m perceber desde o in\u00edcio: sua verdadeira mat\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 Heg\u00e9sias. \u00c9 o que acontece a um homem depois de ter convivido longamente com Heg\u00e9sias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a parece pequena; na literatura, \u00e9 enorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura brasileira conhece muito bem a presen\u00e7a do pensamento no romance, embora raramente o apresente sob a forma expl\u00edcita da hist\u00f3ria da filosofia. Machado de Assis pensava por corros\u00e3o. N\u00e3o precisava colocar sistemas filos\u00f3ficos na boca de Br\u00e1s Cubas ou de Rubi\u00e3o: bastava deix\u00e1-los falar para que as certezas morais dos homens come\u00e7assem a denunciar-se a si mesmas. O Humanitismo de <em>Quincas Borba<\/em> \u00e9 filosofia e par\u00f3dia da filosofia; sobretudo, \u00e9 uma armadilha preparada para a vaidade humana. Machado desconfiava das ideias quando elas come\u00e7avam a explicar demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guimar\u00e3es Rosa tomou outro caminho. Em <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, o pensamento n\u00e3o chega pronto ao romance: nasce dentro da l\u00edngua. Riobaldo n\u00e3o aplica uma metaf\u00edsica ao sert\u00e3o; \u00e9 o sert\u00e3o, atravessado pela palavra, que o obriga a filosofar. Em Clarice Lispector, o pensamento avan\u00e7a para uma regi\u00e3o ainda mais perigosa, aquela em que a consci\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o sabe distinguir descoberta de vertigem. Suas personagens n\u00e3o possuem propriamente uma filosofia. Eu diria: sofrem o pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre H. Reis entra por outra porta. Em seu romance, a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica possui nomes, livros, datas, fragmentos, tradu\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria das ideias est\u00e1 materialmente presente. Esse procedimento \u00e9 perigoso e constitui, ao mesmo tempo, a singularidade do livro. Heg\u00e9sias n\u00e3o comparece como ornamento erudito. Um escrito atribu\u00eddo ao obscuro fil\u00f3sofo cirenaico p\u00f5e acontecimentos em movimento, aproxima desconhecidos, desperta suspeitas e come\u00e7a, pouco a pouco, a escapar das m\u00e3os daqueles que julgam compreend\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, um livro pode ser perigoso.\u00a0N\u00e3o porque contenha alguma maldi\u00e7\u00e3o, como nos romances fant\u00e1sticos, mas por uma raz\u00e3o muito menos confort\u00e1vel: porque seres humanos fazem coisas com aquilo que leem, e coisas ainda piores com aquilo que n\u00e3o leram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Borges \u00e9 uma lembran\u00e7a inevit\u00e1vel, mas enganadora se levada longe demais. Borges inventava livros para p\u00f4r o universo em d\u00favida; Reis p\u00f5e um livro dentro do mundo para observar o que o mundo far\u00e1 com ele. O manuscrito n\u00e3o abre propriamente um labirinto metaf\u00edsico. Abre um labirinto humano. Pouqu\u00edssimos chegam de fato a l\u00ea-lo; nem por isso deixam de interpret\u00e1-lo. Circula antes a ideia do livro do que o livro. Surgem vers\u00f5es, suspeitas, not\u00edcias, acusa\u00e7\u00f5es. Um objeto destinado \u00e0 leitura converte-se em objeto social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E come\u00e7a sua segunda exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m por isso <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em> pertence \u00e0 velha fam\u00edlia dos romances em que livros, bibliotecas e manuscritos produzem acontecimentos. <em>Dom Quixote<\/em> est\u00e1 na origem remota dessa fam\u00edlia; Borges e Umberto Eco s\u00e3o parentes muito mais pr\u00f3ximos. Mas o parentesco n\u00e3o deve esconder a diferen\u00e7a. No romance de Reis, a biblioteca desemboca na rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a rua \u00e9 a Rua XV de Novembro. [A escolha ser\u00e1 apenas topogr\u00e1fica? Ou haver\u00e1 alguma ironia no fato de que boa parte do romance se passe numa rua que traz no pr\u00f3prio nome a data inaugural da Rep\u00fablica brasileira, isto \u00e9, a promessa de uma vida p\u00fablica fundada na cidadania, enquanto nela se forma, pouco a pouco, outra esp\u00e9cie de <em>res publica<\/em>, feita de olhares, rumores, preconceitos e julgamentos?]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa passagem do livro para a cidade talvez seja a melhor inven\u00e7\u00e3o do romance. O protagonista chega a Pelotas trazendo consigo uma longa intimidade com a morte. Conhece argumentos, genealogias, condena\u00e7\u00f5es religiosas, justifica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Sabe muito sobre o assunto&#8230; talvez demais. Mas uma coisa \u00e9 conhecer a hist\u00f3ria das ideias; outra, bastante diferente, \u00e9 descer de um \u00f4nibus numa manh\u00e3 \u00famida, entrar num caf\u00e9, observar desconhecidos, sentir o cheiro de uma livraria, conversar com crian\u00e7as, esperar por algu\u00e9m&#8230; e\u00a0encontrar um gato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse gato merece alguma aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando aparece pela primeira vez, est\u00e1 numa pequena livraria, deitado sobre um volume de Montaigne. \u00c9 rajado, insolente e soberanamente indiferente aos homens, aos livros e provavelmente \u00e0 metaf\u00edsica. H\u00e1 no estabelecimento cheiro de madeira \u00famida, papel antigo e urina de gato, combina\u00e7\u00e3o pouco sublime, mas literariamente mais convincente do que muitas bibliotecas ideais. O animal parece considerar-se o verdadeiro propriet\u00e1rio do lugar. O Fil\u00f3sofo se interessa imediatamente por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na visita seguinte, o Gato mudou de fil\u00f3sofo: abandonou Montaigne e dorme sobre Pascal.\u00a0A brincadeira \u00e9 excelente porque n\u00e3o precisa ser explicada. O c\u00e9tico franc\u00eas, o pensador da aposta, o homem angustiado diante dos espa\u00e7os infinitos: para o Gato, d\u00e1 no mesmo. Ele ergue a cabe\u00e7a quando incomodado, olha os homens com desprezo e torna a deit\u00e1-la. O Livreiro observa que talvez o animal prefira \u201co mundo da vida\u201d. O Fil\u00f3sofo chega a suspeitar de coisa ainda mais grave: aquele bicho seria uma personifica\u00e7\u00e3o mais convincente da liberdade do que muitas p\u00e1ginas escritas sobre ela.\u00a0Pois o Gato n\u00e3o argumenta que existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis uma das ironias mais felizes do romance. Um homem atravessa s\u00e9culos de filosofia \u00e0 procura de raz\u00f5es; o animal, deitado sobre os fil\u00f3sofos, n\u00e3o precisa de nenhuma. N\u00e3o conhece o problema do sentido da vida e, por isso mesmo, talvez esteja mais pr\u00f3ximo da vida do que aqueles que fizeram dela um problema. Sua psicologia, se \u00e9 permitido atribuir psicologia a um gato que certamente desprezaria a atribui\u00e7\u00e3o, \u00e9 feita de soberania, indiferen\u00e7a, curiosidade seletiva e uma capacidade quase aristocr\u00e1tica de decidir quando os homens merecem sua aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 d\u00f3cil por princ\u00edpio. N\u00e3o distribui afeto democraticamente. Aproxima-se quando quer, retira-se quando quer, observa mais do que participa. Seu afeto, justamente porque n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio, tem o seu pr\u00f3prio valor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Gato \u00e9 uma pequena refuta\u00e7\u00e3o de trezentas p\u00e1ginas que jamais precisa formular uma premissa.\u00a0N\u00e3o \u00e9 o \u00fanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 Luna, a husky de olhos diferentes, que se comporta diante da est\u00e1tua de Sim\u00f5es Lopes Neto como se percebesse no bronze alguma coisa que os homens j\u00e1 n\u00e3o conseguem perceber. H\u00e1 o outro c\u00e3o, majestoso e impass\u00edvel. H\u00e1 a Senhora Pequenina com suas sacolas; as Irm\u00e3s do Balan\u00e7o; as crian\u00e7as do Mercado; o Livreiro; a Bibliotec\u00e1ria; a Mulher do Olhar Inteiro. H\u00e1 figuras que aparecem por minutos e deixam no protagonista uma perturba\u00e7\u00e3o desproporcional \u00e0 dura\u00e7\u00e3o do encontro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma delas refuta Heg\u00e9sias.\u00a0Seria literariamente desastroso se tentassem.\u00a0Fazem coisa pior para um fil\u00f3sofo: tornam insuficiente uma verdade que parecia completa.\u00a0O romance nasce dessa insufici\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil reconhecer, naturalmente, a biografia intelectual do autor atr\u00e1s dessa constru\u00e7\u00e3o. Antes da fic\u00e7\u00e3o vieram seus livros: <em>Vita \u2014 breves pensamentos sobre a vida e a morte<\/em>, <em>Hist\u00f3ria do Suic\u00eddio<\/em>, <em>A Inven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio<\/em> e <em>Os Fil\u00f3sofos e a Morte<\/em>. Seria f\u00e1cil concluir que <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em> \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o desses livros por outros meios. Seria tamb\u00e9m inexato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ensaio pode perguntar o que significou a morte volunt\u00e1ria para gregos, romanos ou crist\u00e3os. Pode reconstruir conceitos, distinguir \u00e9pocas, confrontar argumentos. O romance est\u00e1 obrigado a uma tarefa mais ingrata: precisa sujar os conceitos de mundo.\u00a0Precisa colocar algu\u00e9m numa rua.\u00a0Faz\u00ea-lo sentir frio, fome, medo, atra\u00e7\u00e3o, vergonha. Faz\u00ea-lo entrar numa livraria que cheira a gato. Dar-lhe um livro que dever\u00e1 ser devolvido. P\u00f4r uma crian\u00e7a diante dele. Fazer uma mulher toc\u00e1-lo. Deix\u00e1-lo esperar. Fazer com que olhe o rel\u00f3gio e descubra que o tempo dos fil\u00f3sofos n\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo tempo dos homens que esperam por algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem do ensaio ao romance come\u00e7a quando a ideia ganha corpo. E, sobretudo, quando ganha rel\u00f3gio. H\u00e1 nisso uma vingan\u00e7a da literatura contra a filosofia, amistosa, talvez, mas completa. O conceito deseja estabilidade ao passo em que a vida introduz circunst\u00e2ncias. O sistema procura coer\u00eancia; uma crian\u00e7a atravessa a rua. Um homem formula uma teoria; um gato boceja sobre Pascal. A filosofia pergunta pelo sentido da exist\u00eancia; duas meninas brincam num balan\u00e7o.\u00a0Quem venceu a discuss\u00e3o?\u00a0A pergunta \u00e9 absurda.\u00a0E por isso \u00e9 boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em> \u00e9 mais interessante justamente quando compreende que uma vida n\u00e3o muda necessariamente porque encontrou um argumento melhor. \u00c0s vezes, o pensamento \u00e9 deslocado por coisas muito menores: um movimento pequenino, um animal, uma conversa sem import\u00e2ncia aparente, uma lembran\u00e7a, a obriga\u00e7\u00e3o de devolver alguma coisa que pertence a outra pessoa. A grande tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica permanece no romance, mas perde o monop\u00f3lio da verdade. Montaigne continua sendo Montaigne. Pascal continua sendo Pascal. Heg\u00e9sias continua sendo Heg\u00e9sias. Apenas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o sozinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso seria pobre classificar o livro simplesmente como \u201cum romance sobre o suic\u00eddio\u201d. A morte volunt\u00e1ria est\u00e1 em toda parte: em Heg\u00e9sias, no manuscrito, nas pesquisas do protagonista, em suas conversas, no passado que ele carrega consigo. Mas \u00e9 antes uma porta pela qual o romance entra em quest\u00f5es mais antigas e mais vastas: quanto de nossa vida realmente nos pertence? At\u00e9 onde uma ideia pode conduzir aquele que a leva a s\u00e9rio? O que devemos aos desconhecidos que cruzam nosso caminho? E o que acontece quando os outros come\u00e7am a construir, a nosso respeito, uma hist\u00f3ria na qual j\u00e1 n\u00e3o nos reconhecemos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ent\u00e3o que Pelotas deixa de ser apenas endere\u00e7o ou cen\u00e1rio. Apartir do capitulo XIII, o autor come\u00e7a a graf\u00e1-la com letra mai\u00fascula: Cidade. Sem deixar de ser Pelotas, com suas ruas, seus casar\u00f5es, seus caf\u00e9s, sua umidade, seus monumentos, sua mem\u00f3ria e seus mortos, a Cidade cresce at\u00e9 adquirir outra dimens\u00e3o. Torna-se uma experi\u00eancia da sociedade: o lugar em que os homens se encontram e tamb\u00e9m se vigiam; conversam e deformam o que ouviram; recordam algumas coisas e esquecem outras; transformam impress\u00f5es em ju\u00edzos, ju\u00edzos em certezas e certezas, \u00e0s vezes, em senten\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Fil\u00f3sofo percorre a Biblioteca P\u00fablica, o Mercado, o Caf\u00e9 Aqu\u00e1rios, a Rua XV, a Pra\u00e7a dos Enforcados, a Catedral. S\u00e3o lugares reconhec\u00edveis por qualquer pelotense, mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio conhecer Pelotas para reconhec\u00ea-los. Eis o momento em que uma cidade entra verdadeiramente na literatura: quando continua sendo inconfundivelmente ela mesma e, no entanto, passa a existir tamb\u00e9m para quem nunca pisou em suas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dublin n\u00e3o deixou de ser Dublin por causa de Joyce. S\u00e3o Petersburgo n\u00e3o deixou de ser S\u00e3o Petersburgo depois de Dostoi\u00e9vski. As cidades liter\u00e1rias tornam-se universais n\u00e3o quando perdem seus nomes, mas quando alguma coisa da condi\u00e7\u00e3o humana come\u00e7a a andar por suas cal\u00e7adas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que Reis procura fazer com Pelotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E encontrou uma cidade especialmente apropriada para isso. A beleza dos casar\u00f5es n\u00e3o consegue separar-se inteiramente da riqueza que os ergueu; o refinamento arquitet\u00f4nico convive com a mem\u00f3ria da escravid\u00e3o; monumentos preservam alguns nomes enquanto outros desapareceram. H\u00e1 uma pra\u00e7a cuja designa\u00e7\u00e3o popular, Pra\u00e7a dos Enforcados, parece guardar na l\u00edngua aquilo que a hist\u00f3ria oficial preferiria tornar menos vis\u00edvel. O passado n\u00e3o est\u00e1 atr\u00e1s da cidade. Est\u00e1 debaixo dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o presente \u00e9 mais r\u00e1pido do que a mem\u00f3ria.\u00a0O tempo presente, no romance, fala e muitas vezes fala alto.\u00a0Uma not\u00edcia passa de boca em boca. Uma frase perde uma palavra. Uma interpreta\u00e7\u00e3o encontra outra e volta modificada. Algu\u00e9m viu. Algu\u00e9m ouviu dizer. Algu\u00e9m sabe de fonte segura. Um manuscrito que ningu\u00e9m leu come\u00e7a a adquirir uma exist\u00eancia p\u00fablica. Um homem chega \u00e0 cidade trazendo seus livros, seus h\u00e1bitos, seu passado e suas raz\u00f5es; pouco depois, descobre que desconhecidos sabem a seu respeito coisas que ele pr\u00f3prio ignora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento, <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em> muda discretamente de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O romance de ideias come\u00e7a a adquirir a inquieta\u00e7\u00e3o do romance policial, mas se recusa a obedecer inteiramente \u00e0s suas regras. H\u00e1 um morto. H\u00e1 um delegado. H\u00e1 um manuscrito. H\u00e1 perguntas para as quais diferentes pessoas oferecem respostas incompat\u00edveis. E h\u00e1, sobretudo, a mat\u00e9ria de que s\u00e3o feitos muitos crimes antes mesmo que apare\u00e7a um criminoso: vers\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que o livro se torna perigoso para o cr\u00edtico, porque contar mais seria come\u00e7ar a destru\u00ed-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta dizer que Heg\u00e9sias atravessou mais de dois mil anos para chegar a Pelotas. Quase nada sabemos do fil\u00f3sofo hist\u00f3rico. Algumas refer\u00eancias antigas foram suficientes para lhe dar uma reputa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria: <em>Peisithanatos<\/em>, o persuasor da morte. Teria falado contra a vida com tal efic\u00e1cia que suas li\u00e7\u00f5es acabaram proibidas. Hist\u00f3ria? Lenda? Exagero transmitido pelos antigos? Para o historiador da filosofia, come\u00e7a a\u00ed um problema de fontes.\u00a0Para o romancista, come\u00e7a algo muito melhor.\u00a0Reis n\u00e3o precisa ressuscitar Heg\u00e9sias. Basta-lhe fazer reaparecer alguma coisa que talvez tenha pertencido a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um manuscrito pode ser verdadeiro ou falso. Pode ter sido compreendido ou incompreendido. Pode passar de uma m\u00e3o para outra. Pode ser traduzido por algu\u00e9m que conhece grego e comentado por quem n\u00e3o conhece uma palavra da l\u00edngua. Pode ser objeto de pesquisa, mercadoria, lembran\u00e7a, prova, not\u00edcia, acusa\u00e7\u00e3o. E j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 exatamente o mesmo manuscrito em cada uma dessas exist\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre aquilo que est\u00e1 escrito e aquilo que uma cidade acredita ter sido escrito abre-se uma dist\u00e2ncia.\u00a0\u00c9 nessa dist\u00e2ncia que come\u00e7a o verdadeiro mist\u00e9rio de <em>O Fil\u00f3sofo da Rua XV<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez por isso uma das personagens mais s\u00e1bias do romance seja justamente aquela que n\u00e3o l\u00ea.\u00a0Enquanto os homens discutem Heg\u00e9sias, Montaigne, Pascal, a morte, a liberdade e o sentido da exist\u00eancia, o Gato muda de livro, ajeita o corpo sobre a capa, fecha os olhos e dorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabemos se ele compreendeu tudo.\u00a0\u00c9 poss\u00edvel que tenha compreendido apenas o necess\u00e1rio.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">SERVI\u00c7O<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Fil\u00f3sofo da Rua XV (O sorriso de Heg\u00e9sias)<\/strong><br \/>\nAlexandre H. Reis<br \/>\nBelo Horizonte: Liter\u00edssima, 2026<br \/>\n298 p\u00e1ginas<br \/>\nISBN 978-65-5079-679-2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lan\u00e7amento em Pelotas<\/strong><br \/>\n15 de outubro de 2026, \u00e0s 18h<br \/>\nMuseu do Doce da UFPel \u2014 Casar\u00e3o 8<br \/>\nPra\u00e7a Coronel Pedro Os\u00f3rio, Pelotas (RS)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro foi lan\u00e7ado em Belo Horizonte em agosto de 2026 e ter\u00e1 seu lan\u00e7amento em Pelotas no dia 15 de outubro, com encontro com o autor e convidados e sess\u00e3o de aut\u00f3grafos. Ser\u00e1 lan\u00e7ado no dia 24 em Curitiba e no 16 de novembro em Florian\u00f3polis, na UFSC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Onde encontrar:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Fil%C3%B3sofo-Rua-XV-Sorriso-Heg%C3%A9sias\/dp\/6550796792\">Amazon Brasil<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.magazineluiza.com.br\/o-filosofo-da-rua-xv-literissima-editora-ltda\/p\/hf3fj1aa80\/li\/lcol\/?srsltid=AU7gw4X_iYdkqg8bRurEYX8_SmHw9CtKyaZ-D_8qmfyr9DfLOKRhFFdU\">Magalu<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.literissima.com.br\/product-page\/o-fil%C3%B3sofo-da-rua-xv\">Editora Liter\u00edssima<\/a>, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Gabriela Weisman (ensa\u00edsta e tradutora, UFMG) &nbsp; Romances filos\u00f3ficos s\u00e3o raros; bons romances filos\u00f3ficos, rar\u00edssimos. A raz\u00e3o \u00e9 simples. 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