{"id":609,"date":"2026-06-19T09:03:54","date_gmt":"2026-06-19T12:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=609"},"modified":"2026-06-20T10:11:04","modified_gmt":"2026-06-20T13:11:04","slug":"enfim-o-livro-a-invencao-do-suicidio-2026-editora-ufabc-gratuito-em-pdf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2026\/06\/19\/enfim-o-livro-a-invencao-do-suicidio-2026-editora-ufabc-gratuito-em-pdf\/","title":{"rendered":"Enfim, o livro A INVEN\u00c7\u00c3O DO SUIC\u00cdDIO, 2026, Editora UFABC (gratuito em pdf)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-612\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/06\/aaa-livro-pronto.png?resize=616%2C462&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"616\" height=\"462\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/06\/aaa-livro-pronto.png?w=1448&amp;ssl=1 1448w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/06\/aaa-livro-pronto.png?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/06\/aaa-livro-pronto.png?resize=816%2C612&amp;ssl=1 816w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2026\/06\/aaa-livro-pronto.png?w=1232&amp;ssl=1 1232w\" sizes=\"auto, (max-width: 616px) 100vw, 616px\" \/>Sobre o livro <em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio<\/em>, publicado pela Editora UFABC, que traz uma <em>genealogia da morte volunt\u00e1ria, uma cr\u00edtica da psiquiatria e reconfigura\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do problema do suic\u00eddio.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em> Livro em pdf pode ser baixado gratuitamente aqui: <a href=\"https:\/\/editora.ufabc.edu.br\/downloads\/download\/5-livros-em-pdf\/77-genealogia-dos-nossos-preconceitos-morais-e-critica-da-psiquiatria\">A inven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio\u00a0<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O livro em formato f\u00edsico, ser\u00e1 lan\u00e7ado em Florian\u00f3polis no dia 17 de novembro de 2026, no <\/em><\/strong><a href=\"https:\/\/anpof.org.br\/encontros\/xxi-encontro-nacional-da-anpof\">XXI Encontro Nacional da Anpof<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao que me consta, olhando retrospectivamente, n\u00e3o cheguei ao problema do suic\u00eddio por via tem\u00e1tica, mas por uma esp\u00e9cie de deslocamento necess\u00e1rio. Minha investiga\u00e7\u00e3o inicial, desenvolvida ainda em <a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/vita-2\"><em>Vita<\/em> <\/a>(publicado em Belo Horizonte, em 2007), partia de uma quest\u00e3o distinta: <em>o que \u00e9 a morte?<\/em> Ali, naquele livro de estreia, procurei sustentar uma tese que, \u00e0 \u00e9poca, me parecia j\u00e1 suficientemente contraintuitiva: a morte n\u00e3o deve ser pensada como oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida em geral, mas como morte da consci\u00eancia. Se tomamos o corpo, n\u00e3o encontramos propriamente morte, mas uma cont\u00ednua e sucessiva transforma\u00e7\u00e3o: a reinscri\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria em novos ciclos vitais. \u00c9 apenas no horizonte da consci\u00eancia que a morte se torna um problema rigoroso. \u00c9 ali, e apenas ali, que podemos falar propriamente de morte. As implica\u00e7\u00f5es e os pr\u00f3prios limites dessa tese, \u00e9 claro, s\u00e3o problematizadas no <em>Vita<\/em>, com uma preocupa\u00e7\u00e3o, t\u00edpica dos meus estudos daquele per\u00edodo, sobre formas de express\u00e3o, compreens\u00e3o est\u00e9tica da exist\u00eancia, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa inflex\u00e3o conceitual, no entanto, deixava ainda em aberto um campo que, retrospectivamente, revela-se decisivo: o da morte volunt\u00e1ria. Foi apenas anos depois, em 2015, \u00e0s margens do rio S\u00e3o Francisco, no campus de Juazeiro, na Bahia, da Universidade Federal do Vale do S\u00e3o Francisco, que essa quest\u00e3o se imp\u00f4s com maior nitidez. Na ocasi\u00e3o, ao ministrar um minicurso sobre Agostinho e o problema da morte volunt\u00e1ria em sua monumental <em>A Cidade de Deus<\/em>, no \u00e2mbito do Krisis \u2014 Laborat\u00f3rio de Antropologia Cr\u00edtica \u2014, deparei-me n\u00e3o apenas com um p\u00fablico numeroso, mas com uma demanda intelectual que ultrapassava em muito os limites daquele curso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ali que compreendi que n\u00e3o se tratava apenas de retomar um problema e alarga-lo para abarcar o tema da morte autoinfligida, mas de reorganizar um campo inteiro de investiga\u00e7\u00e3o. Dessa experi\u00eancia nasceram, de forma ainda embrion\u00e1ria naquele 2015, tr\u00eas dire\u00e7\u00f5es de trabalho que passariam a orientar meus estudos nos anos seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira delas foi de natureza pedag\u00f3gica. Percebi a necessidade de construir um espa\u00e7o sistem\u00e1tico de reflex\u00e3o que n\u00e3o se perdesse na dispers\u00e3o de confer\u00eancias e interven\u00e7\u00f5es pontuais. Da\u00ed surgiu o projeto de cria\u00e7\u00e3o da disciplina <em>Prele\u00e7\u00f5es sobre o suic\u00eddio<\/em>, posteriormente incorporada ao curso de Ci\u00eancias Sociais ao qual eu estava vinculado (e agora ministrada na UFPEL). Entre 2018 e 2022, dediquei-me \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento dessas aulas, escrevendo-as de modo que pudessem ultrapassar o tempo da exposi\u00e7\u00e3o oral. \u00c9 precisamente esse trabalho, ao mesmo tempo did\u00e1tico e investigativo, que constitui o n\u00facleo deste livro. <em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio<\/em> \u00e9, nesse sentido, o resultado direto dessas prele\u00e7\u00f5es, amadurecidas ao longo de anos de ensino e pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda dire\u00e7\u00e3o foi historiogr\u00e1fica. Desde o final da d\u00e9cada de 1990, quando ainda cursava a gradua\u00e7\u00e3o em filosofia (UFMG), a experi\u00eancia concreta da perda (colegas pr\u00f3ximos que, ano ap\u00f3s ano, desapareciam sem que f\u00f4ssemos capazes de compreender) j\u00e1 colocava o problema do suic\u00eddio de maneira incontorn\u00e1vel. No entanto, faltava um instrumento conceitual capaz de dar conta de sua historicidade. Quando examinei com cuidado o livro de George Minois, sua <em>Hist\u00f3ria do Suic\u00eddio<\/em>, fiquei profundamente decepcionado: havia uma preval\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o, da casu\u00edstica, da an\u00e1lise das fontes jornal\u00edsticas e de uma literatura que n\u00e3o conduzia a forma\u00e7\u00e3o de um conhecimento propriamente. Foi dessa insufici\u00eancia (reconhecida apenas pelos meus objetivos, o livro permanece v\u00e1lido e constitui uma leitura agrad\u00e1vel) que nasceu o projeto de escrever eu mesmo uma <a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/histoaria-do-suicidio\"><em>Hist\u00f3ria do suic\u00eddio<\/em><\/a>. O primeiro volume foi publicado em 2020, e desde ent\u00e3o sigo trabalhando nos volumes subsequentes. Parte das quest\u00f5es formuladas no Livro 1 dessa minha <em>Hist\u00f3ria do Suic\u00eddio<\/em> (especialmente nos cap\u00edtulos iniciais) encontram neste livro que sai agora um aprofundamento maior, embora menor do que o realizado posteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira dire\u00e7\u00e3o, de natureza mais propriamente filos\u00f3fica, conduziu-me \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de uma tese dedicada \u00e0 centralidade de Agostinho de Hipona na hist\u00f3ria do suic\u00eddio, desenvolvida entre 2021 e 2025 no PPG-Filosofia da UFRGS. Nesse trabalho, intitulado <em>As confiss\u00f5es de Lucr\u00e9cia: Agostinho e a anatropia da morte de si<\/em>, procurei mostrar como a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o apenas condena a morte volunt\u00e1ria, mas redefine suas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade ao inscrev\u00ea-la em uma economia da culpa e da interioridade. O livro encontra-se atualmente em an\u00e1lise pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, e darei not\u00edcias conforme o tempo da editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse entrela\u00e7amento, pedag\u00f3gico, historiogr\u00e1fico e filos\u00f3fico, que se situa <a href=\"https:\/\/editora.ufabc.edu.br\/downloads\/download\/5-livros-em-pdf\/77-genealogia-dos-nossos-preconceitos-morais-e-critica-da-psiquiatria\"><em>A Inven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio<\/em><\/a>. O livro n\u00e3o pretende oferecer uma teoria do suic\u00eddio, mas desmontar a evid\u00eancia do conceito e estabelecer uma cr\u00edtica ao nosso atual estado da arte. Nesse sentido, inscrevo-me deliberadamente numa tradi\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcio da cr\u00edtica e procuro mostrar que aquilo que tomamos como dado, o suic\u00eddio, \u00e9, na verdade, o resultado de um processo hist\u00f3rico de codifica\u00e7\u00e3o moral, teol\u00f3gico-jur\u00eddica, lingu\u00edstica e cient\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta que orienta o livro, e que o leitor encontrar\u00e1 j\u00e1 em suas primeiras p\u00e1ginas, \u00e9 simples apenas em apar\u00eancia: quando a morte volunt\u00e1ria se tornou suic\u00eddio? Essa quest\u00e3o n\u00e3o busca uma data, o isolamento de um momento inaugural, mas um processo. Ela sup\u00f5e que houve um tempo em que aquilo que hoje chamamos de suic\u00eddio n\u00e3o era pensado sob esse nome, nem sob esse regime de julgamento. Experimentar essas perspectivas outras, parece-me fundamental n\u00e3o s\u00f3 para criticarmos (isto \u00e9, analisarmos) nosso tempo, mas para alargar nossa compreens\u00e3o do modo como ajuizamos a morte autoinfligida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui \u00e9 preciso assinalar que esse problema n\u00e3o surge de modo isolado neste livro. Ele j\u00e1 havia sido trabalhado, em sua formula\u00e7\u00e3o inicial, nos primeiros cap\u00edtulos do primeiro volume de minha <a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/histoaria-do-suicidio\"><em>Hist\u00f3ria do suic\u00eddio<\/em><\/a> (2020), publicado \u00e0 \u00e9poca pela Editora P\u00e1ginas, atualmente Liter\u00edssima. O que ali aparecia ainda como esbo\u00e7o interpretativo ganha, agora aqui, um aprofundamento necess\u00e1rio, embora n\u00e3o alcance, pois essa n\u00e3o \u00e9 a proposta, o mesmo grau de pesquisa com o qual conduzo a quest\u00e3o no trabalho, <em>As confiss\u00f5es de Lucr\u00e9cia<\/em>, inteiramente dedicado ao exame da posi\u00e7\u00e3o de Agostinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, permitam-me expor brevemente, o que encontramos nesse livro que sai agora, depois de um longo per\u00edodo de matura\u00e7\u00e3o. O primeiro ensaio, significativamente intitulado <em>A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio: como a morte volunt\u00e1ria se tornou assassinato de si<\/em>, constitui o n\u00facleo dessa investiga\u00e7\u00e3o. Ali procuro mostrar que a palavra <em>suicidium<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas uma inven\u00e7\u00e3o lexical tardia, mas uma opera\u00e7\u00e3o conceitual decisiva. Ao unir <em>sui<\/em> e <em>caedere<\/em>, ela produz uma equival\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 descritiva, mas normativa: matar-se passa a ser pensado como uma forma especial de <em>homicidium<\/em>, isto \u00e9, passa a ser pensada e tipificada como crime. O movimento fundamental n\u00e3o \u00e9 nomear um ato, mas qualific\u00e1-lo, ajuiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa transforma\u00e7\u00e3o ganha sua forma mais sistem\u00e1tica com Agostinho. Ao examinar o c\u00e9lebre caso de Lucr\u00e9cia, narrado por Tito L\u00edvio, Agostinho realiza uma opera\u00e7\u00e3o interpretativa que, a meu ver, marca um ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria da morte volunt\u00e1ria. Ao recusar a exemplaridade do movimento tr\u00e1gico e nobre de Lucr\u00e9cia, tradicionalmente celebrado como ato de honra, ele desloca o eixo da avalia\u00e7\u00e3o: o que importa n\u00e3o \u00e9 mais a circunst\u00e2ncia externa, mas a inten\u00e7\u00e3o interior. E, nesse deslocamento, a morte volunt\u00e1ria torna-se sempre culp\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa opera\u00e7\u00e3o \u00e9 mais profunda do que parece. Ela n\u00e3o apenas condena um ato ou uma ina\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 morte; ela transforma a estrutura da experi\u00eancia. A interioridade crist\u00e3, ao tornar-se o lugar privilegiado do julgamento, redefine o sujeito como respons\u00e1vel absoluto por sua pr\u00f3pria vida \u2014 e, portanto, por sua morte. \u00c9 nesse sentido que afirmo que o suic\u00eddio \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o: n\u00e3o porque a morte volunt\u00e1ria n\u00e3o existisse antes, mas porque passou a existir sob um regime espec\u00edfico de verdade e de culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o livro n\u00e3o se limita a esse momento inaugural. Ao longo de seus ensaios, procuro mostrar que essa inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o permanece est\u00e1tica, mas se transforma, se desloca, se reconfigura. Um dos movimentos mais importantes \u00e9 aquele que ocorre na modernidade, com a emerg\u00eancia da psiquiatria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No nono ensaio, dedicado \u00e0 quest\u00e3o psiqui\u00e1trica, retorno aos debates dos alienistas franceses do s\u00e9culo XIX, especialmente Philippe Pinel, Jean-\u00c9tienne Dominique Esquirol e Bourdin. \u00c9 ali que o suic\u00eddio passa a ser sistematicamente associado \u00e0 loucura, muitas vezes sob a forma de monomania. Essa no\u00e7\u00e3o, aparentemente superada, revela, contudo, uma surpreendente persist\u00eancia. A pergunta que atravessa esse cap\u00edtulo \u00e9 inc\u00f4moda: quando hoje falamos em \u201ccomportamento suicida\u201d, n\u00e3o estamos, sob nova terminologia, retomando a mesma opera\u00e7\u00e3o? A classifica\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, ao identificar o suic\u00eddio como sintoma, produz um efeito amb\u00edguo. Por um lado, permite interven\u00e7\u00e3o; por outro, neutraliza a dimens\u00e3o existencial do ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente contra essa neutraliza\u00e7\u00e3o que o livro se insurge. N\u00e3o se trata de negar a exist\u00eancia do sofrimento ps\u00edquico, mas de recusar sua redu\u00e7\u00e3o a um \u00fanico modelo de inteligibilidade. Ao transformar o suic\u00eddio em doen\u00e7a, corre-se o risco de eliminar aquilo que ele tem de mais inquietante: sua rela\u00e7\u00e3o com a liberdade, com o sentido, com a decis\u00e3o. Essa tens\u00e3o aparece de forma particularmente clara quando confrontamos o discurso psiqui\u00e1trico com abordagens existenciais, como as de Viktor Frankl e Jean Am\u00e9ry. Em ambos, encontramos a tentativa de restituir ao sujeito uma dimens\u00e3o que escapa \u00e0 cl\u00ednica: a de sua rela\u00e7\u00e3o com o sentido da vida e com a possibilidade de sua interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o primeiro movimento do livro \u00e9, portanto, geneal\u00f3gico: mostrar como o suic\u00eddio foi constru\u00eddo; o segundo \u00e9 cr\u00edtico: mostrar como essa constru\u00e7\u00e3o continua operando, muitas vezes de forma invis\u00edvel, em nossos discursos contempor\u00e2neos. \u00c9 nesse ponto que a discuss\u00e3o se abre para o presente. No d\u00e9cimo ensaio, ao examinar os documentos da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e as campanhas de preven\u00e7\u00e3o, procuro evidenciar uma nova forma de normatividade: aquela que se apresenta sob a linguagem da sa\u00fade p\u00fablica. O suic\u00eddio torna-se, ent\u00e3o, um problema a ser resolvido, uma vari\u00e1vel a ser reduzida, um indicador a ser controlado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que se perde quando se ganha em gest\u00e3o? Essa \u00e9 a pergunta que orienta essa parte do livro, e que permanece, talvez, como uma das mais urgentes de nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, at\u00e9 aqui, o percurso foi marcado por uma investiga\u00e7\u00e3o geneal\u00f3gica e cr\u00edtica, h\u00e1 um momento no livro em que se torna necess\u00e1rio n\u00e3o apenas desmontar, mas tamb\u00e9m reconstruir. Esse movimento aparece de forma mais expl\u00edcita no segundo ensaio, dedicado \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre liberdade e pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o moderna acostumou-se a pensar a liberdade como autonomia, isto \u00e9, como capacidade do sujeito de determinar-se a si mesmo independentemente de qualquer v\u00ednculo. Essa concep\u00e7\u00e3o, profundamente enraizada em nossa linguagem filos\u00f3fica e jur\u00eddica, sustenta boa parte das formula\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas sobre o suic\u00eddio, especialmente aquelas que o situam no interior do chamado \u201cargumento da liberdade\u201d. No entanto, ao retornar \u00e0s fontes antigas, particularmente \u00e0 an\u00e1lise do termo grego <em>eleutheron <\/em>nos poemas hom\u00e9ricos, procuro mostrar que essa identifica\u00e7\u00e3o entre liberdade e autonomia n\u00e3o \u00e9 origin\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio, ela representa uma transforma\u00e7\u00e3o tardia. Em seu sentido mais antigo, liberdade n\u00e3o designa independ\u00eancia, mas pertencimento \u2014 pertencimento a uma ordem, a uma comunidade, a um mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa inflex\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente filol\u00f3gica. Ela tem consequ\u00eancias decisivas para a maneira como pensamos a morte volunt\u00e1ria. Se liberdade significa pertencimento, ent\u00e3o a oposi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica entre \u201cargumento da liberdade\u201d e \u201cargumento da perten\u00e7a\u201d revela-se, em grande medida, mal formulada. N\u00e3o se trata de escolher entre dois polos, mas de compreender que ambos emergem de uma mesma matriz conceitual que, ao longo do tempo, foi sendo cindida. \u00c9 nesse ponto que o recurso \u00e0 trag\u00e9dia grega se torna fundamental. No terceiro ensaio, ao examinar figuras como Ant\u00edgona, Jocasta e \u00c1jax, procuro mostrar que a morte volunt\u00e1ria, no mundo antigo, n\u00e3o pode ser compreendida a partir de categorias modernas. Ela n\u00e3o \u00e9 simplesmente express\u00e3o de autonomia, nem mera submiss\u00e3o a uma ordem externa. Ela se situa em um campo de tens\u00f5es no qual destino, deuses, honra e comunidade se entrela\u00e7am.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte de \u00c1jax, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a uma decis\u00e3o individual no sentido moderno. Ela emerge de um conflito irreconcili\u00e1vel entre reconhecimento e desonra, entre pertencimento e exclus\u00e3o. Da mesma forma, Ant\u00edgona n\u00e3o escolhe simplesmente morrer; ela se inscreve em uma l\u00f3gica que ultrapassa a oposi\u00e7\u00e3o entre lei e consci\u00eancia, revelando a complexidade de um mundo em que a vida e a morte n\u00e3o pertencem inteiramente ao sujeito. Ao trazer essas figuras para o centro da an\u00e1lise, n\u00e3o pretendo apenas reconstruir um passado distante, mas deslocar o presente. O leitor contempor\u00e2neo, habituado a pensar o suic\u00eddio em termos de escolha individual ou de patologia, \u00e9 confrontado com uma experi\u00eancia na qual essas categorias n\u00e3o se aplicam de forma imediata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse deslocamento se aprofunda no exame da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica cl\u00e1ssica, particularmente em Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles. A pergunta \u201cmorreu S\u00f3crates voluntariamente?\u201d n\u00e3o \u00e9, nesse contexto, uma curiosidade hist\u00f3rica, mas um problema filos\u00f3fico. Ela obriga a repensar a rela\u00e7\u00e3o entre liberdade, lei e morte, mostrando que a morte volunt\u00e1ria pode assumir formas que escapam tanto \u00e0 condena\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez o momento mais decisivo desse percurso seja aquele em que o livro se volta para o problema do conceito. No s\u00e9timo ensaio, procuro enfrentar diretamente a quest\u00e3o: o que \u00e9 o suic\u00eddio? Essa pergunta, aparentemente simples, revela-se rapidamente intrat\u00e1vel. As defini\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis oscilam entre crit\u00e9rios extensivos e intensivos, entre tentativas de delimitar o fen\u00f4meno e esfor\u00e7os de explic\u00e1-lo. No entanto, quanto mais se busca precis\u00e3o, mais se evidencia a instabilidade do conceito. \u00c9 nesse ponto que proponho distinguir entre defini\u00e7\u00e3o e conceito. Enquanto a defini\u00e7\u00e3o busca fixar um conjunto de caracter\u00edsticas, o conceito opera como campo de for\u00e7as, reunindo sob uma mesma designa\u00e7\u00e3o pr\u00e1ticas, discursos e julgamentos heterog\u00eaneos. O suic\u00eddio, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 um objeto homog\u00eaneo, mas uma constru\u00e7\u00e3o que articula dimens\u00f5es jur\u00eddicas, morais, m\u00e9dicas e existenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa multiplicidade torna particularmente problem\u00e1tica qualquer tentativa de explica\u00e7\u00e3o totalizante. Perguntar \u201c\u00e9 poss\u00edvel explicar o suic\u00eddio?\u201d significa, no fundo, perguntar se \u00e9 poss\u00edvel reduzir essa complexidade a um \u00fanico princ\u00edpio. Minha resposta, ao longo do ensaio, \u00e9 deliberadamente c\u00e9tica. N\u00e3o se trata de negar a possibilidade de compreens\u00e3o, mas de recusar sua redu\u00e7\u00e3o. Essa recusa encontra resson\u00e2ncia em um dos princ\u00edpios que mobilizo no d\u00e9cimo primeiro ensaio: o <em>princ\u00edpio da identidade dos indiscern\u00edveis<\/em>. Se n\u00e3o h\u00e1 dois sujeitos absolutamente id\u00eanticos, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 duas mortes volunt\u00e1rias absolutamente equivalentes. Cada caso traz consigo uma singularidade que resiste \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse ponto que o livro se aproxima de uma perspectiva existencial. Ao inv\u00e9s de perguntar apenas pelo que \u00e9 o suic\u00eddio, torna-se necess\u00e1rio perguntar pelo que ele significa para aquele que o considera. Essa mudan\u00e7a de foco \u2014 do conceito para a experi\u00eancia \u2014 n\u00e3o elimina a necessidade de an\u00e1lise conceitual, mas a reinscreve em um horizonte mais amplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo desses ensaios, o leitor perceber\u00e1 que a quest\u00e3o da liberdade retorna sob m\u00faltiplas formas. Ela aparece na trag\u00e9dia, na filosofia cl\u00e1ssica, na modernidade e na contemporaneidade. Mas, em cada caso, ela se apresenta de maneira distinta, exigindo uma aten\u00e7\u00e3o constante \u00e0s suas transforma\u00e7\u00f5es. O que procuro mostrar, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 que n\u00e3o podemos pensar o suic\u00eddio sem repensar a liberdade. E que, talvez, repensar a liberdade implique abandonar algumas de nossas evid\u00eancias mais arraigadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse movimento, que vai da genealogia \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o, da cr\u00edtica \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o, prepara o terreno para as discuss\u00f5es finais do livro, nas quais o problema da morte volunt\u00e1ria ser\u00e1 novamente confrontado, agora \u00e0 luz de quest\u00f5es contempor\u00e2neas como a bio\u00e9tica, a psiquiatria e o sentido da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se os ensaios anteriores procuraram reconstruir as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e conceituais do suic\u00eddio, os momentos finais do livro deslocam o problema para um terreno ainda mais inst\u00e1vel: aquele em que a morte volunt\u00e1ria \u00e9 confrontada diretamente com as categorias de valor, sentido e decis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse contexto que o di\u00e1logo com Friedrich Nietzsche se torna incontorn\u00e1vel. No oitavo ensaio, ao examinar a no\u00e7\u00e3o de \u201cmorrer a tempo\u201d, procuro explorar uma das provoca\u00e7\u00f5es mais desconcertantes da filosofia moderna: a ideia de que a morte volunt\u00e1ria pode, em determinadas circunst\u00e2ncias, constituir um movimento racional. Contra a tradi\u00e7\u00e3o que condena o suic\u00eddio como erro ou pecado, Nietzsche introduz a possibilidade de pens\u00e1-lo como afirma\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o da vida em geral, mas de uma certa forma de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser simplificada. N\u00e3o se trata de celebrar a morte volunt\u00e1ria, mas de deslocar o eixo da discuss\u00e3o. Ao opor a morte volunt\u00e1ria \u00e0 morte involunt\u00e1ria, isto \u00e9, \u00e0 morte que nos sobrev\u00e9m sem escolha, Nietzsche reabre uma quest\u00e3o que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e a psiquiatria moderna procuraram encerrar: a rela\u00e7\u00e3o entre liberdade e morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 em jogo, aqui, n\u00e3o \u00e9 uma defesa do suic\u00eddio, mas uma cr\u00edtica \u00e0 naturaliza\u00e7\u00e3o da morte. Se aceitamos sem questionamento a morte que nos \u00e9 imposta pela natureza, por que recusamos de antem\u00e3o aquela que poderia, ao menos em princ\u00edpio, ser objeto de decis\u00e3o? Essa assimetria revela, mais uma vez, que n\u00e3o estamos diante de um problema puramente natural, mas de uma constru\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa tens\u00e3o reaparece, sob outra forma, no campo da bio\u00e9tica. No d\u00e9cimo terceiro ensaio, ao examinar as contribui\u00e7\u00f5es de Fritz Jahr e Hans Jonas, procuro mostrar como a reflex\u00e3o contempor\u00e2nea sobre a vida e a morte permanece atravessada por ambiguidades fundamentais. Jahr, ao propor o chamado \u201cimperativo bio\u00e9tico\u201d, amplia o campo da \u00e9tica para al\u00e9m do humano, incluindo todas as formas de vida. Jonas, por sua vez, ao desenvolver uma \u00e9tica da responsabilidade, enfatiza a necessidade de preservar a vida diante das amea\u00e7as da t\u00e9cnica. Ambos contribuem decisivamente para a forma\u00e7\u00e3o da bio\u00e9tica contempor\u00e2nea, mas tamb\u00e9m revelam seus limites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que procuro levantar \u00e9 a seguinte: at\u00e9 que ponto a bio\u00e9tica, ao enfatizar a preserva\u00e7\u00e3o da vida, n\u00e3o reproduz \u2014 sob novas formas \u2014 a mesma l\u00f3gica que, historicamente, condenou a morte volunt\u00e1ria? Ao transformar a vida em valor supremo, n\u00e3o se corre o risco de eliminar a possibilidade de interrog\u00e1-la? Essa problem\u00e1tica torna-se particularmente aguda quando consideramos a quest\u00e3o da eutan\u00e1sia. Ao discutir a ideia de autonomia no interior da bio\u00e9tica, procuro mostrar que o apelo \u00e0 autonomia muitas vezes mascara uma compreens\u00e3o empobrecida da liberdade. Retoma-se, assim, a oposi\u00e7\u00e3o entre autonomia e pertencimento, sem que se questione o pr\u00f3prio conceito de vida que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez o ponto mais cr\u00edtico desses ensaios finais seja a rela\u00e7\u00e3o entre suic\u00eddio, t\u00e9cnica e contemporaneidade. Vivemos em um tempo em que a vida \u00e9 cada vez mais objeto de gest\u00e3o: monitorada, quantificada, prolongada. Nesse contexto, a morte volunt\u00e1ria aparece como um esc\u00e2ndalo \u2014 n\u00e3o apenas moral, mas t\u00e9cnico. Ela escapa aos dispositivos de controle, resiste \u00e0 previs\u00e3o, desafia a administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio que a cr\u00edtica \u00e0s pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o se torna mais incisiva. Ao examinar as estrat\u00e9gias contempor\u00e2neas de enfrentamento do suic\u00eddio, procuro mostrar que muitas delas operam a partir de uma redu\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno a um problema t\u00e9cnico. Fala-se em preven\u00e7\u00e3o, em interven\u00e7\u00e3o, em tratamento \u2014 termos que, embora necess\u00e1rios em certos contextos, tendem a obscurecer a dimens\u00e3o propriamente filos\u00f3fica da quest\u00e3o. A ideia de que o suic\u00eddio deve ser prevenido a todo custo pressup\u00f5e que ele \u00e9 sempre um erro, um desvio, uma falha. Mas essa pressuposi\u00e7\u00e3o, raramente explicitada, \u00e9 precisamente aquilo que o livro procura problematizar. N\u00e3o se trata de negar a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas, mas de questionar os pressupostos que as orientam. Essa cr\u00edtica n\u00e3o conduz, contudo, a um relativismo indiferente. Ao contr\u00e1rio, ela exige uma aten\u00e7\u00e3o ainda maior \u00e0 singularidade das experi\u00eancias. \u00c9 nesse ponto que o livro se aproxima, em seu momento final, de uma perspectiva existencial mais expl\u00edcita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O posf\u00e1cio, estruturado como uma carta sobre William James, funciona como uma esp\u00e9cie de deslocamento tonal. Ap\u00f3s o percurso hist\u00f3rico e conceitual dos ensaios, ele introduz uma dimens\u00e3o mais direta, mais pr\u00f3xima da experi\u00eancia vivida. James, com sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0s variedades da experi\u00eancia religiosa e ao problema do sentido, oferece um contraponto \u00e0 rigidez dos discursos normativos. Ao dialogar com ele, procuro explorar uma quest\u00e3o que atravessa silenciosamente todo o livro: o que faz com que uma vida seja vivida&#8230; ou deixada de ser? Essa pergunta n\u00e3o admite respostas gerais. Ela remete a uma dimens\u00e3o na qual conceito e experi\u00eancia se encontram, sem jamais coincidir plenamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 talvez nesse ponto que o livro encontra seu limite&#8230; e sua for\u00e7a. Ao recusar tanto a condena\u00e7\u00e3o moral quanto a explica\u00e7\u00e3o totalizante, ele se mant\u00e9m em um terreno inst\u00e1vel, no qual cada afirma\u00e7\u00e3o exige ser constantemente reexaminada. Se h\u00e1, portanto, uma conclus\u00e3o poss\u00edvel, ela n\u00e3o assume a forma de uma tese, mas de uma atitude: a disposi\u00e7\u00e3o de sustentar o problema sem reduzi-lo. Em um tempo que exige respostas r\u00e1pidas, essa suspens\u00e3o pode parecer insuficiente. Mas \u00e9 talvez ela que abre a possibilidade de um pensamento mais rigoroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mesma disposi\u00e7\u00e3o orienta a forma de circula\u00e7\u00e3o do livro. Ele encontra-se integralmente dispon\u00edvel em acesso aberto (<em>Open Access<\/em>), por meio da Editora UFABC. Essa escolha n\u00e3o responde a uma estrat\u00e9gia de difus\u00e3o, mas a uma posi\u00e7\u00e3o: um trabalho dessa natureza n\u00e3o deve ser orientado pelo lucro. Ao contr\u00e1rio, ele deve circular livremente, permitindo que qualquer leitor possa acessar, questionar e eventualmente contestar suas proposi\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, reconhe\u00e7o que a materialidade do livro continua a desempenhar um papel importante na experi\u00eancia da leitura. Por essa raz\u00e3o, uma edi\u00e7\u00e3o impressa estar\u00e1 dispon\u00edvel em breve, e ser\u00e1 lan\u00e7ada na ANPOF, em novembro, em Florian\u00f3polis. Para viabilizar essa edi\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es mais acess\u00edveis, optei por n\u00e3o receber participa\u00e7\u00e3o em royalties, conforme estabelecido em contrato com a Editora. Em um livro de 508 p\u00e1ginas, cuja produ\u00e7\u00e3o envolve custos significativos, essa decis\u00e3o permite ao menos uma redu\u00e7\u00e3o sens\u00edvel no pre\u00e7o final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, aqui, uma tentativa de coer\u00eancia entre forma e conte\u00fado. Um livro que problematiza a captura da vida por dispositivos normativos n\u00e3o poderia, sem contradi\u00e7\u00e3o, submeter-se integralmente \u00e0 l\u00f3gica do mercado. Torn\u00e1-lo acess\u00edvel \u00e9, portanto, parte integrante de seu projeto. Se este trabalho pretende, de algum modo, intervir no debate contempor\u00e2neo, certamente e conscientemente essa pretens\u00e3o se localiza na possibilidade de abrir um campo de quest\u00f5es. O suic\u00eddio, tal como o conhecemos, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Reconhecer isso n\u00e3o resolve o problema, mas talvez nos permita, finalmente, come\u00e7ar a pens\u00e1-lo fora de determinadas categorias que podem, afinal, ser criticadas, deslocadas, reconstru\u00eddas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o livro A inven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, publicado pela Editora UFABC, que traz uma genealogia da morte volunt\u00e1ria, uma cr\u00edtica da psiquiatria e reconfigura\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do problema do suic\u00eddio. 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