{"id":537,"date":"2025-11-17T13:41:43","date_gmt":"2025-11-17T16:41:43","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=537"},"modified":"2025-11-17T13:41:43","modified_gmt":"2025-11-17T16:41:43","slug":"o-direito-a-uma-morte-digna-noticias-da-carta-de-paul-lafargue-algumas-questoes-para-pensarmos-juntos-e-a-lucidez-de-flavio-migliaccio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2025\/11\/17\/o-direito-a-uma-morte-digna-noticias-da-carta-de-paul-lafargue-algumas-questoes-para-pensarmos-juntos-e-a-lucidez-de-flavio-migliaccio\/","title":{"rendered":"O Direito a uma Morte Digna, Not\u00edcias da carta de Paul Lafargue, Algumas quest\u00f5es para pensarmos juntos e a Lucidez de Fl\u00e1vio Migliaccio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"463\" data-end=\"951\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-539\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/carta-do-flavio-m.jpeg?resize=616%2C821&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"616\" height=\"821\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/carta-do-flavio-m.jpeg?w=960&amp;ssl=1 960w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/carta-do-flavio-m.jpeg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/carta-do-flavio-m.jpeg?resize=816%2C1088&amp;ssl=1 816w\" sizes=\"auto, (max-width: 616px) 100vw, 616px\" \/><\/p>\n<pre data-start=\"463\" data-end=\"951\">(Bilhete de despedida de Fl\u00e1vio Migliaccio, divulgado pela imprensa (NaTelinha \/ UOL) em maio de 2020, uso documental, conforme artigo 46 da Lei de Direitos Autorais.)<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"463\" data-end=\"951\">A discuss\u00e3o sobre o direito a uma morte digna, no Brasil, permanece trancafiada numa esp\u00e9cie de tabu moral, desses que preferimos empurrar para debaixo do tapete coletivo, impedindo-nos de encarar, com m\u00ednima lucidez e alguma coragem, o sofrimento real de milhares de pessoas, sobretudo das mais idosas. Quando falamos em morte digna n\u00e3o estamos falando do suic\u00eddio comum: trata-se do direito elementar de n\u00e3o ser condenado a permanecer vivo contra a pr\u00f3pria vontade, quando a vida j\u00e1 n\u00e3o guarda dignidade, autonomia, desejo ou sequer a promessa de algum sentido. \u00c9 quase uma fic\u00e7\u00e3o de mau gosto esse falso princ\u00edpio segundo o qual toda vida, por ser vida, deve ser mantida a qualquer custo. E, n\u00e3o raro, esse custo \u00e9 alto demais&#8230; e sempre debitado na conta do outro, a quem se nega at\u00e9 mesmo o direito de dizer o que sente. Mas a dignidade, esse nome grave da condi\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o se mede pelo simples prolongamento de um organismo que respira. A pr\u00f3pria ideia de dignidade na morte exige da sociedade, dos cidad\u00e3os, dos intelectuais, dos professores, dos profissionais de sa\u00fade, dos pol\u00edticos, enfim, exige de todos, ao menos, o debate p\u00fablico e a necessidade de pensarmos juntos o que estamos fazendo quando n\u00e3o estamos fazendo nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velhice no Brasil, nesse pa\u00eds que ainda n\u00e3o ousa discutir o direito a uma morte digna, deixou de ser uma esta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito para tornar-se, pela aus\u00eancia de debate e pela proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade da despedida, um simples intervalo de sobreviv\u00eancia, um tempo suspenso em que j\u00e1 n\u00e3o se pode, por escolha, viver a pr\u00f3pria morte. Cuida-se do corpo como quem cuida de um mecanismo que n\u00e3o pode parar; abandonam-se, por\u00e9m, os territ\u00f3rios mais delicados: o sofrimento ps\u00edquico, a solid\u00e3o estrutural, a perda da autonomia, o desejo silencioso de descanso. \u00c9 precisamente nesse abandono que muitos idosos descobrem o limite entre viver e doar-se a si mesmos uma morte que consideram justa. E quando o Estado lhes nega qualquer forma de assist\u00eancia legal, resta-lhes apenas a via tr\u00e1gica: ou viver contra a pr\u00f3pria vontade, ou morrer por meios violentos, angustiantes, solit\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2012\" data-end=\"2340\">Como um or\u00e1culo que n\u00e3o explica, mas adverte, os n\u00fameros falam. O gr\u00e1fico a seguir, referente ao Rio Grande do Sul em 2024, foi divulgado em Setembro de 2025 no <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/BOLETIM-EPIDEMIOLOGICO-RS-1.pdf\">BOLETIM EPIDEMIOL\u00d3GICO RS<\/a>, e mostra o que n\u00e3o ousamos admitir em voz alta: o suic\u00eddio crescente e presente entre os mais velhos, sobretudo entre os homens. A curva, para al\u00e9m da estat\u00edstica, exige a n\u00e3o indiferen\u00e7a:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-542\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/taxa-de-idosos-1.png?resize=616%2C390&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"616\" height=\"390\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fonte: Sinan \u2013 Secretaria da Sa\u00fade do RS.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2494\" data-end=\"2558\">\u00c9 imposs\u00edvel contemplar esses n\u00fameros sem ouvir, por tr\u00e1s deles, uma dor que ultrapassa o que a moral dominante consegue decifrar. Ap\u00f3s os 60 anos, a taxa masculina cresce como se subitamente deixasse de encontrar raz\u00f5es para permanecer: ultrapassa 30 casos a cada 100 mil habitantes, por ano, entre 60\u201369 anos (a m\u00e9dia geral no Brasil \u00e9 7,5); passa de 40 entre 70\u201379; e beira 50 entre aqueles cujo tempo j\u00e1 chegou \u00e0 sua esta\u00e7\u00e3o final. Essas mortes n\u00e3o s\u00e3o frutos do acaso, \u00e9 esse ponto que precisamos enquanto sociedade discutir: s\u00e3o, muitas vezes, escolhas silenciosas feitas por quem j\u00e1 n\u00e3o encontra acolhimento, por quem n\u00e3o se reconhece no que restou de si, por quem j\u00e1 n\u00e3o consegue mais habitar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3110\" data-end=\"3635\">Enquanto isso, em pa\u00edses que tratam o fim da vida com seriedade \u00e9tica, como a Su\u00ed\u00e7a, para citar o exemplo mais amplamente conhecido, existem protocolos rigorosos que permitem assist\u00eancia ao morrer: autonomia da vontade, sofrimento intoler\u00e1vel, discernimento preservado, aus\u00eancia de coa\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o por equipes multidisciplinares. Cl\u00ednicas como a Dignitas (que possibilitam o suic\u00eddio assistido) n\u00e3o \u201cestimulam\u201d a morte; oferecem, isso sim, um espa\u00e7o humano para que ela aconte\u00e7a de modo l\u00facido, sereno e acompanhado, quando a pessoa assim o deseja e quando sua condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 se encontra para al\u00e9m do suport\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3637\" data-end=\"4026\">No Brasil, contudo, nada disso existe. A proibi\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia volunt\u00e1ria e do suic\u00eddio assistido obriga indiv\u00edduos em sofrimento extremo, ou aqueles que j\u00e1 decidiram lucidamente o tempo de sua morte, a dois caminhos igualmente cru\u00e9is: continuar vivendo uma vida que j\u00e1 n\u00e3o lhes pertence ou lan\u00e7ar-se a mortes violentas, clandestinas e desesperadas. O Estado, nesse ponto, exerce uma fun\u00e7\u00e3o paradoxal e brutal: protege a vida org\u00e2nica enquanto abandona, sem pudor, a vida espiritual, emocional e relacional. \u00c9 como se bastasse um corpo que respira para decretar que tudo est\u00e1 em ordem, ainda que o sujeito por tr\u00e1s desse corpo j\u00e1 n\u00e3o encontre qualquer lugar no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"819\" data-end=\"1486\">Nesse deserto moral, gostar\u00edamos de recordar a carta de Paul Lafargue como testemunho de que existem decis\u00f5es amadurecidas, l\u00facidas e justificadas, decis\u00f5es que n\u00e3o nascem do desespero, mas da consci\u00eancia plena da pr\u00f3pria finitude. Aqui se revelam as rela\u00e7\u00f5es entre o suic\u00eddio assistido e o suic\u00eddio comum: quando n\u00e3o h\u00e1 assist\u00eancia legal para morrer, toda a responsabilidade pelo gesto retorna \u00e0s m\u00e3os da criatura, que se v\u00ea obrigada a transformar uma morte escolhida em um suic\u00eddio comum. Em vez de um suic\u00eddio assistido, digno, acompanhado e consciente, produz-se sua sombra mais triste, a morte solit\u00e1ria, improvisada, sujeita ao fracasso, \u00e0 viol\u00eancia e ao sofrimento derradeiro que poderia ter sido evitado. Ao inv\u00e9s dessa morte triste, para lembrar mais uma vez Nietzsche, tal como j\u00e1 discutimos no Lysis, a morte poderia ser uma festa, um momento solene de \u00faltima reuni\u00e3o entre amigos e familiares, uma despedida digna e preparada, uma festa importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VEJAMOS O CASO DE PAUL LAFARGUE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paul Lafargue (1842\u20131911) foi um pensador marxista franco-cubano, jornalista, ativista socialista e escritor. <span data-state=\"closed\">Ele foi uma figura central no movimento oper\u00e1rio franc\u00eas, cofundador do Partido Oper\u00e1rio Franc\u00eas e tradutor das obras de Karl Marx para o franc\u00eas. Sua produ\u00e7\u00e3o intelectual \u00e9 vasta: entre seus escritos mais famosos est\u00e1 <em data-start=\"752\" data-end=\"775\">Le droit \u00e0 la paresse<\/em> (O Direito \u00e0 Pregui\u00e7a), que critica a adora\u00e7\u00e3o do trabalho sob o capitalismo. \u00a0Lafargue era genro de Karl Marx: casou-se com Laura Marx, filha de Marx, em 1868. Laura era sua companheira de milit\u00e2ncia: ela traduziu textos, participou da agita\u00e7\u00e3o socialista e viveu ao lado dele os altos e baixos da causa revolucion\u00e1ria. Nos \u00faltimos anos de vida, Lafargue se afastou progressivamente da milit\u00e2ncia ativa. Morava com Laura na pequena cidade de Draveil, nos arredores de Paris. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"1849\" data-end=\"2329\">Em 26 de novembro de 1911, aos 69 anos, com a mente l\u00facida e o corpo ainda vigoroso, ele e Laura decidiram morrer juntos, antes que a velhice lhes roubasse aquilo que mais prezavam: a liberdade de esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"4342\" data-end=\"4624\">Lafargue, em suas palavras finais, buscava preservar a dignidade contra a dissolu\u00e7\u00e3o que antevia. Sua decis\u00e3o repercutiu na Europa como uma provoca\u00e7\u00e3o e um esc\u00e2ndalo, mas tamb\u00e9m como um manifesto silencioso sobre a soberania da vontade quando a vida j\u00e1 n\u00e3o se reconhece a si mesma. Jornais franceses e alem\u00e3es noticiaram a morte do casal com surpresa e respeito; muitos socialistas lamentaram profundamente a perda, mas reconheceram a coer\u00eancia filos\u00f3fica e existencial de sua escolha. N\u00e3o houve sensacionalismo, ao menos nos principais jornais que conseguimos examinar, isso \u00e9 not\u00e1vel: houve espanto e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"4878\" data-end=\"5050\">A seguir, o bilhete deixado por Paul Lafargue, um documento hist\u00f3rico em dom\u00ednio p\u00fablico, exatamente como foi encontrado ao lado de seu corpo, em 26 de novembro de 1911:<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify;\"><em>\u00ab Sain de corps et d\u2019esprit, je me tue avant que l\u2019impitoyable vieillesse qui m\u2019enl\u00e8ve un \u00e0 un les plaisirs et les joies de l\u2019existence et qui me d\u00e9pouille de mes forces physiques et intellectuelles, ne paralyse mon \u00e9nergie, ne brise ma volont\u00e9 et ne fasse de moi une charge \u00e0 moi et aux autres. Depuis des ann\u00e9es, je me suis promis de ne pas d\u00e9passer les 70 ann\u00e9es, j\u2019ai fix\u00e9 l\u2019\u00e9poque de l\u2019ann\u00e9e pour mon d\u00e9part de la vie, et j\u2019ai pr\u00e9par\u00e9 le mode d\u2019ex\u00e9cution pour ma r\u00e9solution, une injection hypodermique d\u2019acide cyanhydrique.<\/em>\r\n\r\n<em>Je meurs avec la joie supr\u00eame d\u2019avoir la certitude que, dans un avenir prochain, la cause pour laquelle je me suis d\u00e9vou\u00e9 depuis 45 ans triomphera.<\/em>\r\n\r\n<em>Vive le communisme, vive le socialisme international. \u00bb<\/em>\r\n\r\n(<a href=\"https:\/\/www.bibliomarxiste.net\/auteurs\/lenine\/discours-aux-obseques-de-p-et-l-lafargue\/\">https:\/\/www.bibliomarxiste.net\/auteurs\/lenine\/discours-aux-obseques-de-p-et-l-lafargue\/<\/a> Acesso em 17 de nov. de 2025.)<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em portugu\u00eas:<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify;\"><em>S\u00e3os de corpo e mente, estou me matando diante da velhice impiedosa que est\u00e1 me roubando, um a um, os prazeres e alegrias da exist\u00eancia e me despojando de minha for\u00e7a f\u00edsica e intelectual, paralisando minha energia, quebrando minha vontade e me tornando um fardo para mim mesmo e para os outros. Por anos, prometi a mim mesmo n\u00e3o viver al\u00e9m dos 70 anos, marquei a \u00e9poca do ano para minha partida desta vida e preparei o m\u00e9todo de execu\u00e7\u00e3o da minha resolu\u00e7\u00e3o: uma inje\u00e7\u00e3o hipod\u00e9rmica de \u00e1cido cian\u00eddrico.\u201d<\/em>\r\n\r\n<em>Morro com a suprema alegria de saber que, em breve, a causa \u00e0 qual me dediquei por 45 anos triunfar\u00e1.<\/em>\r\n\r\n<em>Viva o comunismo, viva o socialismo internacional! <\/em><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o de Paul Lafargue \u00e9 profundamente filos\u00f3fica. Ele n\u00e3o se entrega ao desespero; escolhe o momento de partir com lucidez, coer\u00eancia e convic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em certo sentido, realiza o ideal nietzschiano de \u201camar o pr\u00f3prio destino\u201d: ele v\u00ea o fim como parte de uma narrativa completa, n\u00e3o como falha de vontade ou degrada\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel, mas como desfecho consciente de uma vida comprometida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3983\" data-end=\"4523\">Esse tipo de morte lan\u00e7a uma provoca\u00e7\u00e3o \u00e9tica poderosa para discutirmos hoje: se algu\u00e9m, em lament\u00e1vel ju\u00edzo, conclui que seu tempo se esgota, n\u00e3o apenas fisicamente, mas espiritualmente, e deseja partir com consci\u00eancia e dignidade, por que n\u00e3o permitir que isso ocorra sob condi\u00e7\u00f5es reguladas? A morte de Lafargue e Laura est\u00e1 muito longe de uma apologia do suic\u00eddio, mas pode ser vista como um chamado \u00e0 responsabilidade social e pol\u00edtica: para que possamos reconhecer que a autonomia sobre a pr\u00f3pria vida deve incluir, em certas circunst\u00e2ncias, a autonomia sobre a pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<article class=\"text-token-text-primary w-full focus:outline-none [--shadow-height:45px] has-data-writing-block:pointer-events-none has-data-writing-block:-mt-(--shadow-height) has-data-writing-block:pt-(--shadow-height) [&amp;:has([data-writing-block])&gt;*]:pointer-events-auto [content-visibility:auto] supports-[content-visibility:auto]:[contain-intrinsic-size:auto_100lvh] scroll-mt-[calc(var(--header-height)+min(200px,max(70px,20svh)))]\" dir=\"auto\" tabindex=\"-1\" data-turn-id=\"request-WEB:06e421f0-5611-4250-83dd-4623e5c2866e-24\" data-testid=\"conversation-turn-48\" data-scroll-anchor=\"true\" data-turn=\"assistant\">\n<div class=\"text-base my-auto mx-auto pb-10 [--thread-content-margin:--spacing(4)] thread-sm:[--thread-content-margin:--spacing(6)] thread-lg:[--thread-content-margin:--spacing(16)] px-(--thread-content-margin)\">\n<div class=\"[--thread-content-max-width:40rem] thread-lg:[--thread-content-max-width:48rem] mx-auto max-w-(--thread-content-max-width) flex-1 group\/turn-messages focus-visible:outline-hidden relative flex w-full min-w-0 flex-col agent-turn\" tabindex=\"-1\">\n<div class=\"flex max-w-full flex-col grow\">\n<div class=\"min-h-8 text-message relative flex w-full flex-col items-end gap-2 text-start break-words whitespace-normal [.text-message+&amp;]:mt-1\" dir=\"auto\" data-message-author-role=\"assistant\" data-message-id=\"a9a91df8-5c7b-497c-aa9a-9efee3d26299\" data-message-model-slug=\"gpt-5-1\">\n<div class=\"flex w-full flex-col gap-1 empty:hidden first:pt-[1px]\">\n<div class=\"markdown prose dark:prose-invert w-full break-words light markdown-new-styling\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"73\" data-end=\"727\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">O LYSIS, ao evocar a carta e a trajet\u00f3ria de Lafargue, n\u00e3o celebra a morte. Exatamente o contr\u00e1rio: todo o nosso esfor\u00e7o \u00e9, desde o in\u00edcio, um chamado \u00e0 vida. Mas \u00e0 vida inteira, e n\u00e3o \u00e0 sua caricatura biol\u00f3gica. Respeitamos e procuramos compreender a coragem filos\u00f3fica de quem morre convicto, por raz\u00f5es maduras e justificadas, de quem assume a pr\u00f3pria finitude como o \u00faltimo gesto de liberdade. H\u00e1 mortes que pertencem \u00e0 vida tanto quanto os nascimentos. E uma morte preparada, consciente, sem surpresa e sem viol\u00eancia, pode ser t\u00e3o humana quanto a morte que nos toma de assalto. Em ambos os casos h\u00e1 vida; o que muda \u00e9 a dignidade com que se atravessa o limiar.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"z-0 flex min-h-[46px] justify-start\"><span style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse tipo de coragem que nos convoca a uma resposta \u00e9tica madura e a uma reflex\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 altura do problema. Se deixarmos que essa provoca\u00e7\u00e3o seja silenciada, permaneceremos acorrentados \u00e0 velha cren\u00e7a de que a morte deve ser sempre resistida, independentemente do sofrimento, da lucidez ou do sentido que resta no final da vida. N\u00e3o parece minimamente razo\u00e1vel negar ao titular da vida o direito de dizer o que pensa e o que deseja acerca de sua pr\u00f3pria morte, sobretudo quando, j\u00e1 na velhice ou diante do pr\u00f3prio abismo, ele manifesta a vontade clara e refletida de escolher sua hora, de escolher o seu pr\u00f3prio tempo, o tempo que lhe \u00e9 <\/span><em style=\"text-align: justify;\">pr\u00f3prio<\/em><span style=\"text-align: justify;\">.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convocamos, assim, toda a nossa comunidade, a pensar algumas quest\u00f5es:<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify;\">1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que distingue uma <em data-start=\"1314\" data-end=\"1331\">morte escolhida<\/em> de uma <em data-start=\"1339\" data-end=\"1358\">morte desesperada<\/em>? \u00a0\r\n\r\n2.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que significa \u201cdireito \u00e0 pr\u00f3pria morte\u201d? H\u00e1 limites para essa autonomia? At\u00e9 onde vai a liberdade individual diante da pr\u00f3pria finitude? H\u00e1 diferen\u00e7a entre autonomia como princ\u00edpio e autonomia como pr\u00e1tica real, atravessada por sofrimento, contexto social e abandono?\r\n\r\n3.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por que nossa sociedade insiste em tratar toda decis\u00e3o de morrer como sintoma patol\u00f3gico?\r\n\r\n4.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Brasil pro\u00edbe eutan\u00e1sia e suic\u00eddio assistido: o que isso revela sobre nossa concep\u00e7\u00e3o de corpo, alma e soberania pessoal? A quem pertence a morte? Qual \u00e9 o papel do Estado e das institui\u00e7\u00f5es religiosas na determina\u00e7\u00e3o de continuar vivendo?\r\n\r\n5.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quais dilemas morais emergem quando algu\u00e9m deseja morrer sem sofrimento, lucidamente?\r\n\r\n6.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como lidar com pessoas que vivem um sofrimento refrat\u00e1rio, sem al\u00edvio poss\u00edvel?\r\n\r\n7.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 mais \u00e9tico obrigar algu\u00e9m a viver contra sua vontade, quando apresenta raz\u00f5es e justificativas insuper\u00e1veis, ou permitir uma morte pacificada, digna, acolhida? Se n\u00e3o permitimos a morte assistida, quando h\u00e1 raz\u00f5es irrefut\u00e1veis, somos imorais e inumanos?\r\n\r\n8.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Por que o sofrimento na velhice ainda \u00e9 interpretado apenas como um problema m\u00e9dico, e n\u00e3o como quest\u00e3o de sentido, dignidade e liberdade? A velhice \u00e9 tratada como sobreviv\u00eancia, n\u00e3o como vida? Que papel o etarismo desempenha na nega\u00e7\u00e3o da morte digna?\r\n\r\n9.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A eutan\u00e1sia volunt\u00e1ria pode ser compreendida como um exerc\u00edcio extremo de liberdade? Em que sentido a decis\u00e3o de morrer pode ser comparada a outras decis\u00f5es existenciais profundas? O que significa, no horizonte filos\u00f3fico, <em data-start=\"2499\" data-end=\"2526\">\u201cescolher a pr\u00f3pria hora\u201d<\/em>?\r\n\r\n10.\u00a0 \u00a0Como pensar a diferen\u00e7a entre deixar morrer (ortotan\u00e1sia) e ajudar a morrer (morte assistida)? Que distin\u00e7\u00f5es \u00e9ticas precisam ser recuperadas?\r\n\r\n11.\u00a0 A morte assistida \u00e9 uma amea\u00e7a aos vulner\u00e1veis, ou uma salvaguarda contra sofrimentos desnecess\u00e1rios? \u00c9 poss\u00edvel construir um modelo \u00e9tico e jur\u00eddico que proteja tanto a autonomia quanto os vulner\u00e1veis?\r\n\r\n12.\u00a0 Seria aceit\u00e1vel, no Brasil, um modelo de morte assistida fora do SUS? Isso n\u00e3o criaria um privil\u00e9gio de classes economicamente mais ricas?\r\n\r\n13.\u00a0 O que as tradi\u00e7\u00f5es religiosas realmente dizem sobre o fim da vida? Existe uma interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o punitiva da morte volunt\u00e1ria no cristianismo? O que, nas proibi\u00e7\u00f5es morais sobre o fim da vida, \u00e9 realmente princ\u00edpio religioso, e o que \u00e9 apenas heran\u00e7a hist\u00f3rica que repetimos sem perceber?\r\n\r\n14.\u00a0 Quais elementos filos\u00f3ficos, jur\u00eddicos e cl\u00ednicos devem entrar na conversa? Quais outros elementos? Como articular sa\u00fade mental, sofrimento existencial e autonomia sem simplifica\u00e7\u00e3o?<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Responder a essas quest\u00f5es, levantadas pelo Lysis, \u00e9 uma tarefa coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final do texto dessa semana, e antes de encerrarmos esta convoca\u00e7\u00e3o ao debate, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ouvir sobre tudo o que aqui discutimos, como uma terr\u00edvel m\u00fasica de fundo, bela e tr\u00e1gica, a voz solit\u00e1ria de Fl\u00e1vio Migliaccio, ator brasileiro, que em 2020, j\u00e1 na velhice, escreveu seu \u00faltimo bilhete, lido hoje quase como diagn\u00f3stico e epit\u00e1fio da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cMe desculpem, mas n\u00e3o deu mais. A velhice neste pa\u00eds \u00e9 o caos, como tudo aqui. A humanidade n\u00e3o deu certo. Eu tive a impress\u00e3o que foram 85 anos jogados fora... num pa\u00eds como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crian\u00e7as.\u201d<\/em><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pa\u00eds que for\u00e7a seus velhos a esse tipo de despedida \u00e9 o mesmo que pro\u00edbe qualquer discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre a dignidade do morrer. A carta de Migliaccio \u00e9 o testemunho l\u00facido de algu\u00e9m que viu a velhice brasileira de dentro, que sentiu na carne o abandono, a falta de sentido, o colapso das pol\u00edticas p\u00fablicas e o sil\u00eancio covarde de uma sociedade que se recusa a olhar para seus pr\u00f3prios mortos e moribundos. Como Lafargue, \u00e0 sua maneira e no seu tempo, Migliaccio clamava por lucidez. Dizia o que ningu\u00e9m deseja ouvir: que o sofrimento moral, espiritual e existencial pode ser t\u00e3o insuport\u00e1vel quanto o sofrimento f\u00edsico, e que a velhice, quando n\u00e3o encontra dignidade, pode converter-se em um ex\u00edlio dentro da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a carta de Lafargue foi escrita como manifesto pol\u00edtico, a de Migliaccio \u00e9 um grito social. Uma revela a liberdade l\u00facida de quem escolhe; a outra denuncia a injusti\u00e7a de quem n\u00e3o p\u00f4de escolher. Entre elas, h\u00e1 um mesmo chamado \u00e9tico: precisamos falar do direito a uma morte digna no Brasil. Precisamos olhar para o sofrimento de quem vive al\u00e9m do que deseja viver, n\u00e3o por escolha, mas por falta de alternativas. Precisamos romper o tabu que nos condena \u00e0 hipocrisia, que nos faz temer a morte mais do que tememos a falta de humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Migliaccio pediu apenas que cuid\u00e1ssemos das crian\u00e7as. Mas, sem ser expl\u00edcito e mais radicalmente, tamb\u00e9m pediu que cuid\u00e1ssemos dos velhos, inclusive daqueles que, na solid\u00e3o de suas \u00faltimas horas, s\u00f3 desejavam um modo digno de partir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo respeito aos que n\u00e3o encontraram amparo na hora de morrer, quando, diante de suas pr\u00f3prias raz\u00f5es, j\u00e1 n\u00e3o vislumbravam nenhuma raz\u00e3o para permanecer entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Alexandre H. Reis<\/p>\n<p>(Professor e aluno).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Bilhete de despedida de Fl\u00e1vio Migliaccio, divulgado pela imprensa (NaTelinha \/ UOL) em maio de 2020, uso documental, conforme artigo 46 da Lei de Direitos Autorais.) 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