{"id":530,"date":"2025-11-03T16:14:13","date_gmt":"2025-11-03T19:14:13","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=530"},"modified":"2025-11-03T16:14:13","modified_gmt":"2025-11-03T19:14:13","slug":"dois-suicidios-ensaio-de-dostoievski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2025\/11\/03\/dois-suicidios-ensaio-de-dostoievski\/","title":{"rendered":"&#8220;Dois Suic\u00eddios&#8221;, por Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski"},"content":{"rendered":"<p><em><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-532\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/11\/dost.png?resize=560%2C860&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"860\" \/><\/em><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Alexandre H. Reis<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Recentemente, aconteceu de eu discutir com um de nossos escritores (um grande artista) o car\u00e1ter c\u00f4mico da vida e a dificuldade de definir um fen\u00f4meno pela palavra adequada.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> Antes disso, eu havia comentado que, embora conhe\u00e7a <em>A desgra\u00e7a de ter esp\u00edrito<\/em> h\u00e1 quase quarenta anos,<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a> s\u00f3 neste ano compreendi de fato uma das personagens mais v\u00edvidas da com\u00e9dia, justamente Molchalin \u2014 depois que o escritor com quem conversava me explicou Molchalin ao represent\u00e1-lo, inesperadamente, em uma de suas s\u00e1tiras. (Algum dia vou me deter sobre Molchalin. \u00c9 um grande tema.)<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>\u2014 \u201cSabe\u201d, disse-me de repente meu interlocutor, que aparentemente h\u00e1 muito se deixara impressionar por essa ideia, \u201csabe que, por mais que se escreva ou represente, por mais que se tente descrever num trabalho liter\u00e1rio, jamais se iguala \u00e0 realidade? N\u00e3o importa o que voc\u00ea delineie, ser\u00e1 sempre mais fraco que a vida real. Voc\u00ea pode pensar que, numa obra, alcan\u00e7ou o m\u00e1ximo de comicidade em algum fen\u00f4meno da vida, que captou seu aspecto mais grotesco \u2014 nada disso! A realidade logo se revelar\u00e1 em uma forma ainda mais absurda, numa dimens\u00e3o que voc\u00ea jamais suspeitara e que supera tudo o que sua observa\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o puderam criar&#8230;\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a><\/p>\n<p>Isso eu j\u00e1 sabia desde 1846,<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a> quando comecei a escrever \u2014 talvez at\u00e9 antes. Sempre me impressionou esse fato, e a aparente impot\u00eancia da arte fazia-me questionar sua utilidade. De fato, basta observar um acontecimento da vida real \u2014 mesmo um que, \u00e0 primeira vista, n\u00e3o pare\u00e7a expressivo \u2014 e, se voc\u00ea tiver olhos para ver, perceber\u00e1 nele uma profundidade que nem Shakespeare alcan\u00e7ou. Mas a quest\u00e3o \u00e9: comparado com a vis\u00e3o de quem? E quem \u00e9 capaz disso? Pois n\u00e3o apenas criar e escrever obras de arte, mas at\u00e9 discernir um fato requer algo do artista. Para alguns observadores, todos os fen\u00f4menos da vida se desenvolvem com uma simplicidade comovente e t\u00e3o clara que n\u00e3o valem reflex\u00e3o nem olhar mais atento. Entretanto, os mesmos fen\u00f4menos podem embara\u00e7ar outro observador a tal ponto (e isso acontece com frequ\u00eancia) que ele acaba incapaz de sintetiz\u00e1-los ou simplific\u00e1-los, de alinh\u00e1-los numa linha reta e assim acalmar o pr\u00f3prio esp\u00edrito. Ent\u00e3o, recorre a outro tipo de simplifica\u00e7\u00e3o e, muito simplesmente, enfia uma bala na cabe\u00e7a para extinguir, de uma vez, sua mente fatigada e todas as suas indaga\u00e7\u00f5es.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a> Eis os dois extremos entre os quais se encerra o somat\u00f3rio da intelig\u00eancia humana. Mas \u00e9 evidente que jamais conseguimos esgotar um fen\u00f4meno, nunca alcan\u00e7amos seu fim nem seu in\u00edcio. Conhecemos apenas o cotidiano, o aparente e o corrente \u2014 e isso apenas na medida em que se mostra a n\u00f3s, ao passo que os come\u00e7os e os fins ainda constituem, para o homem, um dom\u00ednio do fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, no ver\u00e3o passado, um de meus estimados correspondentes escreveu-me sobre um suic\u00eddio estranho e indecifr\u00e1vel, e desde ent\u00e3o tenho pensado em coment\u00e1-lo.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a> Nesse suic\u00eddio, tudo \u00e9 enigma \u2014 por fora e por dentro. Naturalmente, conforme \u00e9 da natureza humana, procurei de algum modo desvendar o mist\u00e9rio, para poder deter-me em alguma explica\u00e7\u00e3o e \u201cacalmar-me\u201d.<\/p>\n<p>A suicida era uma jovem de vinte e tr\u00eas ou vinte e quatro anos, filha de um conhecido emigrado russo; nascera no estrangeiro, de pais russos, mas quase nada tinha de russa em sua forma\u00e7\u00e3o. Creio que houve uma breve men\u00e7\u00e3o a ela nos jornais da \u00e9poca, mas os detalhes s\u00e3o curios\u00edssimos: \u201cEla embebeu um peda\u00e7o de algod\u00e3o em clorof\u00f3rmio, amarrou-o ao rosto e deitou-se na cama&#8230; E assim morreu.\u201d Antes de morrer, escreveu o seguinte bilhete:<\/p>\n<p>\u201c<em>Je m\u2019en vais entreprendre un long voyage. Si cela ne r\u00e9ussit pas qu\u2019on se rassemble pour f\u00eater ma r\u00e9surrection avec du Cliquot. Si cela r\u00e9ussit, je prie qu\u2019on ne me laisse enterrer que tout \u00e0 fait morte, puisqu\u2019il est tr\u00e8s d\u00e9sagr\u00e9able de se r\u00e9veiller dans un cercueil sous terre. Ce n\u2019est pas chic<\/em>!\u201d<\/p>\n<p>O que quer dizer:<\/p>\n<p>\u201cEstou prestes a empreender uma longa viagem. Se n\u00e3o der certo, que se re\u00fanam para festejar minha ressurrei\u00e7\u00e3o com uma garrafa de Cliquot. Se der certo, pe\u00e7o que s\u00f3 me enterrem quando eu estiver completamente morta, pois \u00e9 muito desagrad\u00e1vel acordar num caix\u00e3o debaixo da terra. N\u00e3o \u00e9 chic!\u201d<\/p>\n<p>Nesse \u201cchic\u201d vulgar e repugnante, a meu ver, ressoa um protesto \u2014 talvez indigna\u00e7\u00e3o, talvez c\u00f3lera \u2014, mas contra o qu\u00ea?<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a> As pessoas grosseiras matam-se apenas por uma causa material, vis\u00edvel, externa; mas pelo tom do bilhete, percebe-se que aqui n\u00e3o podia haver causa alguma desse tipo. Contra o qu\u00ea, ent\u00e3o, se dirigia a indigna\u00e7\u00e3o? Contra a simplicidade do vis\u00edvel? Contra a falta de sentido da vida? Seria ela uma dessas ju\u00edzas e negadoras da exist\u00eancia, indignadas com o \u201cabsurdo\u201d da apari\u00e7\u00e3o do homem sobre a terra, com o acaso sem prop\u00f3sito dessa apari\u00e7\u00e3o, com a tirania da causa inerte \u00e0 qual n\u00e3o se consegue resignar?<\/p>\n<p>Parece tratar-se aqui de uma alma revoltada contra a \u201cretilineidade\u201d dos fen\u00f4menos, incapaz de suportar essa linearidade que lhe fora inculcada desde a inf\u00e2ncia, na casa do pai. O mais terr\u00edvel \u00e9 que, certamente, ela morreu sem qualquer d\u00favida consciente. \u00c9 bem prov\u00e1vel que sua alma fosse destitu\u00edda de d\u00favida ou de indaga\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, \u00e9 prov\u00e1vel que acreditasse, sem verifica\u00e7\u00e3o alguma, em tudo o que lhe haviam ensinado desde a inf\u00e2ncia. Isso significa que ela morreu simplesmente de \u201cfrio, escurid\u00e3o e t\u00e9dio\u201d, com um sofrimento quase animal e inexplic\u00e1vel; come\u00e7ou a sufocar como quem sente faltar o ar. A alma, inexplicavelmente, mostrou-se incapaz de suportar a retilineidade e, inexplicavelmente, exigia algo mais complexo&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de um m\u00eas, todos os jornais de Petersburgo publicaram algumas linhas, em letras mi\u00fadas, sobre outro suic\u00eddio na cidade: uma jovem pobre, costureira, atirou-se da janela do quarto andar \u201cporque j\u00e1 n\u00e3o conseguia encontrar trabalho para sustentar-se\u201d. Acrescentava-se que ela saltou e caiu ao ch\u00e3o segurando um \u00edcone nas m\u00e3os.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a> Esse \u00edcone nas m\u00e3os \u00e9 um tra\u00e7o estranho e nunca visto num suic\u00eddio! Foi um suic\u00eddio t\u00edmido e humilde. Aqui, ao que parece, n\u00e3o houve queixa nem protesto: simplesmente tornou-se imposs\u00edvel viver \u2014 \u201cDeus n\u00e3o quer\u201d \u2014, e ela morreu, depois de fazer suas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 certas coisas \u2014 por mais simples que pare\u00e7am \u2014 sobre as quais n\u00e3o se deixa de meditar por muito tempo; elas voltam em sonhos, e chega-se a pensar que se tem alguma culpa nelas. Essa alma mansa que se destruiu involuntariamente continua a inquietar o esp\u00edrito.<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a> Foi precisamente essa morte que me lembrou o suic\u00eddio da filha do emigrado, de que me falaram no ver\u00e3o passado. Mas qu\u00e3o diferentes s\u00e3o essas duas criaturas; parecem ter vindo de dois planetas distintos! Qu\u00e3o diferentes essas duas mortes! E qual das duas almas ter\u00e1 sofrido mais na terra \u2014 se \u00e9 que uma pergunta t\u00e3o ociosa pode ser feita?<\/p>\n<p>NOTAS DO TRADUTOR<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Embora eu conhe\u00e7a bem o alfabeto russo e consiga ler o texto russo, estou ainda longe de compreend\u00ea-lo a ponto de traduzi-lo com seguran\u00e7a. Falta-me, sobretudo, o vocabul\u00e1rio necess\u00e1rio para apreender todas as nuances de uma l\u00edngua t\u00e3o densa e espiritual. N\u00f3s, que aprendemos desde cedo, pelas pr\u00f3prias exig\u00eancias dos estudos filos\u00f3ficos, a ler os textos gregos (estudei grego no curso de Letras da UFMG, nos tempos da minha gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia), encontramos no russo uma familiaridade visual e estrutural, mas tamb\u00e9m um abismo sem\u00e2ntico. Assim, a tradu\u00e7\u00e3o utilizada aqui \u00e9 a partir da tradu\u00e7\u00e3o inglesa do texto russo, que fa\u00e7o com o original russo sempre ao lado, como refer\u00eancia e horizonte de leitura. Utilizei a sele\u00e7\u00e3o de textos de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski que prov\u00e9m da colet\u00e2nea intitulada The Diary of a Writer (1873-1881) (em russo <em data-start=\"377\" data-end=\"401\">Zapiski iz Pis\u2019mennika<\/em><em>)<\/em> e est\u00e1 disponibilizada no acervo digital The Ethics of Suicide Digital Archive, hospedado pela Universidade de Utah (para ler o texto em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/ethicsofsuicide.lib.utah.edu\/selections\/fyodor-dostoevsky\/\">https:\/\/ethicsofsuicide.lib.utah.edu\/selections\/fyodor-dostoevsky\/<\/a>). Nesta edi\u00e7\u00e3o, somos apresentados a uma s\u00e9rie de ensaios curtos e mediatos: \u201cIn Lieu of a Preface on the Great and Little Bear, on the Prayer of the Great Goethe, And, Generally, on Bad Habits\u201d, \u201cTwo Suicides\u201d, \u201cThe Verdict\u201d, \u201cArbitrary Assertions\u201d, \u201cA Few Words About Youth\u201d, \u201cOn Suicides and Haughtiness\u201d, \u201cThe Boy Celebrating His Saint\u2019s Day\u201d, \u201cThe Dream of a Strange Man: A Fantastic Story\u201d. Do ponto de vista editorial, cabe salientar que este formato de \u201cse\u00e7\u00f5es soltas\u201d caracteriza o modo como Dostoi\u00e9vski entende o ensaio como exerc\u00edcio de reflex\u00e3o moral, cultural e existencial, em que o fen\u00f4meno do suic\u00eddio (tema central nesta sele\u00e7\u00e3o) aparece em permuta\u00e7\u00e3o entre testemunho social, intui\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e den\u00fancia espiritual.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><\/a>\u00a0[ii] A discuss\u00e3o inicial sobre o \u201ccar\u00e1ter c\u00f4mico da vida\u201d \u00e9 t\u00edpica do pensamento tardio de Dostoi\u00e9vski (d\u00e9cada de 1870), quando ele via o riso como via de acesso ao real e \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o humana \u2014 um eco de <em data-start=\"2823\" data-end=\"2833\">O idiota<\/em> e do \u201criso de Cristo\u201d em sua obra.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> <em>A desgra\u00e7a de ter esp\u00edrito<\/em> (<em data-start=\"2907\" data-end=\"2920\">Gore ot uma<\/em>, 1823) \u00e9 uma com\u00e9dia de Aleksandr Griboiedov. Dostoi\u00e9vski, ao citar a pe\u00e7a, demonstra sua leitura cont\u00ednua da literatura russa como autocr\u00edtica moral e pol\u00edtica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Molchalin \u00e9 uma personagem da com\u00e9dia <em data-start=\"146\" data-end=\"159\">\u0413\u043e\u0440\u0435 \u043e\u0442 \u0443\u043c\u0430<\/em> (<em data-start=\"161\" data-end=\"188\">O infort\u00fanio de ter ju\u00edzo<\/em>, 1824), do dramaturgo russo Aleksandr S. Griboi\u00e9dov (1795\u20131829), uma das obras fundadoras da literatura moderna russa. Subordinado servil e ambicioso, Molchalin representa o tipo social do oportunista sem princ\u00edpios, que busca ascens\u00e3o pela adula\u00e7\u00e3o e pela obedi\u00eancia cega \u00e0s hierarquias. Sua figura tornou-se proverbial na cultura russa, simbolizando a mediocridade moral disfar\u00e7ada de prud\u00eancia \u2014 o \u201chomem pequeno\u201d que se adapta \u00e0s conveni\u00eancias do poder. Dostoi\u00e9vski retomar\u00e1 esse arqu\u00e9tipo em personagens como Piotr Luzhin, em <em data-start=\"720\" data-end=\"737\">Crime e castigo<\/em> (1866), e Andr\u00e9i Vers\u00edlov, em <em data-start=\"768\" data-end=\"783\">O adolescente<\/em> (1875), nos quais a ast\u00facia social substitui a profundidade espiritual.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> O tema da inferioridade da arte diante da vida reaparece em <em data-start=\"3348\" data-end=\"3369\">Mem\u00f3rias do Subsolo<\/em> e em <em data-start=\"3375\" data-end=\"3385\">O idiota<\/em>: a realidade supera a fic\u00e7\u00e3o porque nela o mal e o absurdo s\u00e3o concretos, n\u00e3o idealizados.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> O ano de 1846 marca a publica\u00e7\u00e3o de <em data-start=\"3521\" data-end=\"3534\">Gente pobre<\/em>, primeira obra de Dostoi\u00e9vski \u2014 o in\u00edcio de sua reflex\u00e3o sobre o sofrimento como revelador da alma russa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> Este trecho articula, de modo velado, a cr\u00edtica de Dostoi\u00e9vski ao racionalismo suicida do s\u00e9culo XIX \u2014 antecipando os temas de Kir\u00edllov (<em data-start=\"3788\" data-end=\"3801\">Os dem\u00f4nios<\/em>) e do \u201chomem do subsolo\u201d: a raz\u00e3o que se volta contra a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> O caso da jovem emigrada pode ter sido inspirado em not\u00edcias reais de suic\u00eddios parisienses publicadas nos anos 1860. O tom ensa\u00edstico e quase jornal\u00edstico antecipa o Dostoi\u00e9vski do <em data-start=\"4064\" data-end=\"4087\">Di\u00e1rio de um escritor<\/em> (1873\u20131881).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> O narrador aqui introduz um tipo de \u201cniilismo est\u00e9tico\u201d: o suic\u00eddio como revolta contra a linearidade, isto \u00e9, contra o mundo compreendido apenas como sequ\u00eancia racional de causas e efeitos \u2014 antecipando a cr\u00edtica \u00e0 modernidade como \u201cretil\u00ednea\u201d, sem transcend\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> O suic\u00eddio da costureira constitui o contraponto crist\u00e3o do ensaio: ao contr\u00e1rio da mo\u00e7a \u201cchic\u201d, sua morte \u00e9 humilde, confessional, quase sacrificial. O \u00edcone nas m\u00e3os evoca a <em data-start=\"4774\" data-end=\"4782\">pietas<\/em> popular russa e sugere que a f\u00e9, mesmo na mis\u00e9ria, d\u00e1 forma ao gesto extremo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> O encerramento retoma o tema da \u201cculpa alheia\u201d: o narrador sente-se respons\u00e1vel pela morte da costureira, antecipando a tese central de <em data-start=\"5008\" data-end=\"5029\">Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>: \u201cCada um de n\u00f3s \u00e9 culpado por todos e por tudo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doistoi\u00e9visky escreve sobre dois suic\u00eddios em tudo distintos. Um parece ser o exemplar perfeito de um suic\u00eddio niilista, o outro, o suic\u00eddio crist\u00e3o, piedoso. A genialidade do escritor em um estilo pouco lido em sua pena: o ensaio. 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