{"id":463,"date":"2025-08-06T12:59:18","date_gmt":"2025-08-06T15:59:18","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=463"},"modified":"2025-08-06T16:17:33","modified_gmt":"2025-08-06T19:17:33","slug":"o-estoicismo-agostinho-nietzsche-e-trump-entre-a-razao-e-o-desejo-de-dominacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2025\/08\/06\/o-estoicismo-agostinho-nietzsche-e-trump-entre-a-razao-e-o-desejo-de-dominacao\/","title":{"rendered":"O Estoicismo, Agostinho, Nietzsche e Trump, entre a raz\u00e3o e o desejo de domina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><br \/>\nO estoicismo, essa filosofia antiga que prop\u00f5e a busca pela serenidade e tranquilidade por meio do dom\u00ednio racional das paix\u00f5es, tem encontrado uma ressignifica\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel na contemporaneidade. Com suas ra\u00edzes fincadas em ideais de autodom\u00ednio e autossufici\u00eancia, representados pelos conceitos de <em>ataraxia<\/em> (tranquilidade da alma) e <em>apatheia<\/em> (imperturbabilidade afetiva), o estoicismo ressurge como um caminho para muitos que buscam uma vida mais equilibrada, alheia \u00e0s turbul\u00eancias externas, \u00e0s exig\u00eancias pela fama nas redes sociais, \u00e0s guerras com armas, amea\u00e7as e tarifas ou embargos. Em um mundo cada vez mais fragmentado e vol\u00e1til, no qual at\u00e9 mesmo algoritmos se tornaram \u201cinterlocutores\u201d da experi\u00eancia humana, da car\u00eancia dos que dizem n\u00e3o ter tempo para uma leitura lenta, n\u00e3o \u00e9 de se espantar que o estoicismo tenha encontrado nova vida. A promessa de uma exist\u00eancia em que, apesar das tempestades, se mant\u00e9m intacto o centro interior parece sedutora, sobretudo quando as condi\u00e7\u00f5es externas parecem cada vez mais desafiadoras e imprevis\u00edveis.<br \/>\nMas esse renascimento do estoicismo contempor\u00e2neo, embora tenha ganhado adeptos, tamb\u00e9m nos convida a refletir sobre suas limita\u00e7\u00f5es e os desafios que ele imp\u00f5e a uma vida plenamente humana. Afinal, a busca por um estado de serenidade imperturb\u00e1vel, muitas vezes desacompanhado do reconhecimento das pr\u00f3prias fragilidades e da interdepend\u00eancia humana, pode nos afastar de uma compreens\u00e3o mais profunda e existencial de nossa condi\u00e7\u00e3o. Em tempos em que a busca por controle sobre o que sentimos e pensamos se tornou um imperativo social, ser\u00e1 que o ideal de um dom\u00ednio r\u00edgido sobre as paix\u00f5es, t\u00e3o defendido pelos estoicos, n\u00e3o corre o risco de se tornar uma forma de nega\u00e7\u00e3o de nossa humanidade mais vulner\u00e1vel? Ser\u00e1 que os palestrantes das redes sociais dominam as t\u00e9cnicas e os exerc\u00edcios que podem conduzir a uma vida virtuosa? Ser\u00e1 que conhecem os interlocutores do pr\u00f3prio estoicismo antigo? Toda posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica corre o risco e cair no dogmatismo, no sono da raz\u00e3o, para lembrar a express\u00e3o de Kant, quando n\u00e3o \u00e9 estudada em seu contexto de disputas e debates.<br \/>\nPois bem, uma cr\u00edtica fundamental \u00e0 proposta estoica surge na filosofia crist\u00e3 de Agostinho, que, ao avaliar a busca pela autossufici\u00eancia e o controle absoluto de si, aponta para a ilus\u00e3o dessa meta. O ideal estoico n\u00e3o apenas ignora a verdadeira condi\u00e7\u00e3o humana, (lembremos que Agostinho conseguiu em profundidade alargar a ideia de interioridade), marcada pela queda e pela corrup\u00e7\u00e3o do desejo (<em>libido<\/em>), mas tamb\u00e9m serve como uma m\u00e1scara para um orgulho espiritual que impede o reconhecimento da fragilidade humana e da necessidade da gra\u00e7a divina. A ideia \u00e9 interessante, mesmo se n\u00e3o seguirmos de cora\u00e7\u00e3o a ideia crist\u00e3 de gra\u00e7a: o ser humano, sozinho, abandonado em si mesmo, \u00e9 incapaz de dominar a si mesmo, incapaz de fazer o uso correto de sua pr\u00f3pria racionalidade, dado o poder do desejo, que inevitavelmente conduz a vontade a seus pr\u00f3prios objetos. A ideia grega segundo a qual o ser humano \u00e9 um animal racional fica ela mesma balan\u00e7ada diante do exame do poder do desejo irracional. E se olharmos para o mundo, para nosso Brasil atacado por tarifas irracionais, ou para as guerras do mundo, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil vislumbrar nos movimentos do poder esse desejo (ou do desejo desse poder).<br \/>\nO conceito de <em>libido dominandi<\/em>, desenvolvido por Agostinho em sua an\u00e1lise sobre a corrup\u00e7\u00e3o da vontade humana, oferece, na minha vis\u00e3o, uma chave interpretativa poderosa para compreender o comportamento pol\u00edtico e social nos contextos contempor\u00e2neos, onde a busca incessante pelo poder e pela autossufici\u00eancia moral ainda predomina. A tentativa de domina\u00e7\u00e3o, seja sobre o outro, sobre o mundo ou sobre si mesmo, parece consistir em uma for\u00e7a que revela, paradoxalmente, a impot\u00eancia do ser humano diante de sua condi\u00e7\u00e3o ca\u00edda, nos termos de Agostinho, ou de sua condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel, para usar nossos termos.<br \/>\nMinha proposta aqui \u00e9 convidar o leitor a refletir sobre as tens\u00f5es entre o ideal estoico de soberania de si e a cr\u00edtica que Agostinho apresenta, destacando como essa cr\u00edtica se mant\u00e9m relevante para analisar as din\u00e2micas de poder na pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Em particular, considero que o estudo da filosofia n\u00e3o pode ser dissociado de uma reflex\u00e3o sobre o pr\u00f3prio mundo e o pr\u00f3prio tempo. Se uma ideia, conceito ou obra filos\u00f3fica tem de fato relev\u00e2ncia em seu contexto original, \u00e9 porque ela toca, de algum modo, aspectos da natureza humana que parecem inalterados, mesmo com a transforma\u00e7\u00e3o dos costumes e das \u00e9pocas. Agostinho, gostemos ou n\u00e3o, \u00e9 um cl\u00e1ssico. E os cl\u00e1ssicos s\u00e3o imortais, o que nada mais quer dizer sen\u00e3o que tem ainda o poder de nos tocar, de nos afetar, n\u00f3s que estamos em outros tempos.<br \/>\nNo fundo, ao menos para a filosofia e a literatura, n\u00e3o \u00e9 a pessoa de carne e osso que se imortaliza, por \u00f3bvio, mas s\u00e3o suas ideias, seus conceitos, suas reflex\u00f5es, seu poder de penetrar camadas mais profundas que a pr\u00f3pria superficialidade de nossa consci\u00eancia.<br \/>\nPenso que \u00e9 o caso do conceito agostiniano de <em>libido dominandi<\/em>. Ele se aplica perfeitamente a certos comportamentos pol\u00edticos recentes, como as pol\u00edticas protecionistas de Donald Trump e, em nosso pa\u00eds, as a\u00e7\u00f5es de determinados l\u00edderes e fam\u00edlias pol\u00edticas que, no poder ou com o poder, arriscam n\u00e3o apenas o futuro e o presente de sua p\u00e1tria, mas tamb\u00e9m se entregam a um desejo desenfreado de autopreserva\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o. Nesse processo, eg\u00f3ico e dominado pela contradi\u00e7\u00e3o, o que vemos \u00e9 uma invers\u00e3o tr\u00e1gica: enquanto buscam controlar o destino do pa\u00eds e dos outros, acabam dominados por uma vontade disfuncional, que corrompe n\u00e3o s\u00f3 a pol\u00edtica, mas as emo\u00e7\u00f5es daqueles que os seguem, nos quais n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil enxergar uma fragilidade emocional e uma car\u00eancia de ideias.<br \/>\nEm um contexto pol\u00edtico em que a \u201cliberdade\u201d e a \u201csoberania\u201d muitas vezes s\u00e3o usadas como justificativas para a\u00e7\u00f5es que revelam um desejo de controle absoluto, a <em>libido dominandi<\/em> n\u00e3o s\u00f3 se manifesta nas decis\u00f5es de lideran\u00e7a, mas tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es de poder que essas decis\u00f5es estabelecem. O comportamento de submiss\u00e3o dos seguidores, que se deixam envolver por essa ret\u00f3rica de poder e controle, \u00e9 a face mais tr\u00e1gica desse fen\u00f4meno. E tamb\u00e9m o mais humano. A busca por um ideal de soberania ou independ\u00eancia acaba, ironicamente, por submeter os indiv\u00edduos a uma forma de servid\u00e3o emocional, revelando que, ao final, o dom\u00ednio do outro ou da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas a fachada de uma impot\u00eancia ainda maior: o dom\u00ednio da pr\u00f3pria libido sobre si mesmo no mundo do poder.<br \/>\nAo refletir sobre essas quest\u00f5es, quero em di\u00e1logo com o leitor que me acompanha, mostrar que, ao contr\u00e1rio do que o estoicismo preconiza, o dom\u00ednio de si n\u00e3o \u00e9 um ideal acess\u00edvel sem o reconhecimento da falibilidade humana. A verdadeira paz, penso, n\u00e3o \u00e9 fruto de um autodom\u00ednio racional, mas da rendi\u00e7\u00e3o ao reconhecimento de nossa depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa pr\u00f3pria fragilidade. Talvez nesse reconhecimento h\u00e1 propriamente alguma for\u00e7a. Agostinho dizia, por sua vez, que essa paz est\u00e1 no reconhecimento de nossa depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gra\u00e7a divina. Essa cr\u00edtica agostiniana, longe de ser uma absoluta da filosofia pag\u00e3, abre caminho para uma reflex\u00e3o existencial profunda sobre o poder, a vontade e a verdadeira liberdade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0 O Estoicismo e suas promessas de autossufici\u00eancia<\/em><br \/>\nO estoicismo, fundado por Zen\u00e3o de C\u00edtio no s\u00e9culo III a.C., desenvolveu uma filosofia voltada para o autodom\u00ednio, a racionalidade e a busca pela tranquilidade interior, como j\u00e1 disse. Permitam-me de modo muito geral apresentar essa s\u00edntese: para a escola do estoicismo, a natureza humana possui uma capacidade \u00fanica de alcan\u00e7ar a serenidade ao dominar suas emo\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es, que s\u00e3o vistas como fontes de perturba\u00e7\u00e3o e irracionalidade. O objetivo \u00faltimo da vida do s\u00e1bio estoico \u00e9 atingir a ataraxia, um estado de imperturbabilidade emocional por meio da apatheia, ou seja, a extin\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es desordenadas, como o medo, a ira, o desejo desenfreado e a inveja.<br \/>\nEssa filosofia, que prop\u00f5e uma forma de vida autossuficiente, baseia-se na convic\u00e7\u00e3o de que a raz\u00e3o \u00e9 a \u00fanica guia verdadeira para uma vida virtuosa. O s\u00e1bio estoico \u00e9 aquele que compreende o que est\u00e1 sob seu controle, suas pr\u00f3prias representa\u00e7\u00f5es, pensamentos e julgamentos, e aceita com serenidade aquilo que lhe \u00e9 externo e, portanto, fora de seu dom\u00ednio. A partir dessa vis\u00e3o, o controle das paix\u00f5es, aliado ao cultivo da virtude, seria a chave para atingir a verdadeira felicidade. Mas notem, o cultivo da virtude, ou das virtudes, \u00e9 a\u00ed que devemos compreender a filosofia como modo de vida. E a\u00ed \u00e9 que est\u00e3o as dificuldades de um contempor\u00e2neo estudar essa proposta antiga que, em sua ess\u00eancia, pode ainda renascer, \u00e9 claro.<br \/>\nEm sua forma radical, o estoicismo prop\u00f5e que a verdadeira liberdade consiste em libertar-se das depend\u00eancias externas, seja da riqueza, da sa\u00fade, da fama ou do poder pol\u00edtico. O s\u00e1bio n\u00e3o teme a morte nem os sofrimentos f\u00edsicos, pois sua felicidade n\u00e3o depende de fatores contingentes, mas sim de seu dom\u00ednio sobre a pr\u00f3pria mente. A verdadeira liberdade seria, assim, uma liberdade interior, imune \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es da fortuna e independente de circunst\u00e2ncias externas.<br \/>\nEste ideal de autossufici\u00eancia do s\u00e1bio estoico \u00e9, em sua ess\u00eancia, uma proposta de autonomia total. O indiv\u00edduo s\u00e1bio \u00e9 visto como aut\u00e1rquico (autossuficiente), governando-se inteiramente pela raz\u00e3o e pela virtude. Para o estoicismo, a vida virtuosa \u00e9 n\u00e3o apenas uma quest\u00e3o \u00e9tica, mas ontol\u00f3gica, a virtude representa o cumprimento da natureza humana, a realiza\u00e7\u00e3o do logos, o princ\u00edpio racional que permeia a ordem c\u00f3smica.<br \/>\nContudo, embora essa busca pela autossufici\u00eancia possa parecer um caminho para a serenidade e a liberdade interior, o estoicismo, em sua tentativa de dom\u00ednio total das paix\u00f5es e das vontades, acaba por construir um ideal que ignora a vulnerabilidade e a fragilidade constitutivas da condi\u00e7\u00e3o humana. Esse ideal de soberania de si, ao ser levado ao extremo, entra em confronto com as realidades existenciais mais profundas da experi\u00eancia humana, como a luta interna entre o desejo e a raz\u00e3o, a fragilidade da moral humana e a inevitabilidade da queda. Esse ponto de tens\u00e3o entre o ideal estoico e a realidade humana ser\u00e1 abordado com mais profundidade na cr\u00edtica de Agostinho, que questiona a viabilidade e a moralidade desse dom\u00ednio absoluto de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A cr\u00edtica de Agostinho ao estoicismo e \u00e0 autossufici\u00eancia<\/em><br \/>\nA cr\u00edtica agostiniana ao estoicismo \u00e9 uma das mais profundas e estruturadas dentro de sua filosofia, especialmente em rela\u00e7\u00e3o ao ideal de autossufici\u00eancia que perpassa toda a \u00e9tica estoica. Agostinho reconhece, de maneira geral, a nobreza da busca estoica pela virtude e pela serenidade, mas v\u00ea nela uma fal\u00e1cia moral e uma ilus\u00e3o metaf\u00edsica. Para ele, a liberdade proposta pelo estoicismo, ou seja, a conquista da <em>ataraxia<\/em> e a perfeita <em>apatheia<\/em>, \u00e9 um objetivo inalcan\u00e7\u00e1vel para o ser humano, cuja vontade est\u00e1 irremediavelmente corrompida pela queda.<br \/>\nEm sua obra <em>De civitate Dei<\/em>, Agostinho examina de forma cr\u00edtica o pensamento estoico, e em particular a autossufici\u00eancia do s\u00e1bio estoico. Para o fil\u00f3sofo crist\u00e3o, a verdadeira liberdade n\u00e3o reside no dom\u00ednio da raz\u00e3o sobre as paix\u00f5es, como defendem os estoicos, mas na depend\u00eancia da gra\u00e7a divina. A vontade humana, que no estoicismo busca a virtude por meios racionais e naturais, est\u00e1, para Agostinho, ferida pelo pecado original. A concupisc\u00eancia, como heran\u00e7a dessa queda, distorce os desejos e afetos humanos, tornando imposs\u00edvel ao homem atingir a verdadeira liberdade e a paz interior sem a interven\u00e7\u00e3o de Deus.<br \/>\nA cr\u00edtica de Agostinho \u00e9 clara: o homem, em sua condi\u00e7\u00e3o ca\u00edda, n\u00e3o pode ser autossuficiente. Ele n\u00e3o possui a capacidade de dominar as paix\u00f5es e de alcan\u00e7ar o dom\u00ednio de si sem a ajuda divina. A proposta estoica de alcan\u00e7ar a virtude e a serenidade exclusivamente atrav\u00e9s da raz\u00e3o e do esfor\u00e7o pessoal \u00e9, para Agostinho, uma forma de soberba espiritual. Ao tentar ser senhor de si sem reconhecer sua depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Deus, o homem n\u00e3o est\u00e1 sendo verdadeiramente virtuoso, mas est\u00e1 se iludindo com um ideal de autossufici\u00eancia que mascara a verdadeira condi\u00e7\u00e3o humana, a falibilidade e a necessidade de reden\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara Agostinho, a autossufici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma virtude, mas um erro grave, pois implica uma recusa em reconhecer a mis\u00e9ria humana e a necessidade da gra\u00e7a. Em sua vis\u00e3o, a verdadeira virtude est\u00e1 ligada \u00e0 humildade e ao reconhecimento da fragilidade humana, n\u00e3o \u00e0 pretens\u00e3o de alcan\u00e7ar uma autonomia total sobre as paix\u00f5es. A verdadeira liberdade, portanto, n\u00e3o se encontra no autodom\u00ednio absoluto, mas na submiss\u00e3o da vontade \u00e0 vontade divina, que conduz \u00e0 paz e \u00e0 verdadeira serenidade. Isso \u00e9 algo que o s\u00e1bio estoico, por mais virtuoso que seja em suas a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode alcan\u00e7ar sem a gra\u00e7a redentora de Deus.<br \/>\nEssa vis\u00e3o agostiniana coloca em xeque o pr\u00f3prio fundamento do ideal estoico: a confian\u00e7a plena na capacidade humana de se autossustentar moralmente. Agostinho prop\u00f5e, ao inv\u00e9s disso, um caminho de reden\u00e7\u00e3o que exige humildade e reconhecimento das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es. Em sua cr\u00edtica ao estoicismo, ele n\u00e3o nega a busca pela virtude, mas aponta que ela deve ser fundamentada no reconhecimento da depend\u00eancia do ser humano para com Deus, que \u00e9 o \u00fanico que pode restaurar, aos seus olhos, a verdadeira liberdade interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A libido dominandi como uma cr\u00edtica a uma vontade corrompida<\/em><br \/>\nA <em>libido dominandi<\/em> \u00e9 um dos conceitos centrais na antropologia filos\u00f3fica de Agostinho, e sua an\u00e1lise profunda da corrup\u00e7\u00e3o da vontade humana fundamenta sua cr\u00edtica ao estoicismo e a outras filosofias que exaltam a autossufici\u00eancia humana. A express\u00e3o <em>libido dominandi<\/em>, que pode ser traduzida como exatid\u00e3o como o &#8220;desejo de domina\u00e7\u00e3o&#8221;, ou, dentro de uma determinada interpreta\u00e7\u00e3o, <em>vontade de poder<\/em>, <em>vontade de domina\u00e7\u00e3o<\/em>, revela o impulso desordenado que surge da vontade humana corrompida pela queda, um desejo que n\u00e3o visa a busca pela justi\u00e7a ou pela verdade, mas sim a busca por poder, controle e subordina\u00e7\u00e3o dos outros, do mundo e, at\u00e9 mesmo, de si mesmo.<br \/>\nPara Agostinho, a vontade humana n\u00e3o \u00e9 neutra nem pura; ela \u00e9 marcada pela concupisc\u00eancia, que \u00e9 a inclina\u00e7\u00e3o desordenada para o prazer e para a autossatisfa\u00e7\u00e3o. Essa corrup\u00e7\u00e3o da vontade faz com que o homem, em sua condi\u00e7\u00e3o deca\u00edda, n\u00e3o busque mais o bem absoluto ou a verdadeira liberdade, mas sim a afirma\u00e7\u00e3o de si mesmo e a busca incessante por dom\u00ednio. O desejo de dominar n\u00e3o \u00e9 apenas uma caracter\u00edstica das rela\u00e7\u00f5es de poder entre os indiv\u00edduos, mas \u00e9 uma express\u00e3o profunda da vontade humana corrompida, que n\u00e3o s\u00f3 deseja o controle sobre os outros, mas tamb\u00e9m a domina\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ser, tentando ocultar sua fragilidade e depend\u00eancia.<br \/>\nA <em>libido dominandi<\/em> de Agostinho n\u00e3o se restringe apenas ao desejo de dominar fisicamente ou socialmente os outros; ela se estende a uma tentativa de controlar a pr\u00f3pria vida e os pr\u00f3prios afetos de forma autossuficiente, como acontece na \u00e9tica estoica. O estoicismo, que, como eu disse, busca a <em>apatheia<\/em> (imperturbabilidade) e a <em>ataraxia<\/em> (serenidade) por meio do autodom\u00ednio, acaba, segundo Agostinho, refletindo a mesma <em>libido dominandi<\/em>, mas disfar\u00e7ada sob o manto da raz\u00e3o. Ao tentar dominar suas paix\u00f5es, o s\u00e1bio estoico, ao inv\u00e9s de reconhecer sua fragilidade e sua depend\u00eancia da gra\u00e7a, procura se tornar autossuficiente, ignorando que sua vontade est\u00e1, na verdade, corrompida e que ele precisa da ajuda divina para restaurar sua verdadeira liberdade.<br \/>\nEm <em>De civitate Dei<\/em> (V, 19), Agostinho argumenta que a paz aparente do Imp\u00e9rio Romano n\u00e3o \u00e9 o resultado de uma verdadeira virtude ou justi\u00e7a, mas sim o efeito da l<em>ibido dominandi<\/em> ordenada por institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que mant\u00eam a ordem atrav\u00e9s da repress\u00e3o e da imposi\u00e7\u00e3o do poder. O dom\u00ednio do imp\u00e9rio sobre seus s\u00faditos, que se apresenta como um modelo de ordem e estabilidade, \u00e9, na realidade, uma express\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o da vontade humana, uma vontade que n\u00e3o busca a justi\u00e7a, mas a imposi\u00e7\u00e3o do poder sobre os outros.<br \/>\nEssa an\u00e1lise de Agostinho se conecta com sua cr\u00edtica \u00e0 autonomia moral proposta pelos estoicos, pois revela que a verdadeira liberdade n\u00e3o consiste em um controle absoluto sobre as paix\u00f5es e desejos, mas no reconhecimento da vulnerabilidade humana e na entrega da vontade \u00e0 gra\u00e7a divina. A <em>libido dominandi<\/em> \u00e9, portanto, n\u00e3o apenas uma cr\u00edtica ao desejo de poder pol\u00edtico e social, mas tamb\u00e9m \u00e0 pretens\u00e3o de controle absoluto sobre a pr\u00f3pria vontade, como se o ser humano fosse capaz de se salvar por suas pr\u00f3prias for\u00e7as.<br \/>\nA <em>libido dominandi<\/em> agostiniana, como uma for\u00e7a corrompida que distorce a raz\u00e3o e a verdadeira busca pelo bem, implica que o desejo de poder, seja sobre os outros, sobre o mundo ou sobre si mesmo, n\u00e3o leva \u00e0 paz ou \u00e0 verdadeira liberdade, mas \u00e0 escravid\u00e3o da vontade. O homem que busca dominar a si mesmo sem reconhecer sua fragilidade e sua necessidade da gra\u00e7a divina acaba escravizado pela sua pr\u00f3pria vontade corrompida, perpetuando um ciclo vicioso de desejo e frustra\u00e7\u00e3o. Para Agostinho, o \u00fanico caminho para a verdadeira liberdade \u00e9 a convers\u00e3o da vontade, que deve ser purificada pela gra\u00e7a divina e pela humildade do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0 Nietzsche e a vontade de poder como contraponto<\/em><br \/>\nA cr\u00edtica agostiniana \u00e0 autossufici\u00eancia humana e \u00e0 <em>libido dominandi<\/em> encontra um contraponto fascinante na filosofia de Friedrich Nietzsche, que, em sua obra <em>Al\u00e9m do Bem e do Mal<\/em>, prop\u00f5e a ideia da vontade de poder como o motor fundamental da vida humana. Embora ambos os pensadores compartilhem a vis\u00e3o de que a vontade humana \u00e9 frequentemente corrompida, suas respostas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana e \u00e0 natureza do poder s\u00e3o profundamente diferentes, refletindo suas vis\u00f5es filos\u00f3ficas contrastantes sobre moralidade, liberdade e a condi\u00e7\u00e3o existencial do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>Notas acerca de algumas semelhan\u00e7as<\/em><br \/>\nTanto Agostinho quanto Nietzsche reconhecem que a natureza humana est\u00e1 marcada por uma for\u00e7a de vontade que transcende o desejo ou impulso instintivo: \u00e9 uma vontade de afirma\u00e7\u00e3o, de poder, e, em ess\u00eancia, de domina\u00e7\u00e3o. Para Agostinho, a<em> libido dominandi<\/em> \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o da vontade humana pela queda, uma vontade que busca se afirmar contra a ordem divina e que resulta em conflito, sofrimento e destrui\u00e7\u00e3o. De forma similar, Nietzsche v\u00ea a vontade de poder como o impulso primordial que permeia toda a exist\u00eancia humana, embora ele a entenda de maneira mais afirmativa do que Agostinho.<br \/>\nAmbos os pensadores, portanto, concordam que a verdadeira liberdade n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada por um simples exerc\u00edcio de autocontrole racional ou moral, como \u00e9 o caso no estoicismo, mas est\u00e1 ligada a um reconhecimento das for\u00e7as interiores que movem o ser humano, sejam elas de domina\u00e7\u00e3o, afirma\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o. Para Agostinho, a reden\u00e7\u00e3o e a verdadeira liberdade v\u00eam da gra\u00e7a divina, que purifica a vontade humana, enquanto para Nietzsche, a verdadeira liberdade \u00e9 a capacidade de afirmar a vida em sua totalidade, sem a submiss\u00e3o aos valores tradicionais ou \u00e0 moralidade herdada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em> Diferen\u00e7as<\/em><br \/>\nAs diferen\u00e7as entre Agostinho e Nietzsche come\u00e7am a se destacar quando se observa a natureza da vontade e o papel que a transcend\u00eancia desempenha em cada um de seus sistemas filos\u00f3ficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 <em>Algumas notas e anota\u00e7\u00f5es:<\/em><br \/>\n<em>1. Vis\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana:<\/em><br \/>\nAgostinho v\u00ea o homem como uma criatura ca\u00edda, cuja vontade foi corrompida pelo pecado original. A vontade humana \u00e9, portanto, irremediavelmente inclinada para o erro e o mal, e a salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio da interven\u00e7\u00e3o divina. A <em>libido dominandi<\/em> \u00e9, para Agostinho, uma manifesta\u00e7\u00e3o dessa corrup\u00e7\u00e3o, uma vontade desordenada que distorce a natureza humana e a afasta da verdadeira liberdade, que \u00e9 a rendi\u00e7\u00e3o \u00e0 vontade divina. A reden\u00e7\u00e3o s\u00f3 se d\u00e1 atrav\u00e9s da gra\u00e7a, que restabelece a ordem divina na alma humana.<br \/>\nNietzsche, por outro lado, n\u00e3o v\u00ea o homem como uma criatura ca\u00edda, mas como um ser cuja vontade de poder \u00e9 uma for\u00e7a primordial que precisa ser afirmada para a realiza\u00e7\u00e3o plena da vida. Para Nietzsche, a vontade de poder n\u00e3o \u00e9 uma corrup\u00e7\u00e3o da natureza humana, mas sua ess\u00eancia. Ele rejeita a no\u00e7\u00e3o de uma moral universal ou transcendente, afirmando que a moralidade crist\u00e3 \u2014 que Agostinho defende como caminho para a salva\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 uma moral de nega\u00e7\u00e3o da vida, que reprime a vontade de poder. Para Nietzsche, o ser humano deve afirmar sua pr\u00f3pria vida, inclusive em sua luta contra a moralidade tradicional e a busca de valores superiores a partir de sua pr\u00f3pria for\u00e7a vital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. <em>A quest\u00e3o do poder:<\/em><br \/>\nPara Agostinho, a libido dominandi \u00e9 negativa, pois se trata de um desejo de poder que n\u00e3o busca a justi\u00e7a ou o bem, mas apenas a autoafirma\u00e7\u00e3o do ego humano. A vontade corrompida pelo pecado, segundo Agostinho, leva \u00e0 escravid\u00e3o e ao distanciamento de Deus. A verdadeira liberdade \u00e9 encontrada na submiss\u00e3o \u00e0 vontade divina e no reconhecimento da fragilidade humana.<br \/>\nJ\u00e1 para Nietzsche, a vontade de poder n\u00e3o tem uma conota\u00e7\u00e3o moral negativa, mas \u00e9 a for\u00e7a vital que impulsiona o ser humano a superar suas limita\u00e7\u00f5es, a buscar novos horizontes e a criar seus pr\u00f3prios valores. O \u00dcbermensch (al\u00e9m-do-homem), conceito central na filosofia de Nietzsche, representa aquele que \u00e9 capaz de transcender os valores tradicionais e afirmar sua pr\u00f3pria vontade, criando uma nova ordem de valores e de significados. O poder, para Nietzsche, n\u00e3o \u00e9 algo a ser evitado, mas algo a ser afirmado, uma vez que ele \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da autoafirma\u00e7\u00e3o e da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 3. <em>A resposta \u00e0 queda:<\/em><br \/>\nAgostinho v\u00ea a queda como a raz\u00e3o pela qual o homem n\u00e3o pode confiar em sua pr\u00f3pria vontade para alcan\u00e7ar a verdadeira liberdade. A reden\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o depende da vontade humana, mas da gra\u00e7a de Deus, que cura a vontade corrompida. Em contraste, Nietzsche nega a no\u00e7\u00e3o de uma queda moral ou espiritual da humanidade. Para ele, a hist\u00f3ria humana \u00e9 marcada pela luta constante entre for\u00e7as de afirma\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o, e a \u00fanica &#8220;reden\u00e7\u00e3o&#8221; poss\u00edvel \u00e9 a autoafirma\u00e7\u00e3o da vontade humana, que n\u00e3o depende de qualquer transcendente ou da ajuda de uma divindade, mas da vontade de poder individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 4. <em>A moralidade:<\/em><br \/>\nAgostinho baseia sua moralidade na virtude crist\u00e3 e na humildade diante de Deus, sustentando que a verdadeira liberdade \u00e9 a liberdade do ego, que se submete \u00e0 vontade divina. A moralidade crist\u00e3, para ele, \u00e9 um caminho para a cura da libido dominandi e a restaura\u00e7\u00e3o da verdadeira ordem.<br \/>\nNietzsche, por outro lado, critica a moralidade crist\u00e3 como uma moral de &#8220;rebanho&#8221;, que reprime a vontade de poder e promove uma vis\u00e3o negativa da vida. Ele prop\u00f5e uma moralidade baseada na afirma\u00e7\u00e3o da vida e na supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es humanas, desafiando as normas estabelecidas e criando uma nova \u00e9tica, que valoriza a autonomia e a afirma\u00e7\u00e3o da individualidade.<br \/>\nEssa compara\u00e7\u00e3o entre Agostinho e Nietzsche revela duas abordagens contrastantes para entender o poder, a vontade e a liberdade humanas. Enquanto Agostinho v\u00ea a vontade humana como corrompida pela queda e precisa de reden\u00e7\u00e3o por meio da gra\u00e7a divina, Nietzsche afirma que a vontade de poder \u00e9 uma for\u00e7a vital e essencial \u00e0 exist\u00eancia humana, que deve ser afirmada e cultivada. A cr\u00edtica agostiniana \u00e0 libido dominandi como uma vontade desordenada e corrompida \u00e9, assim, contraposta pela afirma\u00e7\u00e3o nietzscheana da vontade de poder como o princ\u00edpio vital e criador da exist\u00eancia humana. Ambos os pensadores, no entanto, reconhecem o poder como uma for\u00e7a fundamental na vida humana, mas suas respostas a esse poder, e a rela\u00e7\u00e3o que ele mant\u00e9m com a moralidade e a transcend\u00eancia, mostram vis\u00f5es profundamente diferentes sobre a natureza humana e seu destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0 Interlocu\u00e7\u00e3o com a Cr\u00edtica Atual<\/em><br \/>\nA cr\u00edtica contempor\u00e2nea \u00e0 moralidade e \u00e0 busca de poder, seja no campo pol\u00edtico, econ\u00f4mico ou social, encontra uma resson\u00e2ncia direta com os conceitos agostinianos e nietzscheanos da <em>libido dominandi<\/em> e da vontade de poder. Em tempos de crescente polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ascens\u00e3o de lideran\u00e7as populistas e autorit\u00e1rias, os conceitos de dom\u00ednio, poder e controle sobre a vontade humana se tornam especialmente relevantes para compreender as din\u00e2micas sociais e pol\u00edticas atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O dom\u00ednio da libido dominandi no cen\u00e1rio pol\u00edtico contempor\u00e2neo<\/em><br \/>\nO conceito de l<em>ibido dominandi<\/em>, desenvolvido por Agostinho, se aplica com precis\u00e3o \u00e0s observa\u00e7\u00f5es atuais sobre as tend\u00eancias autorit\u00e1rias de l\u00edderes pol\u00edticos contempor\u00e2neos. O desejo de poder, ou <em>libido dominandi<\/em>, \u00e9 claramente percept\u00edvel nas pr\u00e1ticas de l\u00edderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, cujos governos, muitas vezes, manifestam ou manifestaram uma busca incessante pela afirma\u00e7\u00e3o do poder e da subordina\u00e7\u00e3o dos outros \u00e0 sua vontade, misturando e confundindo interesses p\u00fablicos com privados ou, no caso brasileiro, familiares. Essa din\u00e2mica n\u00e3o apenas caracteriza os aspectos autorit\u00e1rios da pol\u00edtica contempor\u00e2nea, mas tamb\u00e9m exp\u00f5e a vulnerabilidade desses l\u00edderes a uma forma de &#8220;domina\u00e7\u00e3o da libido&#8221;, em que o desejo de controle e soberania acaba por se voltar contra si mesmo.<br \/>\nA pol\u00edtica externa de Donald Trump, por exemplo, em sua abordagem protecionista e na imposi\u00e7\u00e3o de tarifas, visava ao fortalecimento do poder americano, mas tamb\u00e9m revelava uma obsess\u00e3o por afirmar o dom\u00ednio econ\u00f4mico e pol\u00edtico global. O pr\u00f3prio comportamento do ator pol\u00edtico \u00e9 movido pelo dom\u00ednio da libido. No entanto, como bem observa Agostinho, a busca insaci\u00e1vel por poder, quando desprovida de justi\u00e7a e humildade, acaba criando uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre o dominador e sua pr\u00f3pria fragilidade. No caso de Trump, as san\u00e7\u00f5es e tarifas n\u00e3o apenas refletiam um desejo de subordinar outros pa\u00edses \u00e0 vontade americana, mas tamb\u00e9m expunham a depend\u00eancia dos EUA de manter sua posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a no mundo, um poder que acabava por ser corro\u00eddo pelas consequ\u00eancias econ\u00f4micas e pol\u00edticas internas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 Essa mesma <em>libido dominandi<\/em> \u00e9 observada em comportamentos como o de um deputado licenciado brasileiro que, ao buscar uma alian\u00e7a ideol\u00f3gica com os Estados Unidos durante o governo de Trump, manifesta uma depend\u00eancia emocional e pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao poder imperial, ou ao imp\u00e9rio do poder. O uso da pol\u00edtica externa para agradar ao governo americano, ou para satisfazer o desejo da fam\u00edlia (<em>desiderium familiae<\/em>) n\u00e3o reflete um desejo genu\u00edno de autonomia ou for\u00e7a, mas uma servid\u00e3o mascarada de lealdade estrat\u00e9gica. Colocar a pr\u00f3pria fam\u00edlia acima do pa\u00eds j\u00e1 demonstra, para al\u00e9m de toda confus\u00e3o da coisa p\u00fablica com a fam\u00edlia, pr\u00f3pria da esfera dom\u00e9stica, uma desordem do desejo, das paix\u00f5es, das emo\u00e7\u00f5es, da depend\u00eancia do pr\u00f3prio poder. Agostinho teria identificado nesse comportamento n\u00e3o uma simples estrat\u00e9gia para a manuten\u00e7\u00e3o do poder, mas um v\u00edcio moral, uma forma de submiss\u00e3o afetiva que impede o reconhecimento da verdadeira liberdade, que s\u00f3 \u00e9 alcan\u00e7ada pela supera\u00e7\u00e3o da <em>libido dominandi<\/em>.<br \/>\nPor outro lado, a vontade de poder nietzscheana tamb\u00e9m oferece um quadro explicativo para o crescimento do neoliberalismo e suas pol\u00edticas de austeridade, que buscam impor uma l\u00f3gica de mercado sobre todas as esferas da vida social e pol\u00edtica. Para Nietzsche, a vontade de poder \u00e9 a for\u00e7a vital que impulsiona o ser humano a buscar a afirma\u00e7\u00e3o de si, a autossufici\u00eancia e a supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es. No entanto, essa vis\u00e3o positiva da vontade de poder, quando aplicada \u00e0s estruturas neoliberais contempor\u00e2neas, revela um paradoxo: a busca pela autonomia e pela afirma\u00e7\u00e3o do &#8220;indiv\u00edduo&#8221; no capitalismo moderno frequentemente resulta na intensifica\u00e7\u00e3o da desigualdade, da explora\u00e7\u00e3o e da aliena\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nNo contexto neoliberal, a vontade de poder parece se manifestar atrav\u00e9s de um culto \u00e0 individualidade e \u00e0 liberdade de mercado, mas na pr\u00e1tica essa liberdade \u00e9 profundamente limitada, pois est\u00e1 atrelada \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital e \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o das desigualdades. Nesse sentido, a vontade de poder que Nietzsche celebrava como princ\u00edpio de autossupera\u00e7\u00e3o se torna, nas pol\u00edticas neoliberais, uma for\u00e7a que concentra poder nas m\u00e3os de poucos, exacerbando as divis\u00f5es sociais e econ\u00f4micas e subordinando a maioria \u00e0 l\u00f3gica do consumo e da competitividade.<br \/>\nA cr\u00edtica que Agostinho faria ao neoliberalismo seria justamente a de que essa vontade de poder, ao buscar a autonomia sem reconhecer as limita\u00e7\u00f5es humanas e a depend\u00eancia da gra\u00e7a, leva a uma forma de escravid\u00e3o, n\u00e3o do corpo, mas da alma. A busca pelo dom\u00ednio econ\u00f4mico e pol\u00edtico no neoliberalismo, sem uma moralidade fundamentada na justi\u00e7a, acaba levando \u00e0 explora\u00e7\u00e3o das fragilidades humanas, ao inv\u00e9s de proporcionar a verdadeira liberdade ou serenidade.<br \/>\nPor fim, a tens\u00e3o entre a busca pela autossufici\u00eancia estoica e a falibilidade humana ganha relev\u00e2ncia em um contexto atual marcado pela crise existencial, o aumento da ansiedade e a inseguran\u00e7a social. A obsess\u00e3o por controlar as emo\u00e7\u00f5es e alcan\u00e7ar um estado de serenidade plena, como pregam os ideais estoicos, \u00e9 cada vez mais adotada como um modelo de vida no mundo moderno, especialmente em tempos de crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e ambiental. No entanto, como Agostinho bem apontaria, essa busca pelo controle absoluto \u00e9 irrealiz\u00e1vel sem o reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o humana como finita e fal\u00edvel.<br \/>\nA sociedade contempor\u00e2nea, muitas vezes influenciada por ideologias de autossufici\u00eancia e <em>self-help<\/em>, faz eco ao ideal estoico de dom\u00ednio sobre as emo\u00e7\u00f5es. No entanto, as palavras de Agostinho alertam para a ilus\u00e3o desse ideal: a verdadeira liberdade n\u00e3o vem de um controle r\u00edgido sobre si mesmo, mas da aceita\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria fragilidade e da rendi\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que est\u00e1 al\u00e9m do controle humano \u2014 a gra\u00e7a divina, ou, em termos existenciais, a aceita\u00e7\u00e3o da inevitabilidade da morte e da limita\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nA cr\u00edtica de Agostinho \u00e0 <em>libido dominandi<\/em> e a sua vis\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana como essencialmente dependente da gra\u00e7a divina ressoam fortemente com os desafios contempor\u00e2neos que enfrentamos, seja nas din\u00e2micas de poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, seja nas exig\u00eancias de autossufici\u00eancia pessoal. O conceito de libido dominandi revela a corrup\u00e7\u00e3o da vontade humana e a falsa busca pela liberdade, enquanto a vontade de poder nietzscheana, embora afirmativa da vida, nos lembra das armadilhas de uma liberdade que ignora a interconex\u00e3o entre os seres humanos e a necessidade de compaix\u00e3o e justi\u00e7a. O debate sobre o controle das emo\u00e7\u00f5es e a busca pela autossufici\u00eancia, t\u00e3o presentes na filosofia estoica e em muitas correntes filos\u00f3ficas contempor\u00e2neas, deve ser contextualizado em um entendimento mais profundo da fragilidade humana, como Agostinho prop\u00f5e, para que se evite a aliena\u00e7\u00e3o existencial e se abra caminho para uma verdadeira liberdade, fundamentada na aceita\u00e7\u00e3o da nossa condi\u00e7\u00e3o de ser finito.<br \/>\nSe a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a que compete pelo controle do nosso corpo, da nossa intelig\u00eancia e das nossas emo\u00e7\u00f5es, devemos, ao menos, estar atentos \u00e0s opini\u00f5es alheias e ao verdadeiro objeto de seus desejos. Antes de concedermos nossa anu\u00eancia, \u00e9 fundamental que realizemos um exerc\u00edcio de exame cr\u00edtico. Um bom ponto de partida para esse exame pode ser o conceito de <em>patriota<\/em>, por exemplo.<\/p>\n<p>Alexandre H. Reis (professor e aluno).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Introdu\u00e7\u00e3o O estoicismo, essa filosofia antiga que prop\u00f5e a busca pela serenidade e tranquilidade por meio do dom\u00ednio racional das paix\u00f5es, tem encontrado uma ressignifica\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel na contemporaneidade. 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