{"id":435,"date":"2025-07-07T09:06:49","date_gmt":"2025-07-07T12:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/?p=435"},"modified":"2025-07-07T09:12:31","modified_gmt":"2025-07-07T12:12:31","slug":"o-abismo-e-a-liberdade-modos-de-vida-para-habitar-o-desejo-de-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/2025\/07\/07\/o-abismo-e-a-liberdade-modos-de-vida-para-habitar-o-desejo-de-morrer\/","title":{"rendered":"O Abismo e a Liberdade: modos de vida para habitar o desejo de morrer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"321\" data-end=\"785\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-437\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/lysis\/files\/2025\/07\/u-g-F1IMX80_0.jpg?resize=432%2C550&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"550\" \/><\/p>\n<h6 data-start=\"321\" data-end=\"785\"><strong data-start=\"133\" data-end=\"235\">imagem: Caspar David Friedrich, <em data-start=\"159\" data-end=\"192\">Der Wanderer \u00fcber dem Nebelmeer<\/em> (Caminhante sobre o Mar de N\u00e9voa), 1818.<\/strong><br data-start=\"235\" data-end=\"238\" \/>\u00d3leo sobre tela. Acervo da Kunsthalle Hamburg, Alemanha.<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar a quest\u00e3o dos modos de vida que podem evitar o desejo de morrer e vivificar a vida parece ser um caminho que deveria ser incontorn\u00e1vel e central tanto na filosofia quanto na psicologia contempor\u00e2nea. Diversas correntes filos\u00f3ficas, mesmo que n\u00e3o meditem diretamente sobre o assunto, oferecem perspectivas valiosas para compreender como cultivar uma exist\u00eancia significativa, capaz de resistir ao sofrimento existencial que pode conduzir ao desejo de morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"809\" data-end=\"1723\">Fundamental para essa reflex\u00e3o \u00e9 a compreens\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de liberdade que configura o ser humano de maneira singular. Segundo Viktor Frankl, \u201c\u00e9 a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de liberdade que configura o homem como capaz de distinguir possibilidades em cada situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de vida e de decidir-se por uma delas a cada instante\u201d (FRANKL, <em data-start=\"1141\" data-end=\"1185\">Fundamentos antropol\u00f3gicos da psicoterapia<\/em>, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978, p. 70). Essa liberdade est\u00e1 situada dialeticamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s facticidades da exist\u00eancia, ou seja, as condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas e socioambientais que circunscrevem, por\u00e9m n\u00e3o determinam definitivamente, o agir humano. Frankl distingue \u201ca ontologia do homem, ao lado da facticidade humana, [que] conhece ainda a existencialidade do homem ou, se preferirmos, o homem existencial \u2018antes da queda na facticidade\u2019\u201d (FRANKL, <em data-start=\"1656\" data-end=\"1681\">Psicoterapia para todos<\/em>, Petr\u00f3polis: Editora Vozes, 1990, p. 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"1725\" data-end=\"2370\">Essa tens\u00e3o entre o \u201cfato\u201d (o inexor\u00e1vel destino que escapa ao controle da vontade) e o \u201cfacultativo\u201d (a capacidade incondicionada de escolha da atitude diante do fato) constitui o n\u00facleo da experi\u00eancia humana: \u201cMas a vida humana n\u00e3o significa nunca viver factualmente e sim, sempre, viver facultativamente! E isso, por sua vez, significa viver dentro das pr\u00f3prias possibilidades, viver \u2018adiante de si mesmo\u2019\u201d (FRANKL, <em data-start=\"2144\" data-end=\"2176\">Psicoterapia e sentido da vida<\/em>, S\u00e3o Paulo: Sinopsys, 1991, p. 214). O existir, portanto, \u00e9 um \u201cviver que decide\u201d, uma atividade constante de escolha e sentido que n\u00e3o pode ser reduzida a um mero reflexo dos condicionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2372\" data-end=\"3225\">A dial\u00e9tica entre destino e liberdade expressa a possibilidade de sermos co-plasmadores de nossas conting\u00eancias, e n\u00e3o v\u00edtimas passivas delas. Frankl explica que \u201cn\u00f3s denominamos destino exatamente aquilo sobre que n\u00e3o temos influ\u00eancia, aquilo que essencialmente escapa ao poder de nossa vontade\u201d (FRANKL, <em data-start=\"2678\" data-end=\"2700\">A vontade de sentido<\/em>, Petr\u00f3polis: Vozes, 1990, p. 95), mas acrescenta que \u201ctoda a liberdade humana depende do que h\u00e1 de fatal, na exata medida em que s\u00f3 neste elemento e a ele aderindo pode desenvolver-se\u201d (FRANKL, <em data-start=\"2895\" data-end=\"2924\">O homem em busca de sentido<\/em>, S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2003, p. 123). Tal vis\u00e3o funda uma \u00e9tica da responsabilidade e da coragem diante do sofrimento, pois quem se rebela contra o destino \u201cn\u00e3o compreendeu o sentido do destino\u201d e perde a possibilidade de dar forma significativa \u00e0 exist\u00eancia (FRANKL, <em data-start=\"3191\" data-end=\"3216\">Psicoterapia para todos<\/em>, p. 73).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3227\" data-end=\"4038\">A experi\u00eancia da liberdade tamb\u00e9m implica uma cogni\u00e7\u00e3o axiol\u00f3gica, isto \u00e9, a consci\u00eancia de que entre as possibilidades que se apresentam, algumas s\u00e3o mais valiosas e dignas do que outras. Frankl aponta que \u201ccomo um ser livre, o homem \u00e9 um ser que decide livremente, com isso, n\u00f3s nos afastamos uma vez mais da concep\u00e7\u00e3o existencialista comum do homem como um ser meramente livre; pois, no ser livre, ainda n\u00e3o est\u00e1 contido nenhum \u2018para-qu\u00ea\u2019 da liberdade, enquanto, no decidir, o \u2018pelo-qu\u00ea\u2019 e o \u2018contra-o-qu\u00ea\u2019 da decis\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o, com certeza, concomitantemente dados: justamente um mundo objetivo do sentido e dos valores, e, em verdade, esse mundo como um mundo ordenado, ou seja, t\u00e3o correto quanto um cosmos\u201d (FRANKL, <em data-start=\"3948\" data-end=\"3983\">Logoterapia e an\u00e1lise existencial<\/em>, Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2014, p. 102).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"4040\" data-end=\"4570\">Este \u201ccosmos\u201d valorativo \u00e9 hier\u00e1rquico e orienta as escolhas para o que deve ser cultivado, em contraste com a mera express\u00e3o indiscriminada de potenciais humanos. Lukas define o reino dos valores como \u201co conjunto de tudo aquilo que deveria ser e vir-a-ser\u201d, supratemporal e transcendendo o fluxo do tempo (LUKAS, <em data-start=\"4354\" data-end=\"4380\">Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 logoterapia<\/em>, S\u00e3o Paulo: Sinopsys, 1989, p. 157). Logo, n\u00e3o basta simplesmente viver ou agir, \u00e9 necess\u00e1rio viver com uma dire\u00e7\u00e3o \u00e9tica e existencial clara, escolhendo o que \u00e9 mais digno e significativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"4572\" data-end=\"5346\">No entanto, essa liberdade n\u00e3o \u00e9 um dado pac\u00edfico, dada gratuitamente ao ser humano, recebida de gra\u00e7a. Ela \u00e9 uma tarefa, talvez a mais \u00e1rdua, e certamente a mais necess\u00e1ria. E, muitas vezes, essa tarefa nos confronta com o abismo: o vazio, a dor, o limite da linguagem, da identidade, da esperan\u00e7a. Nesse sentido, olhar para o desejo de morte como abismo n\u00e3o \u00e9 patologiz\u00e1-lo, mas escut\u00e1-lo em sua pot\u00eancia reveladora. O abismo nos ensina que somos fal\u00edveis, vulner\u00e1veis, inacabados. Desejar o abismo \u00e9 humano, \u00e9 parte da exist\u00eancia, mesmo quando todas as vozes gritam que n\u00e3o. H\u00e1 uma estranha dignidade nesse desejo de abismo, uma forma paradoxal de prazer: o prazer sombrio e profundo de desejar o fim como quem deseja um al\u00edvio, um reencontro com o sil\u00eancio primordial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"5348\" data-end=\"6112\">A quest\u00e3o \u00e9 que olhar para o abismo, olhar para a morte e desej\u00e1-la tem muito a nos ensinar&#8230; sobretudo, h\u00e1 uma disposi\u00e7\u00e3o para aprender. E s\u00f3 pode olhar para o abismo, e desej\u00e1-lo, quem est\u00e1 vivo. Desejar o abismo ainda \u00e9 uma forma de desejo, e portanto uma forma de manter-se vivo. Mas \u00e9 justamente nessa rachadura do ser que a liberdade encontra espa\u00e7o para se afirmar como cria\u00e7\u00e3o. O desejo de fim revela tamb\u00e9m o poder de come\u00e7ar, de reconfigurar sentidos. N\u00e3o se previnem abismos. Abismos n\u00e3o s\u00e3o epidemias. N\u00e3o se estanca o desejo de morte com campanhas ou slogans. O que se pode, e se deve, fazer \u00e9 criar modos de vida que protejam, que acolham, que sustentem a liberdade em sua vertigem. A verdadeira preven\u00e7\u00e3o exige a constru\u00e7\u00e3o de um mundo viv\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"6114\" data-end=\"6532\">Contudo, diante dessas reflex\u00f5es sobre a autonomia e o significado do agir humano, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m abordar criticamente o paradigma dominante que enquadra o suic\u00eddio como uma doen\u00e7a a ser \u201cprevenida\u201d pela medicina e pela psiquiatria. Essa vis\u00e3o, muito influenciada pela psiquiatria francesa do s\u00e9culo XIX, enquadra o suic\u00eddio num discurso m\u00e9dico-patol\u00f3gico, transformando-o em objeto de controle e exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"6534\" data-end=\"7040\">Tal perspectiva psiqui\u00e1trica reducionista perde de vista a complexidade do sofrimento humano, que n\u00e3o \u00e9 apenas sintoma de uma patologia mental, mas pode ser express\u00e3o leg\u00edtima de ang\u00fastias existenciais, condi\u00e7\u00f5es sociais adversas, ou mesmo afirma\u00e7\u00e3o da liberdade diante da morte. Reduzir o suic\u00eddio a uma \u201cdoen\u00e7a\u201d a ser \u201cprevenida\u201d significa negar a dimens\u00e3o \u00e9tica e social da experi\u00eancia, al\u00e9m de impor um modelo uniforme de normalidade e valor da vida, sem respeito pela pluralidade cultural e subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"7042\" data-end=\"7679\">A medicaliza\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, ao enquadrar o desejo de morrer exclusivamente como sintoma de doen\u00e7a mental, revela um reducionismo que limita severamente a compreens\u00e3o da complexidade da experi\u00eancia humana. Essa perspectiva psiqui\u00e1trica, influenciada pelo modelo biom\u00e9dico surgido no s\u00e9culo XIX, desconsidera dimens\u00f5es existenciais, sociais e culturais que atravessam o fen\u00f4meno do suic\u00eddio. Ao faz\u00ea-lo, promove uma vis\u00e3o simplista em que o indiv\u00edduo \u00e9 visto sobretudo como portador de uma patologia a ser prevenida ou corrigida, o que pode resultar em interven\u00e7\u00f5es coercitivas e estigmatizantes que abafam o di\u00e1logo e o cuidado genu\u00ednos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"7681\" data-end=\"8332\">Essa cr\u00edtica encontra respaldo em pensadores como Michel Foucault, que, em sua obra <em data-start=\"7765\" data-end=\"7786\">Hist\u00f3ria da Loucura<\/em>, exp\u00f5e como o poder psiqui\u00e1trico n\u00e3o apenas trata, mas produz a no\u00e7\u00e3o de \u201cnormalidade\u201d, definindo o que \u00e9 saud\u00e1vel ou patol\u00f3gico conforme um regime de saber e poder. Para Foucault, a psiquiatria funciona como um dispositivo de controle social que delimita os limites do aceit\u00e1vel, marcando como \u201canormal\u201d ou \u201cdoente\u201d aquilo que foge \u00e0s normas estabelecidas. Tal mecanismo d\u00e1 invisibilidade \u00e0s singularidades e \u00e1 pluralidade das experi\u00eancias humanas, ao subordinar a exist\u00eancia a categorias m\u00e9dicas e normativas r\u00edgidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"8334\" data-end=\"8933\">De modo semelhante, Georges Canguilhem, em <em data-start=\"8377\" data-end=\"8402\">O Normal e o Patol\u00f3gico <\/em>(fica a recomenda\u00e7\u00e3o de leitura), problematiza a pr\u00f3pria ideia de normalidade m\u00e9dica, argumentando que o que se considera \u201cnormal\u201d n\u00e3o \u00e9 um estado fixo e universal, mas uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural dependente do contexto. Canguilhem destaca que a medicina tende a patologizar varia\u00e7\u00f5es da vida, confundindo o \u201cdiferente\u201d com o \u201canormal\u201d ou \u201cdoente\u201d. Essa patologiza\u00e7\u00e3o excessiva pode obscurecer as formas leg\u00edtimas de sofrimento e as respostas subjetivas ao mundo que n\u00e3o se enquadram em diagn\u00f3sticos convencionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"8935\" data-end=\"9661\">Assim, a medicaliza\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, longe de abrir espa\u00e7os para o reconhecimento do sofrimento e do sentido que o indiv\u00edduo atribui \u00e0 sua experi\u00eancia, pode se transformar em um mecanismo de exclus\u00e3o e silenciamento. A imposi\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos e tratamentos pode impedir o desenvolvimento de pr\u00e1ticas terap\u00eauticas que valorizem o cuidado integral, o acolhimento do sofrimento e a constru\u00e7\u00e3o conjunta de significados. O desafio, portanto, \u00e9 ampliar a compreens\u00e3o do suic\u00eddio para al\u00e9m da esfera biom\u00e9dica, incluindo dimens\u00f5es existenciais, sociais e culturais, e reconhecer o direito do sujeito \u00e0 escuta profunda, ao di\u00e1logo respeitoso e \u00e0 busca aut\u00eantica de sentido, sem reduzir sua experi\u00eancia a uma mera condi\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, pensar modos de vida que vivifiquem a vida implica reconhecer e cultivar a liberdade radical do homem de escolher seu caminho dentro do horizonte de valores e sentidos, ao mesmo tempo em que se respeita a complexidade da experi\u00eancia que pode levar ao desejo de morrer. Essa liberdade, longe de ser uma d\u00e1diva est\u00e1tica ou um mero atributo, \u00e9 uma tarefa incessante \u2014 uma obra que se constr\u00f3i na a\u00e7\u00e3o e no pensamento cotidiano. Exige o exerc\u00edcio cont\u00ednuo da reflex\u00e3o, o engajamento profundo com o tempo que nos \u00e9 dado, e a coragem de habitar o presente com plena aten\u00e7\u00e3o. Viver autenticamente \u00e9 dedicar-se \u00e0 tarefa de pensar, que n\u00e3o \u00e9 um escape da vida, mas uma forma radical de viver a vida do esp\u00edrito. \u00c9 na interioridade da filosofia enquanto modo de vida que o indiv\u00edduo encontra ferramentas para resistir \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o e ao vazio, para cultivar uma presen\u00e7a consciente e um envolvimento com o mundo que supera o mero automatismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"1340\" data-end=\"2155\">Este pensar vivo nos coloca diante do desafio de criar modos de vida que sejam verdadeiros ref\u00fagios contra o desespero, espa\u00e7os de significado e perten\u00e7a, onde o sofrimento possa ser acolhido e transformado. Exige-se um olhar interdisciplinar, \u00e9tico e humanista, capaz de abra\u00e7ar o sofrimento sem reduzi-lo a um problema t\u00e9cnico, e de acompanhar a busca por sentido em sua totalidade. N\u00e3o se trata apenas de \u201cprevenir\u201d o desejo de morte com estrat\u00e9gias cl\u00ednicas que visam controlar ou eliminar sintomas, mas de fomentar uma cultura de vida plena, que valorize a fragilidade, o conflito e a d\u00favida como componentes essenciais da exist\u00eancia humana. \u00c9 nessa busca que reside a possibilidade de reanimar o esp\u00edrito e redescobrir, no entrela\u00e7amento do pensar e do agir, as fontes renovadoras da esperan\u00e7a e da liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"2157\" data-end=\"3062\">Assim, modos de vida que envolvem o cultivo do sentido, a aceita\u00e7\u00e3o da facticidade e a afirma\u00e7\u00e3o da liberdade respons\u00e1vel, apontados pela filosofia existencial e pela logoterapia, apresentam-se como caminhos potentes para vivificar a vida. Reconhecer a facticidade (as limita\u00e7\u00f5es, as perdas e derrotas inevit\u00e1veis) \u00e9 aceitar que o percurso existencial \u00e9 feito de quedas e renascimentos, de pequenos fracassos que n\u00e3o diminuem a dignidade, mas a qualificam. O tempo presente, em sua dura\u00e7\u00e3o muitas vezes dolorosa, exige de n\u00f3s o exerc\u00edcio da paci\u00eancia e a disposi\u00e7\u00e3o para aprender com a derrota di\u00e1ria, para acolher a falha como um professor rigoroso, mas necess\u00e1rio. Tal aceita\u00e7\u00e3o desconstr\u00f3i o ideal hegem\u00f4nico da positividade a qualquer custo, que domina nossa cultura atual e que transforma o sofrimento em um inimigo a ser eliminado imediatamente, ocultando-o sob um manto de otimismo superficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3064\" data-end=\"3764\">Esse culto \u00e0 positividade, ao rejeitar o abismo e a vulnerabilidade como partes leg\u00edtimas da experi\u00eancia humana, produz uma viol\u00eancia sutil contra a vida real, uma imposi\u00e7\u00e3o de normalidade que exclui e silencia as vozes mais fr\u00e1geis e aut\u00eanticas. A liberdade respons\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 o dom\u00ednio da alegria constante, mas a coragem de enfrentar as sombras internas e os limites do existir, sabendo que \u00e9 justamente no confronto com o que nos destr\u00f3i que se revela o que nos sustenta. Cuidar da vida humana implica, portanto, em um compromisso profundo com sua complexidade, com seus paradoxos e contradi\u00e7\u00f5es, numa escuta atenta e respeitosa que rejeita tanto a patologiza\u00e7\u00e3o quanto a medicaliza\u00e7\u00e3o redutiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3766\" data-end=\"4106\">\u00c9 nesta compreens\u00e3o que a verdadeira pot\u00eancia da liberdade se manifesta: n\u00e3o como simples escolha entre prazer e dor, vida e morte, mas como a capacidade humana de criar sentido, mesmo e sobretudo quando o abismo se apresenta. A vida vivida com autenticidade reconhece o abismo, abra\u00e7a a queda e se ergue, incans\u00e1vel, no esfor\u00e7o de existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-start=\"3766\" data-end=\"4106\">Habitar o desejo de morrer n\u00e3o significa sucumbir ao abismo, tampouco ignorar o sofrimento que o engendra; trata-se, antes, de reconhecer sua presen\u00e7a como parte intr\u00ednseca da condi\u00e7\u00e3o humana, um limiar onde a vida se mostra em sua mais crua e paradoxal verdade. Essa conviv\u00eancia com o abismo demanda coragem para manter-se em p\u00e9 na fissura do existir, acolhendo a vulnerabilidade e a finitude sem a ilus\u00e3o de controle absoluto. Habitar o desejo de morte, nesse sentido, \u00e9 um exerc\u00edcio de plena liberdade, n\u00e3o a liberdade de escapar da dor, mas a liberdade de permanecer dispon\u00edvel para a experi\u00eancia total do viver, mesmo quando ela se apresenta na forma do vazio ou da aus\u00eancia de sentido. Ao faz\u00ea-lo, o sujeito n\u00e3o apenas resiste \u00e0 patologiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o redutivas, mas tamb\u00e9m se abre \u00e0 possibilidade de transformar o abismo em espa\u00e7o criativo, onde novas formas de sentido e modos de vida podem emergir. Segundo penso, \u00e9 justamente na aceita\u00e7\u00e3o radical da finitude e do limite que a vida revela sua for\u00e7a mais aut\u00eantica, um convite cont\u00ednuo para reinventar a si mesmo em face da sombra da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate, como a vida, permanece aberto.<\/p>\n<p>Prof. (e estudante) Alexandre H. Reis<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>imagem: Caspar David Friedrich, Der Wanderer \u00fcber dem Nebelmeer (Caminhante sobre o Mar de N\u00e9voa), 1818.\u00d3leo sobre tela. Acervo da Kunsthalle Hamburg, Alemanha. 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