{"id":599,"date":"2018-12-07T10:42:20","date_gmt":"2018-12-07T12:42:20","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/?p=599"},"modified":"2023-11-06T16:16:44","modified_gmt":"2023-11-06T19:16:44","slug":"jose-camilo-pires-pereira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/2018\/12\/07\/jose-camilo-pires-pereira\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Camilo Pires Pereira &#8211; Lidas e vidas nos campos banhados"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lidas e Vidas - Jos\u00e9 Camilo Pires Pereira\" width=\"584\" height=\"329\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OMpvwvFdBio?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O Sr. Camilo \u00e9 pe\u00e3o campeiro e artista pl\u00e1stico. Atualmente, ele reside na Balsa, uma \u00e1rea localizada nas bordas do Canal S\u00e3o Gon\u00e7alo, em Pelotas\/RS. Sua fam\u00edlia morava na \u201cAvenida Cidade de Rio Grande\u201d, por onde passavam as tropas em dire\u00e7\u00e3o ao frigor\u00edfico Anglo. O pai trabalhava numa f\u00e1brica de tecidos e \u201ctamb\u00e9m era metido a ga\u00facho, sempre lidando com bichos, com cavalos\u201d. A m\u00e3e, por sua vez, costurava e tinha uma \u201cleitaria\u201d \u2013 empreendimento de produ\u00e7\u00e3o leiteira. Os dois compraram a casa quando Camilo tinha cinco anos, pois onde moravam a cidade j\u00e1 se constitu\u00eda e \u201cestava tudo apertado\u201d, o que dificultava a manuten\u00e7\u00e3o do gado leiteiro. \u201cEles se mudaram para l\u00e1 porque tinha mais campo, mais espa\u00e7o. Largavam as vacas l\u00e1 para baixo e s\u00f3 ia buscar \u00e0 tardinha.\u201d Naquela \u00e9poca, a regi\u00e3o do Navegantes, da Balsa e do Passo dos Negros era \u201ctudo campo\u201d. \u201cTinha uma casinha que outra.\u201d<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Depois foi a vida marcada pelo trabalho de pe\u00e3o campeiro na pecu\u00e1ria extensiva. Uma vida entre a lida nos campos da regi\u00e3o, campos \u201clisos\u201d e \u201cdobrados\u201d, \u201cbaixos\u201d e \u201caltos\u201d, marcados por banhados e aguadas, e a oficina, talhando com diversas ferramentas essas experi\u00eancias na madeira. Atualmente, Camilo mant\u00e9m com outros pe\u00f5es uma hospedaria para equinos, nos arredores de Pelotas, e a resid\u00eancia nas imedia\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o da Balsa, onde fica sua oficina\/atelier\/galp\u00e3o. Conforme conta, as observa\u00e7\u00f5es que faz na lida com bois e cavalos servem de estudo para as esculturas, posicionando-o como um observador engajado no mundo ao seu redor. \u201cAs pessoas ficam muito curiosas e me perguntam: \u2018como tu sabe os movimentos?\u2019 Eu respondo: \u2018a minha faculdade foi o campo\u2019.\u201d Da mesma forma, o pe\u00e3o-escultor localiza na cidade as transforma\u00e7\u00f5es e as camadas no espa\u00e7o e no tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em suas rememora\u00e7\u00f5es, Camilo indica os vest\u00edgios nos quais os tra\u00e7ados fundacionais de Pelotas se sobrep\u00f5em. Nas imagens que constr\u00f3i, ele aproxima o passado e o presente \u2013 ou o passado no presente \u2013 da cidade. \u201cA gente era guri e as tropas passavam. Era bastante gado! Aquilo custava a passar. A gente ficava olhando. Aquilo me encantava. Veja a tend\u00eancia j\u00e1 da coisa. Eu gostava muito de fazer bonecos de barro. Ent\u00e3o, quando vinham as tropas, eu ficava faceiro, pois os bois socavam o barro na beira do canal \u2013 tinha um canal desde aqui de cima da Tiradentes, que escoava \u00e1gua em dire\u00e7\u00e3o ao S\u00e3o Gon\u00e7alo. Na beirada juntava muita argila cinza e a boiada, quando passava, sovava, e eu, igual a \u2018forneira\u2019 [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Furnarius rufus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">], saia correndo e juntando para fazer meus bonecos.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A casa-oficina de Camilo est\u00e1 localizada a poucas quadras do antigo frigor\u00edfico Anglo, onde, atualmente, fica o campus da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Camilo trabalhou nas caldeiras do Anglo. \u201c\u00c9 o que mete press\u00e3o, que faz a f\u00e1brica toda girar, \u00e9 as caldeiras.\u201d O terreno em frente \u00e0 sua casa era o dep\u00f3sito da lenha: \u201cIsso eram pilhas e pilhas de lenha. Os caminh\u00f5es vinham de fora e descarregavam a\u00ed. Porque era assim: aqui eram as mangueiras, atr\u00e1s das mangueiras era espa\u00e7o, era o estoque de lenha. Isso a\u00ed era uma quantidade de lenha. Ent\u00e3o, eles tinham um caminh\u00e3ozinho que s\u00f3 carregavam daqui para l\u00e1, para dentro.\u201d O local tamb\u00e9m pertence ao patrim\u00f4nio da UFPel: \u00e9 hoje um terreno baldio, tomado por mato, usado no descarte de entulho da constru\u00e7\u00e3o civil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quando o Anglo fechou, durante os anos 1990, Camilo foi trabalhar em remates de gado e nas est\u00e2ncias, como a \u201cdos Assump\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cEles eram donos de quase tudo l\u00e1, desde a ponte do Laranjal para l\u00e1. A sede da Est\u00e2ncia estava localizada na Galat\u00e9ia, mas tinham campo na regi\u00e3o do Centro Portugu\u00eas at\u00e9 a Barra, a\u00ed era \u00e1rea de banhado\u201d. Conforme conta, nestes campos existem lugares de dif\u00edcil acesso, onde o gado consegue acessar, mas o pe\u00e3o n\u00e3o: \u201cAli tem tr\u00eas ilhotas que a gente n\u00e3o v\u00ea. S\u00f3 indo ali para ver. O gado vai entrando e vai abrindo caminho. O gado passa tranquilo. Enterrava um tanto assim aquele barro. E os cavalos tinham dificuldade de entrar l\u00e1, porque o boi tem o casco rachado\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Camilo cita os \u201csumidouros\u201d como um lugar de risco para o cavalo e o campeiro em campos banhados. \u201cNaquela estrada que desce para o Valverde \u2013 hoje tem umas casas ali \u2013 aquela faixinha nova, naquele arame ali, dali, daquele arame para c\u00e1 era n\u00f3s, n\u00f3s que cuidava. E ali, bem ali, uns 200 metros do arame, tem um sumidor. Se entrasse ali era s\u00f3 a cabe\u00e7a do cavalo de fora\u201d. Um dos campos da lida ficava onde hoje \u00e9 o Centro Portugu\u00eas, uma \u00e1rea de banhado com mato e muita figueira. Neste campo, segundo ele, \u201ctem tr\u00eas figueir\u00e3o, parece que elas se juntaram e fecharam\u201d. Neste lugar fez uma mangueira, \u201cchegava de tardezinha, eles [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">o gado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">] vinham para baixo das figueiras, pr\u00e1 volta, pro sequinho e dormiam\u201d. As figueiras ficavam pr\u00f3ximo \u00e0 casa do posteiro e este manejo dos animais era para a seguran\u00e7a contra o abigeato.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Outra dificuldade que torna a lida brab\u00edssima \u00e9 a recorr\u00eancia de enchentes: \u201cNo canal n\u00e3o precisa de chuvarada, \u00e9 s\u00f3 virar o vento e a \u00e1gua da lagoa represa\u201d. Conforme Camilo, \u201co campo do outro lado \u2013 a est\u00e2ncia dos Oliveira \u2013 vira o vento e empurra a \u00e1gua da Lagoa, do Oceano, e empurra a \u00e1gua para c\u00e1. E j\u00e1 d\u00e1 enchente.\u201d Nestas situa\u00e7\u00f5es o campeiro deve tirar o gado nadando. Caso n\u00e3o tenha \u201ccampo alto\u201d, com morros e coxilhas para deixar o rebanho, pode perder algum animal. Na \u00e9poca de cheia \u00e9 poss\u00edvel ver alguma cobra cruzeiro, \u201cbem criada, bem velha\u201d, em cima de um iguap\u00e9, no S\u00e3o Gon\u00e7alo. Esta \u00e9 uma regi\u00e3o em que o gado convive com cruzeiras, rat\u00f5es-do-banhado, capivaras, pre\u00e1s e p\u00e1ssaros em migra\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O Arroio Pelotas figura enquanto um corredor de p\u00e1ssaros, nesse sentido, observa-se a import\u00e2ncia da mata ciliar em suas bordas. Quando os campos est\u00e3o alagados \u00e9 fator de risco para humanos e animais, o manejo dos campos pode prever a constru\u00e7\u00e3o de diques para garantir lugares secos para o gado. Quando os campos da regi\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o alagados, se revelam como campos planos e baixos, bons para camperiar. Conforme Camilo: \u201ccampo baixo \u00e9 sempre melhor. Campo baixo \u00e9 mais criador, a pastagem nativa \u00e9 bem melhor, mais engordadeira. Campo alto geralmente \u00e9 ruim de pasto, d\u00e1 mais sujeira na terra do que grama, pasto ruim.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Na percep\u00e7\u00e3o de Camilo sobre a regi\u00e3o, os cap\u00f5es de matos est\u00e3o situados mais na costa da laguna. Na est\u00e2ncia da Galat\u00e9ia, onde trabalhou, era \u201cmais campo\u201d. A ocorr\u00eancia dos \u201ccap\u00f5es\u201d serve de abrigo no frio, no inverno, ou no calor, no ver\u00e3o, pois os animais procuram abrigo ou para se refrescar: \u201cT\u00eam lugares, s\u00e3o cap\u00f5es de mato, pequenos. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, desce do cavalo, entra ali e toca\u201d. Uma paisagem que se revela como um mosaico de campo, de mato e de cidade, um ec\u00f3tono entre o Pampa e a Mata Atl\u00e2ntica, uma borda ocupada por humanos\/animais e plantas em coexist\u00eancia e em transforma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Texto: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Sr. Camilo Pereira e Fl\u00e1via Rieth<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Colabora\u00e7\u00e3o:<\/b> <a href=\"https:\/\/guaiaca.ufpel.edu.br\/handle\/prefix\/7426\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Daniel Vaz Lima<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e <\/span><a href=\"https:\/\/revistatekopora.cure.edu.uy\/index.php\/reet\/article\/view\/41\/53\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Vagner Barreto<\/span><\/a>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Coordena\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Fl\u00e1via Rieth<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sr. Camilo \u00e9 pe\u00e3o campeiro e artista pl\u00e1stico. 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