{"id":215,"date":"2018-06-12T16:51:15","date_gmt":"2018-06-12T19:51:15","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/?p=215"},"modified":"2022-03-07T11:12:34","modified_gmt":"2022-03-07T14:12:34","slug":"seubeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/2018\/06\/12\/seubeto\/","title":{"rendered":"Seu Beto &#8211; Lidas e vidas entre as pedras"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-224\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5524-30.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5524-30.jpg 1000w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5524-30-400x267.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5524-30-768x512.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5524-30-450x300.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Foto: Guilherme Santos \/ Sul21<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><span style=\"font-weight: 400\">Seu Beto \u00e9 um pe\u00e3o desassombrado, desses que garantem n\u00e3o ter medo de vulto ou assombra\u00e7\u00e3o quando atravessa os campos de Palmas, na Serra do Sudeste, interior de Bag\u00e9, nas madrugadas escuras do sul rio-grandense. A regi\u00e3o do pampa ga\u00facho \u00e9 destacada pela particularidade dos campos de pedra, ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">campos dobrados<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, com paisagem marcada por acidentes geogr\u00e1ficos, peraus, afloramentos rochosos e guaritas, um mosaico de campos, pedras e matos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><!--more--><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">O filho de pe\u00e3o campeiro saiu da est\u00e2ncia aos oito anos. \u201cA melhor escola \u00e9 a do mundo\u201d. Mundo que ele foi conhecer. Mas voltou, aos dezesseis, quando o pai deixou a lida. Atualmente, ele e a esposa, s\u00e3o propriet\u00e1rios de uma quadra de campo, onde criam gado e ovelha, cultivam milho e feij\u00e3o e cuidam de uma quinta \u2013 pomar com \u00e1rvores frut\u00edferas, j\u00e1 que \u201ccasa sem quinta, n\u00e3o \u00e9 casa\u201d. Da quinta saem as frutas para a produ\u00e7\u00e3o de doces artesanais que comercializam, como figo, ab\u00f3bora, marmelo \u2013 retirado, tamb\u00e9m, dos matos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Na est\u00e2ncia onde campereia, Seu Beto faz \u201cde tudo\u201d. Cria porcos, ovelhas, cabras, patos, galinhas, cavalos e cerca de 530 cabe\u00e7as de gado \u2013 que pertencem ao patr\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, ao filho e a esposa. Os animais s\u00e3o contabilizados pelo pe\u00e3o, que sabe qual pertence a quem, quantas crias teve, e faz a divis\u00e3o em caso de venda, cuidando para que o animal vendido seja correspondente ao dono. \u201cSe eu ver uma vez, eu conhe\u00e7o. Eu gravo o animal.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">\u00c9 nas Palmas que ocorre a produ\u00e7\u00e3o de novilhos, que, posteriormente, s\u00e3o vendidos para outras propriedades, onde ser\u00e3o engordados. As vacas que tiveram novilho recentemente est\u00e3o num cercado mais pr\u00f3ximo da sede da est\u00e2ncia. As demais, ficam em uma invernada, campo aberto onde pastam soltas. Como relata Seu Beto, os c\u00e3es fazem a lida junto. Ele leva para a invernada os cinco \u2013 Leixiguero, Tigre, Diana, Campeiro e Barbudo \u2013, misturas com ovelheiro ga\u00facho. Os demais cachorros que ficam na propriedade s\u00e3o veadeiros. Diferentemente dos outros, que ficam soltos, eles s\u00e3o mantidos presos, ou amarrados ao p\u00e9 de uma \u00e1rvore.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Com os cachorros, Seu Beto vai reunindo o gado. Para isso, grita com som gutural: \u201cOi\u00e1 l\u00e1\u201d, \u201c\u00d3i e volta l\u00e1\u201d, \u201cAtaca de fora\u201d, \u201cOlha l\u00e1\u201d, \u201cVolta l\u00e1\u201d, \u201cAtaca l\u00e1\u201d. As ordens podem ser feitas em voz alta ou baixa, lenta ou rapidamente. Dessa forma, os cachorros sabem a intensidade da investida a dar, que posi\u00e7\u00e3o tomar, se devem recuar ou buscar algum animal desgarrado, enfiado no meio do mato.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-225\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5465-27.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5465-27.jpg 1000w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5465-27-400x267.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5465-27-768x512.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/files\/2018\/06\/20171012-jornal-sul21-gs-5465-27-450x300.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Foto: Guilherme Santos \/ Sul21<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Os cachorros avan\u00e7am. Correm e recuam. V\u00e3o em grupos de tamanhos variados, \u00e0s vezes sozinhos. Ao aproximarem-se dos animais, contornam o grupo, enquanto vacas e bezerros tentam fugir pelo campo. Os cachorros, ent\u00e3o, latem, correm e tentam morder os calcanhares das rezes, fazendo-as recuarem, retornando ao grupo. Enquanto as vacas se agrupam, os cachorros tentam atacar, mas s\u00e3o chamados por Seu Beto, que altera o tom de voz, num acorde mais r\u00edspido. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que mordam, por isso, os cachorros devem ser incentivados na medida exata, \u201cpra que nunca machuquem\u201d. Seu Beto explica que os c\u00e3es aprendem a lida com ele, mas, tamb\u00e9m, com os outros c\u00e3es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">O dia de Seu Beto come\u00e7a cedo, por volta das 3h ou 4h da madrugada. Nesse hor\u00e1rio, deixa a casa e vai, a p\u00e9 ou a cavalo, at\u00e9 a est\u00e2ncia do patr\u00e3o, por entre trilhas e caminhos pelo campo. Algumas vezes, dependendo do tempo ou da lida, dorme na sede. Seu hor\u00e1rio obedece o rel\u00f3gio da lida, que, por sua vez, \u00e9 determinada pelos ciclos da natureza e de vida e morte dos animais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">As primeiras lidas s\u00e3o as do entorno da casa: dar comida aos animais no terreiro \u2013 vacas, galinhas, cavalos, cachorros; tirar leite; soltar ou prender animais do campo; buscar as cabras que, \u201cse criam aqui, nas pedras\u201d. Cuidadoso, costuma juntar as cabritas tr\u00eas vezes por semana, quando s\u00e3o tratadas com milho para n\u00e3o se asselvajarem. Alguns poucos bodes circulam no campo, mas, arredios, \u00e9 dif\u00edcil v\u00ea-los. J\u00e1 as ovelhas devem ser juntadas com frequ\u00eancia para examinar e evitar que desenvolvam frieira, que mata.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><span style=\"font-weight: 400\">Em seguida, come\u00e7a a lida com os animais, como buscar o gado na invernada para contagem; separar o gado para venda; ver vacas que est\u00e3o perto de parir; curar bicheira; trazer pra perto de casa os animais com filhotes. As crias s\u00e3o alvo de aten\u00e7\u00e3o pelo grande perigo que correm sem a prote\u00e7\u00e3o humana. Cobras, corvos, javalis, zorros (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lycalopex gymnocercus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), s\u00e3o fonte de preocupa\u00e7\u00e3o constante. Rondam os campos. Os \u00faltimo \u201ccomem at\u00e9 galinha\u201d, explica seu Beto.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">O fim da tarde \u00e9 reservado ao resgate de animais perdidos, pois \u201c\u00e9 o melhor hor\u00e1rio para encontrar\u201d. Certos animais territorializam e, algumas vezes, n\u00e3o obedecem ao chamado, indo dormir numa coxilha, ou debaixo de determinada \u00e1rvore. Na rela\u00e7\u00e3o com os animais, Seu Beto sabe os locais onde encontr\u00e1-los. Em outros casos, alguma f\u00eamea pode se esconder na hora de parir, o que coloca m\u00e3e e filhote em risco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Seu Beto aprendeu no cotidiano da lida, com outros pe\u00f5es, mas, tamb\u00e9m, com outros animais, e a partir disso sentencia: \u201ca pessoa torna-se campeiro quando passa a conhecer os animais\u201d. Hoje, ele segue na lida e na leitura de livros que ganha. Entre as doen\u00e7as, Seu Beto destaca a peste da mancha e a gangrena. Tristeza tamb\u00e9m \u00e9 doen\u00e7a que d\u00e1 em boi. O animal \u201cou fica brabo, ou fica louco\u201d. \u201cAnimal com tristeza n\u00e3o pode enla\u00e7ar no pesco\u00e7o, que morre\u201d. A tristeza est\u00e1 no sangue. \u201cPara salvar um bicho eu fa\u00e7o qualquer coisa\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><b>Texto: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Seu Beto e Vagner Barreto<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><b>Colabora\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Daniel Vaz Lima, Juliana Nunes (Flor Ariza)<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><b>Coordena\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Fl\u00e1via Rieth<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Guilherme Santos \/ Sul21 Seu Beto \u00e9 um pe\u00e3o desassombrado, desses que garantem n\u00e3o ter medo de vulto ou assombra\u00e7\u00e3o quando atravessa os campos de Palmas, na Serra do Sudeste, interior de Bag\u00e9, nas madrugadas escuras do sul rio-grandense. &hellip; <a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/2018\/06\/12\/seubeto\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":713,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lidas-e-vidas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s99v1Q-seubeto","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/713"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=215"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":794,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215\/revisions\/794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/lidacampeira\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}