{"id":1422,"date":"2025-08-15T01:43:13","date_gmt":"2025-08-15T04:43:13","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/?p=1422"},"modified":"2025-08-18T19:30:55","modified_gmt":"2025-08-18T22:30:55","slug":"o-brasil-saiu-do-mapa-da-desnutricao-cronica-nao-da-fome-diz-pesquisador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/2025\/08\/15\/o-brasil-saiu-do-mapa-da-desnutricao-cronica-nao-da-fome-diz-pesquisador\/","title":{"rendered":"O Brasil saiu do mapa da desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, n\u00e3o da fome, diz palestrante do XIX SEUR"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Entrevista com o professor Jos\u00e9 Raimundo Ribeiro Jr., palestrante do <a href=\"https:\/\/www.even3.com.br\/xix_seur-535078\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">XIX Semin\u00e1rio de Estudos Urbanos e Regionais.<\/a><\/h3>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.even3.com.br\/xix_seur-535078\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acesse o site do evento para maiores informa\u00e7\u00f5es.<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.even3.com.br\/xix_seur-535078\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"547\" data-permalink=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/2019\/05\/30\/reuniao-de-organizacao-do-xv-seur\/seur-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/files\/2019\/05\/seur.png?fit=406%2C299&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"406,299\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"seur\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/files\/2019\/05\/seur.png?fit=400%2C295&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/files\/2019\/05\/seur.png?fit=406%2C299&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-medium wp-image-547\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/files\/2019\/05\/seur.png?resize=400%2C295&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/files\/2019\/05\/seur.png?resize=400%2C295&amp;ssl=1 400w, https:\/\/i0.wp.com\/wp.ufpel.edu.br\/leurengeo\/files\/2019\/05\/seur.png?w=406&amp;ssl=1 406w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.even3.com.br\/xix_seur-535078\/\">XIX SEUR &#8211; 1, 2 3 E 4 DE OUTUBRO DE 2025<\/a><\/h3>\n<p>Por Jos\u00e9 C\u00edcero<\/p>\n<h4><span style=\"color: #ff0000;\">28,5 milh\u00f5es de pessoas vivem em inseguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds, segundo relat\u00f3rio da ONU<\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil est\u00e1 fora do Mapa da Fome, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO\/ONU). Isso significa que menos de 2,5% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de subnutri\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o que a fome acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o relat\u00f3rio \u201cO Estado da Inseguran\u00e7a Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o no Mundo (SOFI)\u201d, da ONU, entre 2022-2024, 28,5 milh\u00f5es de pessoas estavam em condi\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar no Brasil. Sendo 21,4 milh\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o moderada e 7,1 mi em n\u00edvel grave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil havia voltado para o Mapa da Fome em 2021. Al\u00e9m da pandemia de Covid-19 e do governo Bolsonaro, que esvaziou pol\u00edticas p\u00fablicas como o Plano de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), o ge\u00f3grafo e professor da Universidade Federal do ABC, Jos\u00e9 Raimundo Ribeiro, estudioso da fome e da pobreza com teses de mestrado e doutorado na \u00e1rea, diz que o pa\u00eds saiu do mapa da desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, mas que ainda existe fome. A fome e a inseguran\u00e7a alimentar, ele explica, est\u00e3o ligadas a pol\u00edticas de emprego e renda, uma vez que a reforma trabalhista, a reforma previdenci\u00e1ria e o congelamento de sal\u00e1rios, anos antes, no governo Temer, j\u00e1 haviam piorado a crise alimentar no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica, Ribeiro, que tamb\u00e9m integra o Laborat\u00f3rio Justi\u00e7a Territorial (Labuta), falou sobre a import\u00e2ncia da sa\u00edda do pa\u00eds do Mapa da Fome e os desafios que o Brasil ainda enfrenta para combater a inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a ONU, a inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 medida com base na Escala de Experi\u00eancia de Inseguran\u00e7a Alimentar (FIES), que classifica a severidade em dois n\u00edveis:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Moderada<\/strong>: Quando as pessoas enfrentam incertezas sobre sua capacidade de obter alimentos e s\u00e3o obrigadas, em determinados per\u00edodos do ano, a reduzir a quantidade ou qualidade dos alimentos consumidos devido \u00e0 falta de dinheiro ou outros recursos;<br \/>\n<strong>Grave<\/strong>: Quando as pessoas provavelmente ficaram sem alimentos, passaram fome e, no caso mais extremo, passaram dias sem comer, colocando em grave risco sua sa\u00fade e bem-estar.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">O que significa a sa\u00edda do pa\u00eds do Mapa da Fome? O brasileiro est\u00e1 comendo tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es ao dia?<\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender o que significa sair do Mapa da Fome, tem que olhar para tr\u00eas conceitos. O primeiro \u00e9 o pr\u00f3prio conceito de fome, que tem uma grande disputa em torno dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem gente que acha que fome \u00e9 quando a pessoa est\u00e1 esquel\u00e9tica, com os ossos \u00e0 mostra. Quem deu essa defini\u00e7\u00e3o de fome, em 2019, foi o pr\u00f3prio Bolsonaro. Ele falou assim: \u201cn\u00e3o tenho fome no Brasil, n\u00e3o vejo ningu\u00e9m magro\u201d. Na medicina, essa medi\u00e7\u00e3o de fome, que \u00e9 muito restrita, bem pouco utilizada, \u00e9 uma medi\u00e7\u00e3o de fome pelo IMC, pelo \u00cdndice de Massa Corporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, a pessoa tem que estar muito magra pra ser considerada com fome. Esse \u00e9 o est\u00e1gio mais avan\u00e7ado. Se a gente pega um autor como Josu\u00e9 de Castro, que, l\u00e1 nos anos 40 j\u00e1 falou assim: \u00f3, tem um fen\u00f4meno que \u00e9 a fome total, que \u00e9 a inani\u00e7\u00e3o. A gente pode usar a ideia de fome total pra pensar o que Israel est\u00e1 fazendo com Gaza hoje. \u00c9, literalmente, matar de fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o Josu\u00e9 falou assim, mas tem uma outra fome, que \u00e9 a fome parcial ou oculta. \u00c9 a fome daqueles que, mesmo comendo todo dia, morrem lentamente de fome. Eu gosto de falar usando essa express\u00e3o: vive uma vida inteira com fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, com o Josu\u00e9, a gente abre o conceito de fome e pensa que a fome tem v\u00e1rias formas. \u00c9 um fen\u00f4meno polim\u00f3rfico. Tem mais de uma forma. Tem a fome total, mas tem a fome parcial ou oculta. E a gente pode pensar tamb\u00e9m que ela tem mais de uma forma com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dura\u00e7\u00e3o dela.<br \/>\nPor que isso importa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sa\u00edda do Brasil do Mapa da Fome, anunciada pela ONU, significa que menos 2,5% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 subnutrida, mas ainda h\u00e1 desafios;<br \/>\nA inseguran\u00e7a alimentar ainda \u00e9 uma realidade para 25,8 milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds, aponta pesquisador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o \u00e9 preciso entender a fome de uma forma mais ampla para entender se a popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 bem ou mal alimentada? Existe um par\u00e2metro \u00fanico que \u00e9 avaliado para entendermos melhor o que diz o Mapa da Fome?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu trabalho com o conceito de fome mais amplo, que fala sobre essa priva\u00e7\u00e3o de alimentos. Mas sendo bem real, usando o nosso elemento aqui no Brasil, s\u00e3o tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia para se estar bem alimentado. Com tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es que a pessoa levanta da refei\u00e7\u00e3o e se sente satisfeito. Porque tamb\u00e9m tem gente que vai diminuindo o tamanho da refei\u00e7\u00e3o pra poder fazer tr\u00eas por dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem um conceito que \u00e9 o de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. Desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica \u00e9 aquilo que est\u00e1 te aproximando daquela fome total. Desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica para ONU, para FAO, \u00e9 quem fica um ano inteiro consumindo menos de aproximadamente 1.800 calorias. \u00c9 esse dado de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica que produz o Mapa da Fome. Ent\u00e3o, o que aconteceu de fato, do meu ponto de vista, o Brasil saiu do mapa da desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saiu do mapa que indica em quais pa\u00edses mais de 2,5% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 em desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. Esse \u00e9 um indicador criado nos anos 70 para captar a crise de fome em pa\u00eds com guerra, em pa\u00eds que est\u00e1 passando por cat\u00e1strofes, em pa\u00eds que est\u00e1 completamente desorganizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, ele \u00e9 um dado importante, porque ele fala de uma fome muito intensa. Uma vergonha que o Brasil tivesse feito parte at\u00e9 2014. E de fato, \u00e9 horr\u00edvel que o Brasil tenha voltado para este Mapa da Fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00edmos do Mapa da Fome, mas ainda temos uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o em inseguran\u00e7a alimentar. Pode explicar um pouco esse conceito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando \u00e9 pra falar sobre as experi\u00eancias de fome das pessoas, eu acho inseguran\u00e7a alimentar um eufemismo que quer passar um certo ar t\u00e9cnico pro debate. Que a\u00ed voc\u00ea fala que inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o tem o mesmo impacto, o mesmo horror, que a palavra fome cria. Ent\u00e3o, as primeiras escalas de inseguran\u00e7a alimentar, na verdade, o nome delas eram escalas de fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elas foram desenvolvidas l\u00e1 nos Estados Unidos por pesquisadores que perceberam que a fome estava aumentando, que esse indicador de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica n\u00e3o dava conta de ver a fome, e elas criaram escalas de fome. O que \u00e9 uma escala de fome? \u00c9 um question\u00e1rio em que o pesquisador pergunta se certas experi\u00eancias de fome est\u00e3o presentes no domic\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um m\u00e9todo \u00f3timo. \u00c9 um m\u00e9todo barato, \u00e9 um m\u00e9todo que indica com clareza, \u00e9 um m\u00e9todo que eu defendo. O problema \u00e9 que na hora que ela foi virar uma escala oficial nos Estados Unidos, trocaram o nome. Ah, n\u00e3o vamos chamar de escala de fome, porque a gente vai produzir um dado que tem fome aqui, vamos falar que isso chama de inseguran\u00e7a alimentar.<br \/>\nEm foto de perfil, o estudioso da fome e da pobreza e ge\u00f3grafo e professor da Universidade Federal do ABC, Jos\u00e9 Raimundo Ribeiro, tem teses de mestrado e doutorado na \u00e1rea e fala sobre a fome no Brasil<br \/>\nPara o pesquisador Jos\u00e9 Raimundo Ribeiro, apesar do pa\u00eds sair do mapa da desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, ainda h\u00e1 fome no Brasil<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escala americana, para voc\u00ea ter uma ideia do tamanho do eufemismo, quando ela foi criada, era a inseguran\u00e7a alimentar grave com fome. Era o r\u00f3tulo. Hoje, o r\u00f3tulo para este mesmo est\u00e1gio \u00e9 inseguran\u00e7a alimentar muito baixa. Inseguran\u00e7a muito baixa ao inv\u00e9s de fome \u00e9 horr\u00edvel. Ent\u00e3o, o que a gente tem nos dados do relat\u00f3rio da ONU \u00e9 que a desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica baixou para menos de 2,5%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vit\u00f3ria! \u00c9 importante estar fora, \u00e9 conquista deste governo, tem rela\u00e7\u00e3o com pol\u00edtica p\u00fablica, est\u00e1 tudo certo.O que o governo sabe, tem dados, porque o pr\u00f3prio IBGE tamb\u00e9m produz esses dados, \u00e9 que a quantidade de pessoas naquilo que \u00e9 chamado de inseguran\u00e7a alimentar moderada e grave, eu vou chamar aqui de fome, \u00e9 bem maior. Ent\u00e3o, no dado da ONU tem l\u00e1 13,5% da popula\u00e7\u00e3o em inseguran\u00e7a alimentar moderada e grave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha defesa \u00e9: sa\u00edmos do mapa de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, n\u00e3o acabou a fome. Para voc\u00ea ter uma ideia, esses 13,5%, de acordo com esse mesmo relat\u00f3rio, d\u00e1 quase 28,5 milh\u00f5es de brasileiros nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pa\u00eds demorou para sair do Mapa da Fome. Conseguimos isso em 2014, mas voltamos rapidamente. Como n\u00e3o ocupar mais esse posto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que essa conversa sobre sair e entrar no Mapa da Fome ela tem um m\u00e9rito, que \u00e9 de mostrar que, de fato, a situa\u00e7\u00e3o alimentar da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante din\u00e2mica. N\u00e3o d\u00e1 pra descansar e falar, \u201cah, superamos, n\u00e3o volta mais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que a altern\u00e2ncia de projetos pol\u00edticos foi respons\u00e1vel pela volta do Brasil ao Mapa da Fome. De 2003, quando come\u00e7a o Fome Zero [programa criado pelo governo Lula para erradicar a fome no pa\u00eds]at\u00e9 2014, a gente tem uma queda, tanto do risco de fome, como da fome. E \u00e9 este momento que gerou este processo, que gerou a sa\u00edda do Mapa da Fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, tem um m\u00e9rito de um governo que, num cen\u00e1rio de crescimento econ\u00f4mico, garantiu melhoria de vida para milh\u00f5es. E aqui, eu acho que n\u00e3o \u00e9 nem s\u00f3 a quest\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia, que \u00e9 sempre muito dito neste momento, mas me parece que algo que foi essencial para isso foi valoriza\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio m\u00ednimo, valoriza\u00e7\u00e3o real de sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melhoria da inser\u00e7\u00e3o das pessoas no mercado de trabalho, trabalho mais est\u00e1vel, trabalho com direito, isso tudo diminui a fome. Quando chegou em 2014, que saiu do Mapa da Fome, do meu ponto de vista, era a hora de falar assim: legal, conseguimos acabar com a desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, mas a gente tem aqui ainda, naquela \u00e9poca, 25% em algum grau de inseguran\u00e7a alimentar, um quarto da popula\u00e7\u00e3o ainda estava sem ter certeza se vai ter o que comer, 8,7% cortando quantitativamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria a hora de intensificar o que a gente faz para al\u00e9m das pol\u00edticas p\u00fablicas, j\u00e1 que as pol\u00edticas p\u00fablicas batem esse teto. A gente sabe que, de 2013 em diante, o cen\u00e1rio pol\u00edtico mudou. E a\u00ed, a gente tem uma pesquisa do IBGE, muito importante, em 2018, que fala sobre o aumento da fome antes da pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, j\u00e1 no governo Temer, 2018, o avan\u00e7o de 10 anos, em termos de fome e risco de fome, tinha quase tudo ido por \u00e1gua abaixo. A gente tem que, a partir disso, dizer que a reforma trabalhista produz fome, reforma previdenci\u00e1ria produz fome, congelamento de sal\u00e1rio produz fome, congelamento de valor do Bolsa Fam\u00edlia produz fome, ataque \u00e0 pol\u00edtica p\u00fablica produz fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o Bolsonaro, isso se intensifica. E a\u00ed, a gente tem o maior azar do mundo, que foi a tempestade perfeita, que \u00e9 o Bolsonaro e a pandemia juntos. Tamb\u00e9m n\u00e3o vamos tirar a pandemia deste cen\u00e1rio, porque a fome aumentou no mundo inteiro na pandemia. \u00c9 uma tend\u00eancia mundial. Mas o projeto do Bolsonaro, como eu te disse, em 2019, o primeiro ano dele como presidente, logo no in\u00edcio do mandato, ele j\u00e1 diz, n\u00e3o tem fome no Brasil. A gest\u00e3o de Bolsonaro na pandemia foi desastrosa. A\u00ed foi aquele show de horrores, fila dos ossos. Ele desmontou o PAA [Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, mesmo no atual governo, as verbas ainda s\u00e3o muito distantes, mas Bolsonaro cortou, ele deixou no osso. Este governo vem e recomp\u00f5e uma parte das verbas das pol\u00edticas agr\u00edcolas, das pol\u00edticas p\u00fablicas. Faz diferen\u00e7a? Sim, tanto que tira de novo do Mapa da Fome. Porque tem esse compromisso em fazer, do meu ponto de vista, um ataque \u00e0 fome. Mas essa perspectiva da seguran\u00e7a alimentar, por vezes, rebaixa as metas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a perspectiva de seguran\u00e7a alimentar rebaixa as metas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se contenta com metas que, do meu ponto de vista, s\u00e3o pequenas. A gente tem que pensar que tem que zerar todas as formas de inseguran\u00e7a alimentar. Porque n\u00e3o d\u00e1 pra ningu\u00e9m come\u00e7ar o m\u00eas n\u00e3o sabendo se vai ter o que comer. Ent\u00e3o, eu acho que a altern\u00e2ncia dos projetos pol\u00edticos fala sobre o tamanho da fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu prefiro pensar que diferentes projetos pol\u00edticos lidam de maneiras diferentes com a fome. O projeto conservador produz fome e nega sua exist\u00eancia.O projeto liberal social reconhece a exist\u00eancia, tende a subdimensionar e gerir. O que eu acho que nos falta \u00e9 um projeto emancipador. Que \u00e9 o projeto da soberania e da emancipa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a essa chantagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque as iniciativas de combate \u00e0 fome no pa\u00eds s\u00e3o t\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos governos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, a gente fala muito de governo e para de falar sobre Estado. A gente tem um Estado brasileiro que muda com diferentes gest\u00f5es, mas \u00e9 um Estado capturado pelas elites. Ent\u00e3o, o agroneg\u00f3cio captura o Estado e a\u00ed pode entrar um projeto progressista, mas \u00e9 muito dif\u00edcil reverter essa captura. Porque a captura do Estado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na presid\u00eancia, a gente tem que pensar a captura do Estado no Judici\u00e1rio, no Legislativo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Executivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o agroneg\u00f3cio, porque \u00e0s vezes a gente est\u00e1 falando de fome e a\u00ed a gente j\u00e1 liga diretamente com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, mas a Faria Lima capturou o Estado, o capital financeiro capturou o Estado. E quando h\u00e1 essa captura do Estado por parte de uma elite que historicamente, e vou citar aqui indiretamente o Florestan Fernandes, uma elite que historicamente \u00e9 d\u00f3cil com os poderes internacionais, que aceita ser parceira menor na rela\u00e7\u00e3o internacional, mas \u00e9 violent\u00edssima internamente com aqueles que eles entendem que s\u00e3o seus subordinados, \u00e9 muito dif\u00edcil que um governo consiga reverter isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o a gente precisa, nesse sentido, de transforma\u00e7\u00f5es mais estruturais. Porque sen\u00e3o, de fato, uma mudan\u00e7a de governo gera uma mudan\u00e7a de pol\u00edticas p\u00fablicas que voc\u00ea reverte rapidamente. Uma forma de enfrentar essa captura seria a reforma agr\u00e1ria. Reverter os ganhos de uma reforma agr\u00e1ria seria mais dif\u00edcil. Voc\u00ea colocou as pessoas na terra, as pessoas est\u00e3o plantando, as pessoas est\u00e3o com assessoria t\u00e9cnica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um processo mais dif\u00edcil do que congelar o valor do Bolsa Fam\u00edlia O Arm\u00ednio Fraga [economista e ex-presidente do Banco Central] falou outro dia que tem que congelar o sal\u00e1rio m\u00ednimo durante seis anos. Isso \u00e9 um absurdo. O sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 o sal\u00e1rio de fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que voc\u00ea acha que o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 o sal\u00e1rio de fome?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vou usar s\u00f3 o dado do IBGE para pegar os dados que o pr\u00f3prio governo est\u00e1 produzindo. A gente tem, entre pessoas com renda de um a dois sal\u00e1rios m\u00ednimos per capita, 5,5% dessas pessoas com fome e 13,6% em risco de fome. Entre meio a um sal\u00e1rio m\u00ednimo per capita, 23% em risco de fome e 10% em fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chance de estar com fome ou risco de fome \u00e9 uma em cada tr\u00eas. Esse sal\u00e1rio \u00e9 o sal\u00e1rio de fome. Voc\u00ea pega o dado do Dieese e ele fala: olha, o sal\u00e1rio m\u00ednimo, de acordo com a lei, deveria ser seis mil e tanto, sete mil e tanto. Ent\u00e3o, quando um cara fala que tem que congelar o sal\u00e1rio m\u00ednimo para o Brasil voltar para o eixo, ele t\u00e1 dizendo que tem que fazer a pessoa passar fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ser um dos maiores produtores mundiais de alimentos, ao mesmo tempo, o pa\u00eds vive o hist\u00f3rico paradoxo de ter dificuldades para alimentar toda a popula\u00e7\u00e3o. Como equilibrar isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 um projeto de s\u00e9culos no Brasil. O agroneg\u00f3cio \u00e9 o nome que eles deram pra gente parar de falar de latif\u00fandio e monocultura. Eles criaram esse r\u00f3tulo porque a\u00ed fica um nome bonito e tal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O agroneg\u00f3cio, no fundo, \u00e9 a continuidade do latif\u00fandio e da monocultura, cujo sentido \u00e9 o enriquecimento dos grandes propriet\u00e1rios de terra. O sucesso dele vem produzindo a fome h\u00e1 s\u00e9culos. Porque essa riqueza que \u00e9 produzida, n\u00e3o se distribui por quem trabalha nessa cadeia produtiva e de distribui\u00e7\u00e3o. E a\u00ed, quando essa riqueza n\u00e3o se distribui, evidentemente que aqueles que ficam mais precarizados passam fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente pode olhar para o avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola, que, em geral caminha com aquele esquema de desmatamento, para depois virar uma monocultura, como isso vai produzindo a fome tamb\u00e9m. Hoje em dia, de acordo com o IBGE, a regi\u00e3o com a maior propor\u00e7\u00e3o de fome \u00e9 a regi\u00e3o norte. Na minha hip\u00f3tese, essa fronteira agr\u00edcola, que t\u00e1 indo l\u00e1 pro norte, vai produzindo fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, a gente vive num pa\u00eds que 80% da popula\u00e7\u00e3o vive nas cidades. Ent\u00e3o, a economia urbana tamb\u00e9m produz fome. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a economia rural. A ind\u00fastria que paga mal, o servi\u00e7o que paga mal, os sal\u00e1rios muito baixos, isso produz fome tamb\u00e9m; custo com aluguel, que \u00e9 a renda da terra \u2013 todo propriet\u00e1rio de terra quer o seu pagamento no fim do m\u00eas \u2013 e a renda da terra em S\u00e3o Paulo \u00e9 uma coisa assombrosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 que pode a pessoa com um sal\u00e1rio m\u00ednimo e mesmo assim estar com fome? Para quem vive em S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender quando o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 um sal\u00e1rio de fome e significa que o Estado est\u00e1 legitimando essa situa\u00e7\u00e3o. Ele lava a m\u00e3o porque est\u00e1 pagando sal\u00e1rio m\u00ednimo e t\u00e1 dentro da lei. Ent\u00e3o, d\u00e1 pra passar fome dentro da lei. Esse \u00e9 o ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais s\u00e3o os desafios para que o pa\u00eds se mantenha fora do Mapa da Fome e para zerar a inseguran\u00e7a alimentar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil! Acho que a primeira coisa que amea\u00e7a o pa\u00eds a voltar ao Mapa da Fome \u00e9 o retorno de um projeto ultraliberal e autorit\u00e1rio. O retorno desse projeto, que foi encampado pela fam\u00edlia Bolsonaro, mas que pode ser encampado por outros agentes pol\u00edticos, \u00e9 um grande risco de voltar para o Mapa da Fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que a perman\u00eancia de uma frente ampla, um projeto progressista, tende a manter o Brasil fora do mapa da fome. Vai manter o Brasil, vai fazer uma gest\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas com a tentativa de, aos poucos, ir diminuindo a fome no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de uma soberania alimentar, que seria o \u00fanico caminho mesmo para a gente superar a fome, ela, hoje em dia, \u00e9 sustentada sobretudo por movimentos sociais. N\u00e3o me parece que nem os partidos pol\u00edticos mais \u00e0 esquerda trazem essa perspectiva de maneira forte para o seu debate, para a sua atua\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a supera\u00e7\u00e3o da fome demanda uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular muito grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tem algum exemplo no mundo de projetos deste tipo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles n\u00e3o est\u00e3o com o Estado na m\u00e3o. O MST [Movimento Sem Terra] tem experi\u00eancias assim. Por exemplo, o MST Copave, l\u00e1 no Paran\u00e1. Voc\u00ea conversa com o pessoal desse assentamento, esse pessoal vive a soberania alimentar, planta de outro jeito, sabe? Isso \u00e9 uma coisa bonita. Voc\u00ea tem uma vila, cada um tem a sua horta, mas tamb\u00e9m trabalham juntos, tem um refeit\u00f3rio. Eles vivem dentro deste assentamento a soberania alimentar. Do assentamento para fora a gente n\u00e3o tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a gente for olhar a fome como ela \u00e9 produzida, o primeiro passo \u00e9 arrancar do povo a terra. A terra e qualquer meio de produ\u00e7\u00e3o, meio de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Dispon\u00edvel em: https:\/\/apublica.org\/2025\/08\/fome-no-brasil-nao-acabou-diz-pesquisador\/#_<\/p>\n<p>Republica\u00e7\u00e3o autorizada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Entrevista com o professor Jos\u00e9 Raimundo Ribeiro Jr., palestrante do XIX Semin\u00e1rio de Estudos Urbanos e Regionais. Acesse o site do evento para maiores informa\u00e7\u00f5es. 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