Procedimentos metodológicos

1 Construção dos corpora empíricos – Os corpora empíricos dos subprojetos, ligados a diferentes materialidades discursivas, serão construídos de acordo com os propósitos do pesquisador responsável.

2 Constituição dos corpora discursivos – Dos corpora empíricos, serão selecionados enunciados, considerando as condições de produção e os propósitos da pesquisa. Sobre eles incidirão os processos de descrição e interpretação que caracterizam o modo de trabalho analítico da análise de discurso.

3 Identificação e análise dos processos discursivos – É a partir da observação da materialidade do texto, conjugada com elementos de sua exterioridade que poderemos acessar ao “discurso”, objeto concreto e singular que se constitui historicamente, objeto que excede (mas não prescinde) as problemáticas linguísticas. No centro de seu estudo, colocam-se as preocupações com a questão do sentido em relação ao sujeito e à memória, memória essa que não deve ser entendida como “memória individual”, numa acepção psicologista, mas como “memória social” (cf. Pêcheux, 1999, p. 50), saberes inscritos em práticas sociais que possibilitam às palavras fazerem sentido.

A identificação e a seleção das sequências discursivas através das quais deveremos chegar aos processos discursivos partem de três conceitos-chave, conforme o desenvolvimento dado a eles em Ernst-Pereira (2009): a falta, o excesso e o estranhamento. Funcionam como princípios gerais e não como dispositivos técnicos, de caráter formalista ou empírico. Ao contrário, tais conceitos podem e devem abrigar inúmeros e incontáveis modos do dizer e do não dizer. Assim, numa dada conjuntura histórica frente a um dado acontecimento, aquilo que é dito demais, aquilo que é dito de menos e aquilo que parece não caber ser dito num dado discurso, constitui-se numa via possível, mesmo que preliminar e genérica, de identificação de elementos a partir dos quais poderão se desenvolver procedimentos analíticos.

Tentemos explicitá-los.

a) a falta – estratégia discursiva que consiste: 1) na omissão de palavras, expressões e/ou orações, consentida (ou não) pela gramática, que provocam determinados efeitos de sentido, diferentes daqueles que ocorreriam, caso esses elementos se fizessem presentes na linearidade significante. Essas faltas são determinadas por elementos da memória do dizer aos quais o sujeito-enunciador se filia e que determinam o que se pode e o que não se dizer; 2) na omissão de elementos interdiscursivos – pertencentes a essa memória – que, embora esperados em função das condições de produção situacionais e históricas em jogo, não ocorrem nessa linearidade.

No primeiro caso, ela se constitui num lugar em que são criadas zonas de obscuridade e incompletude na cadeia significante com fins ideológicos determinados; no segundo, cria um vazio que visa, na maioria das vezes, encobrir pressupostos ameaçadores.

A falta pode ocorrer, no nível intradiscursivo, através de diferentes processos de ordem sintática e lexical em que algo previsto pela estrutura gramatical não se materializa linguisticamente. Têm-se, nesse caso, estruturas lacunares que: a) impedem a emergência de sentidos ligados à memória de um outro dizer, sentidos possíveis, mas colocados fora do discurso por um processo derivado ou da imposição pelo silêncio, pela interdição, como o que acontece por exemplo nos regimes ditatoriais em que a palavra é censurada pelo outro, ou pela própria condição do dizer que precisa “apagar” sentidos para que outros possam ser ditos; b) mascaram as diferenças entre posições-sujeito diferenciadas, dando, ao enunciado, um efeito de consensualidade.

Alguns desses processos normalmente são interpretados, aos olhos da gramática tradicional, como formas de dizer, vinculadas às intenções estéticas de quem as usa. Aqui elas têm um outro estatuto. Ligam-se às determinações históricas de quem as produz. Enquadram-se nesse caso, por exemplo: a elipse, concebida como uma “falta necessária” pela gramática (cf. Haroche, 1992), as reticências, o zeugma, certas omissões de determinantes, as nominalizações que apagam o agente, as passivas sintéticas ou analíticas também com o apagamento do agente, substituições lexicais cujo termo substituinte é genérico, etc.

Já a falta, relacionada mais diretamente à ocultação de elementos do interdiscurso de uma dada formação discursiva que só poderão ser resgatados a partir do apelo aos exteriores da Linguística provoca um contingenciamento discursivo. Isso se estabelece em função de determinadas condições de produção históricas e/ou enunciativas, referentes à relação do sujeito com o objeto de que fala, com a língua que fala e com o interlocutor com quem fala;

b) o excesso – estratégia discursiva que se caracteriza por aquilo que está demasiadamente presente no discurso. Consiste: 1) no uso de incisas, considerado na gramática como um acréscimo contingente (cf. Haroche, 1992), de intensificadores ou na repetição de palavras ou expressões e orações. Tais usos, na perspectiva aqui adotada, constituem-se em “acréscimo necessário” ao sujeito que visa garantir a estabilização de determinados efeitos de sentido em vista da iminência (e perigo) de outros a esses se sobreporem; 2) na reiteração incessante de determinados saberes interdiscursivos que tomam diferentes formas no intradiscurso, mas mantêm as mesmas posições ideológicos. Em suma, trata-se, nos dois casos, de buscar estabelecer provavelmente a relevância de saberes de uma determinada formação discursiva através da repetição.

c) o “estranhamento” – estratégia discursiva que expõe o conflito entre posições e consiste na apresentação de elementos intradiscursivos – palavras, expressões e/ou orações – e interdiscursivos, da ordem do ex-cêntrico, isto é, daquilo que se situa “fora” do que está sendo dito, mas que incide na cadeia significante, marcando uma “desordem” no enunciado. Aqui pode se dar aquilo que, em análise de discurso, denomina-se efeito de “pré-construído” através do qual “um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado “antes, em outro lugar, independentemente” (PÊCHEUX, 1995, p.xxx), rompendo (ou não) a estrutura linear do enunciado. Possui como características a imprevisibilidade, a inadequação e o distanciamento frente ao que é esperado.

4 Discussão dos resultados da análise – O trabalho de observação e análise do corpus discursivo, a partir dos procedimentos acima descritos, deverá possibilitar relatar e discutir as dinâmicas envolvidas nos processos discursivos focalizados, produzindo uma reflexão acerca dos elementos que instauram o problema desta pesquisa, qual seja: o processo de leitura a partir de diferentes materialidades, para o que contribuirão muito as pistas analíticas suprarreferidas, uma vez constituírem nodais em que se reconhecem os sujeitos da Ideologia e do Inconsciente.

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