Leitura

3.2 Leitura: Como já dito, o projeto ora apresentado tem por embasamento teórico a análise do discurso de base pecheuxtiana, o que implica considerar que o trabalho dá-se no âmbito de uma disciplina de interpretação, tal como a considera Michel Pêcheux (1983). Neste projeto propomo-nos a discutir o conceito de leitura, em relação à ideologia e ao inconsciente em materialidades discursivas variadas (verbais, visuais, verbo-visuais etc.). Isso posto, deve-se definir como se entenderá o processo de leitura como compreensão/interpretação no âmbito deste projeto. Em virtude de sua eminente e balizadora preocupação de sustentar teoricamente uma prática política – traduzida em uma práxis de resistência –, Courtine (2006) apresenta a AD como “uma política de leitura” – distanciando-a, no panorama académico, de outras teorias e metodologias que resignavam a leitura à decodificação – e ressalta que uma das questões, desde o início das pesquisas nessa área, era: “o que é ler?”

Tentando responder essa questão, recorremos a Michel Pêcheux (1981), para o qual ler implica relacionar os ditos com os não ditos, não no sentido de meras relações de implicitude, mas sim de uma relação entre lugares: a relação do que teve lugar no dizer com aquilo que não teve, mas poderia; assim como a relação do dito/dizível com o que ali não tem espaço, o indizível. Nesse sentido, para a AD, a leitura importa enquanto relação entre o plano semiolinguístico (intradiscurso) e o plano da memória do dizer (interdiscurso). Dessarte, o processo de leitura não é simples decodificação e, portanto, não se pode considerar um texto (a unidade material, empírica do discurso) como transparente, uma vez que seus sentidos estão determinados alhures, em um processo histórico de produção de interpretações.

Nesse sentido, Pêcheux (1990) diz que a posição de trabalho da AD “supõe somente que, através das descrições regulares de montagens discursivas, se possa detectar os momentos de interpretações enquanto atos que surgem como tomadas de posição, reconhecidas como tais, isto é, como efeitos de identificação assumidos e não negados.” (p. 57) e que conduz o sujeito-leitor, enquanto sujeito histórico sempre-já inscrito em uma disputa de interpretações.

Se, de um lado, não podemos não interpretar – pois, diante de um objeto simbólico, o sujeito sofre a injunção à interpretação –, de outro, a linguagem não é transparente como se os sentidos estivessem sempre-já lá; ao contrário, os sentidos são dotados de historicidade e, portanto, produzidos ideologicamente. Nessa mesma direção, ao tratarmos do processo de leitura/interpretação, chama à atenção o fato de que, “no próprio texto, em sua constituição, há gestos de interpretação que mostram as posições do sujeito que o produziu” (ORLANDI, 2012).

Em outras palavras, se a AD historicamente se constituiu como uma prática de intervenção política a partir da já citada “política de leitura”, considerar a leitura enquanto uma tomada de posição é essencial. Nesse sentido, recorremos a dois questionamentos realizados por Pêcheux em O discurso: estrutura ou acontecimento (1990, p. 317-18 ): 1º) “se a análise do discurso se quer uma (nova) maneira de ‘ler’ as materialidades escritas e orais, que relação nova ela deve construir entre a leitura, a interlocução, a memória[2] e o pensamento?; 2º) o que é interpretação nesse processo?”

Como resposta a essas indagações, o próprio autor (op. cit., p. 54) escreve que um discurso deve ser analisado a partir da rede de memória e do trajeto social em que tem origem, mas que é preciso “considerar a possibilidade de (des)estruturação-(re)estruturação dessa rede e desse trajeto”. Segundo ele, a interpretação é possível porque há o outro nas sociedades e na história. É com esse outro que se estabelece uma relação de ligação, de identificação ou de transferência que possibilita a interpretação. É nesse sentido que o interdiscurso – a exterioridade que o discurso reflete em seu interior, malgrado sob a forma da (de)negação – funciona como o “lugar” do outro. Essa relação permite que as “filiações históricas possam se organizar em memórias, e as relações sociais, em redes de significantes” (p. 54 ).

É ainda Pêcheux, que, no Colóquio sobre “Materialidades Discursivas”, em abril de 1980, enfatiza que “o exterior de um discurso deve ser pensado não como um além de uma fronteira, mas como um aqui, sem fronteiras assinaláveis, como a presença-ausência, eficácia do outro dentro do mesmo sentido” (p.323). Esse autor salienta o fato de que é “nas operações de recortar, de extrair, de deslocar, de confrontar que se constitui o dispositivo mais particular de leitura”. Um trabalho de leitura, nessa perspectiva, conduz, segundo ele, “a dar lugar ao inconcebível em um duplo gesto: conceber claramente o concebível para mostrar o inconcebível”, isto é, “regular um sistema e um intradiscurso e destruir a homogeneidade imaginária dos mesmos” Essa prática de leitura é por ele designada de leitura-trituração.

O processo de leitura possibilita a desestabilização/agitação de sentidos já dados, daí a constituição radicalmente inconsistente de todo e qualquer texto, que se caracteriza, enquanto efeito-texto, como uma heterogeneidade provisoriamente estruturada. Ler, escreve Indursky (2001), “é mergulhar em uma teia discursiva invisível construída de já-ditos para desestruturar o texto e (re)construí-lo, segundo os saberes da posição-sujeito em que se inscreve o sujeito-leitor”.

É possível entender, a partir do que escrevem os autores citados, que, no processo de leitura, o sujeito-leitor desconstrói a estabilidade do texto e dos sentidos esperados pelo sujeito-autor – desconstrói para reconstruir, de acordo com os saberes próprios ao lugar discursivo em que está inscrito. É nesse processo que intervêm a ideologia e o inconsciente como constitutivos do dizer.

Interessa lembrar que os sujeitos não estão fora da interpretação e, por conseguinte, da História. Acrescenta Pêcheux (1998): “o desafio é construir interpretações, sem jamais neutralizá-las, nem no ‘qualquer coisa’ de um discurso sobre o discurso, nem em um espaço lógico estabilizado com pretensão universal”. E, em texto distinto (1990, p. 53), o autor recomenda que é preciso fazer uma leitura na qual o sujeito seja, ao mesmo tempo, “despojado e responsável pelo sentido que lê”.

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